No último dia 31 de outubro, a noite no jornalismo da Globo adotou um tom emocional e renovador. O dia marcou a saída de William Bonner da bancada do Jornal Nacional, após 29 anos como âncora principal do noticiário. A decisão de deixar o JN partiu de Bonner, que anunciou no dia 1° de setembro o encerramento do seu ciclo no Jornal.
“Eu sentia que nos meus dias só cabiam coisas que eu precisava fazer, e ficavam de fora coisas que eu gostaria de fazer. A conta não estava fechando.’’
Na fala que marcou o início da sua despedida, Bonner cita outros fatores que impulsionaram sua decisão, como seus filhos, dois dos quais estudam e trabalham no exterior, sua carreira profissional e obrigações como editor-chefe do jornal, cargo ocupado por ele há 26 anos.
Paulista, Bonner se intitula fascinado pelo telejornalismo. Trabalhou na TV Bandeirantes antes de receber o convite para ingressar no grupo Globo. Sua estreia foi em 1986, apresentando o SPTV – 3° edição. Passou pelo Jornal Hoje, Jornal da Globo, e Fantástico, antes de se instalar na bancada do Jornal Nacional. Tornou-se editor-chefe do jornal de 1999.
Bonner sempre esteve acompanhado de outra jornalista no comando da bancada do JN, trabalhando inclusive com Fátima Bernardes, sua ex-mulher e mãe de seus três filhos. Também dividiu a bancada com Lilliam Witte Fibe, Patrícia Poeta e, por fim, Renata Vasconcellos, que seguirá no comando do jornal com César Tralli.
Uma trajetória de sucesso – e desafios
Em quase 30 anos de Jornal Nacional, Bonner passou por coberturas marcantes e alcançou patamares que o definem como um ícone do jornalismo brasileiro. À frente da bancada do Jornal Nacional, ele realizou a cobertura do atentado do 11 de setembro, em 2001, acompanhou a eleição de cinco presidentes, noticiou sete Copas do Mundo e oito Olimpíadas. Acompanhou também o incidente aéreo da TAM, em 2007, a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, além das tragédias ambientais brasileiras envolvendo as mineradoras Vale e Samarco, responsáveis pelo rompimentos das barragens de Brumadinho e Mariana, respectivamente.
Em 2024, Bonner realizou a cobertura ao vivo das chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul, momento em que o estado passava por chuvas intensas e históricas. A decisão de apresentar o jornal fora dos estúdios foi vista com um cuidado especial com a tragédia, uma vez que a decisão é atípica nas coberturas nacionais.
Em 2020 a pandemia da COVID-19 explode, trazendo uma nova configuração para o quadro jornalístico do Brasil. Diante de um governo negacionista e um saldo final de mais de 700 mil óbitos, naquele momento, coube ao jornalismo brasileiro se aliar e pensar coletivamente em iniciativas para barrar o rastro de destruição deixado pelo vírus. Cria-se, então, o consórcio de empresas para levantamento de dados sobre óbitos pela COVID-19 no Brasil. Em meados de 2021, William Bonner e Renata Vasconcellos leem um editorial no Jornal que marca as 500 mil mortes em decorrência da Covid. Naquele momento, o Jornal responsabiliza o então presidente Jair Bolsonaro pela insistência em medicamentos sem eficácia e a recusa em assinar acordos para a compra de vacinas.
Entre jornalista e celebridade
De acordo Chloé Leurquin, pós-doutoranda e membro do Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade (GRIS) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pode-se dizer que William Bonner adota a postura de celebridade, uma vez que ele é o rosto do jornal, e a sua figura está diretamente ligada aos valores do programa. Bonner passa uma imagem de credibilidade, seriedade e compromisso. “A audiência que se identifica com essa figura e partilha dos valores representados por ela pode criar um laço de confiança para com a figura do jornalista, e consequentemente, se aproximar do Jornal Nacional”.
Essas mudanças podem reconfigurar o quadro de espectadores do JN, que passam a ver em Tralli uma renovação dos valores do Jornal. Na visão da pesquisadora, a mudança de âncoras indica uma mudança na ‘cara’ do programa, visto que a mudança é uma oportunidade de renovar a audiência, baseado nos valores do novo âncora.
Era de renovações
O ano de 2025 foi marcado por grandes mudanças da programação da Globo, e o aviso de saída de Bonner provocou um grande efeito dominó no jornalismo da emissora. Para substituir o apresentador, César Tralli entrou no comando da bancada do JN,. No Jornal Hoje, Tralli passa o bastão para o jornalista Roberto Kovalick. Por sua vez, Bonner se junta a Sandra Annenberg e passa a apresentar o Globo Repórter, nas noites de sexta-feira.
A Rede Globo de Televisão não esconde suas ambições para se manter como o maior grupo comunicacional do Brasil, e um dos maiores do mundo. No upfront de 2026, evento que aconteceu no início de outubro de 2025 em São Paulo, destinado ao anúncio das novidades para o mercado publicitário, Bonner foi o escolhido para apresentar as novidades de jornais, séries, novelas e programas de variedades. O grupo Marinho reafirmou sua intenção de se manter como o líder do setor de comunicações no país, adaptando-se ao mercado e inovando sua grande para atrair novas audiências.
De acordo com os dados apresentados pela emissora em 2024, o faturamento chegou à marca de R$16, 4 bilhões. Paulo Marinho apresentou os dados ao final do ano passado, durante o evento PAYTV Forum 2024. Para Chloé Leurquin, apesar de as pessoas se conectarem cada vez mais às mídias sociais, há ainda valor nas mídias tradicionais:
‘A credibilidade também está vinculada aos valores representados pelos apresentadores desses programas. Quando figuras muito reconhecidas, como William Bonner, se afastam desse espaço, podemos dizer que essa imagem passa por um processo de mudança, influenciada pelo perfil dos novos atores que passam a ocupar o lugar de destaque.’
A renovação pode indicar que o público que se identificava com Bonner deixe de acompanhar o jornal, ao passo que aqueles que acompanham Tralli no Jornal Hoje e se identificam com os seus valores, migrem para o horário das nove.




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