No livro A Alegria de Ensinar, publicado pela primeira vez em 1994 pelo escritor e pedagogo Rubem Alves, encontramos um compilado de textos que divagam sobre diversos aspectos da prática do “ensinar” e dividem com o leitor realidades da educação brasileira. Em um dos textos que compõem o livro, chamado “Sobre vaca e moedores”, Alves lembra que quando criança gostava de observar um quadro cheio de paineiras com algumas vacas ao fundo. Apaixonado pela paz das vacas, Alves declara o seu destino graças à escolha do homem. Nos açougues onde a vaca encontra seu trágico fim, moídas e transformadas, os seus sonhos viram simples rolos de carne homogêneos.
Pois bois e vacas, esvaziadas de suas belas e inúteis funções oníricas pelos homens práticos, estão destinados ao corte”
Rubem Alves
Ao nos deparamos com os relatos e histórias que culminaram nesta reportagem, as vacas e os moedores do escritor ganham vida na trajetória tortuosa de nossos personagens e na realidade da educação brasileira. Se a metáfora de Rubem Alves nos leva a questionar que tipo de formação está sendo produzida nas escolas, os números ajudam a dimensionar o quanto essa engrenagem falha, muitas vezes, em acolher os estudantes. A reflexão simbólica abre espaço para uma realidade concreta: a evasão escolar tornou-se um fenômeno recorrente na educação pública. É ao olhar para os dados que conseguimos entender a extensão do problema e percebemos como aquilo que parecia apenas uma imagem literária se traduz em estatísticas alarmantes.
A evasão escolar continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2023, cerca de 9,1 milhões de jovens entre 15 e 29 anos haviam deixado a escola sem concluir a educação básica, abrangendo tanto o ensino fundamental quanto o ensino médio. Entre esses jovens, 63,7% não completaram o ensino médio, enquanto 39,4% não chegaram a finalizar o fundamental, o que mostra um padrão de abandono que começa cedo e se intensifica ao longo da trajetória escolar. A necessidade de trabalhar aparece como um dos fatores mais mencionados pelos entrevistados, ao lado do desinteresse, maternidade precoce, problemas familiares e responsabilidades domésticas.
Evasão em Minas
Em Minas Gerais, o impacto também é significativo. A rede estadual perdeu cerca de 450 mil matrículas na última década, um indicador consistente de abandono e descontinuidade escolar. Ao mesmo tempo, programas de Busca Ativa possibilitaram o retorno de aproximadamente 94 mil estudantes às escolas mineiras em 2024, mostrando que ações estruturadas podem reduzir a evasão quando existe acompanhamento efetivo. Mesmo assim, o número de jovens que deixam a escola segue alto, especialmente nas regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica.
No contexto específico de Belo Horizonte, dados publicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelam uma tendência preocupante: entre 2023 e 2024, a rede pública do estado registrou a perda de cerca de 13 mil alunos, com o ensino médio sendo a etapa mais afetada. Embora a capital ainda apresente uma das maiores taxas de frequência escolar no ensino fundamental entre as capitais brasileiras, o desafio se concentra justamente na transição entre as etapas da educação básica, momento em que muitos estudantes enfrentam maior pressão, desmotivação e, frequentemente, a necessidade de conciliar escola com trabalho informal.
O cenário mostra que a evasão não é apenas um fenômeno estatístico, mas o resultado de um conjunto de fatores sociais, econômicos e emocionais que se cruzam na vida dos estudantes. As políticas de permanência escolar avançam, mas os números indicam que as desigualdades persistentes continuam sendo o maior obstáculo para garantir que todos concluam a trajetória educacional.
Entre o caderno e o trabalho: histórias de mulheres que tiveram que colocar os estudos em segundo plano
Em muitas famílias brasileiras, especialmente nas décadas passadas, o estudo não era uma opção, mas sinônimo de “luxo”. Para muitos jovens, principalmente meninas e mulheres, ingressar no mercado de trabalho antes mesmo de concluir os estudos era uma prioridade e necessidade econômica.
Simone Oliveira, 60 anos, e Andreia Aparecida, 51, irmãs, moradoras de Santa Luzia (MG), compartilham a história de vida e ajudam a compreender uma realidade vivida por milhares de mulheres brasileiras. Histórias diferentes, mas atravessadas pela mesma pergunta: o que acontece quando a desigualdade econômica empurra jovens para longe da escola e mais perto da vulnerabilidade social?
Simone deixou os estudos aos 15 anos, quando começou a trabalhar como empregada doméstica para contribuir com a renda familiar. Ela vivia de segunda à sexta-feira no serviço, longe de familiares e amigos, mas diz que não teve escolha. Antes da evasão, a vida acadêmica já era marcada pela ausência, pois precisava ajudar no cuidado de sete irmãos.
Ou eu deixava os meus irmãos de qualquer jeito e ia pra escola, ou então eu não ia pra escola. Aí minha mãe escrevia um bilhete pra eu levar pra professora, explicando pra ela porque eu estava faltando de aula. Eu tinha que ficar em casa pra arrumar a casa, para fazer comida pra eles, já que minha mãe saía cedo”
Simone Oliveira
Atualmente com 51 anos, Andreia Aparecida teve uma trajetória diferente. Apesar de ter deixado a escola no ensino médio, conseguiu concluir os estudos. Antes, foi necessário parar no meio do percurso. Vinda de uma família grande, em que apenas o pai trabalhava, Andreia não tinha incentivo para estudar. “A prioridade era o trabalho. A gente não tinha esse negócio de ‘quero ser médica’. O foco naquele momento era o trabalho mesmo e se manter”, explica.
Antes de iniciar sua jornada no emprego formal, Andreia já trabalhava cuidando de crianças, e a dificuldade de conciliar a rotina com a escola a afastou dos estudos. Logo depois, começou a trabalhar formalmente em casas de família. “O trabalho que, até então, era mais fácil pra gente, o que estava no patamar de escolaridade, era em casa de família”, afirma Andreia.
O retorno comemorado
Anos depois, já atuando em uma instituição de ensino, o interesse pelos estudos ressurgiu. Concluiu o ensino médio por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), e, após alguns anos, formou-se, em fevereiro de 2025, em Recursos Humanos pela PUC Minas. O retorno à escola veio acompanhado de desafios e adaptação, mas trouxe também acolhimento. “Encontrei colegas com histórias parecidas com a minha. Cada uma que conseguia concluir, a gente comemorava como uma vitória”, celebra Andreia.
De acordo a pesquisa Síntese de indicadores Sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira 2024, entre jovens de 15 a 29 anos de idade que não estudam e não concluíram o ensino médio, 41,8% abandonaram pela necessidade de trabalhar. Para as mulheres, os motivos relacionados ao cuidado (afazeres domésticos 9,5% e gravidez 23,1%), como na história de Simone, superam a necessidade de trabalhar, que corresponde a 25,5%. Além disso, no recorte que abrange os motivos por não retomar os estudos, os relacionados ao cuidado (39,5%) também superam a necessidade de trabalhar (27,4%).
Afinal, o que mudou no cenário após cerca de 40 anos?
Aos 17 anos, idade em que muitos jovens começam a planejar o futuro, Alexandre Bleson da Silva Costa, atualmente com 26 anos, precisou tomar uma decisão que mudou o rumo da sua trajetória: abandonar a escola. Ele relembra que o motivo foi uma mistura de pressa, busca por independência financeira, rebeldia e necessidade de trabalhar.
Apesar de individual, a história de Alexandre é parecida com a de milhares de jovens que deixam a sala de aula, muitas vezes sem perceber, naquele momento, o impacto dessa decisão no futuro. Atualmente atuando como motoboy, Alexandre relembra que a vontade de conquistar a independência financeira falou mais alto do que a necessidade do estudo naquele momento. “Eu abandonei meus estudos quando tinha 17, 18 anos. Um pouco de rebeldia também, mais um pouco pela aquela parte de ter que trabalhar, ter que conquistar as coisas, né? E tava difícil vincular o trabalho com o estudo”, narra o motoboy.
A família, segundo ele, sempre o incentivou para que continuasse estudando e concluísse o ensino médio. Apesar dos incentivos, uma barreira impediu que o ciclo que atrai tantos jovens brasileiros se rompesse: a ilusão da independência precoce e a crença que o estudo não é urgente. “Eu não achei que precisava do estudo, o importante era ganhar dinheiro.” Apesar do abandono, Bleson admite que a decisão trouxe consequências. “É mais difícil arrumar trabalho. Para fazer uma faculdade precisa do segundo grau completo, então isso impossibilita.”
Quando Alexandre largou os estudos, não houve nenhum contato ou busca pelo aluno. “Não teve representante, supervisor, professor… Ninguém perguntou por que parei. Simplesmente parei de ir e nunca mais tive contato com a escola”, explica.
A queda: números, violência e decisão administrativa
“Chegamos a ter 1.400 alunos; hoje a escola vai fechar com 14.” A frase, dita por Tiago Sanzio, professor e ex-diretor escolar, com mestrado em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), resume a trajetória da Escola Estadual Dr. Lucas Monteiro, localizada no Bairro Pindorama, região metropolitana de Belo Horizonte. Além da E.E. Dr. Lucas Monteiro, Sanzio também trabalhou na Escola Estadual Jovem Protagonista, que atende e funciona no Sistema Socioeducativo. Essa combinação de experiência prática e formação acadêmica confere a Tiago uma visão diferenciada.
As observações não são apenas relatos pessoais, mas análises fundamentadas sobre como políticas, violência, decisões administrativas e desigualdade estruturam e aceleram a saída de jovens da escola pública. A narrativa que ele oferece aponta pistas de que a evasão escolar no Brasil muitas vezes não é um fenômeno “orgânico”, mas sim o resultado de políticas públicas mal articuladas, pressões institucionais e condições sociais dos estudantes.
Um dos argumentos centrais do ex-diretor é que a política de expansão da escola integral, modelo de ensino em tempo integral adotado no Brasil para ampliar a jornada escolar, normalmente entre sete e nove horas diárias, para oferecer, além das disciplinas regulares, atividades complementares, e, muitas vezes, cursos técnico-profissionalizantes, pode ser contraproducente nas periferias, quando não há articulação com o mundo do trabalho. “Os alunos chegam lá às 7h e saem de lá às 16h40”, diz Tiago Sanzio, enfatizando o conflito entre jornada escolar e necessidade de renda imediata das famílias.
Tiago compara duas realidades diferentes ao mencionar quando trabalhou na E.E. Dr. Lucas Monteiro, localizada numa região periférica, e onde trabalha hoje, na E.E. Silviano Brandão, localizada na região central de Belo Horizonte.
“Hoje eu trabalho em uma escola que também é integral, mas que é um pouco mais centralizada. Lá consegue segurar aluno, por quê? Primeiro, que é uma escola central, praticamente central. Você tem metrô perto, você tem ônibus perto”, enquanto “no Pindorama não. Se você tá no Pindorama, quem vai estudar ali é da região.”
Para ele, “a educação integral é uma realidade, mas, infelizmente, se os alunos precisam trabalhar, eles vão trabalhar”, lamenta o professor.
Sobre a articulação com o mercado, Tiago critica a oferta tecnicista sem vínculos práticos. “É um pouco disso, chama-se integral, mas não é integrado, né? Porque você não integra ele no mercado de trabalho. Você só dá um curso que promete para ele uma oportunidade, mas ele chega lá sem vaga, é isso.” E completa: “Dos alunos que se formaram, eu não conheço nenhum que está trabalhando na área, não.”
A lição que Tiago deixa é prática: enfrentar a evasão nas periferias exige “mudar o currículo inteiro”, articular efetivamente estágio e emprego com os cursos técnico-profissionalizantes, “porque sem estágio, sem possibilidade de emprego, o curso não tem funcionalidade”, pontua o docente com mais de 15 anos de profissão.
Promoção nem sempre resolve problemas do percurso
Allan Braga é supervisor da Escola Estadual Carlos Drummond Andrade, localizada no região norte de Belo Horizonte, Bairro Floramar, e relata barreiras com estudantes que precisam se ausentar antes do fim dos turnos escolares. Alunos saem mais cedo para chegar ao trabalho, situação que é constante na educação básica anos finais e ensino médio. Em alguns casos, segundo o docente, mesmo se ausentando do último horário, os estudantes não conseguem chegar a tempo e por isso decidem mudar de turno. Porém, ao iniciar no horário da noite, professores relatam alunos cansados e muitos faltantes.
O aluno foi iniciar o terceiro bimestre no noturno, (esse) aluno não adaptou porque diversas vezes falou que estava cansado ou com sono, pediu para voltar para o turno da manhã. Quando pedi as notas do bimestre anterior (terceiro) tive relato de professores que disseram que aquele aluno nunca teria comparecido à noite”
Allan Braga supervisor da E.E. Carlos Drummond de Andrade.
Dessa forma, com faltas acumuladas e trocas de noturno os alunos chegam muitas vezes ao final dos semestres sem notas o que os impedem de serem aprovados. Nesse contexto, Braga ressalta a desmotivação dos alunos em se manter estudando, o que segundo ele, leva à evasão. “Esses alunos retornam para o turno da manhã sem nota, e muitos acabam desistindo”, conta. Além disso, Braga complementa que os estudantes alegam preferir a busca por programas de educação para jovens adultos que facilitem a finalização da graduação como Cesec e Encceja. “Muitos acabam desistindo e decidem fazer o EJA”, complementa o docente.
Allan Braga também expõe uma pressão por parte da Secretaria Estadual de Educação (SEE), em relação aos indicadores de desempenho educacional, coletados pelo Censo Escolar do Inep. De acordo com o supervisor, a secretaria ao perceber que existem diversos alunos com distorção idade-série envia uma prova de certificação para professores progredirem estes estudantes. O problema, de acordo com o supervisor, é que muitos desses alunos não estão preparados para essa progressão, mesmo quando conseguem passar nessa “prova de certificação”.
(Quando) percebem que tem muitos alunos repetindo várias vezes, a SEE automaticamente lança uma banca itinerante”
Allan Braga
Em uma turma específica descrita pelo supervisor, a SEE permitiu a progressão de alunos do 8° ano direto para 1° ano do EM. Segundo Braga, diversos estudantes ao chegarem no ensino médio não suportam a carga escolar e evadem-se. “Muitos alunos veem que não dão conta das matérias e das diferenças e desistem de estudar, porque não tem embasamento nenhum” e confessa “a gente sabe que muitas vezes o aluno não sabe escrever nem o próprio nome”.
São barreiras que nós enfrentamos que vem da SEE, somos pressionados por que nós temos que passar aquele aluno, ao mesmo tempo que entendemos que ele não está preparado para aquele ano”
Allan Braga.
A realidade exposta por Braga conversa com as críticas feitas por Tiago Sanzio e demonstra um problema na base do sistema. Para compreender estas possíveis falhas é preciso ir aos anos 70, quando o Brasil talvez tivesse ainda mais vacas e moedores andando por aí.
A falha na gênese do problema
“A escola pública que temos hoje não é feita para o perfil de alunos que ela possui.” É o que diz Eduardo Magrone, professor formado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com mestrado em Educação. Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora e pesquisador do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CPPAE).
Magrone explica que na gênese da escola pública como conhecemos hoje, houve um erro de implementação. O sistema foi imaginado para um tipo de aluno que já não frequenta este espaço. Segundo o docente, desde o final dos anos 70, quando houve uma expansão ampla das matrículas, o perfil sócio-cultural e econômico desses alunos se alterou. “Primeiro uma mudança quantitativa muito grande, um número muito mais elevado de alunos”, destaca Magrone.
A nossa escola pública foi criada, pensada e planejada para receber um aluno que ela não está recebendo há muito tempo”
Eduardo Magrone.
Muitos desses alunos seriam os primeiros da família a frequentar a educação pública. De acordo com o especialista, o fenômeno de expansão de matrículas ocorreu no Brasil anos depois de ter se iniciado na Europa pós-guerra. Entretanto, os problemas são os mesmos com o adicional negativo de que o investimento na educação pública brasileira não correspondeu proporcionalmente ao aumento de matrículas. “Com o agravante de que a expansão não correspondeu ao financiamento do custeio e do investimento”, observa o professor.
Nesse contexto, Magrone aborda um conceito para definir o papel essencial que a família tem na educação dos estudantes junto com a escola: a gestão da escolaridade. Para ele, “a gestão da escolaridade dos filhos é o capital cultural brasileiro”. O conceito descrito por Pierre Bourdieu nas décadas de 70 e 80, teoriza a ideia de bens simbólicos e materiais (educação, gostos, conhecimentos, fala, estilo) que indivíduos adquirem e usam para ganhar prestígio, status e mobilidade social, especialmente na escola.
“Se deixar por conta da lei da gravidade, uma família típica de camada popular brasileira não vai ter uma gestão da escolaridade dos filhos capaz de promovê-los dentro de uma escola que funciona como a nossa”, constata Magrone. O professor se refere a necessidade de um maior acompanhamento dos pais para que aquele perfil de aluno consiga se desenvolver no modelo que existe hoje na educação brasileira.
“A localização geográfica e o caráter integral elimina muitos alunos potenciais que não podem atender esses requisitos”. Magrone, assim como Sanzio, defende a tese de que fatores de seleção provocados tanto diretamente quanto indiretamente podem provocar um efeito educacional que deve ser levado em conta. Portanto, aquela escola que tem ensino integral em uma região central eliminará um recorte de aluno que não pode se locomover até ali ou que tem a necessidade de trabalhar.
Qual é o jovem brasileiro em idade do ensino médio que se pode dar o luxo de estudar?”
Eduardo Magrone
Além disso, aponta um outro tipo de “trabalho” já abordado nesta reportagem: o cuidado. Magrone expõe o trabalho que muitas jovens mulheres precisam exercer dentro de casa. “Muitos jovens especialmente do sexo feminino que tem que trabalhar em casa, no trabalho chamado cuidado, cuidar dos irmão mais novo, dos idosos, dos doentes isso é trabalho desgastante que consome tempo e energia do estudo extraclasse que é fundamental pro sucesso escolar”.
De acordo com o pesquisador, políticas públicas como o Pé de meia auxiliam na diminuição da evasão. Segundo o pesquisador, “consumo é mais valorizado na adolescência”, assumindo uma importância muito grande na vida daquele jovem. E assim como apontou Braga, uma maioria desses jovens evade não só para auxiliar na renda familiar, mas também em busca de uma independência financeira.
Segundo Magrone, o “Pé de meia é uma maneira de dizer fica aqui meu caro”, mas para ele as chances daquele aluno se manter ali aprender e evoluir não vai ser garantido por um único instrumento de incentivo. É preciso “uma proposta cidadã que visasse traduzir os conhecimentos escolares em uma intimidade maior com a realidade social (daquele jovem)”, completou.
O professor prossegue explicando que todo sistema educacional tem quatro fases de implementação: acesso, permanência, promoção e aprendizagem. Segundo ele, caso esse processo não ocorra por completo você tem a perda do investimento público e “ainda mais importante, o direito da educação não está garantido”.
Eu posso ter aluno que tem acesso, permanece no sistema é promovido e não aprende, se não aprende, o direito à educação não está assegurado.”
Eduardo Magrone
Mudanças duradouras
A pergunta que fica é: os moedores de Rubem Alves continuam ligados e os sonhos continuam virando rolos de carne? Ou é chegado a hora de desligar a máquina para restaurar o sistema carnívoro que impede a manutenção de um ensino onírico, como sonhava Alves?
A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) enviou à reportagem um relato das ações em curso contra a evasão escolar: o Plano de Enfrentamento ao Abandono e à Evasão Escolar, que reúne medidas como Busca Ativa, Diário Escolar Digital e Intervenção Pedagógica. A pasta afirma avanços numéricos, cerca de 68 mil alunos retornaram em 2023, 98 mil em 2024 e 81 mil já em 2025, e destaca a expansão da Educação em Tempo Integral, 1.391 escolas e mais de 130 mil matrículas no estado. Ao confrontar esses números com o cotidiano relatado por quem atua na ponta, surge um fosso entre o desenho das políticas e a sua capacidade de transformar vidas nas periferias.
Os relatórios e números da SEE/MG documentam iniciativas relevantes e retornos mensuráveis, elementos que a reportagem desconhece. Para Eduardo e Tiago, transformar esses retornos em permanência exige mudanças que ultrapassam o ajuste pontual: é preciso reverter a lógica gerencial quando ela estiver desalinhada com contextos locais; garantir condições institucionais; vincular ofertas técnico-profissionais a vagas e estágios reais; e integrar programas de Busca Ativa a políticas de renda, transporte e proteção social que reduzam a pressão econômica sobre as famílias.
Se a SEE/MG pretende converter as milhares de reinserções registradas entre 2023 e 2025 em permanências duradouras, esses pontos aparecem, pelas vozes da prática e da análise, como prioridades não negociáveis. Só assim os números poderão começar a refletir, de fato, escolas capazes de garantir aprendizagem e trajetória para os jovens que hoje encontram na evasão uma saída racional.
Reportagem desenvolvida por Brunno Gotelip, Davi Tufic, Isabella Mançur, Julia Santos, Larissa Souza, Pedro Queiroga para a disciplina Apuração, Redação e Entrevista no campus Coração Eucarístico sob supervisão da professora Fernanda Sanglard, no semestre 2025/2.
