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Memórias tão redondas quanta a bola

Colagem montada com arquivos pessoais. / Foto: alterada com IA.

Essa pauta veio a mim durante uma viagem de carro em direção a um jogo de futebol do meu irmão mais novo. Com meu pai cansado de uma semana inteira de trabalho somada a uma discussão idiota sobre política na noite anterior,  acordamos às 5 da matina de um sábado com a missão de levar o aspirante futebolista para uma disputa de campeonato que aconteceria há 90 km da nossa casa. O pitoresco daquela discussão, poucas horas antes, é que ela foi finalizada com xingamentos achatados sobre essa carreira que eu tenho tanto esmero, a de jornalista. Pois é, são coisas da vida.  O que começou com uma frase curta e reducionista sobre o que nós fazemos rendeu esta reportagem. 

Meu irmão começou a jogar mais cedo do que eu, aos 5 anos, então, ele lida com aquela dúvida do meu pai e da sua mãe que querem saber se ele realmente quer ser atleta profissional ou se é só um passatempo. Vejo o futuro repetir o passado, só que dessa vez eu sou o narrador personagem e não mais o protagonista que nunca alcançou os holofotes do futebol mundial. 

Minha vontade, dessa vez, não é mais ser o melhor goleiro do mundo, como já foi um sonho pessoal, mas, sim, poder contar histórias de atletas que, como eu, já tentaram ou ainda tentam fazer do futebol uma carreira dos sonhos. Afinal, quem melhor do que eu mesmo para falar de trajetórias futebolísticas complexas e incompletas. Eu tenho esse direito, eu fui esse menino que teve que escolher um novo caminho, mas que acredita no poder desse esporte para iluminar vidas. Também suspiro aliviado nessa profissão que escolhi, que me proporciona a sorte e o espaço pra contar essas histórias.

Três personagens, três histórias

Nossos personagens começaram a caminhada no esporte ainda crianças, antes dos seis anos de idade. É bem curioso, pois as especialistas do senso comum comprovado, as mães e as avós, sempre batem na tecla que normalmente nessa época também formamos nosso caráter, nossa personalidade, ou seja, o futebol já era base estrutural da vida desses garotos. Porém, essa informação não seria nada se eles não tivessem se tornado atletas profissionais, porque quase toda criança brasileira cresce rodeada do sonho pessoal, familiar ou nacional de ser jogador de futebol.  

Mansur atuando pelo Atlético Catarinense / Foto: Arquivo pessoal.

Nosso primeiro personagem é Arthur Mansur (22) um goleiro que vive um momento difícil de adjetivar. Ele rompeu pela segunda vez o Ligamento Cruzado Anterior (LCA), a articulação que conecta o fêmur à tíbia e que é a lesão mais temida do futebol. Esta é a mesma lesão que o zagueiro do Real Madrid e da Seleção Brasileira, Éder Militão teve, por duas vezes, e o deixou mais de 600 dias inativos neste último ciclo de Copa do Mundo. 

Mansur já teve a mesma lesão no joelho esquerdo e agora trata pela segunda vez, no joelho direito. O tempo de recuperação é em média de nove meses. Mesmo com acompanhamento, esta lesão é complexa e, no caso dele, sem clube no momento, precisa tratar com o próprio dinheiro se quiser voltar a jogar. Hoje, além da faculdade de Administração na PUC Minas, lava carros para complementar a renda e ainda faz cursos de comissário para “abrir um leque, [pois] preciso ganhar um dinheiro maior”, disse com realismo na voz e nos olhos. O espaço-tempo em que tudo aconteceu é, infelizmente, coincidental. 

O goleiro tinha finalizado o Campeonato Mineiro módulo II de 2025 atuando pelo União Luziense e graças as suas boas atuações havia recebido um convite para jogar o Campeonato Gaúcho. Segundo ele, a nova oportunidade em clube profissional seria “uma escadinha boa”, referindo-se à possibilidade de seguir galgando espaço no futebol profissional. “Eu acho que ia ser muito bom”, completou, um pouco indignado. O goleiro rememorou que, antes da primeira consulta de acompanhamento da lesão, ainda dentro do consultório, recebeu um telefonema com convite de um ex-treinador. 

Filipe Silva em partida pelo Âncora Praia / Foto: Arquivo pessoal.

Filipe Ferreira Silva tem 21 anos. Nascido em Belo Horizonte, Silva é atleta profissional de futebol. Ele tem passagens por diversos clubes de base de Minas Gerais como América Mineiro, Minas Boca e Betim Futebol Clube. Hoje, ele atua em Portugal no Âncora Praia, clube da primeira divisão distrital de Viana do Castelo, uma província no norte lusitano. O campeonato é equivalente a um campeonato regional-metropolitano. Mesmo assim, o futebol não é suficiente para sustentar suas necessidades pessoais e ele também trabalha como designer gráfico freelancer e editor de material esportivo para atletas de esportes diversos. “Às vezes, o auxílio do clube só dá pra comida e, ainda assim, em alguns casos, preciso pedir ajuda para os meus pais”, explica o atleta.

Gabriel Pinheiro está em um momento completamente diferente, talvez o melhor da carreira até agora. Diferente de Silva e Mansur, Pinheiro joga futsal no Joinville Esporte Clube (JEC Futsal), vive do esporte e, em maio, venceu um dos maiores clássicos do país contra o Jaraguá pelas oitavas da Copa do Brasil de Futsal. Em 2025, foi convocado pela Seleção Brasileira de Futsal pela segunda vez. Pinheiro reconhece que materializou o sonho de criança e que os objetivos daquele menino se tornaram realidade. “Eu não só enxergo, (o sonho) como estou vivendo, estou desfrutando cada momento”, descreveu, comparado aos sonhos do seu “eu” mais jovem com os de hoje.

Pinheiro atuando pela Seleção Brasileira Sub-20 no Sul-Americano da categoria em 2024 em que conquistaram a medalha de bronze. / Foto: reprodução Instagram.

E tem eu. Esse narrador personagem que tentou jogar futebol por uma década e desistiu antes de entrar na faculdade de Jornalismo. Meu nome é Davi Tufic, tenho 21 anos, joguei futebol por dez anos, cinco no futebol de base profissional. Houve momentos em que tive certeza de que minha vida seria vestindo e tirando chuteiras diariamente. Entretanto, na encruzilhada da vida adulta, decidi sacar o computador, o microfone e a criatividade para contar algumas histórias. E aqui estou.

Futebol de base ou futebol como base?

A identidade é um tema estudado por diversos teóricos da Psicologia, da Psicanálise e até das Ciências Sociais. Como ela se forma? O que influencia na formação de personalidade? O quanto aquilo que você faz ou não faz, na infância, contribui para formar o seu “eu” de hoje? Não tenho a pretensão de responder perguntas tão complexas como essas, vou deixá-las para os especialistas. Porém, perguntei para os meus entrevistados: “O futebol faz parte da sua vida há tanto tempo, quanto acha que o esporte moldou quem você é? As respostas são unânimes. O futebol é um pedaço importante de quem somos.

“O meu maior sonho hoje é ganhar uma Copa do Mundo, uma Champions League de Futsal, uma Libertadores de Futsal, e eu vejo esses sonhos como sonhos de vida também porque estou vivendo para isso e eu conquistando isso também vou realizar o sonho de vida que sempre tive”, Gabriel Pinheiro, atleta do JEC Futsal.

“O futebol me fez ser uma pessoa diferente, pensar mais na minha saúde”. Pinheiro vive o sonho e dá pra dizer que o esporte é a pedra fundamental da sua vida, mesmo depois de concretizar os dois objetivos de criança. “O único objetivo era se profissionalizar e viver do esporte”. Pinheiro também reconhece que o futsal deu a ele uma qualidade de vida melhor. No dia em que conversamos, ele tinha voltado da academia para “soltar a muscula”, expressão do meio esportivo para descrever os treinos de recuperação após partidas consideradas pesadas. Ele havia jogado na noite anterior contra o Jaraguá em vitória com goleada por 7×1. Os desejos de dentro do esporte e na vida se misturam. 

Filipe Silva admite que o futebol fez parte da sua formação, mas sublinha a importância da religiosidade nesse processo e do que ele chama de “vida cristã”, já que ele busca na teologia força para continuar seguindo independente do futebol. Além disso, o entendimento de que o esporte poderia não ser mais o plano de vida fez com que ele precisasse criar uma nova identidade para além de ser atleta. “Eu entendi que o futebol é uma fase da minha vida, é uma estação da minha vida. Eu ‘estou’ jogador de futebol, eu não sou jogador de futebol”, elucidou. O atleta também explica a sensação de ter o sonho como única opção. “A gente nasce com aquele sentimento de que é futebol ou é futebol. Entra nesse sonho e quer ir até o final”, explicou. 

Na minha experiência, o futebol de base é cruel ao colocar jovens iniciados na formação das suas identidades com a responsabilidade de escolher unicamente um modelo de vida em que caiba aquele esporte. Eu não me adaptei, tem gente que acha ouro, mas sempre tem os que vão até o final, custe o que custar.

“Se não for um clube que pague pelo menos uma salário mínimo e dê condição, eu não saio da  minha casa”, desabafa Arthur Mansur lembrando das vezes que arcou com gastos para poder jogar e criar suas próprias oportunidades.

Arthur Mansur em pós-jogo pelo Sport Union Berlim. / Foto: arquivo pessoal.

Mansur também não precisou de muito para dizer que é fruto do esporte. “O futebol me moldou [como pessoa] 100%”, afirmou, sem titubear. Entretanto, assim como Silva, é realista sobre a carreira como jogador de futebol: “O futebol, hoje, não é mais minha prioridade máxima na vida, mas ele ainda continua sendo uma prioridade”. Ele ainda se enxerga sendo jogador de futebol, é o que ele deseja, mas ele está “procurando abrir portas porque era mais difícil do que parecia”.

Arthur Mansur chegou a treinar no Centro de Treinamento do Hertha Berlim durante o período que jogou na Alemanha. No país, foi campeão pelo Sport Union Berlim, um clube da 8° divisão e que na época subiu de divisão. Nessa época, ganhou dinheiro com futebol, coisa que nunca tinha acontecido antes. Segundo ele, uma compensação justa tornou-se uma obrigatoriedade para ele decidir se dedicar à algum projeto. “Não vou pagar mais pra jogar futebol”, afirmou.

O futebol realmente pode ser covarde em relação aos custos para virar atleta. Não são todos os clubes que disponibilizam uma infraestrutura que capacite os atletas e promova uma sustentação na hora de entrar em campo. Mansur relatou diversos casos em que pagou custos de moradia, alimentação e, em especial, da recuperação das duas lesões de LCA que não foram acompanhadas por nenhum dos clubes em que estava à época. Silva, por sua vez, também precisou “bancar” seus objetivos com os bicos de design gráfico que acabaram virando sua própria marca pessoal. 

Além disso, a realidade interna dos clubes é regida muitas vezes por interesses para além do nível técnico e escolhas táticas da comissão. Mansur alegou favorecimentos de atletas que tinham empresários trabalhando a seu favor. Um dos exemplos foi do tempo que passou no Ipatinga Futebol Clube, equipe do interior do estado da cidade do mesmo nome, onde ele precisava pagar uma mensalidade de R$900 para alimentação e moradia no clube.  “Comecei a ver as coisas lá dentro ‘esse cara é de empresário’ e perguntava pros moleque e eles não pagavam nada”, revelou.

Na mesma época, ele percebeu que certos atletas mesmo performando nos treinos não recebiam oportunidades nos jogos. “Comecei a não entender porque os caras não jogavam mesmo sendo bons, até que começou a acontecer comigo”, contou, lembrando da época em que, na visão dele, era o melhor goleiro do elenco e, mesmo assim, não jogava. 

Eu, pessoalmente, tive algumas experiências parecidas. Na temporada 2023/24 também fiz um movimento de emigrar para Portugal em busca de oportunidades, assim como Silva. Atuei pelo Sporting Clube Coimbrões, equipe que disputava o campeonato distrital do Porto. Uma espécie de campeonato municipal. Durante meu período lá, tive poucas oportunidades na equipe sub 19, mesmo sendo contratado pelo clube para ser terceiro goleiro da equipe principal. Infelizmente, no meu caso, o treinador nunca foi muito com a minha cara, uma pena, porque poderia ter sido útil. O clube, na maior cara dura, ainda exigia que eu arcasse com os custos de uma multa imposta pelo regulamento do campeonato, que, na verdade, deveria ser paga pelo clube à Federação. 

Nos casos parecidos com o meu, é comum que o terceiro “guarda-redes” dos “seniores” seja um jovem que precisa de minutagem e acaba ganhando oportunidades nas equipes juvenis. O conceito de minutagem no esporte, mas, principalmente para os goleiros, conversa com a ideia de que para um atleta se desenvolver ele precisa ter espaço para errar. Nesse sentido, experienciar uma situação de jogo pode propiciar momentos de tensão que auxiliam na sua evolução e que não podem ser vividos somente em treinos, por isso a minutagem é importante.

Expectativas e bons contatos

Ter as nossas expectativas destruídas é uma sensação que quase todo jogador de futebol já sentiu. Uma lista de relacionados que não contém seu nome. Um treinador que não vai com sua cara. A lesão que te pega de surpresa jogando uma “pelada” com seu pai no fim de semana. Tudo isso pode desviar você do seu destino onírico entre os campeões da Copa do Mundo ou da Champions League. Entretanto, tudo pode mudar com uma boa rede de contatos. 

Silva, ao aterrissar em terras portuguesas, recebeu um aviso: “só vamos te inscrever quando seu cartão chegar”. O “cartão” era autorização da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima) para Filipe Silva residir no país e, consequentemente, jogar futebol. Silva havia feito testes no Canedo, clube do norte do país, antes de tirar um período de férias em casa e estava com um acordo para retornar para a pré-temporada de 2024/25. Na época, ele conta que os pais ainda não haviam terminado de pagar a primeira passagem para ele ir para o país pela primeira vez. Agora, ele estava sem clube, sem casa e sem renda em um lugar quase totalmente desconhecido. Posteriormente, ele mesmo descreveu que orou “e um milagre aconteceu”, lembrando sobre uma oportunidade que surgiu de última hora graças a um amigo. O atleta deixou o Canedo e atuou pelo Caminha, onde foi campeão jogando 20 dos 34 jogos daquela temporada. 

A rede de contatos de outro atleta o colocou em uma enrascada que só depois virou oportunidade. Mansur ficou pouco mais de três meses na Alemanha, também sob indicação de um amigo. Depois de vencer o campeonato, teve que voltar para casa justamente porque a estadia prolongada no país não foi adquirida. Em outra ocasião, já em 2024, ele conta que foi indicado por um outro amigo e acabou recebendo uma proposta na volta ao Brasil para atuar no Atlético Catarinense, um clube de Florianópolis, em Santa Catarina. Viajou com seu pai para a cidade, foi alocado em um hotel com tudo pago, assinou contrato e fez reunião com o investidor do clube. Tudo lindo, tudo maravilhoso? Ainda não.

Arthur Mansur em jogo-treino pelo Ipatinga Futebol Clube. / Foto: arquivo pessoal.

De início, desconfiou do investidor, achou suspeita a maneira como se portava e falava, mas não desistiu. Mansur retorna para casa e se prepara para mudança, porém, antes de voltar, recebe uma ligação do treinador do Catarinense informando que o investidor era, na verdade, um “picareta” que tinha aplicado um golpe no próprio clube, no hotel e, de quebra, no atleta, que poderia ficar sem clube novamente.

Apesar da quebra de expectativa digna de filme, Mansur consegue ficar e disputar duas competições pelo Atlético Catarinense. O atleta disputou pela categoria sub 21 o Campeonato Catarinense Série B e ainda recebeu uma oportunidade na equipe principal como terceiro goleiro, porém, não teve minutagem. Mesmo assim, no Catarinense, Mansur consegue “fazer material”, ou seja, ser filmado jogando e usar isso como um currículo, uma prática comum no mundo da bola, principalmente na base. Mansur aprendeu muito com essas vivências e não tem receio de dizer que foi muito feliz. “Eu sou uma pessoa que sabe das realidades do futebol, as boas e as ruins, e eu também sei que foi muito importante para minha vida”, diz. 

Gabriel Pinheiro na vitória contra o Jaraguá / Foto: Reprodução Instagram.

Pinheiro traz para mesa uma experiência diferente, mas que exemplifica até onde os sonhos podem ir. Inicialmente, desejava ser atleta de futebol, mas o futsal se impôs e ele acabou escolhendo a bola menor, com o terreno feito de concreto em vez de relva. “A transição para o futsal foi muito pela questão de oportunidades. A primeira oportunidade que tive no futsal, eu abracei”, explicou. Pinheiro 

Mansur também teve oportunidade no futsal, esporte que praticou por dois anos, alcançando a final do Campeonato Metropolitano de Futsal de Belo Horizonte com a Associação Agência do Banco do Brasil (AABB). Mansur, por fim, escolheu o futebol de campo por conta da visibilidade. “Os caras do futsal não ganham muito, no campo, queria ganhar um pouco mais”, declarou. Segundo ele, treinadores diferentes no futsal deslegitimaram os seus planos “ambiciosos” argumentando que ele não era um goleiro alto. “No futebol de campo seu filho não vai dar certo”, disse o treinador pedindo para Mansur se dedicar integralmente  ao futsal, onde, de acordo com ele, teria futuro. O atleta teimoso não desistiu da possibilidade de que iria crescer. “Sabia que eu ia crescer, mesmo com meu pai sendo baixo”. O atleta tem hoje 1,84 de altura, e cresceu sete centímetros a mais do que o próprio pai (1,77). 

A bola voltou pros meus pés

Meu pai nunca gostou de futebol e eu, consequentemente, cresci sem muita fixação naquele esporte desconhecido. Na escola, demorei para entender sua graça. Só fui encontrá-la no fundo de casa jogando no resto do gazebo que sustentou a sombra do casamento do meu pai. Quando meu coroa casou, o sogro dele construiu uma estrutura de madeira que era uma espécie de altar sombreado para cerimônia. Debaixo dela ficavam os noivos e o padre. Ninguém quer parar no inferno por deixar um padre no sol, né galera? 

Depois do casório, o gazebo ficou. No dia seguinte, virou uma baliza sem redes em que eu me posicionava como seu último defensor e meus primos chutavam até as bolhas nos pés aparecerem. Com o tempo, eu me apaixonei pela ideia de ganhar dinheiro para jogar futebol e, mais ainda, pela possibilidade de ter meu nome entoado pelos quatro cantos do mundo. Meu velho, por um lado, sempre apoiou e me levou ao máximo de jogos que pôde, mesmo na correria do dia a dia. Hoje, cursando Jornalismo, o futebol é uma memória redonda que insiste em retornar de forma circular. 

Quando escrevi a pauta que viria se tornar entrevistas, reencontros com alguns amigos e finalmente, esse conjunto de palavras, frases e emoções, eu estava com raiva. Eu tinha brigado com meu pai a respeito de política mas, de certa forma, também foi uma discussão disfarçada do descontentamento dele com o Jornalismo. Ele tem uma visão superficial do que eu faço e por mais que me apoie em gestos e em palavras, tenho a sensação de que ele preferia que eu fizesse faculdade de Educação Física. Nada contra, mas o esporte virou meu algoz. Fazer essa pauta é até meio contraditório porque eu fujo sempre que posso do jornalismo esportivo, não suporto sua lógica. Só que meu inconsciente está inundado de futebol em ano de Copa do Mundo e, dos meus últimos cinco textos, só um não era sobre esse esporte popular.

“Apesar de ter te ajudado na sua matéria, me ajudou pessoalmente também a lembrar quem eu realmente sou e por que eu ainda to aqui. É sempre bom pararmos um pouco pra lembrar o por que existimos e o que vamos fazer com esse privilégio”, disse Silva por mensagem depois da nossa entrevista.

Voltando às faíscas relatadas no primeiro parágrafo, eu desisti de assistir o jogo do meu irmão e dei qualquer desculpa esfarrapada para ficar em casa e digerir aquela briga idiota. Perdi a oportunidade de vê-lo marcar um golaço, porém, iniciei o movimento para metabolizar aquela estupidez que meu pai disse com raiva sobre a carreira dos meus sonhos, nessa reportagem que você lê agora. O jornalismo não vai trazer de volta o meu sonho de ser goleiro, não vai curar de repente o joelho do Mansur, muito menos resolver a vida do Filipe Silva que, da última vez que falou comigo, estava procurando um novo lugar pra ficar porque o time em que atuava, simplesmente acabou. Apesar disso tudo, o jornalismo pode contar essas histórias com um pouco de humanidade e me lembrar também “o porquê estou aqui”.

Print de conversa com Filipe Silva logo em seguida a entrevista // Foto: Arquivo pessoal.

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