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A Praça do Canhão, em Cachoeira, lotada de pessoas durante um show artístico na edição de 2024. / Créditos: divulgação

Festa literária resgata tradição cultural na Bahia

Atividade busca fortalecer identidade local e valorizar memória intelectual do Recôncavo.

Festa Literária de Cachoeira 

A FLICA já é reconhecida como um dos maiores encontros literários do país, e transforma as ruas históricas da cidade, promovendo democratização do acesso ao livro e ao conhecimento. O festival reúne autores baianos, nacionais e internacionais em mesas de debate, além de ter programações paralelas como a Fliquinha (voltada para o público infantil e juvenil), shows musicais, intervenções artísticas e o tradicional cortejo de encerramento, o Bye Bye FLICA, que celebra a diversidade cultural do Recôncavo. Diversas escolas e colégios da região fazem excursões para levarem seus alunos a Cachoeira, para participarem da FLICA, além das instituições de ensino da própria cidade.

Perguntado sobre a importância da realização do evento, o jornalista Ernesto Marques, ex-presidente da Associação Baiana de Imprensa, comentou: “A Flica é um marco para nós da Bahia. Quem gosta de literatura, sempre ficava muito ligado na cobertura sobre a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A Flica tomou uma dimensão gigantesca, não apenas porque se consolidou como evento, mas principalmente porque terminou inspirando. Riscou um palito de fósforo num paiol. Agora tem centenas de festivais, feiras e festas literárias acontecendo.Mobiliza a comunidade inteira, gerou um movimento muito bonito: de estímulo à leitura, de apreço pela cultura, de respeito também, porque a cultura foi muito atacada, muito delapidada”. 

A Praça do Canhão, em Cachoeira, lotada de pessoas durante um show artístico na edição de 2024. / Créditos: divulgação

Ernesto Marques foi, nesta edição, mediador de uma palestra com o novelista palestino Atef Abu Said e com João Salles, professor de filosofia vencedor do prêmio jabuti. Durante a conversa, os dois convidados apresentaram discussões acerca do genocídio de Israel contra a Palestina, além de formas com que a linguagem e a gramática atuam na formação de interesses e ideais das sociedades. Em várias de suas novelas, Said relata a guerra sob a ótica de um palestino local, que estava, inclusive, na Faixa de Gaza durante os bombardeios de 7 de outubro de 2023, que marcaram o recomeço do massacre de israel contra o povo palestino. Em sua fala na palestra, Said revelou que a primeira construção palestina bombardeada nesta data foi um museu, que continha itens sobre a herança e cultura palestina, revelando que a limpeza étnica praticada pelo exército de Benjamin Netanyahu é física, psicológica e, além de tudo, cultural. A organização do evento disponibilizou, para toda a plateia, aparelhos de áudio com a tradução das falas de Said, que se comunica no Brasil em língua inglesa.

Você não precisa ser a favor da Palestina, basta se perguntar se você aceitaria isso”, diz Atef Abu Said em palestra na FLICA.

(Da esquerda para a direita) Uma intérprete de Libras traduzindo o evento, João Salles, Ernesto Marques e Atef Abu Said.

Na cidade de Cachoeira também está localizada a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), cuja estrutura é amplamente utilizada durante o evento.

O pátio interior da UFRB.

Durante a programação da Fliquinha, parte juvenil da FLICA que ocorreu, em sua maioria, nas dependências da UFRB, Luísa Santos, estudante do Colégio Estadual de Cachoeira, disse: “Tem sido muito boa a programação do evento, porque a gente aprende mais sobre a nossa própria história”.

“A festa é uma coisa que eu acho mágica. Porque mobiliza tanta gente que vem de longe. E ao mesmo tempo, claro, isso não está desconectado, fora a história toda de Cachoeira, a importância histórica e cultural que Cachoeira tem pra gente. Mas é evidente que isso está muito conectado, também, com a presença de uma universidade”, comenta Marques, sobre a importância da universidade para a região. “Aí a gente vê o quanto foi importante a expansão das instituições federais de ensino. O quanto isso foi importante aqui pro Recôncavo e em outras regiões da Bahia que receberam uma universidade depois de tanto tempo. A gente vê esse impacto positivo. Isso enche a gente de esperança, eu acho maravilhoso. Fico muito feliz de ver isso acontecendo”, concluiu.

Cachoeira

Localizada às margens do rio Paraguaçu, que divide as cidades de Cachoeira e São Félix, na Bahia, o município de  Cachoeira, de aproximadamente 30.500 habitantes (2024), recebe sua tradicional Festa Literária desde 2011. Conhecida pela sigla FLICA, a festa tem temas diferentes em cada edição, e é realizada com diversas atrações que, em sua maioria, são de escritores ou artistas locais, e que tratam de assuntos da tradição e cultura da região do Recôncavo Baiano. 

O rio Paraguaçu, com barcos e canoas de pescadores,
e a cidade de São Félix ao fundo.

A formação de Cachoeira remonta ao século XVI, com a exploração do Recôncavo Baiano e o início do cultivo da cana-de-açúcar, mas foi nos séculos XVIII e XIX que alcançou grande importância como porto escoador de produção (fumo, gado e ouro) para a Europa e ponto de ligação com o sertão. Sua posição geográfica e relevância econômica a transformaram em um centro político. Elevada à categoria de Vila em 1832 e Cidade em 1837, hoje detém os títulos de “Cidade Monumento Nacional” e “Cidade Heróica” devido a sua atuação, em 1822, nas lutas separatistas da independência brasileira.

Um dos momentos mais emblemáticos da história de Cachoeira foi a “Batalha de Cachoeira”. Em 25 de junho de 1822, a cidade proclamou D. Pedro I como regente, rompendo com o governo português. Em resposta a esse ato, os portugueses enviaram uma canhoneira pelo Rio Paraguaçu com a missão de bombardear e subjugar a vila. A localização estratégica de Cachoeira a tornava vital para as rotas comerciais do Recôncavo, o que elevava a importância de sua defesa. O confronto no Rio Paraguaçu durou três dias e demonstrou a fervorosa resistência e a mobilização da população cachoeirana. Os habitantes, em um esforço unificado de civis e milicianos, armados com o que tinham e utilizando pequenas embarcações e canoas, cercaram e enfrentaram a poderosa canhoneira portuguesa, cortando seus suprimentos e isolando a tripulação. No dia 28 de junho de 1822, os defensores de Cachoeira alcançaram uma vitória decisiva, forçando a rendição da embarcação inimiga.

As cidades de Cachoeira (direita) e São Félix (esquerda), divididas pelo rio Paraguaçu.

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