Em meio ao calor e ao movimento de um domingo na Feira Hippie, em Belo Horizonte, dona Helena Silveira observa os corredores lotados sentada em uma cadeira de praia atrás da barraca da família. Aos 84 anos, acompanha a rotina com a tranquilidade de quem viu aquela história começar décadas atrás, ainda na Praça da Liberdade.
Foi ali que ela encontrou no artesanato uma forma de sobreviver depois de perder o marido. Com os filhos pequenos e sem rede de apoio, começou a vender chapéus, arquinhos e peças artesanais simples. Mais do que uma fonte de renda, a feira oferecia algo raro para muitas mulheres da época: a possibilidade de sustentar a casa sem se afastar dos filhos.
A gente começou lá na praça e, com nove anos, eu já trabalhava com a minha mãe”, lembra a filha, Valdirene Silveira, de 50 anos.
Décadas depois, Valdirene continua atrás da mesma barraca, agora ao lado do irmão. O artesanato mudou de forma. As peças feitas à mão deram lugar a acessórios produzidos em madeira cortada a laser e itens pintados manualmente. Mas a lógica permanece a mesma: é dali que vem o sustento da família.
Histórias como a delas se repetem pelos corredores da feira. Muitas mulheres chegaram ali depois de separações, dificuldades financeiras ou da necessidade de criar os filhos sozinhas. A feira virou trabalho, sustento e também espaço de pertencimento.
Rosângela Dionísio dos Santos, de 61 anos, entrou no ramo do artesanato e das feiras em 2004 tentando encontrar uma forma de conciliar, simultaneamente, o trabalho e as obrigações da maternidade e do lar.
“Eu vim parar na feira para dar conta do trabalho e cuidar das crianças”, conta. “Pagar alguém ficava caro demais. Aqui eu conseguia trazê-los comigo.”
Antes disso, ela passou por uma casa de acolhimento para mulheres após sofrer violência doméstica. Foi lá que aprendeu a fazer artesanato, que mais tarde viraria seu ganha-pão. “Uma assistente social levava o material e eu comecei a mexer com miçanga”, conta.
O que começou como alternativa de sobrevivência virou profissão. Durante anos, Rosângela viveu uma rotina intensa entre feiras, produção e vendas. Criou clientela, passou a fornecer para sacoleiras e conseguiu estabilidade financeira. Hoje, ela resume a importância daquele espaço de forma simples: “Mais do que o lucro, é a liberdade de ter o meu próprio sustento”.
Em Minas Gerais, cerca de 2,1 milhões de pequenos empreendimentos estão ativos, e quase metade deles é comandada por mulheres. Na Feira Hippie, essa presença feminina é ainda mais marcante: elas ocupam mais da metade das barracas, atendem clientes, organizam mercadorias, negociam preços e sustentam o funcionamento dos negócios.
Criada em 1969, a Feira Hippie começou na Praça da Liberdade e hoje ocupa a Avenida Afonso Pena, reunindo mais de 1.500 expositores aos domingos.
Segundo o gerente da feira, Diego Rocha, parte das barracas permanece dentro das próprias famílias. Expositores antigos podem transferir a licença para filhos e parentes, desde que comprovem participação na produção artesanal.
Mas essa continuidade já não é tão simples. Segundo Rocha, muitos filhos de feirantes que cresceram naquele ambiente acabam seguindo outros caminhos profissionais e optam por não permanecer nas barracas da família. “Em alguns casos, para não perder o direito ao ponto, começam a alugar a barraca informalmente, o que é proibido pelas regras da licitação”, explica.
Presença online: opção ou obrigação?
Ao mesmo tempo em que as barracas carregam histórias familiares, o trabalho também enfrenta transformações difíceis para muitas feirantes, especialmente as mais velhas. A venda deixou de depender apenas do contato presencial. Hoje, redes sociais, vídeos e divulgação online passaram a fazer parte da sobrevivência no comércio.
Para muitas delas, essa adaptação ainda é um desafio. “Eu tenho muita dificuldade com esses ‘trem’ de celular”, conta Dora, de 77 anos, que trabalha há mais de quatro décadas em feiras da capital. “Acaba que eu divulgo mais aqui mesmo, no boca a boca.”
Em várias barracas, a presença digital acaba ficando nas mãos de filhos, netos ou parentes mais jovens. Algumas conseguem usar aplicativos de mensagem, mas encontram dificuldade para produzir conteúdo ou manter redes sociais ativas.
Uma pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Minas), realizada em 2025 com 549 empreendedoras mineiras, mostra que 73% utilizam canais digitais para vender produtos. O levantamento também aponta que os principais desafios enfrentados por mulheres empreendedoras envolvem marketing, gestão financeira, planejamento e a conciliação entre trabalho e vida pessoal.
Nas feiras da capital mineira, porém, a realidade ainda é marcada principalmente pelo contato direto, pela clientela construída ao longo dos anos e pelo boca a boca, e a transição tecnológica acontece justamente em um ambiente marcado pelo envelhecimento das expositoras e pela dificuldade de renovação familiar das barracas.
Na feira do bairro Santo Antônio, a cena se repete em menor escala. Aos sábados, Silene Schirmer, de 54 anos, conhecida pelos clientes como Silá, atende atrás da barraca de biscoitos artesanais herdada da tradição iniciada pelo pai nos anos 1980.
Ela conhece clientes pelo nome, acompanha o crescimento das crianças do bairro e transformou a barraca em um ponto de encontro informal da região. Aprendeu Libras para atender frequentadores surdos e mantém a relação próxima que construiu ao longo dos anos. “A feira é aprendizado e conexão”, resume. “Meu trabalho é fruto da história da minha família.”
Mesmo diante das dificuldades, nenhuma das entrevistadas pensa em abandonar a feira. Algumas envelheceram ali. Criaram filhos, atravessaram separações, sustentaram a casa e construíram a própria independência financeira entre barracas e corredores. Quando perguntadas se pensam em parar, a resposta vem rápida, quase automática: “Não. Eu amo isso aqui”.
Reportagem de Helena Drummond e Letícia Torres, sob supervisão do professor Vinícius Borges.
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