Confeitaria caseira contra a indústria: como confeiteiras de BH driblam altos custos e entregas em aplicativo
Mateus Alcântara
Imagem meramente ilustrativa, via Unsplash/Ev
Somente em 2025, o mercado de confeitaria faturou R$ 164,12 bilhões no Brasil, um crescimento de 7,02% em relação a 2024, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP). Mas, para quem produz em casa, a realidade é outra. Competir com indústrias e padarias que produzem em larga escala exige criatividade, relacionamento interpessoal e muito controle de qualidade. 69% das pessoas que trabalham no ramo se dedicam à atividade sozinhas, enquanto 85% dos estabelecimentos são feitos na própria residência, de acordo com o Sebrae. Ou seja, com baixo custo de investimento inicial.
Em Belo Horizonte e região metropolitana, duas profissionais que trabalham com a confeitaria caseira revelaram ao Colab os principais desafios da produção artesanal e as soluções que encontraram para se destacar.
“Competir com produção em grande escala não é fácil, principalmente no preço e na rapidez. Mas eu nem tento entrar nessa disputa.” — Mônica Chagas, do O Bolo da Mônica
Reprodução: Mônica Chagas
Mônica Chagas tem dezessete anos de carreira na confeitaria e é especializada na produção de bolos, atuando em Contagem e Grande BH. Ela conta que seu diferencial está no atendimento e compreensão do pedido do cliente. Ela acompanha cada pedido de perto e diz que a maioria dos clientes volta após a primeira compra.
“Não é só vender um bolo, é entender o momento daquela pessoa. No fim, eu não vendo só bolo. Eu faço parte da comemoração.” — Mônica Chagas, do O Bolo da Mônica
Já Rosângela de Sousa, da empresa Tem Bombom, acumula 14 anos de trabalho na área e atua na região de Sabará, nordeste e leste de BH. Ela trabalha com uma variada gama de bolos personalizados e aposta na experiência:
“O fato de ser uma produção caseira já é um diferencial, uma vez que o cliente que deseja algo personalizado, tanto em sabor, quanto em decoração, vive uma experiência única.” — Rosângela de Sousa, do Tem Bombom
O controle de qualidade no Brasil inflacionado
Reprodução: Rosângela de Sousa
Segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o preço do chocolate acumulou alta de 24,77% em 2025, impulsionado principalmente pela valorização do cacau no mercado internacional. O encarecimento está ligado a problemas climáticos e redução da oferta em países africanos, como Costa do Marfim e Gana, responsáveis por grande parte da produção mundial do fruto. Dessa maneira, manter a qualidade sem repassar todos os custos é um dos maiores dilemas.
Mônica Chagas não vê muito atalho, ela relata que conforme os preços aumentam, ela vai reajustando o de seus produtos aos poucos por não gostar de mudanças bruscas, pois acredita que é mais benéfico ajustar o valor do que mexer na qualidade dos ingredientes. Ela ainda conclui esclarecendo que o cliente percebe esse movimento, fortalecendo o vínculo de confiança e garantindo o retorno do mesmo.
Rosângela de Sousa usa técnica de “combo” para diluir custos: “Se o cliente quer bolo, ofereço doces e lembranças para aumentar o valor do pedido e ainda diluir o valor alto dos insumos em mais itens. Funciona em alguns casos.”
Entregas por aplicativo e plataformas sociais podem ser desafio
A dependência de entregadores e aplicativos é um ponto crítico, especialmente em dias de calor intenso ou chuva na Grande BH. Nas palavras da própria Mônica Chagas, o calor, a chuva e o trânsito influenciam no transporte das mercadorias, por isso, além de orientar o cliente para o produto não chegar de forma diferente do que foi enviado, a confeiteira também realiza entregas pessoalmente, para evitar qualquer contratempo que possa aparecer.
Já Rosângela de Sousa adota um modelo de proximidade, ela nos conta que prefere trabalhar exclusivamente com clientes de sua região para facilitar o transporte – isso quando o próprio consumidor já não faz a retirada dos produtos. Ela também recebe pedidos corporativos e, segundo a confeiteira, o transporte das encomendas é mais seguro porque a própria empresa se responsabiliza pelo frete e transportador.
Consumidores confiam no mercado caseiro
Outro desafio destacado pelas confeiteiras é a confiança de novos clientes no mercado caseiro e a construção dessa credibilidade. Segundo Mônica Chagas, “Muitos clientes já chegam por indicação, então, já vêm com uma segurança”. Ela conta que ainda se sente com uma vasta carga de responsabilidade na construção dessa confiança que, de acordo com ela, se concretiza “pedido por pedido”.
Porém, quando há certa resistência e questionamento por parte dos consumidores, Rosângela de Sousa tem o costume de guiar os clientes para seu perfil nas plataformas sociais, para que vejam o feedback positivo que a confeiteira comumente recebe. Ela ainda conta que muitos de seus fregueses a conhecem através de feiras e eventos.
A pesquisa da ABIP aponta que o setor de confeitaria no Brasil fatura bilhões, mas são as pequenas produtoras que mantêm viva a relação de afeto com o alimento:
“No fim, o que me destaca não é o tamanho da produção, é a experiência que eu entrego.” — Mônica Chagas
“A produção caseira já é um diferencial; O cliente vive uma experiência única” — Rosângela de Sousa