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Eliete, gestora do projeto ULLY, no Morro das Pedras. Foto: Pedro Vilela

Empreendedorismo sênior promove reinvenção e protagonismo na terceira idade

Com mais de 30 milhões de idosos no Brasil, o empreendedorismo sênior mostra que idade pode ser sinônimo de inovação, força e protagonismo

No Brasil, o número de idosos cresceu 18% entre 2012 e 2017 e ultrapassou os 30 milhões. Dados do IBGE mostram que pessoas com 60 anos ou mais já representam 15,6% da população no país. Essa transformação demográfica impacta diretamente a economia, a previdência, o mercado de trabalho e também abre espaço para novas formas de viver e produzir.

Entre os caminhos escolhidos por muitos, o empreendedorismo se destaca. De acordo com levantamento do Sebrae, em Minas Gerais, 12,1% da população sênior são donos de negócios, demonstrando que a idade não é obstáculo para quem busca empreender. Para alguns, essa é a chance de complementar a renda, para outros, é um ato de resiliência e reinvenção.

A empreendedora Eliete Jesus dos Santos Vieira conta que empreender é uma forma de se sentir ativa e dar voz às outras mulheres. “Com a maturidade tive maior autonomia profissional. Me sinto viva e pronta para ajudar outras mulheres. Minha experiência como pedagoga influenciou diretamente na forma como o meu projeto foi estruturado e conduzido”.

Especialista em liderança social, psicopedagoga e empreendedora, Eliete Jesus dos Santos Vieira, de 45 anos, é da região oeste de Belo Horizonte e atua ajudando mulheres e o público sênior que sonha em empreender, mas não encontra apoio. A motivação para atuar nesse caminho veio da realidade vivida de perto. “Senti a necessidade de dar voz e vez às mulheres para que possam conquistar a independência financeira, acreditar que, por meio da moda, da arte, da cultura e da capacitação, é possível gerar renda, autoestima e pertencimento”, afirma.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende o conceito de envelhecimento ativo, que busca otimizar a segurança, a participação e a saúde mental, aumentando a expectativa de qualidade de vida para todas as pessoas que estão envelhecendo e buscam a longevidade. Nesse contexto, empreender após os 50 ou 60 anos não diz respeito apenas ao processo de  abrir um negócio, mas trata-se de manter-se ativo, útil e reconhecido.

Histórias que inspiram

A inspiração para o negócio de Alex Martins Diniz, 60 anos, veio da sua trajetória pessoal. Com 14 anos começou a trabalhar como ourives, e desde então, a joalheria se tornou uma extensão da história e forma de expressão. “Depois de muitos anos de dedicação, percebi que estava preparado para dar um passo além: empreender. Foi assim que criei a Eterea Joias, marca que expressa minha identidade, criatividade e paixão por transformar metais e pedras em arte”.

Alex Diniz não nega os desafios financeiros para manter o próprio empreendimento, especialmente na periferia. Além de ter começado a empresa sem capital de giro e sem acesso a créditos, ele reinvestiu cada venda no próprio negócio. “A luta diária é manter o negócio vivo, mais do que planejar grandes expansões. O talento existe mas, sem recursos financeiros, as possibilidades ficam limitadas”, afirma o empreendedor.

Além disso, Alex Diniz entende que a maturidade ajuda e garante uma percepção maior e amplia a visão estratégica. “Resolvi voltar aos estudos e me formei em Direito Previdenciário, tornando-me advogado na área. Esse período acadêmico não apenas abriu novas portas profissionais, mas também me capacitou a gerenciar meu negócio. Hoje, cada decisão que tomo como empreendedor reflete essa combinação. É essa maturidade que permite transformar desafios em oportunidades”.

Políticas públicas e qualidade de vida

Maria Rita Aprile é doutora e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisadora associada do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. De acordo com a pesquisadora,  a concepção de envelhecimento ativo contribui para ressignificar o papel das pessoas idosas em diferentes espaços sociais. 

“Basta ver a sua participação como docentes, gestores e pesquisadores/as em inúmeras instituições de ensino superior e na ocupação de cargos de comando, de liderança e, ainda, em redes sociais e diferentes mídias, como produtoras de conteúdos; entrevistadores/as; jornalistas e comentaristas. Não raro sua frequência é registrada em movimentos sociais, políticos e culturais, liderando eventos e/ou propondo medidas de alcance coletivo”, aponta.

Além disso, a pesquisadora exemplifica como as políticas públicas podem garantir e ampliar as condições de vida da terceira idade. “Apesar de inúmeras medidas tomadas pelo atual Governo Federal para garantia da qualidade de vida da população idosa, como o salário mínimo mensal para as pessoas de baixa renda e gratuidade de 41 itens, uma parcela considerável ainda se encontra em situação de vulnerabilidade, vivendo em condições sociais, econômicas, culturais, científicas e tecnológicas precárias, descoberta de seus direitos e socialmente excluída”, observa a pesquisadora.

Maria Rita Aprile é doutora e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) / Arquivo pessoal
Maria Rita Aprile é doutora e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) / Arquivo pessoal

Trabalho e aposentadoria 

Maria Rita Aprile é uma das autoras do artigo “Trabalho e aposentadoria na perspectiva do envelhecimento ativo e da inclusão social”, publicado em 2020 . Em conjunto com Célia Aparecida Paulino e Fernanda Aprile Bilotta, o artigo organiza um estudo realizado com 62 idosos aposentados com sintomas de doenças relacionadas ao equilíbrio corporal. A pesquisa teve como finalidade relacionar o trabalho com a aposentadoria, na perspectiva do envelhecimento ativo e da inclusão social. 

A autora explica que para que a aposentadoria fosse entendida como um direito de escolha do idoso, algumas medidas, por parte das políticas públicas, deveriam ser tomadas, como o combate ao etarismo e aos demais estereótipos sobre envelhecimento por meio de incentivos fiscais às empresas que contratem ou mantenham trabalhadores e trabalhadoras aposentados.

Além disso, ela complementa que o tema do envelhecimento ativo ainda não foi suficientemente tratado em estudos e que é fundamental a proposição de medidas destinadas à melhoria da qualidade de vida e ao  fortalecimento da autoestima. “Ampliar investimentos em saúde preventiva e ergonomia no trabalho para que as pessoas tenham condições reais de escolher entre aposentar ou não, na medida em que se consideram indivíduos saudáveis e em condições de continuarem a participar da vida produtiva”, conclui.

O empreendedorismo na terceira idade

A pesquisadora Maria Rita Aprile enfatiza que a integração de pessoas mais velhas em novos círculos profissionais oportuniza o seu contato com possíveis parceiros, clientes e outros empreendedores, criando redes de relacionamento que combatem o isolamento social, um dos principais fatores que interferem na saúde mental da terceira idade. Nesse contexto, o empreendedorismo sênior torna-se uma possibilidade para reconstruir a identidade pessoal e fortalecer a inclusão social.

A importância do Estado em guiar a terceira idade acompanhando o processo da tecnologia e a atualidade também é abordada pela pesquisadora: “Daí a necessidade da oferta de programas direcionados à sua atualização, capacitação e reinserção profissional com o apoio de políticas públicas inclusivas que proporcionem às pessoas empreendedoras um espaço de protagonismo. O empreendedorismo nesta fase da vida não se reduz a uma atividade econômica. Trata-se de uma oportunidade efetiva para que o idoso continue contribuindo ativamente com suas experiências, conhecimentos e criatividade para a comunidade”.

No entanto, cabe apontar que o empreendedorismo na vida sênior traz momentos positivos e outros que causam frustração. É necessário reconhecer que empreender após os 50 anos nem sempre é fácil. “Muitos empreendedores, quando aposentados ou desligados do mercado de trabalho, são acompanhados por sentimentos de desvalorização e de inutilidade. Outros enfrentam obstáculos de natureza tecnológica”, diz Maria Rita Aprile.

Da dor ao recomeço

A trajetória de Maria Benedita Araujo Ferreira mostra que os negócios podem nascer da dor, mas florescer como esperança. Moradora de Belo Horizonte, Maria Benedita, de 59 anos, enfrenta diariamente os desafios e as oportunidades de tocar o próprio negócio. Diagnosticada com depressão crônica e após uma tentativa de tirar a própria vida, ela encontrou no artesanato em gesso um caminho de recuperação emocional. O primeiro contato aconteceu em um curso terapêutico dentro de uma casa de apoio. Em recuperação, a casa de auxílio apresentou o curso de pintura em gesso, como forma de terapia. 

Artes em gesso de Maria Benedita / Arquivo pessoal

A empreendedora diz que a motivação do negócio chegou há quatro anos, quando foi convidada a expor em feiras de rua e desde então transformou sua dor em oportunidade. “Me convidaram para participar de feira de ruas para mostrar meu artesanato em gesso e vender uma peça aqui, outra ali. O empreendedorismo causa impacto na minha vida de todas as formas, pois temos muitas surpresas, negativas e positivas”.

Para Maria Benedita, empreender é também um exercício de força e luta interior: “o aprendizado foi na dor, nas dificuldades que enfrento no meu dia a dia. Continuar ativa, mesmo com todas as consequências depois dos 50, significa trabalhar o emocional, mental, físico e fortalecer a perspectiva de um futuro melhor e que um dia alguém valorize o artesão”, finaliza.

Economia e longevidade

O pesquisador da FAPESP no Centre National de la Recherche Scientifique, em Paris, e comentarista de temas sobre longevidade e envelhecimento na TV Globo, Jorge Félix, analisa a questão do endividamento das pessoas idosas sendo esse o tema da pesquisa de pós-doutorado no CNRS. 

O pesquisador Jorge Félix / Divulgação

“Os mais velhos que precisam continuar trabalhando porque a aposentadoria é baixa e não dá para viver com ela, caem em dívidas para completar a renda. No Brasil e em boa parte do planeta, não temos uma política para garantir a empregabilidade das pessoas idosas. Isso tem resultado em um maior endividamento da terceira idade”.

Jorge Félix entende que a grande maioria dos empreendedores acima dos 60 o fazem como forma de existir, em busca de renda e de preservação de uma identidade pessoal e profissional. “A grande maioria da população idosa não tem emprego. Então, a saída é empreender. O empreendedor brasileiro, em boa parte, não tem os dois elementos indispensáveis no conceito do empreendedorismo: capital e inovação. Veja bem, dinheiro da poupança ou do FGTS não é capital. Mas se tornou. Muita gente tem que empreender por necessidade. É o que eu chamei na minha tese de ‘empreendedor improvisado”.

No livro “Economia da longevidade”, o autor aborda o impacto da longevidade na economia brasileira e examina a financeirização do cuidado, o que provoca mais risco de endividamento para as pessoas idosas e para as famílias brasileiras. O pesquisador analisa que grande parte do endividamento das famílias tem se dado para cobrir custos de cuidado de si e do outro. “O empreendedorismo para pessoas idosas poderia ser muito potente se houvesse, de fato, a adoção de uma estratégia de economia da longevidade.”

A desigualdade de oportunidades para a população idosa ainda é um grande obstáculo no mercado de trabalho brasileiro. Jorge Félix também questiona a importância do conceito de idosismo, tradução para o termo em inglês ageism, criado em 1968, pelo médico Robert Butler, que consiste no preconceito de idade – também chamado de etarismo. “Por que isso é importante? Porque, no mercado de trabalho, é esse o problema. Não se pode envelhecer no mercado de trabalho. Na pauta de diversidade, a pessoa idosa, por enquanto, está fora. Como se resolve isso? Com mais lei trabalhista. Criando obrigatoriedades e proibições. O Brasil precisa urgente criar normas para proibir o verdadeiro descarte de trabalhadores idosos do mercado de trabalho”.

Impacto social

O Projeto Ully, idealizado por Eliete Jesus dos Santos Vieira, citada no início da reportagem, foi pensado não só como uma ONG, mas como um movimento de transformação e a percepção de que há mulheres, crianças e idosas em situação de vulnerabilidade que precisavam de um espaço de acolhimento, fortalecimento e oportunidade de transformação. “Esse olhar sensível para a comunidade fez surgir a vontade de criar um projeto que unisse cuidado, empoderamento e autonomia.

Minha experiência como pedagoga influenciou diretamente na forma como o projeto Ully foi estruturado e conduzido”, conta. Eliete entende que com a maturidade, teve mais autonomia profissional: “me sinto ativa, viva e pronta para ajudar outras mulheres”, afirma.

Eliete Jesus dos Santos, empreendedora e líder social / Arquivo pessoal

O projeto abrange atividades e ações para o público 60+ como aulas de informática, danças cênicas, costuras e aulas de desfile. Buscando alcançar a longevidade e o interesse dessa faixa etária, entende-se a importância de atualizar os cursos e acompanhar o mundo digital para manter os idosos dentro da atualidade tecnológica.

Em 2023, o Projeto Ully apresentou a “Barbie do Morro”, boneca criada a partir das características físicas e do estilo de vida das moradoras do Morro das Pedras, na região oeste de Belo Horizonte. A ação conta com apoio do Sebrae Minas e envolve a produção artesanal de bonecas de pano. Além de estimular a representatividade, a iniciativa se tornou uma alternativa de geração de renda para cerca de 180 mulheres da comunidade.

Isabella Silva

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