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A desigualdade climática nas periferias de BH

Mais vulneráveis a condições climáticas extremas do que outros bairros da cidade, territórios periféricos abrigam projetos socioambientais

Era uma manhã primaveril de sexta-feira quando saímos da PUC Minas em direção ao Morro do Papagaio. O sol batia suave. Durante o percurso, passamos pelas ruas íngremes do Santo Antônio, região centro-sul de BH, que nos recebeu com suas ladeiras largas, arborizadas e silenciosas. Ali, os morros se erguiam de maneira ordenada: casas alinhadas, carros estacionados com cuidado e sombras frescas projetadas por árvores antigas. O clima, confortável e ventilado, acompanhava o ritmo tranquilo dos moradores, que caminhavam sem pressa, conduzindo seus cães. Conforme subíamos, porém, a paisagem começava a mudar.

O Morro do Papagaio surgia não apenas como um ponto geográfico, mas como outro mundo dentro da mesma cidade. Não há, em Belo Horizonte, muros, cancelas ou portões que separam os bairros nobres da periferia. Apesar disso, a segregação não é invisível: é táctil e sensível. O ar ali era denso, quente, como se a própria temperatura registrasse a desigualdade climática que o concreto tenta camuflar.

As vielas eram estreitas, entrecortadas por casas próximas que disputam espaço com os fios elétricos que cruzam o céu, criando uma nova geometria urbana. O movimento era mais vivo, mais pulsante: rádios tocando ao fundo, cheiro de comida escapando pelas janelas abertas, motocicletas subindo e descendo em ritmo acelerado. A luz do sol, sem proteção das árvores, batia mais forte, insistindo em expor o que a cidade prefere esquecer. Belo Horizonte foi construída sobre desníveis – geográficos e, principalmente, sociais.

No passado, o morro, arborizado, era lar dos papagaios e periquitos de Belo Horizonte. Daí surgiu o nome, como conta Júlio Fessô, 50 anos, líder comunitário. As maritacas são boêmias em seus cantos e proclamações, corando o céu claro da própria substância da vida verde-amarela. Na chuva, refugiam-se nas palmeiras. Na fome, deliciam-se com os frutos das árvores. Hoje, da mata do Papagaio, restam apenas fragmentos: pequenos refúgios, como o Parque Ecológico do Santo Antônio.

Entre os ruídos do cotidiano, ressoa nas ruas do morro um silêncio ensurdecedor. A convivência com o meio ambiente é reservada ao centro de Belo Horizonte; a periferia que visitávamos era destituída do próprio nome. Nesse mesmo morro, o que antes era canto, virou ausência. Entre o barulho dos carros subindo, das motos que cortam os becos, das conversas atravessadas pelas janelas, havia algo que ecoava mais forte que qualquer ruído: uma espécie de silêncio que não era falta de som, mas falta de natureza.

Em meio ao silêncio, uma semente de voz

Júlio Fessô, um homem negro, aparece pela janela de um pequeno prédio branco. Ele aponta para um cartaz abaixo da janela, em que está escrito #EuAmoMinhaQuebrada
Idealizador do projeto socioambiental Eu Amo Minha Quebrada, no Morro do Papagaio, ativista Júlio Fessô está à frente também da COP das Quebradas, que busca levar debate sobre mudanças climáticas para favelas e comunidades. Foto: Taynara Rosa

Fomos recebidos por Júlio Fessô na sede do Eu Amo a Minha Quebrada, projeto social idealizado por ele e mantido desde 2013. A sede era uma pequena sala colorida. Nas paredes, um mapa-múndi e alguns cartazes ambientais. Reluzia no centro um pôster da COP das Quebradas: seu compromisso com debates ambientais. Sentado sob a luz que entrava pela janela, Júlio falou sobre a crise climática como quem descreve algo que nunca foi teoria, mas sim, dado cotidiano: “A gente já nasceu nessa crise”.

“Antes do termo virar moda – ‘mudança climática’ –, as vilas e favelas já vêm sofrendo com deslizamentos de terra, a questão do calor, várias coisas, e agora está se pensando por esse lado. É importante que se diga que a gente já nasceu na crise que não é nossa. Ninguém mora na favela porque quer. Isso já é desde sempre. A maioria das pessoas que moram em vilas e favelas aqui no Brasil veio pra trabalhar nas grandes construções e foi deixado de lado”, diz Júlio.

Foi dessa percepção que nasceu a COP das Quebradas, iniciativa que ele também idealizou. O arivista conta que há pouca conscientização ambiental nas favelas e comunidades, apesar da intensidade dos desastres climáticos. Para ele, esse é o primeiro passo em direção à mudança. “A ideia de criar a COP das Quebradas surgiu com esse desejo de mostrar o que as pessoas já vêm fazendo nas vilas e favelas no sentido de mitigar, mas também para apresentar esse fenômeno que são as mudanças climáticas para essas pessoas. Porque, querendo ou não, esse problema vai ficar para a próxima geração. E como essas pessoas vão lidar com o problema se elas não têm conhecimento de causa?”, questionou.

Júlio falava com a firmeza de quem conhece cada detalhe da realidade que descreve. O calor em vilas e favelas é dobrado, já que esses territórios são rodeados por grandes estruturas que concentram o calor no asfalto das comunidades. A chuva não traz alívio, mas som, mais preocupação. As casas não têm reboco, as lajes não têm revestimento, e os telhados são cheios de goteiras. “O barraco acaba virando uma esponja”, conta Júlio. A água da chuva, quando não causa inundações, intensifica o mofo e resulta em doenças respiratórias.

Para ele, a desigualdade com que o Estado lida com os impactos da crise climática em diferentes bairros da cidade é tão evidente quanto injusta: “Quando é no asfalto, se faz uma contenção de encosta, um jardim de chuva”, critica. “Quando é na favela, simplesmente põe cimento. A favela tem que ser pensada de acordo com a cidade formal”.

De uma semente, nasce um jardim

Após a entrevista, Júlio nos levou para conhecer uma cápsula do tempo: um espaço que já havia sido uma espécie de bota-fora, mas que estava sendo transformado em um jardim comunitário. Aos nossos olhos, era apenas uma parede colorida em grafite e concreto no chão. Mas Júlio enxergava ali a vida florescendo. Quatro dias após a nossa visita ao Papagaio, no dia 25 de novembro, o jardim foi inaugurado, brotando raízes de esperança.

Na volta, encontramos a senhora Rosimeire. Ela lembrava uma boneca namoradeira, assistindo com gosto à vida passar por sua porta da frente, entreaberta. Rosimeire se apoiava na entrada da casa, segurando em seus braços com firmeza o cachorro Beethoven. O pequeno animal não compartilhava do deleite de sua tutora: alerta, parecia vigiar cada passo na rua. Rosimeire nos fitou com graça jubilosa; já Beethoven, com suspeita. Sua casa era simples, de fachada singela, sem pintura. Ao fundo, reluzia uma modesta árvore de Natal, arrumada com carinho. O chão de ardósia verde aparentava ter sido encerado havia pouco tempo, refletindo a claridade do azul matutino. Ela nos contou que costuma dormir no piso de baixo. O segundo andar, explicou, é quente demais: “Eu durmo mais aqui, que é mais fresco”.

Rosimeire sorri para alguém fora da foto. Rosimeire é uma senhora negra. Seu cabelo está preso em um coque. Ela veste uma blusa esportiva azul e usa um par de brincos dourados. Ela carrega um cachorro da raça shih-tzu no colo, Beethoven. Beethoven tem a cabeça cinza e o corpo branco, e veste uma gravatinha verde.
Dona Rosimeire, moradora do Morro do Papagaio, segura seu cão Beethoven nos braços: habitantes de vilas e favelas sofrem com calor dobrado e com danos gerados por fortes chuvas às edificações. Foto: Taynara Rosa

Júlio, emissário, nos levou a Raquel Mattos. Ela é dona de um mercadinho e, com a ajuda de sua amiga Giselma, está transformando um simples depósito de lixo em algo especial. O espaço virou uma área preservada, com terra já cultivada para o plantio. O cantinho brilhava com os sonhos das duas vizinhas: além do projeto de horta, a ideia era pintar um mural e montar uma modesta biblioteca, onde os moradores poderão deixar livros e revistas para todos que passarem na esquina entre as ruas São Tomás de Aquino e São Sebastião.

Raquel nos contou que os impactos ambientais no Papagaio não são causados apenas por grandes tragédias sazonais. A construção desenfreada de prédios em bairros próximos ao Morro do Papagaio, além de ser responsável pela devastação ambiental dos arredores, constrói uma espécie de parede que cerca o Morro e dificulta que as casas na comunidade desfrutem do vento e das brisas. Além disso, a arquitetura das casas no aglomerado não ajuda na ventilação. “Aqui no Morro, as casas são aglomeradas mesmo. O nome é esse: aglomerado de casas”, disse.

Segundo Raquel, porém, os problemas vão muito além do calor: muitos moradores, principalmente crianças e idosos, acabam desenvolvendo problemas respiratórios. “Não só a criança, né? A família toda. O meu filho tem. A Valentina, não. Mas o Tiago tem alergia”, declarou.

Raquel, uma mulher parda, de expressão solene. Ela usa óculos e tem o cabelo castanho em tranças. Veste uma blusa verde, do mercado onde trabalha.
Junto com vizinha, Raquel Mattos idealizou jardim comunitário no Morro do Papagaio. Foto: Taynara Rosa

A falta de água potável também é uma realidade frequente para os moradores das favelas e comunidades. Nem todas as casas têm caixa d’água, o que dificulta a adaptação a períodos de seca. Mesmo quando há preparação, a situação é desestabilizadora. “Quando falta água, as crianças são liberadas mais cedo da escola. Aí a mãe está trabalhando… como vai receber a criança em casa?”, questionou Raquel.

Raquel defende que uma das consequências da injustiça climática é a dificuldade de acesso a alimentos de qualidade. Desastres como secas, enchentes e queimadas encarecem frutas e legumes, ingredientes que estão na base de uma alimentação saudável. Quando há aumento de preço, a população mais pobre não apenas perde acesso a esses grupos alimentares, como perde, também, a qualidade de sua alimentação. “Uma laranja, uma banana, uma maçã, o mais simples, né? Mas até isso não dá. O biscoito, que não é saudável, é mais barato”, conta a vendedora. Ela relata que, quando as escolas estão regularizadas, isso é um problema menor para a família, pois as crianças fazem as refeições lá. Mas, com a constante falta d’água, nem isso é uma certeza.

Foi a insatisfação diamte dessas injustiças o que a motivou a criar o jardim comunitário. Ela e a amiga, Giselma, moram perto do terreno e adotaram o espaço. A ideia era um lugar que abrigasse plantas de paisagem e plantas frutíferas, como uma horta, mas com uma função social adicional. O trabalho começou com ela, mas hoje a resistência climática faz parte do cotidiano das crianças do Papagaio, que ajudam no cuidado do cantinho. Ela abriu um sorriso: “Eu falo sempre que é um trabalho de formiguinha, né? Se cada um fizer um pouquinho, se cada um alcançar uma pessoa… imagina!”. 

Antes de depois de terreno onde foi instalado jardim comunitário no Morro do Papagaio. Foto: Reprodução/Google Maps

O orgulho e amor de Raquel pelo Morro do Papagaio são visíveis mesmo em seu respirar. Essa motivação é acompanhada de uma grave seriedade. “A favela não está preparada para isso”, declarou, honesta. “O mundo não está preparado, mas o impacto maior é dentro da favela, porque a gente não tem estrutura nenhuma, não tem ajuda. Aí você tem que escolher entre colocar comida no prato ou comprar alguma coisa para poder mitigar esses impactos”.

Uma vista panorâmica

Os moradores já entendem bem o cenário em que vivem. Leandro Letti, professor de Arquitetura e Urbanismo da PUC Minas Poços de Caldas, nos contou um pouco mais sobre a realidade urbana das periferias em uma perspectiva acadêmica.

Como explica Leandro, as periferias são constituídas por urbanização irregular, fundos de vale e topografia muito acidentada. Nestes lugares, são realizadas pouquíssimas obras de infraestrutura, como estabilização de encostas e drenagem pluvial. Geralmente, essas melhorias só são implementadas após a ocorrência de alguma tragédia, como deslizamentos.

As favelas e vilas nascem com frequência da ocupação de locais como fundos de vales e planícies de inundação, o que faz com que essas áreas sofram mais com alagamentos. A urbanização de áreas muito íngremes também intensifica os deslizamentos e desmoronamentos, em especial quando próximos de águas pluviais. A alta taxa de impermeabilização do solo, o adensamento construtivo e a utilização massiva de transporte movido a combustíveis fósseis resulta em graves ilhas de calor.

Para Leandro, todos esses problemas estão interligados: altas taxas de impermeabilização geralmente causam aumento da velocidade de escoamento e redução da infiltração das águas pluviais.

Vários telhados de casas no Morro do Papagaio. As casas são feitas de tijolos, e o telhado é fino. Apenas duas tem caixas d'água.

Taxa elevada de impermeabilização do solo, adensamento construtivo e utilização massiva de transporte movido a combustíveis fósseis são fatores que resultam em graves ilhas de calor em vilas e favelas. Foto: Taynara Rosa

Leandro defende que é importante planejar a ocupação de maneira mais eficiente. Determinadas áreas não devem ser ocupadas, mas sim, desenvolvidas. Bacias de retenção e contenção de águas pluviais, intervenções para reduzir o escoamento, como poços de infiltração e jardins de chuva, e criação de espaços verdes são essenciais no combate às mudanças climáticas na cidade. A arquitetura deve ser pensada conforme as características do terreno, almejando sempre a implementação de lajes filtrantes e captação de águas pluviais.

O crescimento desordenado normalmente ocorre em territórios destinados à população de baixa renda, que têm baixo valor de mercado e constituem áreas de risco, o que faz com que a população das periferias sofra mais com esse problema. Leandro lembra, porém, que as comunidades e periferias têm uma maior capacidade de organização e interlocução, o que não ocorre nas demais camadas sociais do país. É essencial que o poder público estabeleça canais de comunicação com as lideranças comunitárias. Essas lideranças, como Júlio Fessô, são essenciais para sintetizar e levar as tomadas de decisão da comunidade aos governantes.

Jardins e jardins na urbis

Os esforços de conscientização não se restringem ao Morro do Papagaio. O documentário Arrancados das Raízes, dirigido por João Victor Fagundes, retrata a realidade de desigualdade ambiental no bairro Ribeiro de Abreu. Fagundes, que foi morador do bairro a vida inteira, conta que ele e João Victor Vilete, amigo e roteirista do documentário, presenciaram em primeira mão a devastação causada pelas inundações do Córrego do Onça.

“Queríamos trazer as pessoas para a nossa realidade, uma realidade que está somente a 10km de distância do Centro de BH, mas que não era vista”, explicou Fagundes. O documentário foi a solução: o formato é acessível e de grande alcance. Arrancados das Raízes foi publicado no YouTube e já registra mais de 500 visualizações.

O cotidiano da comunidade do Ribeiro de Abreu se mesclava ao Ribeirão do Onça; em épocas de cheias, os moradores enfrentavam também o avanço da água em suas casas. Os entrevistados eram vizinhos e conhecidos de Fagundes e Vilete. Cada um com suas próprias experiências, concretizadas nas vivências conjuntas com o Onça. “Olhares individuais que se uniam num olhar coletivo, de ajudar os outros, num olhar de comunidade”, relata Fagundes.

Fagundes contou que os moradores se unem para reivindicar mudanças por parte da Prefeitura de Belo Horizonte desde 2007. A mudança é gradual, e nem sempre ideal. Para ele, porém, o mais importante é a conscientização. O documentário teve papel importante nesse diálogo, mas não foi o único fator. A motivação dos moradores e da comunidade para promover manifestações e eventos no bairro inspira essa mudança. “Ainda há muito o que melhorar, e estamos nesse processo, fluindo como o Ribeirão da Onça”.

A mão que rega os jardins

Enquanto as periferias da capital mineira e região metropolitana vivenciam a desigualdade climática, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente afirma que Belo Horizonte já possui uma série de iniciativas em curso para combatê-las. Esses projetos buscam prevenir desastres e reduzir a vulnerabilidade socioambiental da cidade, especialmente em regiões periféricas, historicamente as mais afetadas.

Uma rua asfaltada e suja de terra. Nela, avista-se um muro de tijolos, pertencente a uma pequena casa, lotado de roupas secando. Da rua, é possível observar a paisagem no Aglomerado da Serra: várias casas de tijolos, algumas pintadas. Elas estão empilhadas uma em cima da outra. Poucas árvores fazem parte da vista.
Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte, projetos e iniciativas em curso projetos buscam prevenir desastres e reduzir a vulnerabilidade socioambiental da cidade, especialmente em regiões periféricas. Foto: Valderci Damaceno

Por e-mail, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente declarou que Belo Horizonte atua de forma intersetorial, combinando legislação climática, obras estruturais, monitoramento meteorológico e resposta emergencial. A prefeitura destaca que o município possui duas políticas específicas para enfrentar a crise climática: a Lei Municipal nº 10.175/2011, que institui a Política de Mitigação dos Efeitos das Mudanças Climáticas, e a Lei Municipal nº 11.793/2024, voltada ao enfrentamento das emergências climáticas. Essas diretrizes orientam o Plano Local de Ação Climática (PLAC-BH), lançado em 2022, que reúne 88 sub ações de mitigação e adaptação.

No campo da prevenção direta, a Secretaria Municipal de Obras continua sendo responsável pelas intervenções estruturais, como obras de drenagem, contenção de encostas, ampliação da capacidade de escoamento da água pluvial e limpeza de bocas de lobo. A cidade conta também com um Plano de Contingência que define ações antes, durante e depois de eventos extremos. Essas ações incluem desde a emissão de alertas, atuação da Defesa Civil e evacuação de áreas de risco, até a comunicação com a população dos bairros afetados.

A Prefeitura informou ainda que as decisões de bloqueio de vias e mobilização das equipes seguem o Protocolo de Ação Integrada em Eventos de Chuva, acionado a partir do monitoramento meteorológico quase que em tempo real.

Sobre o amparo às comunidades após desastres, a Prefeitura destaca que a resposta é articulada com diferentes órgãos:

Além da resposta imediata, a Prefeitura destaca ainda iniciativas contínuas voltadas às comunidades vulneráveis, como ações de plantio, educação ambiental, recuperação de áreas degradadas e proteção de nascentes. Esses trabalhos também se articulam com o PEAR, que atua na redução de riscos estruturais e no fortalecimento da participação comunitária por meio dos Nudec e NAC, que operam diretamente nos territórios periféricos.

O dedo verde

O mais importante braço dos programas de manuseio de risco da prefeitura é o PEAR, Programa Estrutural em Áreas de Risco, iniciativa da URBEL. De acordo com relatório publicado em 2015, em 22 anos, o PEAR ajudou a reduzir o número de edificações em situação de alto risco em 89%, promoveu um aumento de 45% de áreas mapeadas e reduziu em 45% as edificações em risco.

Belo Horizonte é uma cidade cuja estrutura geológica é vulnerável aos deslizamentos concentrados. Além da grande presença de rochas de alta erodibilidade, vulneráveis ao escoamento torrencial concentrado, a cidade é composta por relevo acidentado, vulnerável ao tombamento de blocos. O PEAR tem papel ativo na prevenção de fatalidades nas comunidades em momentos de desastre ambiental, promovendo obras em locais de alto risco e removendo pessoas de moradias em situação de alto risco.

Apesar desses programas, nem sempre as periferias escapam das tragédias. Em janeiro de 2020, na Vila Bernadete, comunidade na região do Barreiro, as chuvas extremas em Belo Horizonte levaram sete pessoas à morte, soterradas após um deslizamento de terra e o desabamento de uma casa. De acordo com o G1, a tragédia também desabrigou 46 famílias.

Dani Amaral, coordenador especial adjunto de Mudanças Climáticas na PBH, nos ajudou a entender mais profundamente o papel da URBEL e da PEAR em tragédias como a da Bernadete. Ele conta que, quando a cidade enfrenta eventos de chuva extrema, como o que ocorreu na Vila Bernadete, as regiões mais sensíveis são priorizadas. Além disso, a URBEL sempre atuou com intensidade no bairro, desde antes dos deslizamentos, o que teria permitido mitigar os danos com maior agilidade.

Segundo Dani, o trabalho do órgão na Bernadete continuou depois do acontecimento. Hoje, a URBEL atua na recuperação e melhoria da qualidade ambiental. “Recentemente, a URBEL foi convidada até para apoiar um processo de plantio de horta e melhoria da qualidade de vida para a população do entorno”, conta Dani.

Essas ações dialogam com as intervenções propostas pelas pesquisadoras de Gestão Pública Ana Carolina Silva e Cristina Raposo em seu artigo apresentado no Simpósio Nacional de Inovação e Desenvolvimento Regional, em 2021. Elas argumentam que é necessário um esforço intenso de arborização e reinserção de rios na paisagem urbana em locais de risco. Sua metodologia de geoprocessamento determinou que as comunidades e favelas muitas vezes coincidem com as áreas geológicas mais vulneráveis da cidade.

Em outros jardins, há silêncio

A desigualdade climática não é um impasse apenas na capital mineira. Apesar da distância geográfica, a história de Adson Lauriano, morador da região metropolitana, não é diferente das histórias do Papagaio. Sua cidade, Sabará, enfrentou uma severa enchente em 2020. Na época, Adson perdeu a maior parte de seus bens, entre móveis, documentos e objetos de valor emocional, depois que a água invadiu sua casa. Desde então, o impacto das mudanças climáticas faz parte de sua rotina.

As perdas foram além do prejuízo material. Adson conta que as enchentes prejudicam seu trabalho e tiraram seu sono. Sempre que a chuva aperta, ele adere a um estado constante de alerta. Cada batuque de gota na janela é uma memória da tragédia.

Após o desastre, ele recebeu apenas um auxílio emergencial do governo. A ajuda foi demorada e, segundo Adson, pouco volumosa. Em seu bairro, obras de drenagem são prometidas há anos, mas quase nada sai do papel. Mesmo participando de reuniões comunitárias, o morador de Sabará diz que a sensação é de que pouca coisa muda. A Defesa Civil já classificou a área onde mora como zona de risco, e essa notificação fez a família considerar mudar de casa.

“Já pensei várias vezes, mas nem sempre existe para onde ir”, explicou Adson. Para enfrentar as chuvas fortes, ele tenta se prevenir como pode, acompanha previsões, levanta objetos importantes e usa sacos de areia para ajudar na contenção da água.

Ainda assim, o medo de uma nova tragédia permanece. A superação, segundo ele, foi um processo lento, marcado por desânimo, limpeza pesada e reconstrução gradual. O apoio de familiares, de vizinhos e da comunidade foi essencial para seguir em frente: “A gente aprende a ser forte porque não tem muita escolha”.

As outras mãos

Em Belo Horizonte, a manutenção e monitoramento das zonas mais vulneráveis é regida pelo PEAR. Mas e na região metropolitana? Maria da Glória, superintendente do Programa Vilas, Favelas e Periferias da Prefeitura de Contagem, contou-nos um pouco sobre as estruturas vigentes na cidade.

Ela explica que, embora o clima afete todas as regiões, as periferias são mais vulneráveis por causa da ocupação desordenada e da falta de infraestrutura, o que aumenta o risco de inundações, deslizamentos e outros desastres. O governo de Contagem desenvolve programas nas comunidades para enfrentar esses impactos.

Ainda segundo Maria, Contagem conta com o Programa Vilas, Favelas e Periferias, que envolve todas as secretarias da cidade. A iniciativa integra ações de saúde, educação, infraestrutura, segurança e manutenção, garantindo atendimento contínuo às áreas mais frágeis da cidade.

Um funcionário da prefeitura vestindo um colete vermelho vibrante avalia o estado de uma casa de tijolos. A casa é rodeada por árvores e mato. Essa cena é vista pelo buraco de uma janela.
Em Contagem, o Programa Vilas, Favelas e Periferias integra ações de saúde, educação, infraestrutura, segurança e manutenção, com o objetivo de garantir atendimento às áreas mais vulneráveis da cidade. Foto: Reprodução/Flickr PBH

Segundo Maria, a Defesa Civil analisa fatores geológicos, hidrológicos e as condições de ocupação do solo para mapear as zonas de risco. Esses critérios definem as áreas prioritárias e orientam as intervenções públicas, em um método que se assemelha à ação da URBEL na capital.

Ela explicou que as mudanças climáticas das últimas décadas exigem planejamento antecipado e respostas rápidas. Cada secretaria precisa ter um plano de ação para minimizar os danos causados por eventos extremos, que hoje são mais frequentes. Os moradores das regiões mais vulneráveis não são excluídos desses processos. Cada comunidade elege um representante em conselhos setorizados, que estão sempre em diálogo com os trabalhadores da prefeitura. Esse modelo fortalece a participação popular e ajuda a garantir que as demandas reais das comunidades cheguem ao poder público.

E agora?

Trilhamos um caminho árduo em nossa busca por terra, sementes e jardins. A Prefeitura de Belo Horizonte desenvolve uma gama de projetos voltados à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e dos desastres causados por elas. No entanto, o trabalho desenvolvido pela PBH com a URBEL não é suficiente para combater as condições extremas.

Nesse contexto, a COP das Quebradas é uma importante iniciativa de combate à desigualdade climática – e há outras engrenagens em funcionamento. Mas, como mostram os relatos de moradores e ativistas ambientais do Morro do Papagaio ouvidos por esta reportagem, muito ainda precisa ser feito para garantir vida digna nos territórios periféricos de Belo Horizonte.

Basta alguns tufos de grama para combater o calor? Basta um biscoito de almoço? Basta alocar famílias vulneráveis em condomínios distantes de seus parentes e companheiros? “No Sion, tem um prédio maravilhoso, e, na frente do prédio, tem uma praça excelente, com playground, brinquedos para as crianças, árvores, academia da cidade, fonte de água para as pessoas beberem. Por que lá se faz um espaço climático e não tem um aqui?”, questiona Giselma, moradora do morro do Papagaio.

Um mural pintado em uma parede no Morro do Papagaio. O mural é verde, e abaixo dele estão várias sacolas de lixo e caixas de papelão. No mural, está escrito: "O que podemos fazer para deixar a nossa comunidade limpa e organizada: colocar o lixo no horário ou à noite; colocar o lixo de segunda a sábado; colocar o entulho ensacado; colocar lixos ensacados; não rasgue o lixo."
De jardins comunitários à COP das Quebradas, territórios periféricos de Belo Horizonte abrigam pulsante cenário de ativismo socioambiental. Foto: Taynara Rosa

No Papagaio, os adultos se juntam para criar jardins. As crianças lutam pela sobrevivência de cada folha de grama. Júlio cria um evento de proporções nacionais. No mormaço do asfalto, Raquel e Giselma constroem hortas, praças, bibliotecas. No Ribeiro de Abreu, a comunidade se une para reivindicar seus direitos. Entre enchentes do Onça, João Victor Fagundes e Vilete lançam um filme. A chuva castiga, mas Adson ainda encontra sol. Esse impulso incansável dá origem a uma majestosa mangueira, cuja sombra é refúgio em meio à dificuldade. Entre seus galhos, papagaios cantam. É assim que se planta ação.

Reportagem desenvolvida por Arthur Tadeu, Carolina Gouvêa, Raquel Maria, Taynara Rosa e Valderci Damaceno para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital, da PUC Minas, sob supervisão da profa. Nara Scabin, no 2º semestre de 2025.

Colab PUC Minas

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