O Brasil é um dos países mais violentos do mundo para as pessoas LGBT+1. Conforme o Grupo Gay da Bahia, foram registradas 257 mortes violentas dessa parcela da população em 2025. É uma morte a cada 34 horas. Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (ABSP) indica que, entre 2024 e 2025, houve aumento de 35,6% nos casos de homofobia ou transfobia. Incluindo também, no mesmo relatório, um avanço de 7,3% nos casos de lesão corporal dolosa contra LGBTQIAPN+.
No mesmo território, o futebol, considerado uma paixão nacional, “ainda é o lugar onde muitos homens constroem suas identidades e masculinidades e que também muitas mulheres entendem não ser um espaço para elas”, problematiza a jornalista Ana Júlia Amorim, que é pesquisadora de estudos sobre gênero, homofobia e futebol na internet.
“Os homens precisam entender que é possível viver em um mundo em que mulheres também jogam, em que outros corpos possam existir, praticar e torcer, que o futebol seja para todos, e que isso não fere a masculinidade deles”, defende Ana Julia Amorim.
No artigo “O árbitro Igor Benevenuto e a saída do armário no futebol”, publicado em 2024 na revista científica Dispositiva, a pesquisadora Ana Júlia Amorim investiga a repercussão de um episódio do podcast Nos armários do futebol. No conteúdo, aborda o debate público promovido após Igor Benevenuto se assumir gay e falar dessa experiência no esporte. No artigo, Ana Júlia explica que a homofobia e a misoginia são formas de preconceitos que se complementam e não andam separadas dentro da categoria esportiva. “Ao debochar de Benevenuto, o usuário aproxima gays e mulheres e explicita que, no futebol, não há espaço para nenhum dos dois grupos”, escreve.
Para a pesquisadora, a construção da identidade masculina homofóbica e misógina no futebol nasce da naturalização de comportamentos permitidos e incentivados na infância. “A naturalização de piadas, do incentivo à violência entre meninos como método de solução de problemas e da violência de meninos contra meninas, todos esses mecanismos têm uma função pedagógica de ensinar aos homens um único tipo de masculinidade”, aponta Ana Júlia.
Alianza Minas: um time LGBT+
O Alianza Minas é um time de Fut7 LGBT+ fundado em 2024 a partir da “aliança” entre três outras equipes da mesma categoria, que foram idealizadas por atletas da comunidade que sentiam medo de se expor e sofrer preconceito em equipes heteronormativas.
O Fut7 é uma modalidade de futebol praticada em quadras de grama sintética com duas equipes de sete jogadores cada. A equipe acolhe ex-atletas e amantes do esporte que querem um espaço seguro para jogar.
“Foi a fusão de três equipes LGBT de Belo Horizonte. Nós entendemos que separados não conseguiríamos atingir nosso objetivo, que era se tornar uma equipe altamente competitiva” – Alysson Costa, presidente do Alianza Minas.
Durante a produção da reportagem, o Colab acompanhou a estreia do Alianza Minas na Copa MT Ousadia contra a equipe Cabral FC. A copa é um campeonato amador de Fut7 masculino disputado na região metropolitana de Belo Horizonte.
O escudo da equipe carrega tanto a bandeira do arco-íris, que é a mais popular da comunidade LGBT+, quanto a bandeira rosa, azul e branco, que remete aos homens e às mulheres transgênero. O presidente do Alianza Minas, Alysson Costa, 36 anos, afirma que a escolha dos símbolos é proposital, já que o Alianza Minas tem no seu plantel atletas gays, héteros e transgêneros.
Além das bandeiras, o escudo também possui uma fênix dourada de asas abertas. “Uma fênix, para nós, tem exatamente o significado dela. Renascimento das cinzas, jamais desistir, sempre ressurgir das cinzas”, explicou Costa.
O pernambucano Robson Lima, 37, é capitão do Alianza Minas e ex-atleta de futebol de base com passagens pelo Sport e Náutico. Ele se mudou para Minas Gerais depois da perda da mãe, que realizou o sonho de ver o filho jogar futebol de base profissional, mesmo que por pouco tempo. “Eu perdi a alegria de jogar futebol”, diz, referindo-se à época da morte da mãe.
Ao chegar em Belo Horizonte, Lima se afastou dos gramados, começou a trabalhar e perdeu a alegria ao jogar bola. Na tentativa de retornar ao esporte, sendo um homem gay, deparou-se com um ambiente machista e homofóbico. “Eu estava quase sendo obrigado a apresentar uma namorada. Estava em uma situação que não fazia sentido eu estar ali, essa pressão psicológica me fez desanimar um pouco do futebol”, desabafou.
“Eu chegava no jogo e me perguntavam: ‘cadê a namorada do Robson? Deixa eu trazer minha cunhada para te conhecer?’ Eles não procuravam me conhecer para saber quem eu era de fato. Então, isso me fez dar uma desanimada total do futebol” – Robson Lima, hoje capitão do Alianza Minas.
Para a pesquisadora Ana Júlia Amorim, a homofobia vem sempre acompanhada de misoginia, porque “o preconceito é construído na ideia de que os homens homossexuais, especialmente, por não performarem um padrão de masculinidade, podem ser comparados com mulheres e, para a lógica da heteronormatividade, a mulher está sempre nesse lugar de inferioridade”, defende.
Lima voltou a jogar quando um colega que fazia parte de uma equipe LGBT+ o convidou para compor o time. De início ele ficou em dúvida se participaria. Como sempre enxergou o futebol como um esporte competitivo, acreditava que a equipe pudesse ser meramente inclusiva. Porém, surpreendeu-se ao encontrar um ambiente melhor do que imaginava. “Eu não perdi mais essa alegria de jogar. O futebol LGBT, de fato, trouxe todo o espírito que eu sempre tive, mesmo que não seja profissional.”
“Vou (para) fazer um teste, ver como era, e nunca mais saio […]. Então, estar aqui hoje no Alianza [Minas] disputando um campeonato hétero, eu estou duplamente feliz. Uma, por estar jogando futebol, que eu sempre quis, e outra, por estar com os meus amigos, com as pessoas que me apoiam”, celebra Robson Lima.
“Não existia ambiente para mim”
Nicole Rose, 41, é uma mulher trans que dedicou a vida ao futebol. Aos 21 anos, pouco antes de fazer sua transição, chegou ao futebol profissional. Mas decidiu largar o esporte para poder assumir a orientação sexual. “Minha vida mudou, e na época não existia equipes LGBT ainda”, relembra a ex-atleta e, hoje, técnica do Alianza Minas.
A treinadora reconhece que não havia espaço para ela, como atleta no futebol profissional, por isso deixa de praticá-lo. Na visão da pesquisadora Ana Júlia Amorim, o preconceito trabalha desde a infância tentando ensinar meninas e meninos que existem “tipos de masculinidade e de exigirem também uma performance das mulheres”.
“Eu fiquei 11 anos sem jogar futebol, porque não existia ambiente pra mim”, declara Nicole Rose.
Segundo a pesquisadora, o preconceito acontece na “ambiência futebolística”, seja nos jogos, nos treinos, seja nos espaços de visibilidade do esporte. Na visão dela, isso torna a homofobia, a transfobia e o machismo natural. “Essa cultura masculinista culmina na persona do jogador de futebol como uma referência de homem, um modelo a ser seguido que carrega valores, crenças e determina as normas”, define a estudiosa.
Apesar de o futebol ainda ser um espaço hostil para pessoas LGBT+, com o preconceito velado e ataques homofóbicos diretos, Alysson Costa declara que, para além do objetivo inicial de inclusão social por meio do futebol, os atletas querem competir. “O projeto do time é tornar a equipe altamente competitiva, [para] competir em alto nível em qualquer campeonato que estivermos”, diz.
O Futebicha
Desde maio do ano passado, quando Carlo Ancelotti foi contratado pela Seleção Brasileira, Lorenzo Porto produz conteúdo sobre futebol, misturando o universo esportivo à cultura pop, especialmente, às divas pop. O resultado é, pelas palavras dele, um jeito de falar sobre futebol para mulheres e gays.
A proposta de produzir conteúdo voltado para mulheres e gays surgiu justamente da percepção de que havia espaço para falar do esporte a partir de uma perspectiva que normalmente não aparece nos discursos tradicionais sobre futebol. “Eu decidi usar divas pop para um público gay, que eu falava de um jeito gay — ou de um jeito muito gay”, afirma.
A estratégia também acabou criando uma via de mão dupla. Porto relata que recebe comentários de pessoas dizendo que utilizam seus vídeos para compreender melhor referências da cultura pop. Ao mesmo tempo, o futebol passa a ser apresentado para um público que talvez não se reconheça nas formas tradicionais de comunicação esportiva. “Ambas as partes conseguem entender a superficialidade, tanto da diva do momento ou do momento do clube, quando é o contrário”, explica. Porto diz que a presença de pessoas LGBTQIAPN+ no futebol não deve ser vista como algo meramente simbólico.
“O espaço é hostil mesmo, machista, homofóbico, mas eu acho que, a partir do momento que tem esses corpos ocupando esse espaço, a gente consegue ter uma noção maior de como esse espaço é hostil ou não”, afirma Porto.
Para o influenciador, a violência e a exclusão presentes nas arquibancadas não estão dissociadas da história do próprio futebol. “Acho que se torna hostil porque a gente tem que pensar como o futebol foi construído”, afirma Porto. A trajetória do esporte, segundo ele, ajuda a explicar por que determinados corpos e identidades ainda encontram resistência para ocupar um espaço historicamente associado à masculinidade. “As mulheres demoraram a ter espaço também”, lembra. Porto sofreu um ataque homofóbico coordenado pela torcida organizada do Palmeiras em abril de 2025. “Foi um divisor de águas. Quando a gente sofre um ataque, quer dizer que a gente está fazendo um bom trabalho”, conta.
Torcedores combatem a homofobia
A avaliação da hostilidade no futebol é compartilhada pelo jornalista Onã Rudá, consultor de diversidade e fundador do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+. Para ele, o futebol não nasceu necessariamente preconceituoso, mas foi atravessado por uma cultura que, ao longo do tempo, estabeleceu quem poderia pertencer àquele lugar e de que maneira. “O que torna o espaço futebolístico hostil ao público LGBT+ é a cultura que foi estabelecida nesse ambiente. O futebol não nasce sendo um esporte preconceituoso na sua essência”, aponta.
A pesquisadora Ana Júlia Amorim também argumenta que a cultura racista e machista se manteve ao longo da história do esporte. “A própria Seleção Brasileira, que hoje é marcada por grandes ídolos negros, teve a presença [antes da Copa de 1938] de apenas dois atletas negros, o Fausto e o Leônidas da Silva. E aí as mulheres, na mesma linha, só puderam jogar futebol sem serem agredidas ou até presas, lá em 1983”, relembra. Ela finaliza enfatizando os “pactos de masculinidade” presentes na cultura. “E pode-se dizer que na ambiência futebolística, a discussão sobre a homofobia assume um caráter mais superficial, mascarado por opiniões, piadas e regras internas que foram institucionalizadas quase como leis”, afirma.
Os programas esportivos, as mesas de debate e até a maneira como se fala sobre futebol nas plataformas passaram a reproduzir determinados padrões de comportamento. Segundo Ana Júlia Amorim, a forma como a discussão se perpetua nas mídias precisa ser corrigida para impedir uma continuação da homofobia. “ [A] reprodução do fato, apenas com intenções de impacto midiático, sem crítica e construção, só vai transformar violências em espetáculo para as redes.”. Para ela, é nesse cenário que a presença LGBT+ deixa de ser apenas uma questão de visibilidade e passa a representar também uma disputa pelo direito de ocupar um espaço que, historicamente, nem sempre esteve aberto a todos.
O movimento das torcidas
A experiência pessoal de Rudá ajuda a dimensionar a relação afetiva com o futebol. Aos 9 anos, ele foi pela primeira vez a um estádio acompanhado do pai. Na Fonte Nova, assistiu a um jogo do Bahia e viu atuar o goleiro Emerson Ferretti, que anos depois se tornaria um dos poucos ex-jogadores brasileiros de destaque a assumir publicamente a homossexualidade. Posteriormente, Ferretti tornou-se presidente do clube.
Rudá associa a ocupação do espaço futebolístico à necessidade de transformar a cultura que sustenta o esporte. “Dentro da cultura precisa mudar a própria cultura”, resume. Para ele, não basta criar campanhas pontuais ou permitir que determinadas pautas apareçam ocasionalmente. A mudança precisa alcançar quem está diretamente ligado à formação cotidiana do futebol, especialmente os clubes e as torcidas.
Rudá integra o LGBTricolor, a torcida LGBTQ+ do Bahia. Segundo ele, grupos formados por torcedores LGBTQ+ ganham outra dimensão, pois são movimentos que procuram disputar o futebol a partir de dentro, sem necessariamente reproduzir a estrutura das torcidas organizadas tradicionais. “As nossas torcidas não são torcidas organizadas. Nós movimentamos a pauta em torno dos clubes. Torcidas organizadas estão em outro espectro”, explica Rudá.
Na visão dele, as chamadas torcidas-movimento têm como objetivo articular pautas relacionadas à diversidade no futebol, enquanto as torcidas organizadas possuem outra estrutura e forma de atuação.
“Quem lida com o grosso do futebol, que são as torcidas, são os clubes. São eles que precisam trabalhar essa temática junto com suas torcidas. Se eles não entrarem no ‘game’, vai ficar muito difícil” – Onã Rudá.
Essa distinção também ajuda a compreender as dificuldades enfrentadas por esses grupos. Rudá afirma que torcidas organizadas tradicionais muitas vezes evitam se posicionar publicamente ao lado de bandeiras LGBTQ+ por receio de se tornarem alvo de piadas ou rejeição. “As torcidas organizadas brasileiras têm medo de se colocar ao lado de bandeiras LGBT e virar ‘chacota’”, diz.
Resistência continua
Ao longo da história do futebol brasileiro, diferentes grupos LGBTQ+ surgiram para ocupar as arquibancadas e construir espaços de pertencimento. Lorenzo Porto cita a Coligay, torcida do Grêmio formada por torcedores homossexuais na década de 1970, como um dos exemplos de organização e representatividade no futebol.
Porto afirma que a existência desses grupos demonstra que a presença LGBT+ no esporte não é uma novidade criada pelas discussões atuais sobre diversidade. Segundo o influenciador, esses grupos integram a própria história, ainda que muitas dessas experiências tenham sido interrompidas ou apagadas. “Existem essas histórias, mas foram interrompidas porque as pessoas perderam força”, lamenta.
Jornalismo em campo
Ao analisar em um artigo acadêmico o caso em que o árbitro Igor Benevenuto se assume gay, a mestranda Ana Julia Amorim faz referência a um dos episódios do podcast do Globo Esporte, Nos Armários de Vestiários. O mesmo produto jornalístico também entrevistou e contou, em outro episódio, a história de Emerson Ferretti. Ele é, justamente, o goleiro do Bahia que Rudá viu jogar pela primeira vez na Arena Fonte Nova, muito anos antes dos dois se assumirem.
Além disso, Nicole Rose, treinadora do Alianza Minas, também participou do podcast para contar parte da sua história no episódio “Masculinidade Utópica”. A convergência entre atores que lutam contra a homofobia no futebol em um mesmo podcast de jornalismo esportivo traz questões sobre o papel da mídia no combate ao preconceito. A reportagem produzida pelos jornalistas Joanna de Assis e William de Lucca, publicada em 2022, é um dos poucos casos em que o jornalismo esportivo brasileiro investiga e discute a homofobia no futebol nacional.
“Não podemos só reproduzir o discurso de ódio de maneira acrítica, como tem acontecido em notícias que trazem episódios de homofobia e machismo no futebol” – Ana Júlia Amorim sobre o papel do jornalismo no combate à homofobia e misoginia.
Na visão de Ana Júlia Amorim, o jornalismo precisa atuar no combate ao preconceito dentro da cultura futebolística. Segundo ela, os jornalistas devem trazer fontes especializadas no tema para aprofundar e problematizar o debate, impedindo assim uma discussão muito superficial sobre o assunto.
“Isso transforma episódios que parecem isolados em um real problema social, cultural e institucional, permitindo que o jornalismo aponte os responsáveis e as soluções para isso”, diz. E completa: “Não podemos só reproduzir o discurso de ódio de maneira acrítica, como tem acontecido em notícias que trazem episódios de homofobia e machismo no futebol”.
Para ela, a falta de método ao noticiar casos de homofobia no esporte é prejudicial para a luta que os atletas do Alianza Minas continuam a travar no seu cotidiano. “Tratar o tema da homossexualidade como algo secundário, que não precisa ser noticiado, é mais uma tentativa de colocar essas pessoas no armário novamente, para que elas vivam sob restrições e totalmente invisibilizadas”, conclui.
Leia também:
As consequências do machismo presente no futebol
- Ao utilizar a sigla “LGBT+”, a reportagem preferiu manter as diferentes denominações usadas pelas organizações. Utilizamos então, as siglas de acordo como cada personagem ou coletivo se autodeclara. ↩︎
Esta reportagem foi produzida pelos monitores Davi Tufic e Gabriel Germano.
