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Uma mâe e seus dois filhos olhando para um celular
A psicóloga Fernanda Rivello enfrenta o desafio de impedir a exposição precoce dos filhos nas plataformas

Adultização chama atenção para perigo de antecipar experiências

Especialistas defendem regulação midiática e alertam sobre riscos da exposição precoce de crianças e adolescentes nas plataformas digitais

O termo adultização voltou a ganhar força nas redes sociais e na imprensa recentemente, após a publicação do vídeo “Adultização”, do youtuber e humorista Felca, no início de agosto. Com mais de 50 milhões de visualizações e 281 mil comentários, o conteúdo reacendeu debates sobre a exposição precoce de crianças e adolescentes no ambiente digital, questionando práticas que podem comprometer o desenvolvimento emocional e social das novas gerações.

print do vídeo do influenciador Felca
Vídeo foi publicado no início de agosto | Reprodução | Youtube

Após a viralização do vídeo, pelo menos 24 novos projetos de lei relacionados à adultização e à proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais foram apresentados na Câmara dos Deputados no dia 11 de agosto. No vídeo, publicado em 6 de agosto, Felca critica os chamados “coaches mirins”, jovens que compartilham dicas financeiras e de investimentos online, e questiona pais que permitem a exposição dos filhos em conteúdos que ultrapassam os limites da infância. Um dos trechos mais comentados mostra um adolescente afirmando que a escola “atrapalhava seu desenvolvimento” levantando reflexões sobre o papel dos adultos na educação digital das crianças.

Para especialistas, esse debate não se limita a casos isolados como o de Hytalo Santos, citado no vídeo. Requer uma discussão mais ampla sobre direitos da infância e adolescência, ética digital e os limites entre entretenimento e exploração infantil.

O que é adultização e por que preocupa

Segundo Fernanda Martins de Oliveira Rivello, psicóloga clínica especializada no atendimento infantil, adultização é o processo em que crianças e adolescentes passam a adotar comportamentos, responsabilidades ou aparências que não correspondem à sua fase de desenvolvimento. Esse fenômeno pode ocorrer por diferentes fatores, incluindo as dinâmicas familiares e a influência das redes sociais, que muitas vezes promovem padrões estéticos, atitudes e valores voltados para o universo adulto.

A psicóloga e educadora digital Nay Macêdo, especialista em proteção infantojuvenil, detalha os impactos neurocientíficos da adultização. “Adultizar é como pressionar a criança a carregar uma mochila de adulto, sem que ela tenha força ou recursos internos para isso. Do ponto de vista neurocientífico, isso significa impor demandas a um cérebro que ainda está em maturação, principalmente no córtex pré-frontal, responsável por planejamento e autocontrole. Exigir funções adultas de uma estrutura que ainda não está pronta aumenta a chance de sofrimento emocional e falhas de autorregulação.”

Fernanda Rivello acrescenta que pular etapas importantes da infância pode provocar quadros de ansiedade, baixa autoestima, dificuldades de relacionamento, depressão ou distúrbios alimentares. Ela recomenda supervisão ativa, diálogo constante e acordos claros sobre o que é saudável e seguro para cada faixa etária.

Sinais de adultização

Nay Macêdo alerta para alguns sinais comuns de adultização, como preocupação exagerada com aparência, irritabilidade e excesso de responsabilidade. “Quando a criança é constantemente cobrada a ‘ser forte’, a ‘não chorar’ ou a se virar sozinha, ou quando assume responsabilidades incompatíveis com a idade, há perda da espontaneidade, pressão estética e desempenho antecipado, tudo isso compromete a saúde emocional e o desenvolvimento cerebral.”

Regulação das plataformas digitais

A discussão sobre adultização envolve diretamente as plataformas digitais, que lucram com a maximização do tempo de uso, inclusive de crianças e adolescentes. Emanuella Halfed, analista de Relações Governamentais do Instituto Alana, ressalta que a regulação é essencial: “Não se trata apenas de reagir às denúncias, mas de ter uma atuação proativa das plataformas, coibindo conteúdos inadequados e protegendo crianças e adolescentes de forma efetiva.”

Ela explica que a regulamentação vai além de restringir conteúdos problemáticos: envolve estabelecer mecanismos claros para impedir que práticas comerciais coloquem em risco a infância. Emanuella destaca que o PL 2628/2022, conhecido como ECA (Estatuto da da Criança e do Adolescente) Digital, representa um avanço importante, pois proíbe a monetização de conteúdos que adultizam crianças e adolescentes e obriga as plataformas a prevenir violações de direitos, assédio e violência.

“O projeto garante que as empresas assumam responsabilidades concretas, em vez de dependerem apenas de autorregulação ou denúncias pontuais. É uma forma de exigir transparência, moderação adequada e proteção real para os mais jovens”, reforça Emanuella.

Ela também enfatiza que a atuação da sociedade civil é importante, pois tem o papel de acompanhar, fiscalizar e pressionar por políticas públicas que priorizem os direitos infantis. ‘‘A combinação de leis, regulação ativa das plataformas e mobilização social é o que pode reduzir a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos nocivos”, defende Emanuella. 

A integrante do coletivo Intervozes Ramênia Vieira, que é jornalista especializada em Gestão de Políticas Públicas, reforça que a “regulação das plataformas digitais significa estabelecer regras claras de responsabilidade e transparência para empresas como Instagram, TikTok e YouTube. Combater a exposição precoce a conteúdos adultos, sexualizados ou violentos depende de que essas plataformas deixem de priorizar apenas interesses comerciais e assumam compromissos com direitos humanos”.

Segundo Ramênia, os coletivos de comunicação, como Intervozes e Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), defendem diretrizes centrais que envolvem proibição do perfilamento de dados para fins comerciais, transparência nos sistemas de recomendação algorítmica, fortalecimento de órgãos de fiscalização e investimentos em educação midiática.

O objetivo não é restringir o acesso, mas criar um ambiente digital saudável, que respeite a diversidade, a privacidade e a segurança dos mais jovens”, esclarece Ramênia

Projetos de lei

Sobre os projetos de lei em tramitação, Ramênia informa que “o PL 2628, sobre proteção de crianças e adolescentes online, traz avanços importantes. Mas há o risco de que as propostas se tornem tímidas diante da pressão econômica. Precisamos de legislação que vá além da autorregulação das empresas e imponha obrigações reais, como transparência, mecanismos de moderação responsáveis e proibição de práticas abusivas”.

A especialista reforça que denúncias de influenciadores, como Felca, ajudam a ampliar o debate público, pois, “muitas vezes, casos que afetam milhares de famílias só ganham visibilidade quando influenciadores relatam suas experiências ou denunciam falhas das plataformas. Isso não substitui a ação do Estado, mas fortalece o diálogo e pressiona empresas e autoridades.

Ramênia defende como caminho possível uma combinação de medidas: regulação robusta das plataformas, fortalecimento da educação midiática, apoio a programas de bem-estar digital para famílias e integração de ações de órgãos como Ministério da Educação, Ministério dos Direitos Humanos, Ministério Público e ANPD. ‘‘O Brasil tem a oportunidade de ser referência internacional nesse debate, conciliando liberdade de expressão com o dever de proteger crianças e adolescentes contra práticas abusivas.” 

Pornografia e sexualização

Outro aspecto da adultização é a exposição precoce a conteúdos pornográficos. A professora e pesquisadora de Psicologia Márcia Stengel, da PUC Minas, que é doutora em Ciências Sociais pela UERJ, observa que a primeira exposição geralmente ocorre entre 12 e 13 anos, mas há casos de crianças entre 8 e 10 anos expostas a conteúdos sensíveis.

“Mesmo que não envolva relação sexual, o contato precoce com conteúdos adultos pode estimular comportamentos e expectativas que não correspondem à fase de desenvolvimento da criança”, explica.

A professora explica que educação digital adequada e orientação familiar são essenciais para prevenir impactos na vida afetivo-sexual e na construção da identidade dos jovens.

Educação midiática e presença familiar

Especialistas defendem a educação midiática como ferramenta para proteger crianças e adolescentes. Fernanda Rivello explica que ela ajuda jovens a interpretar criticamente conteúdos digitais, identificar padrões nocivos e tomar decisões conscientes. 

Nay Macêdo diz ainda ser “importante priorizar a espontaneidade da criança, a adequação do conteúdo à idade, a proteção da privacidade e a ausência de exploração. Sexualização, sobrecarga emocional, ridicularização ou pressão estética antecipada comprometem o desenvolvimento natural e transformam a infância em espetáculo”.

No cotidiano, estabelecer limites claros e afetivos é essencial. Fernanda, que tem dois filhos entrando na adolescência, compartilha que em sua família há acordos sobre tempo de uso de tela, tipos de conteúdo e momentos sem tecnologia, como durante refeições e antes de dormir. Atividades fora das telas, como esportes e convivência com amigos e familiares, também são incentivadas.

 “Colocar limites não é punição, é cuidado. A adultização muitas vezes acontece de forma silenciosa, e o olhar atento dos adultos é essencial para proteger o desenvolvimento emocional e social dos jovens”, finaliza a especialista.

Reportagem: Izabella Gomes 
Edição: Professora e jornalista Fernanda Sanglard

Izabella Gomes

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