A cinco meses das eleições, Lula não pode mais se manter no balanço político com escolhas concessivas ou jogos atrás das cortinas. É chegada a hora de assumir a capa de herói faminto por justiça que parte da esquerda gosta de pintar, mas, acima de tudo, entender que o governo de centro-esquerda, centro, ou o que quer que seja, não vai ser suficiente para destronar os barões do champanhe, de terno e escala 3×4. Ele se encontra entre a biografia de operário da política ou político dos operários. Os dois biografados não cabem mais juntos. A extrema-direita não teme mais, e o centrão está sentindo gosto de poder como as piranhas sentem de sangue gotejante.
Quatro anos se passaram e os jogos de poder que acontecem na república desde seu nascimento mais uma vez fazem de palco a paciência do trabalhador. O homem ou mulher cansados de trabalhar oito, nove, doze horas por dia lê as notícias sobre uma “derrota histórica que não acontecia desde 1894” e se pergunta: “o que eu tenho a ver com isso?”. Os trabalhadores se indagam por que reconhecem que esses ritos já não passam de teatros dissociados das dores materiais vivenciadas por eles, dia após dia.
Pela primeira vez, desde o marechal Floriano Peixoto, que foi nosso segundo presidente da República, uma indicação do Planalto não era negada pelo plenário do Senado. É um espaço de 132 anos; isso não é pouca coisa para abrir precedente. Mesmo com votações apertadas, este acordo invisível era cumprido.
A rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado por Lula à vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), tem um peso concreto nas guinadas que as eleições tomarão, possivelmente deixando mais uma vaga no Judiciário para ser indicada pelo governo seguinte. Isso, é claro, se Lula não tentar indicar apressadamente um nome que passe no Congresso antes das eleições, em um calendário bem apertado, sem a benção de Alcolumbre. Improvável.
A possibilidade de manter esta vaga em aberto para o próximo governo indicar é uma vontade dos apreciadores do filho 01. O tema foi amplamente discutido pelos senadores que votaram contra Messias durante a sabatina, e que aguardam ansiosamente por um governo Bolsonaro 2.0 para fazerem o que bem entenderem da república a partir das emendas caçadas por Dino. A briga pelo Senado, que renovará 70% dos seus parlamentares, é central na construção do país e objetivo inegável da extrema-direita para impeachamar ministros do STF.
Steven Levitsky, professor de Ciência Política da Universidade Harvard e coautor do livro Como as Democracias Morrem, já havia avisado lá atrás como não só ataques sutis e sistemáticos às instituições eram capazes de enfraquecer uma democracia, mas também como a disrupção de acordos invisíveis pode ser responsável por, aos poucos, destruir uma república.
Assim, podemos somar mais uma derrocada dos pesos e contrapesos que guiam e controlam as forças da nossa democracia liberal desde a redemocratização. A tentativa de golpe de Estado, as 129 milhões de suspeitas STFianas, o caso Master coordenado pelo banqueiro anfitrião de corruptos, o resort antirrepublicano, a fraude do INSS, Faria Limers fechados com o PCC, entre outros escândalos protagonizados pelo sistema neoliberal vigente insistem em favorecer deliberadamente as elites, os corruptos e aqueles que não tomam o lado da democracia.
Lula já demonstrou em outras ocasiões que pode, sim, se construir um país capaz de combater suas desigualdades a partir da política. Ele mesmo já passou muito tempo preocupado e devotado a fazer alianças para conversar com o centrão na tentativa de uma governabilidade sem conflitos. Podemos, agora, ver o resultado de confiar em oportunistas que beijam testas, pedem cargos e adoram jantar nos melhores restaurantes de Brasília durante o trabalho. Lula precisa se posicionar; não dá mais pra fazer política dentro dos palácios ou da sala de estar nacional. O quarto de despejo está encharcado de consciência e impaciência; se rimou, foi porque o destino escreveu com sarcasmo o que o neoliberalismo faria com o povo, sem imaginar que eles transformariam ânsia de justiça em política de rua.
Independentemente do que Lula decida fazer, fica claro que é urgente imaginar um novo país, um novo líder, um novo futuro, para que não nos perguntemos para sempre: “o que isso tem a ver comigo?”. E para que possamos enxergar, não muito longe, um futuro em que os parlamentares, os ministros e os presidentes se preocupem mais com a desigualdade que atravessa o país do que com seus ritos babilônicos regados de uma fé que protege só aqueles a quem eles devem favores.
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