Jovens registram uso do tempo livre em aplicativos, onde práticas como correr, ler e tocar instrumentos convivem com exposição e comparação
O hobby ainda é um espaço de descanso ou se transformou em mais uma vitrine de desempenho? Entre vídeos de rotina, desafios de leitura, treinos registrados, resenhas rápidas e apresentações compartilhadas em tempo real, atividades que antes ocupavam um espaço íntimo da vida cotidiana passaram a circular constantemente pelas redes sociais. O que era feito apenas pelo prazer de fazer agora também pode render curtidas, seguidores, reconhecimento e, em alguns casos, monetização.
Na era do TikTok, do Instagram e dos aplicativos especializados em nichos de interesse, como o Letterboxd para cinéfilos ou plataformas voltadas ao universo fitness (como o GymRats e o Strava), o hobby deixou de ser apenas uma experiência individual. Ele passou a ser observado, avaliado e acompanhado por uma audiência. Neste momento, cozinhar, cantar, correr, tocar um instrumento ou assistir a filmes pode significar muito mais do que uma simples forma de lazer: pode se tornar uma forma de construção de identidade e espetáculo.
Mas o que acontece quando o hobby entra na lógica da exposição permanente?
A pergunta atravessa a rotina de jovens que convivem diariamente com uma cultura digital baseada em métricas e visibilidade. Se, antes, bastava praticar um hobby, hoje parece existir uma expectativa implícita de registrá-lo, compartilhá-lo e, de alguma forma, transformá-lo em conteúdo. A experiência deixa de terminar no momento vivido e passa a incluir a postagem, a edição e a legenda. A estética, a constância e a produtividade passam a ser critérios relevantes, muitas vezes sobrepondo-se ao prazer original da atividade.
O cinema e a experiência mediada do olhar
A estudante de Direito Helena Freitas, de 21 anos, conhece bem a dinâmica de transformar um hobby em experiência mediada. Apaixonada por cinema desde a infância, ela passou a organizar parte importante de sua rotina em torno de assistir filmes, registrar avaliações e compartilhar opiniões com amigos. Esse hábito se intensificou durante a pandemia, quando criou uma conta no Letterboxd e passou a acompanhar mais ativamente comunidades de cinéfilos:
Eu passo 80% do tempo falando sobre filmes, e nos outros 20% eu torço para que alguém fale para que eu possa falar também.
O que começou como uma forma de organizar filmes assistidos acabou alterando sutilmente a própria experiência de assistir. Helena relata que, muitas vezes, já inicia um filme pensando no comentário que fará depois. Existe, segundo ela, uma espécie de divisão interna da atenção: enquanto assiste, parte do pensamento já se projeta na escrita posterior.
“Eu acho que isso foi uma coisa totalmente por causa exclusiva do Letterboxd. Eu já começo o filme e, às vezes, tem uma cena em 10 minutos e eu falo: a minha review vai ser essa fala”, revela.
Ela mencionaDuna: Parte Dois como exemplo de uma obra que a levou a escrever uma das maiores avaliações que já produziu, motivada pela vontade de registrar o choque com o filme. “Eu estava com aquela vontade de escrever tudo o que eu estava sentindo no momento que eu saí do cinema”, conta.
Helena, no entanto, não interpreta essa mediação de forma totalmente negativa. Em alguns casos, ela reconhece que o próprio ato de pensar sobre o que será dito pode aprofundar a atenção durante o filme. A expectativa da escrita funciona como uma espécie de lente adicional, que a leva a observar detalhes, falas e escolhas estéticas com mais intensidade.
O problema aparece quando entram em cena as expectativas externas. No início, havia dificuldade em sustentar opiniões que divergissem do consenso, como gostar de um filme mal avaliado ou rejeitar um clássico amplamente reconhecido.
“Logo que eu baixei o Letterboxd, eu comecei a ter mais contato com essa comunidade e eu sentia muito essa pressão. Eu me sentia super mal quando eu não gostava de um filme aclamado pelo público”, comenta. “Mas hoje em dia, eu não estou nem aí, ainda bem.”
Atualmente, ela relata se sentir mais livre para atribuir notas extremas, seja para filmes amplamente aclamados ou criticados. “Isso aconteceu com aquele filme ‘Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo’. No auge do hype, eu assisti e não gostei muito. Só que aí eu não dei nota, porque fiquei com vergonha. Hoje em dia eu já superei isso. Vi recentemente ‘O Poderoso Chefão’, odiei com todas as minhas forças e dei nota 1 mesmo”, compartilha.
Corpo metrificado: o hobby que exige suor e status
Se o consumo cultural sofre com a cobrança de avaliações brilhantes, o hobby ligado a práticas corporais encontram nas redes sociais uma cobrança ainda mais explícita: a mercantilização da disciplina e da estética. João Pedro Rodrigues, de 23 anos, atua no extremo oposto do sedentarismo das telas. Praticante de musculação há dez anos, além de jiu-jitsu e corrida, ele enxerga o esporte como o pilar central de sua estabilidade. Sua trajetória começou na adolescência, motivada pela superação da obesidade e pela influência familiar.
Para João Pedro, o esforço físico extremo opera um paradoxo psicológico comum aos atletas: o descanso pelo esgotamento. “Parece contraditório, mas nos momentos de mais esforço físico são aqueles que eu mais descanso e me tranquilizo”, afirma. O silenciamento mental gerado pelo peso do ferro ou pelo ritmo das passadas funciona como um refúgio do barulho cotidiano.
No entanto, o ambiente que João habita no mundo real foi profundamente reconfigurado no ecossistema virtual. A explosão do conteúdo fitness pós-pandemia transformou o autocuidado em um mercado hipercompetitivo de aparências, e o hobby se tornou meta a ser batida.
O jovem critica a forma como as rotinas esportivas são romantizadas e empacotadas para consumo em massa: “Acho que depois da pandemia, com a explosão das redes sociais, o conteúdo fitness se tornou muito apelativo, com discursos e falas que muitas vezes iludem e vendem uma falsa realidade, principalmente para os adolescentes”.
A espetacularização do fitness impõe uma lógica na qual o treino não registrado assume o peso do esquecimento. Aplicativos transformam quilômetros rodados em gráficos compartilháveis e a ida à academia em um check-in obrigatório de produtividade. Esse formato vende a ideia de que o sucesso corporal depende puramente de força de vontade, ignorando as desigualdades socioeconômicas estruturais de seus seguidores.
João Pedro admite que a comparação com os padrões virtuais é uma armadilha quase inevitável, mas aponta a racionalização como mecanismo de defesa. “Com o passar da vida entendi que a única comparação que devemos fazer é com nós mesmos. Não há possibilidade de eu imitar a vida de um influenciador, até porque não tenho as mesmas condições de tempo e dinheiro que ele tem”.
Guitarra como refúgio e território pessoal
No relato da estudante de Odontologia, Thaíssa Lucas, de 20 anos, a música aparece antes de tudo como continuidade de uma relação antiga com o violão. Assim, algo que começou de forma quase doméstica foi se transformando aos poucos em escolha consciente. O que era hobby virou aula, e o que poderia ter sido apenas uma fase se transformou em decisão: trocar o violão pela guitarra, e com isso, redefinir o próprio vínculo com a música.
“Teve uma época em que o orçamento apertou e eu tive que escolher entre continuar na guitarra ou pagar a terapia. Eu escolhi a guitarra”, conta a estudante.
“Eu posso estar muito estressada, e quando eu toco, eu dou uma respirada. É um momento que eu nem vejo a hora passar, então é um descanso, mas ao mesmo tempo é terapêutico, mede os dois”.
A barreira íntima do hobby, porém, sofreu uma mudança com o nascimento da Banda Versus, projeto de covers de rock que divide com amigos. A partir do momento em que subiu nos palcos, a exposição virou um compromisso inevitável de horários, locais e adequação de repertório. Mas se a lógica das redes gera ansiedade, o palco real trouxe o oposto: uma prática coletiva e voluntária.
“A pressão é mais minha, não tanto de cobrança externa, porque eu quero fazer algo bonito. Mas na questão da exposição, eu acho que é muito natural. No momento que eu quis fazer, eu já sabia que a gente ia fazer show para público”, diferencia Thaíssa, que estuda Odontologia e brinca: “Tem uma frase que eu falo diariamente, que é ‘eu já ganhei mais dinheiro tocando guitarra do que na odonto!’” Para ela, os shows são como um trabalho voluntário feito com extrema felicidade. “Em cima do palco é um dos momentos que eu fico mais feliz na vida. Se for um trabalho, é um trabalho que eu amo.”
Por isso, os algoritmos e as métricas viram motivo de piada e orgulho entre os ensaios, como quando alguém reconhece a vocalista no elevador da faculdade ou quando o perfil da banda ganha seguidores orgânicos. “A gente brinca que quando sai junto, vai fazer nosso networking. Eu adoro fazer vídeo de divulgação, compartilhar. Quando vejo que ninguém em comum segue a banda, eu fico: ‘Gente, a banda foi recomendada pelo Instagram, a gente tá estourado demais, famosas, bem Rock in Rio!’”
“Eu não sou uma pessoa muito midiática, eu sou mais low profile, no nível de eu tenho Instagram privado. Eu, por mim, não compartilho tanto. Se não fosse pela banda, eu não compartilharia… acho que é porque eu tenho certa vergonha. É uma coisa minha. Eu aproveito mais sozinha, porque é uma relação minha com a guitarra, e a guitarra comigo, bem chill mesmo”, diz.
No fim das contas, a rede social da banda ganhou um sentido afetivo que resgata o valor original do hobby, servindo como um arquivo vivo de suas vivências.
Acho que a parte do Instagram, apesar da gente não ser famoso, tem a vantagem de você conseguir compartilhar algo que para nós é corriqueiro, tipo ‘nossa bandinha, a gente é tão feliz’, e as pessoas conseguirem ver. É um diário de memórias para nós.
Se para a guitarrista Thaíssa a música funciona como um refúgio de isolamento, para a vocalista Marcela Furtado, de 21 anos, também da Banda Versus, soltar a voz sempre foi um ato quase biológico. “Eu sou aquela pessoa que está cozinhando e cantando, está fazendo qualquer coisa e cantando. É uma coisa meio intrínseca, assim… é igual respirar, eu tô sempre cantando”, define a estudante de Direito. O canto a acompanha como hobby desde a primeira infância, na época em que era a criança que disputava os microfones nas festas de família.
Apesar da música ser a principal forma de entender as próprias emoções – “quando você está triste, canta uma música triste; quando está feliz, canta uma música feliz” -, Marcela sempre manteve o hábito protegido das redes sociais. Essa barreira foi herdada de uma preocupação familiar genuína com a exposição precoce na internet.
“Na pandemia eu sempre gravava os vídeos cantando e tocando piano, só que eu nunca tive muita coragem de postar. Eu postava mais no close friends ou coisa do tipo, eu não achava que eu era muito feita para essa vida de redes sociais, não. Meus pais sempre foram muito preocupados com essa questão de exposição… eles falavam: ‘filha, cuidado com o que você posta’. Isso ficou na minha cabeça: eu não preciso postar para todo mundo ver, eu faço porque eu gosto e tá tudo bem”, compartilha.
Essa dinâmica de proteção foi colocada à prova quando ela assumiu os vocais da banda. A transição trouxe à tona uma pressão que ela não conhecia: a cobrança técnica e a exposição pública inevitável no feed aberto do grupo. Sem formação técnica prévia, a cobrança interna a levou a buscar o aprendizado formal.
“Quando a gente criou a banda, eu não fazia aula de canto. Eu entrei como vocalista e senti meio que essa pressão de acertar, de estar bom, e aí eu comecei a fazer aula”, revela.
“Agora tem essa questão de que, querendo ou não, eu estou me expondo, porque a gente faz shows e tem o Instagram do grupo. Sinto que tenho mais a obrigação de acertar do que antes”, explica.
Seu maior receio reside na abertura que as redes sociais dão para o julgamento de quem está de fora, se tornando um território onde opiniões não filtradas podem contaminar o prazer da atividade. “Nas redes sociais eu abro porta para qualquer um falar o que quiser. Meu medo é as pessoas de fora estragarem o hobby, e perder o gosto de fazer aquilo pela opinião dos outros”, conta.
“Com o Instagram da banda sendo aberto, dá um pouco de medo… será que as pessoas vão achar que eu canto bem? Às vezes a gente está no palco e sai uma foto meio esquisita, fazendo careta…”
Ao mesmo tempo em que lida com o nervosismo dos palcos, Marcela identifica em si mesma um traço marcante da juventude hiperconectada: a ansiedade pelo imediatismo e a frustração de não dominar uma habilidade logo na primeira tentativa. Ela analisa que a necessidade de resultados rápidos é uma marca de sua geração, uma engrenagem que a fez pausar ou abandonar práticas como o violão, o desenho e o ukulele.
“Eu adoro aprender coisas novas, só que eu tenho que ser boa imediatamente, porque eu morro de preguiça de ficar aprendendo. E nada é imediatamente bom. Eu sou muito exigente comigo, então se eu estou fazendo uma coisa e não está bom o suficiente para mim, isso me frustra. Mas tenho feito um exercício comigo mesma para melhorar”, conta.
Marcela fala sobre esse modo singular de se relacionar com um novo hobby: “Acho que é muito uma coisa da nossa geração de querer que as coisas sejam para ontem… a gente tem essa ansiedade que nasceu com a gente: tudo tem que estar pronto de forma rápida, a gente tem que ser bom rápido em tudo”.
Apesar dessa autoexigência técnica, recusa a culpa pela falta de produtividade no tempo ocioso. Ao contrário de amigos que relatam ansiedade ao ficarem parados, ela defende o direito ao descanso absoluto, sem a necessidade de o hobby gerar um “produto final”: seja uma blusa de crochê ou uma nota musical perfeita.
“Está tudo bem também tirar um tempo para não fazer nada e só ver uma série ou ver TikTok… deitar no sofá e assistir três horas de série. Isso é um hobby também. A gente precisa ter os momentos de fazer alguma coisa só porque a gente quer, e não porque vai trazer algum resultado”, afirma.
Para a estudante, a Banda Versus acabou se tornando a realização de um desejo antigo que ela ousava viver apenas no privado: “O canto para mim sempre foi um sonho. Eu sempre quis fazer shows, esse tipo de coisa. Então o canto para mim é isso: é um sonho e é um jeito de se expressar”.
Pintura e o direito ao invisível
Se na música existe um equilíbrio tenso e negociado entre o privado e o público, na pintura essa barreira é blindada de forma radical. Para Isadora Martins, de 17 anos, as telas, os pincéis e os lápis de desenho representam um território de pertencimento estritamente interno, mantido desde a infância como uma prática que nasceu e cresceu longe das telas digitais.
“É uma coisa que eu tenho para mim faz muito tempo, acho que desde a infância. E eu nem lembro como eu comecei de verdade, porque é uma coisa que sempre veio muito naturalmente”, recorda. Na engrenagem acelerada de uma rotina de cobranças, a arte cumpre uma função de ancoragem. “O papel disso na minha vida… olha, eu acho que é o momento que é meu, sabe? É o único momento que eu tenho que é 100% meu e que sou 100% eu ali. E que realmente me ajuda a me reconectar comigo mesma nessa correria diária”, descreve.
Diferente da urgência das plataformas em transformar cada traço em um conteúdo, Isadora observa o fazer artístico como um processo terapêutico cru, que aceita inclusive as imperfeições e as frustrações do percurso.
“Eu acho que assim, é um momento de descanso, apesar dos pequenos estresses. Me ajuda muito a colocar a cabeça em paz. Muita gente acaba tornando essa experiência em algo muito mais performático do que realmente é. Acho que acaba que todo mundo que compartilha fica tentando criar uma estética em cima disso, mas que não precisa ter, não precisa existir”, diz.
Para ela, a maior riqueza do passatempo está justamente naquilo que não pode ser traduzido em um carrossel de fotos ou em um vídeo curto de transição rápida: a intimidade do próprio pensamento durante o ato de pintar: “Eu tenho alguns aspectos dos meus hobbies que eu prefiro manter só para mim. Eu tenho um processo criativo que é muito complicado. E eu não consigo nem explicar, não consigo mostrar isso. Então é uma coisa que eu guardo para mim mesma.”
Além do hobby: corrida, corpo e reconstrução
Nos relatos de Cláudia Renata dos Santos, de 55 anos e de sua filha, Isadora dos Santos, de 22 anos, o ato de correr cruza a linha do exercício físico para se tornar, mais do que um hobby, uma prática fundamental de autocuidado. Longe dos gráficos de rendimento e das cobranças por vaidade que frequentemente colonizam o universo fitness nas plataformas digitais, as duas corredoras encontram no exercício uma forma de presença pura.
Para Cláudia, que corre há mais de uma década, o asfalto surgiu de forma despretensiosa, mas acabou se tornando o pilar central de sua saúde.
“Eu comecei a correr por incentivo de um primo e depois por um incentivo de uma treinadora na Escócia. Ela falou que eu tinha estilo, que eu deveria correr”, recorda Cláudia. “Eu comecei por diversão, para participar das corridas, mas depois virou um estilo de vida. E agora também até por saúde”.
Esse estilo de vida, contudo, foi interrompido abruptamente por um excesso físico que cobrou um preço alto, empurrando Cláudia para um período de adoecimento mental e afastamento das pistas: “Fiz uma maratona há 5 anos atrás, não deveria ter feito, me lesionei e fiquei 4 anos parada. E isso mexeu muito comigo. Só que há 2 anos eu passei por problemas emocionais e acabei tomando antidepressivo. Então eu resolvi voltar para a corrida na marra e foi ótimo, porque voltei com um estilo de vida mais saudável ainda. Hoje eu não largo a corrida por nada”.
Fotos: Acervo pessoal
O impacto dessa reconstrução silenciosa ecoou diretamente dentro de casa, moldando os passos de sua filha. “Minha mãe correr desde sempre me influenciou muito a querer começar”, afirma Isadora, que começou a atividade em 2024.
O esporte entrou em sua vida como uma resposta mecânica e urgente a um momento de extrema saturação mental. “Eu comecei a correr no meu último ano de cursinho, no intuito de conquistar uma vaga para Medicina. Então a corrida começou como uma forma de aliviar a ansiedade e a pressão daquele momento de vida”, conta.
Aquilo que começou como uma válvula de escape contra a pressão do vestibular ganhou novas camadas e propósitos na rotina da estudante de Medicina. “Hoje a corrida é muito mais do que só aliviar a ansiedade que eu tenho”, conclui Isadora.
Fotos: Acervo pessoal
Fotografia e o desejo de memória
Se, para os outros entrevistados, a barreira com o mundo exterior envolve trancar o feed ou calçar os tênis para fugir do excesso de pensamentos, para Guilherme Ferreira, de 22 anos, o limite é traçado pelo próprio visor da câmera. Estudante de Jornalismo, ele encontrou na fotografia um hobby e um espaço de preservação da memória que resiste à profissionalização e à obrigação do desempenho.
“A fotografia apareceu de uma forma bem clichê, nessa coisa de colecionar memórias. Eu comecei a ficar viciado em tirar fotos e eu sempre tive uma câmera em casa”, conta Guilherme.
Começou a virar um vício mesmo, até eu começar a investir e ter projetos pessoais. Hoje é a minha vida.
No entanto, habitar o território da comunicação traz um dilema geracional inevitável: o medo de que a monetização drene o prazer de seu hobby. Para Guilherme, a câmera só mantém o seu poder de cura se estiver desatrelada de uma folha de pagamento ou de uma pauta fria.
“Esse é um grande medo mesmo, porque quando o hobby deixa de ser feito por amor, acho que perde um pouco a graça. Quando eu saio com as minhas amigas, a fotografia tem um sentido completamente diferente do sentido das fotos para um trabalho, que são sem graça”, explica. As fotos que eu tiro para mim, para os meus projetos, são momentos meus que eu quero lembrar sempre.”
Tais projetos puramente autorais, que já ganharam páginas de revistas e composições no Instagram, funcionam como um laboratório sem regras. “Acho que uma dica para quem quer começar a fotografar é não se prender a alguma coisa muito certinha… você não tem que fazer nada disso obrigatoriamente. Você tem que pegar o seu momento criativo, refletir sobre isso e tentar expressar aquilo que você está sentindo”, sugere.
Para evitar que a paixão adoeça sob o peso da rotina, ele adota uma postura de desapego que contrasta com a necessidade de registro constante da internet. O conforto, para ele, mora também no direito de escolher não registrar.
“Eu não me obrigo a nada. Se eu não quero levar a câmera para um rolê, não quero gravar esse rolê, está tudo bem. A fotografia é um lugar de conforto e eu não quero perder isso.”
Leitura como conteúdo
Com mais de 10 mil seguidores no Instagram, o perfil de leituras de Ana Clara Moyen, 21 anos, deixou de ser apenas um espaço pessoal para comentários sobre livros e passou a funcionar como uma pequena vitrine de influência dentro do nicho literário. Ainda que ela não se defina como criadora de conteúdo em tempo integral, a rotina do perfil já envolve decisões que vão além da leitura em si: o que postar, quando postar e como traduzir a experiência de um livro em formato de resenha.
“Eu acabo tendo que pensar no que eu vou postar, no timing das coisas. Às vezes eu leio um livro e já fico pensando em como isso vai virar conteúdo”, conta.
Apesar disso, Ana afirma que tenta manter a leitura desvinculada de qualquer obrigação comercial. Mesmo com o crescimento do perfil, diz que não aceita qualquer parceria que interfira na escolha dos livros que lê.
Já me ofereceram publicidade, mas eu não aceito livros que eu não escolheria ler. Eu não quero que isso vire um trabalho.
A presença de editoras e convites para divulgação, segundo ela, começou a aparecer conforme o perfil ganhou alcance dentro da comunidade literária. Ainda assim, a maior transformação não está nas parcerias, mas na forma como o próprio hábito passou a ser organizado em função da rede.
“Às vezes eu não termino um livro tão rápido e já começo a pensar em como isso vai parecer para o pessoal. Tipo: será que vão achar que eu parei de ler?”, conta.
Essa dinâmica também afeta o ritmo das leituras. Ana relata que, desde que passou a produzir resenhas, a leitura deixou de ser apenas linear e passou a ser acompanhada de um processo constante de anotação mental.
@wereadsomebooks@wereadsomebooks@wereadsomebooks
“Antes eu só lia e pronto. Hoje eu já vou lendo e pensando: isso aqui é importante, isso aqui eu vou falar depois. Eu meio que vou separando as coisas na minha cabeça”, diz Ana.
Ao mesmo tempo, ela aponta um efeito que considera positivo nesse processo: a necessidade de organizar o que lê acabou ajudando no desenvolvimento da própria forma de se expressar. “Eu acho que isso também me ajudou muito a me comunicar melhor e a ter mais pensamento crítico sobre as coisas. Porque eu preciso explicar o que eu senti de um jeito que outras pessoas entendam”.
A relação com o público também se manifesta de forma mais direta no dia a dia do perfil, especialmente em mensagens e expectativas sobre próximas postagens. “Tem gente que pergunta o tempo todo o que eu estou lendo, quando vai sair resenha, o que eu achei de um determinado livro. Então, vira uma coisa meio contínua, não é só postar quando eu quero”, conta.
Mesmo assim, ela afirma que tenta preservar o caráter de escolha pessoal, evitando transformar o perfil em obrigação ou fonte de renda principal: “Gosto de manter isso como algo que ainda é meu. Mesmo com crescimento, eu tento não perder a ideia de que eu leio porque eu gosto.”
Do hobby à economia da atenção
Os relatos reunidos nesta reportagem não descrevem apenas uma mudança no modo de praticar hobbies, mas uma reorganização mais ampla da relação entre tempo livre, visibilidade e valor social. O que antes se concentrava na esfera privada passa a circular em ambientes onde atenção se converte em métrica, e métrica em potencial de reconhecimento.
Dados do Censo de Criadores de Conteúdo 2025, realizado pela empresa brasileira de marketing de influência Wake Creators com 4.866 criadores de conteúdo do país, mostram que 86% dos entrevistados administram sua produção de conteúdo de forma autônoma, como uma espécie de microempreendimento pessoal.
Apesar disso, apenas 9% afirmam ter a criação de conteúdo como principal fonte de renda. O levantamento evidencia uma contradição característica da economia digital contemporânea: enquanto plataformas como Instagram, TikTok, YouTube e Strava incentivam a exposição constante de experiências, talentos e rotinas, a possibilidade de transformar essa visibilidade em sustento financeiro continua restrita a uma parcela reduzida dos usuários. E essa promessa de reconhecimento, crescimento de audiência e eventual monetização contribui para que atividades originalmente associadas ao lazer sejam cada vez mais registradas e transformadas em produto.
Esse processo ocorre dentro de um mercado que cresce em ritmo acelerado. Projeções divulgadas pelo banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs estimam que a chamada Creator Economy – setor que engloba influenciadores, streamers, produtores de conteúdo, plataformas digitais e empresas ligadas à monetização da atenção – movimenta atualmente cerca de US$ 250 bilhões em todo o mundo e pode alcançar US$ 480 bilhões até 2027.
No Brasil, uma pesquisa realizada pela plataforma de marketing de influência Favikon em parceria com a consultoria People2Biz identificou que apenas 22% dos maiores criadores de conteúdo analisados monetizam efetivamente suas publicações. Os dados ajudam a compreender por que a lógica da performance ultrapassa o universo dos influenciadores profissionais e alcança práticas cotidianas: em um ambiente digital onde qualquer interesse pessoal pode, ao menos em teoria, se converter em audiência, o lazer passa a existir sob a influência constante das métricas e da possibilidade de retorno econômico.
Entre inspiração e comparação: hobbies e psicologia
Há um detalhe que paira silenciosamente por muitos dos depoimentos desta reportagem. Nenhum dos entrevistados abandonou aquilo que gosta de fazer por causa das redes sociais. O que mudou, em vários casos, foi a forma de experimentar essas atividades. Para a psicóloga e professora da PUC Minas, Rebecca de Magalhães, a questão central talvez não esteja nos hobbies em si, mas na relação que as pessoas estabelecem com aquilo que veem e compartilham.
Na prática, o mesmo conteúdo pode produzir efeitos completamente distintos. Um vídeo de corrida pode servir de incentivo para alguém começar a se exercitar, assim como uma resenha literária pode despertar o interesse por um novo livro. O problema de verdade surge quando a inspiração se torna uma competição.
Segundo Rebecca, grande parte do conteúdo que circula, apresenta versões editadas da realidade, recortes em que os resultados aparecem muito mais do que os processos. O público vê a chegada, mas raramente acompanha o caminho percorrido até ela.
“Na maioria das vezes, as pessoas expõem aquilo que deu certo, aquilo que é bonito de ser visto. Poucas vezes mostram os erros, as falhas ou as várias tentativas necessárias para alcançar determinado resultado”, explica.
É justamente nessa lacuna que podem nascer sentimentos de inadequação. A comparação passa então a ser feita entre realidades que não compartilham os mesmos recursos, condições ou histórias.
Para a psicóloga, o risco não está necessariamente no conteúdo consumido, mas na ausência de um olhar crítico capaz de contextualizá-lo. Quando isso não acontece, a exposição constante a performances bem-sucedidas pode alimentar ansiedade, insatisfação e questionamentos sobre o próprio valor.
Essa lógica ajuda a explicar experiências presentes em vários momentos mencionados. Ela aparece na vergonha inicial de Helena ao discordar do consenso de outros cinéfilos, na pressão sentida por Marcela ao ocupar os vocais da banda, na autocobrança descrita por Ana Clara diante das expectativas de seus seguidores e até mesmo no cuidado de Isadora em preservar parte de sua produção artística longe das redes.
Mas a professora chama atenção para um segundo movimento: o impacto da exposição sobre quem produz o conteúdo.
A pessoa pode começar a criar uma dependência dessa validação, ficar sempre preocupada com curtidas, comentários e interações. O que era prazeroso passa a exigir uma produção constante.
O resultado pode ser uma espécie de paradoxo contemporâneo. Ferramentas criadas para compartilhar experiências acabam, em alguns casos, tornando essas experiências mais difíceis de viver plenamente. O espaço que deveria oferecer descanso passa a exigir produtividade; aquilo que nasceu como prazer corre o risco de se tornar tarefa.
Talvez por isso muitos dos entrevistados insistam em preservar alguma parte de seus divertimentos fora do alcance dos algoritmos. Não por rejeitarem completamente a exposição, mas porque reconhecem o valor de manter certos momentos livres da necessidade de serem vistos.
Reportagem desenvolvida por Sofia Maia, Júlia Vida e Yasmin Lopes para a disciplina Laboratório de Jornalismo Digital, da PUC Minas, sob supervisão da profa. Nara Scabin, no 1º semestre de 2026.
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