Transitando por jornalismo, humor e ativismo ambiental, Roberto Kaz se reinventa na arte de usar a acidez a favor da democracia
“Você nunca bate em alguém que tá abaixo de você.” Com essas palavras, Roberto Kaz, 44 anos, apresenta um dos princípios que segue na vida e na profissão, privilegiando ser crítico aos detentores do poder. O jornalista nasceu na cidade do Rio de Janeiro, onde ainda mora, hoje com a companhia de três animais, uma cachorra e dois gatos. Diz que gosta de mexer com humor, jornalismo e ativismo, sendo redator do The Piauí Herald, sessão de humor da Revista Piauí, escrevendo também para o Observatório do Clima.
Da infância nômade à formação
Admirador de narrativas, Roberto conta que, mesmo não torcendo para nenhum time, gosta das histórias do futebol. Lembra-se que na infância admirava o São Paulo Futebol Clube, em época de ouro do time com a conquista do bicampeonato mundial. Apesar de ter morado no Rio até os 6 anos de idade, foi quando se mudou para a cidade de São Paulo, por conta das demandas de trabalho do pai, também jornalista, dirigindo a revista Elle, que surgiu a paixão pelo clube.
Em relação ao São Paulo, lembra que a derrota do time para o Vélez Sarsfield na Libertadores o traumatizou “eu chorava pra caralho”, conta. Agora, revisitando o passado, entende que na verdade estava vivendo uma mistura de sentimentos, e por isso, a reação com a desclassificação. “Eu acho que, na verdade, era porque minha mãe estava muito doente na época, então eu devo ter usado o futebol como tentativa de elaborar isso”. Dos 6 aos 16 anos de Roberto, sua mãe lidou com o câncer. “Foi um momento meio solitário”, lamenta.
O fracasso do time paulista, juntamente com a saída de São Paulo, quando foi passar um ano na Argentina, em Buenos Aires, para outro trabalho do pai, que dirigia outra revista feminina, a Cláudia, fez com que Roberto abandonasse a paixão pelo clube. “Eu gosto de futebol pra caralho, mas eu não tenho time. Acompanho, leio diariamente e tal. Acho um tema cultural superimportante, mas eu não tenho time. Eu gosto das histórias do futebol, sou muito fã do Diniz, por exemplo. Acho ele um personagem muito trágico, interessante, anárquico”, assume.
Parte dessa paixão por histórias explica por que apaixonou-se pelo jornalismo. Formado no curso pela PUC-Rio, desenvolve: “eu era muito apaixonado por jornalismo literário, lia muito Gay Talese”. A vida profissional começou cedo, ainda na faculdade, quando foi estagiar na Marinha, sob coordenação de uma professora, Carla Rodrigues.
Neste emprego, apresentou um olhar curioso, escrevendo sobre o barbeiro, o cozinheiro e as frivolidades do navio, tentando escapar do óbvio. Admirado pela educadora, que para a sorte de Roberto tinha contato, foi indicado para a equipe do site chamado NoMínimo. De acordo com ele, a mesma equipe que acabou fundando a Revista Piauí anos depois. Apesar de não lembrar da primeira reportagem publicada, ele conta que a segunda no site foi um perfil de manequins de vitrine, que na época eram muito caricatos e com certeza escondiam histórias muito curiosas.
O sonho da Piauí
Saiu do site NoMínimo para atuar na Revista de História da Biblioteca Nacional, também indicado por Carla Rodrigues. E foi nessa revista que ele ouviu pela primeira vez sobre a Piauí. A revista ainda não existia, mas em uma reunião, um dos membros do conselho, Marcos Sá Corrêa, informou que uma revista daquele estilo estava sendo criada. Ao saber da novidade, imediatamente planejou o que fazer para atuar na nova revista.
“Na primeira reunião [da Piauí], fui escorraçado pelo Mario Sergio Conti, diretor da Veja na época do Fernando Collor. Durante sua diretoria, a imprensa ajudou a derrubar o Collor. Então, eu saí de lá muito humilhado, mas foi bom”, brinca.
Nessa primeira reunião, ele participou apenas com o intuito de se apresentar, sem nenhuma pauta, o que não foi bem visto. Mas ainda assim ele conseguiu participar do segundo encontro do grupo fundador, também por intermédio da professora. Levou então duas pautas bem preparadas. A primeira era sobre mulheres evangélicas vendendo acarajé em Salvador, e os protestos de uma associação chamada Baianas do Acarajé e do Mingau, dizendo que o acarajé é uma comida associada ao candomblé. A segunda pauta era sobre um clube de galo de briga que tinha sido fechado, também em Salvador. “As duas foram publicadas”, afirma com orgulho.
Foi a partir dessas duas esquinas, nome dado a uma seção da Piauí, que ele começou a escrever para a revista, participando desde a origem da publicação. Após seis meses, foi contratado. Ele diz que muito dessa contratação se deve à outra pauta para “esquina”: “eu tinha proposto uma esquina sobre o Heber Trinta Filho, que era um grande personagem da Biblioteca Nacional. Ele falava coisas muito profundas e era uma figura muito interessante, então eu fiz. Mas liguei para a Piauí dizendo que deveria ser um texto maior. Eles receberam, aceitaram ser um texto maior, foi publicado e depois disso eles me contrataram.”

Explorando novos formatos e decepções
Com sucesso na Revista Piauí, Roberto foi convidado para Serafina, uma revista mensal da Folha de S. Paulo. “Eu jamais tinha imaginado sair da Piauí, eu amo a Piauí, mas eu ainda morava com meu pai no Rio e queria sair de casa. Então foi uma boa forma de mudar de cidade e sair de casa”, conta.
Quando visitou a redação da Folha, ficou impressionado com o tamanho. “A Piauí era um lugar pequenininho, e a redação da Folha era gigantesca. Tinha acabado de ser reformada, tava muito bonita. Eu vi aquilo e falei ‘caralho, quero isso’.”
Apesar do deslumbre inicial com a estrutura do novo trabalho, Roberto conta que não foi um bom momento. “Não fui um bom repórter da Folha. Não foi uma passagem positiva em termos profissionais e pessoais, foi difícil. Eu não sou bom repórter de jornal diário”, recorda. Transferido para o caderno Ilustrada, diz também não ter sido legal. Passados dois anos, voltou ao Rio de Janeiro para trabalhar na revista do jornal O Globo. Foram dois anos trabalhando nessa revista, o que rendeu bons frutos.
Roberto atuou em um projeto de “ghost ativismo” chamado Gabinete dos Bichos, responsável por produtos de humor político na internet. Nesse projeto, produziam conteúdos de ativismo ambiental, vídeos contra o governo Bolsonaro, sem assinatura, que eram publicados por ONGs, jornalistas e influenciadores, todos ao mesmo tempo, o que gerava impacto, com os vídeos chegando a milhões de visualizações.
Reportagem premiada
Durante as jornadas de 2013, quando ocorriam manifestações por todo o país, Roberto foi responsável por um conteúdo sobre o que os correspondentes estrangeiros reportavam acerca da situação brasileira. Entrevistou Glenn Greenwald, do The Guardian.
“Quando a matéria saiu, Glenn me ligou dizendo que tinha documentos sobre o Brasil também e queria publicar na imprensa brasileira”, conta. Juntos, publicaram n’O Globo a denúncia de que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) estava espionando a presidente Dilma Rousseff e a embaixada brasileira. Graças à reportagem Na mira dos EUA, ganhou um Prêmio Esso. A premiação rendeu uma bolsa de estudos para fazer mestrado em jornalismo na Columbia University, em Nova York, no ano de 2015.
Voltando ao Brasil, ficou um tempo desempregado, fazendo freelances para conseguir se manter, sempre com o objetivo de voltar para a Piauí. Foi recontratado e ficou mais quatro anos na revista.
Trabalho com Duvivier
A experiência com televisão levou o jornalista a trabalhar na última temporada do programa Greg News, sátira jornalística estrelada pelo ator e escritor Gregório Duvivier. Roberto confessa que amava esse trabalho, pois misturava tudo que ele gosta: reportagem, opinião, não havia nenhuma necessidade de ser imparcial, ativismo e humor. Decepcionou-se com o fim das gravações da série, pois era um programa bem quisto pelo público e tinha impacto.
“Uma matéria muito lida da Piauí chega em 200 mil pessoas; o Greg News chegava a três milhões. Era muito bacana”, destaca.
Humor e Jornalismo?
Humoristas odeiam responder qual o limite do humor. Mas quando se faz jornalismo com humor, esse limite existe? Para Roberto Kaz, sim. O limite do humor é “bater da cintura para cima”, sendo o ideal sempre fazer humor com quem está muito acima de quem está “batendo”. Ele diz que jornalismo e humor têm essa característica em comum, mas principalmente o humor deve ser assim. “Você nunca bate em alguém que tá abaixo de você”, assevera. Deixa claro que o humor não pode ter como alvo a massa, mas sim aqueles que manipulam ela.
Outro limite são as tragédias. Para ele, é importante saber dosar e fazer humor no momento certo. “Caiu avião, morreu alguém de forma trágica, não dá pra fazer humor. Agora, quando é uma tragédia institucional, tentativa de golpe de Estado? Aí é prato cheio”, pontua. Continua, ratificando que também tenta não fazer humor que beneficie o outro lado, sendo importante bater nos dois. O foco é fazer humor com quem tenta minar a democracia. Alerta que, por vezes, um movimento contra uma pessoa pode virar armamento para a mesma. “Um exemplo é quando o humorista Murilo Couto, que fez um jingle sobre o dia que Flávio Bolsonaro seguiu ele no instagram, e esse jingle acabou sendo aproveitado pela campanha do Flávio. E essa é uma preocupação que você tem que ter”, delibera.
É entendendo como o humor conversa com o jornalismo que, no primeiro ano da Revista Piauí, surgiu o Piauí Herald, sessão de humor da revista. Quem escreveu foi Tutty Vasques, humorista superimportante do Pasquim. Eram quatro páginas de notícias satíricas, e Roberto conta que ficou fascinado. Vendo esse movimento se iniciando, ele começou a propor ideias para o Piauí Herald. Criado um blog para a sessão de humor da Piauí, era atualizado de duas a três vezes por semana, e mesmo não sendo diário, Roberto salienta que se divertia muito com aquilo.
Relembra que um Piauí Herald que ficou marcado para ele foi o com o título “Fernando Pessoa anuncia fusão de heterônimos”, e era baseado em uma notícia sobre a fusão de duas empresas telefônicas bilionárias, sem nenhuma necessidade, com o intuito de demitir milhares de pessoas e gerar lucro para o dono. Foi marcante pois esse Herald acabou virando uma questão de vestibular, onde a pergunta era sobre qual crítica estava presente na piada.
Roberto interpreta Piauí Herald como uma coluna política, não de humor. Por isso, sempre que tem algum grande momento para o país, tentam fazer o Herald para a revista impressa.
“O humor pelo humor não me interessa. Me interessa o humor que bata em alguma situação política, em alguém poderoso”, reforça.
“Nunca fui processado”
Normalmente trabalhos ácidos e satíricos podem enfrentar censuras ou intimidações, mas nunca aconteceu com o trabalho de Roberto. Conta que o mais próximo disso ocorreu quando um juiz usou uma notícia do Piauí Herald em uma sentença como se fosse verdadeira. “Eu até pensei em fazer matéria sobre isso, mas achei meio perverso e deixei pra lá. Fora isso, a gente tem muito cuidado, nunca fui processado, nunca precisei tirar nada do ar”, complementa.
Do touro ao jabuti
Atrelado ao jornalismo e ao humor, uma terceira chama existe na vida de Roberto Kaz: o ativismo ambiental. Entretanto, essa relação começou por acaso. Na sua primeira passagem pela Revista Piauí, Roberto estava procurando algum gancho para uma matéria. “Eu nunca fui um cara de fontes. Eu não sou muito bom nisso, então eu sempre peguei pauta de ler jornal, então vi uma notinha na Veja dizendo que tinha morrido um touro que era muito importante chamado Fajardo”, relembra. Com isso em mente, foi até Mário Sérgio Conti com uma pauta sobre a Expozebu, em Uberaba, a maior feira de agropecuária do Brasil. Discutindo com Mario e contando sobre a vida dos touros, Mario sugeriu: “então faz o perfil de um touro”. Essa ideia abriu os olhos de Roberto. “Achei genial. Muito mais divertido”, conta.

Foi então que passou uma semana pesquisando sobre o recém-falecido touro. Adentrando na vida dele, surpreendeu-se. Fajardo tinha mais de 260 mil filhos e morreu virgem, pois servia apenas como um doador de esperma. Existiam doses de sêmen dele que valiam milhões, fazendo a economia do país movimentar. Roberto compara parte da vida do touro à de um jogador de futebol, e a central de inseminação artificial ao seu clube. “Era como se ele tivesse sido revelado no São Paulo e depois fosse adquirido pelo Corinthians, porque o Corinthians começou a pagar um valor maior pela dose de sêmen pro proprietário”, ironiza.
Roberto ficou fascinado como essa história era um retrato emocional, subjetivo e social do país e do mundo. Ao terminar o perfil, lembra qual foi o sentimento. “Caramba, fiz uma coisa que é minha, esse texto tem a minha cara e não sei se outra pessoa conseguiria fazer. Porque tem humor, tem uma coisa patética nessa relação de muito afeto que as pessoas têm por um touro.”.\ Foi como se tivesse encontrado uma voz que pertencia a ele.
Com o perfil publicado, começou a ir atrás de outros animais que possuíam histórias com algum grau de similaridade, principalmente na junção do humor, tragédia e humanidade. Essa amálgama de histórias acabou virando “O livro dos bichos”, e, por essa obra, Roberto Kaz ganhou o Prêmio Jabuti no ano de 2017, na categoria Reportagem e Documentário.
Conhecer animais fez Roberto começar a escrever sobre animais, fazendo inúmeras matérias. Todo esse envolvimento inclusive fez ele parar de comer carne. Com o governo Bolsonaro, na concepção dele, não fazia sentido falar apenas sobre um animal isoladamente, não com o presidente destruindo tudo, incendiando o pantanal, desmatando a Amazônia, um ecocídio.
“Aí comecei a escrever sobre política ambiental, que eu acho muito mais chato, mas era o que tinha que ser feito no momento.”
As inspirações no ativismo ambiental
Certas ações o emocionam, dando destaque a uma dupla chamada The Yes Men, dois ativistas da interferência cultural, que fazem paródias de peças publicitárias e outdoors conhecidos, adulterando e alterando suas mensagens.
Nos primórdios da internet, essa dupla fazia sites falsos de grandes empresas. Um dos sites falsos que criaram era de uma farmacêutica chamada Dow Chemical. Vendo esse site, a BBC entrou em contato com eles, achando que era o oficial. Chamaram eles para uma entrevista para falar sobre os 20 anos do desastre que essa farmacêutica tinha provocado em uma pequena cidade na Índia, onde tinha “vazado” produto químico no rio. O produto acabou intoxicando milhares de pessoas e matando algumas centenas, e, como resposta a esse desastre, a empresa pagou uma indenização de U$600 para cada família. A dupla combinou de ir até a BBC, entrar ao vivo como porta-voz da empresa e anunciar que a Dow Chemical finalmente indenizaria as vítimas do desastre com bilhões de dólares. Passado o programa, representantes da farmacêutica ligaram para a BBC para informar que não eram eles. Com essa ação, os papéis da empresa despencaram estrondosamente. A BBC ligou para a dupla, que confessou serem dois farsantes, e, voltando ao programa, revelaram que tudo era uma ação de ativismo para mostrar que, em 20 anos, a empresa nunca tinha indenizado ninguém de verdade. “Eu acho isso sublime. Acho uma obra-prima do ativismo”, comenta com admiração.

Isso tudo acabou levando Roberto para o Observatório do Clima. Grande parte desse ativismo surgiu contra Ricardo Salles (ministro do meio ambiente do governo Bolsonaro). “Ricardo Salles foi uma figura importante pro ativismo e ele gostava de ser canalha né, e isso para o ativismo é bom porque a gente tinha um inimigo muito evidente”, pontua. Roberto Kaz também editou para um site chamado Central da COP, que misturava jornalismo climático com os clichês do futebol.
Kaz para a próxima geração
Roberto Kaz, que viveu tantas cenas diferentes do jornalismo, é humor, é política, é ativismo e é bicho. Para uma próxima geração de jornalistas, aconselha: “Sejam curiosos primordialmente. Não se rendam ao sistema. Você paga um preço por não estar inserido, mas por outro lado é muito bom a liberdade de bater em quem quiser. Mas não é sempre possível acolher os anseios da sua alma no seu emprego.”.\
Conteúdo produzido por Gabriel Germano, Mateus Lanna, Vinicius Passos, Mateus Alcântara e Rafael Pádua na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão da professora e jornalista Fernanda Sanglard.
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