Fernanda Arantes chegou de chinelos de dedo. Era domingo de manhã, a recepção do hotel Ouro Minas estava quase vazia e ela se acomodou confortavelmente no canto direito de um sofá com roupa casual. Sem poses. Duas horas pela frente. Falou sobre o sotaque que sete anos de fonoaudiologia quase baniram. Sobre o chefe que lhe entregou o uniforme da empresa “pra ela dormir, porque nunca ia usar trabalhando”. Sobre os princípios de depressão. Sobre o namorado médico que nunca contou para ninguém – que não gosta de futebol e assiste a todos os jogos dela – uma revelação que ela nunca havia feito em público antes. Sobre o congelamento de óvulos planejado com o mesmo cuidado com que planeja a temporada de transmissões. Ela falou tudo isso sem baixar a voz, sem pedir para pausar o gravador, sem aquele olhar de quem está medindo o que pode ou não pode dizer. Há algo em Fernanda Arantes que só aparece quando a câmera está desligada: uma fluidez, sem rodeios sobre o custo de existir numa profissão que para muitos fora construída para homens.
Ela tem 33 anos. Nasceu em Curvelo, interior de Minas, cresceu com o jeito mineiro de se interessar pelo outro — aquela curiosidade que ela descreve como “às vezes confundida com fofoca, mas não é, porque o outro é interessante, ele tem valor”. E foi esse interesse genuíno, essa atenção rara a quem está do outro lado, que a tornou boa no que faz. Não a fonoaudiologia. Não o sotaque neutro. Não é o padrão que a televisão durante anos insistiu que ela deveria encarnar. Foi a mineiridade que permaneceu, mesmo depois de tudo o que tentaram tirar da personalidade dela.

Curvelo fica a 170 quilômetros de Belo Horizonte. É cidade de praça, de vizinho que chama pelo nome, de conversa na padaria que dura mais do que o café. Fernanda viveu lá até os 11 anos. Passou por Sete Lagoas até os 18, e chegou à capital para estudar jornalismo na PUC Minas, sem rede de apoio financeiro, com os pais numa situação muito difícil. Trabalhou em um shopping para pagar a própria mensalidade. Frequentava o laboratório de vídeo além do horário. Aprendeu a editar. Aprendeu a operar câmera. E descobriu, quase por acidente, que preferia o outro lado da lente: foi o Toninho (Antônio Maurício Pereira, técnico do Laboratório de Vídeo da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas) — como ela o chama, com o afeto de quem se lembra bem — que a encarou e disse sem rodeios: “Vamos te demitir pra você procurar estágio em TV. Você é boa na frente da câmera.”
A faculdade também lhe deu seis meses em Portugal — intercâmbio pela Universidade do Porto, sem pagar mensalidade, só passagem e hospedagem universitária. Ela tentou francês. Tentou alemão. Cobriu cultura e política europeia. “Lá não tem muita criminalidade. O que você faz? É cultura, muita política. Eles adoram política.” Voltou. Formou-se em 2015, um ano depois do previsto por causa da viagem. Naquele período estudantil sem dinheiro, ela chegou a ir até Paris — aproveitando uma promoção maluca que circulava entre os colegas de intercâmbio, comprou a passagem por 1€. Dois anos depois, cobriu as Olimpíadas de 2024 na mesma cidade, desta vez com credencial de imprensa, estrutura de produção e melhores condições financeiras. “Aí você vai de uma outra forma. Você era estudante, não tinha dinheiro. Aí eu volto com dinheiro. Você entra num lugar e fala: nem sabia que tinha essa parte aqui”, brincou Fernanda.
O esporte não estava nos planos. Fernanda queria ser jornalista investigativa. Passou pela Record, ficou na porta de delegacia acompanhada dos policiais. A virada veio de dentro de um clube: ela jogava futsal quando o Cruzeiro soube disso e a chamou para um teste na TV do clube. Ela hesitou. Olhou para os colegas de classe — homens que sabiam de cor os títulos e as escalações — e concluiu que não tinha chance. “Eu falei: não tenho como recuperar isso.”
Estava errada. E a TV Cruzeiro foi o lugar onde descobriu isso. Não havia o distanciamento que a imprensa tradicional impõe entre repórter e fonte. Conviveu com técnicos, fisioterapeutas e jogadores. Aprendeu futebol pela visão técnica de quem o pratica. “A TV Cruzeiro me ensinou na prática tudo que eu aprendi de futebol. Eu vivia os bastidores. Entendia uma dinâmica que a faculdade não me mostrou. Como eu fazia parte do clube, quebrou aquela parede, não havia o distanciamento que a empresa tinha com o clube. Eu fazia parte do clube, a gente jogava junto, praticamente.” Em 2015, esse modelo de TV de clube era raro. Hoje é a norma do mercado pós-pandemia. Fato é que Fernanda estava dez anos à frente – e não sabia.
Quando sentiu que era hora de fazer seu nome crescer, foi para uma TV Cuiabá/MT. Tinha três dias para decidir, sem saber onde dormiria. “Fui de dinheiro contado, não sabia onde eu dormia; dormi na casa dos outros. Mas fui.” Chegou e foi acolhida pela funcionária do RH da emissora. Ficou quase dois anos. Cobriu a série D, cobriu o Peladão — o torneio amador que é religião no estado. Fernanda afirmou que a experiência na capital de Mato Grosso foi desafiadora devido ao desconhecimento inicial sobre a cultura local. Segundo ela, para realizar um jornalismo mais específico e próximo do público, foi necessário compreender profundamente os costumes e a realidade da região. “Não adianta eu querer falar do São Paulo para o Peladão, sabe? Então eu tive que ter uma experiência imersa a entender o que era a cultura Peladão, que é totalmente diferente do que eu tinha vindo pra que eu fosse ouvida pelos telespectadores”. Depois de Cuiabá, veio São Carlos/SP. Depois de São Carlos, São Paulo. Em cinco anos, quatro cidades. “Não dava pra namorar ninguém”, ela diz com um sorriso que reconhece o absurdo sem se vitimizar.
Em 2020, o SBT montou do zero uma equipe de jornalismo esportivo para transmitir a Copa Libertadores. Fernanda Arantes foi a primeira mulher escolhida. Em dezembro daquele ano, estreou ao vivo na cobertura de Palmeiras e Libertad pelas quartas de final. “Fiquei muito honrada”, lembra Fernanda.
No dia 30 de janeiro de 2021 — data deslocada pela pandemia — ela entrou no Maracanã para cobrir a final da Libertadores entre Palmeiras e Santos. Tornou-se a primeira mulher a transmitir uma decisão continental em TV aberta brasileira. Quatro finais continentais fazem parte de sua trajetória desde então. Do ponto de vista profissional, é o currículo de uma vida. Do ponto de vista pessoal, é outra história.
Resistência feminina no esporte
“Você não tem tempo de curtir. Você recebe tanto hate que você só sobrevive.”
Ela parou. Completou com uma honestidade seca que surgiu várias vezes durante a conversa e relembrou seu episódio como narradora: “Essa batalha eu não escolhi viver. Foi muito pesada pra mim.” O hate que ela descreve não é abstrato. É o DM aberto com fotografias íntimas de homens desconhecidos. É ser chamada de vagabunda por dar uma informação de tabela que a torcida não queria ouvir. “Tudo que vocês imaginarem que pode diminuir uma mulher aconteceu.” E é, também, o que veio antes: o jogador que, há dez anos, disse que só lhe daria entrevista se ela passasse o WhatsApp. Ela foi embora sem a entrevista.
“Antigamente era uma pessoa física, um rosto. Hoje o ataque pode acontecer em qualquer momento. A pessoa não tem rosto. É uma página, um perfil, um comentário. O cancelamento é muito pesado para a mulher. Com a gente, eles ofendem muito o nosso lado pessoa.”
Há um episódio com a narração que ela conta com alívio por ter desistido. Em 2019, tornou-se a primeira mulher a narrar pela rádio CBN — o amistoso entre Brasil e México pela seleção feminina, em Araraquara. No mesmo ano, foi a primeira narradora da EPTV, na final da Taça das Favelas de Campinas. Chegou a fazer testes na Globo para narração ao lado de Renata Silveira. Tinha três semanas para aprender. “Foi a coisa mais assustadora da minha vida. Eu tinha que provar muita coisa, me assustou muito o hate.” O projeto da narração ficou arquivado. “Aposentei esse plano. Quem sabe um dia volto.” O ódio nas redes a afastou de um espaço que ela mesma havia ajudado a abrir — e ela ainda processa isso com honestidade. “Acaba tendo tanto talento reprimido por esse medo.”
“As redações ainda não entendem que nós precisamos ser mais protegidas porque estamos mais expostas. Não é algo só do futebol, é algo da cultura. Você não vai colocar uma mulher pra voltar andando a pé na rua às duas da manhã. Tem muito homem que volta andando na rua às duas da manhã.”
Fernanda Arantes
Ela descreve o abuso dentro das redações com uma objetividade que impressiona. Chegou a ter princípios de depressão depois de trabalhar com um chefe que a humilhava sistematicamente. O homem dizia que ela era gorda. Que nunca faria uma transmissão na vida. Entregava-lhe o uniforme da empresa “pra ela dormir, porque nunca ia usar trabalhando”. Ela acreditou. Demorou anos para entender o que havia acontecido: “O que eu fiz de errado foi ter acreditado nele. Hoje eu entendo que a gente tem que escolher quem vai escutar. Não é porque ele é seu chefe que ele vai te dar as melhores orientações. Aquilo me causou danos na saúde mental muito profundos, que até hoje eu sinto.”
Ela trata ansiedade desde o início da carreira. “É um reflexo de tudo que eu vivi, do machismo, da opressão, da misoginia. É importante você primeiro se curar e depois falar.” Traça uma distinção precisa entre como o machismo pune diferente dependendo do gênero de quem faz a pergunta. “Quando um homem faz uma pergunta difícil, ele é decisivo, corajoso, ele sabe o que está falando. A gente não. A gente é invasiva, nervosa, louca.”
Ela narra um episódio que sintetiza a posição que escolheu ocupar. Num jogo entre Atlético Mineiro e Fluminense, a assessoria do Hulk — que estava se transferindo para o clube carioca — pediu que ela não fizesse perguntas sobre o novo clube. Ela foi direta: “Não existe a possibilidade de você colocá-lo na minha frente e eu não perguntar sobre o principal tema do jogo. Você dita quem vem falar comigo. Mas eu dito o que eu pergunto. Você não pode me censurar. Não tem como, não é do meu perfil fugir do que precisa ser perguntado.” A entrevista não aconteceu.
“Passei muitos anos alimentando uma raiva dessas situações e falando: um dia vou conseguir um lugar de destaque. Só que foi na base da raiva. E aí quando você chega no lugar de destaque e olha tudo que viveu, você não conseguiu curtir o processo, porque estava tão focada em provar o seu valor. A caminhada provando o seu valor é extremamente cansativa. Quando você olha e fala: poxa, conquistei tanta coisa — mas a que custo? A minha vida pessoal foi muito prejudicada por causa disso.”
Há uma tensão central na trajetória de Fernanda Arantes que atravessa tudo e que demora um pouco para ser nomeada. Durante anos, ela foi obrigada a desaparecer para conseguir trabalhar. A televisão queria o sotaque neutro — ela fez sete anos de fonoaudiologia para apagar Curvelo da voz. A televisão queria o distanciamento — ela anulou a espontaneidade, o humor, a mineiridade. “Quando eu entrei nessa caixinha eu perdi a minha personalidade.”
E então, com a chegada das redes sociais, o mercado passou a exigir exatamente o que havia suprimido nela. “De repente, dez anos depois, eles falaram que eu não tinha o perfil porque estava dentro de um padrão. Isso muda. Isso é geracional. O mercado te pede uma coisa e o jornalismo valoriza outra. Há dez anos, eu fazia stories e meus chefes falavam que eu estava pagando mico. Hoje eu sei: jornalista que não faz stories, que não faz reels, não existe.”
“Eu não posso fazer o que fiz a vida inteira no jornalismo, que foi anular quem eu era pra me encaixar num padrão. Pra mim é muito mais feio você inventar uma mentira por causa de um furo, prejudicar uma pessoa pra ter views, do que dançar na internet. A minha credibilidade não vai ser destruída porque eu tenho uma personalidade que gosta de dançar.”
Hoje ela resgata aquela Fernanda da faculdade: a que fez teatro a vida toda, que queria ser atriz, que o pai desestimulou porque “não estava no dinheiro”. O humor que ela descreve como seu traço mais forte ainda vem com alguma cautela. Disse que tem muito medo de mostrar todo o humor que existe nela. Por traumas das redações, pelos abusos morais que sofreu. Nessa conversa, o sotaque foi voltando. Devagar, a cada hora que passava, Curvelo ia reaparecendo nas vogais, no jeito de completar as frases. Ela relatou, que em uma breve ligação com os pais, por exemplo, parece que tem uma “chavinha” que vira para o “mineirês”.
Fernanda Arantes namora há dois anos e meio. Nunca havia dito isso publicamente. A revelação saiu quase de passagem, no meio de uma frase sobre exposição nas redes sociais: “Eu acabei de contar pra vocês que eu namoro, mas a minha rede social não tem nada sobre o relacionamento. Nunca falei disso. É uma coisa curiosa.-” Ela fez uma pausa, ri sem acreditar no que acabou de dizer, e continuou: “Ele é low profile. É médico. Mora em Ribeirão Preto, eu moro em São Paulo. Não gosta de futebol, mas assiste todos os meus jogos.-”
A independência financeira que as redes sociais lhe deram foi o que tornou esse equilíbrio possível. Hoje ela tem contrato com grandes marcas — entre elas a Hyundai, patrocinadora da Copa —, cobre Copa do Brasil e Brasileirão pela Amazon Prime e apresenta o Bola Quadrada no canal Veja Mais, da revista Veja. Tem uma social media, um editor. Mas o texto é sempre dela. Ela se recusou a ter roteirista: “Precisa ter a minha fala, o meu texto. As informações sou eu que apuro. Eu nunca vou falar algo que chegou pra mim como briefing de publicidade sem apurar com as minhas próprias fontes. Isso é a minha cara ali.”

Com 33 anos, ela planeja a maternidade com a mesma seriedade com que planeja uma temporada de transmissões. O primeiro passo já foi dado: congelou óvulos. “Quero decidir quando vou engravidar, porque preciso decidir conforme os campeonatos. Ano que vem tem Copa Feminina — não vai dar. Depois têm as Olimpíadas em Los Angeles — talvez não dê.” Ela sorri ao narrar o absurdo disso, mas não minimiza o peso. “Outra diferença que o homem não tem. Entendeu?”
“A grande perda que tive no jornalismo foi o tempo com a minha família. Sair de Minas foi muito pesado. Estou aqui em Belo Horizonte e não consegui ver ninguém da minha família. Eu quero estar presente. Eu penso em trabalhar até onde eu conseguir, mas também parar porque quero viver essa experiência com um filho.”
Fernanda ainda compartilha conosco que, embora nunca tenha tido tempo para férias, há três anos, passou a tirar um mês para ir à Bahia, em um local onde sequer tem sinal de wifi. Motivo disso: a jornalista começou a se aventurar em aulas de surfe. Se divertiu nos contando as experiências que vivenciou no esporte.
Em contrapartida, também fala a respeito da pressão estética sobre a mulher que envelhece na televisão. A emissora chegou a interferir no cabelo dela: precisava ser liso, discreto, “pra não chamar atenção”. Ela está hoje em transição capilar. “Eles falam que o homem mais velho com barba por fazer é desleixado, mas inteligente. A gente mais velha não é útil.”
Perto da conversa completar duas horas, foi questionada sobre o que ainda faz ela amar essa profissão. Depois de tudo — dos abusos morais, do hate, das quatro horas e meia de sono por noite nesta temporada, das cidades que teve que largar, dos relacionamentos que não tiveram tempo de existir, da raiva que usou como combustível e que cobrou um preço que ela ainda está calculando – ella não hesitou:
“Contar história. Eu amo contar história. O esporte é muita superação. E o jornalista é um atleta também.”
Depois, completou o raciocínio em voz alta: “O outro é muito interessante. Ele tem valor pra gente. Isso eu acho tão digno, tão lindo, eu não quero perder nunca.”
Fernanda se levantou, e com a agenda cheia, tinha jogo para cobrir: Cruzeiro e Chapecoense, motivo para estar em Belo Horizonte. Além disso, tinha cinco vídeos para gravar antes do fim do dia. A conversa terminava; o trabalho, não.
Mesmo apressada, ainda tivemos uma prosa final, onde compartilhamos experiências por sermos todas filhas da PUC. Entre lembranças da graduação, brincou ao relembrar histórias do Diretório Acadêmico (DA) em sua época, especialmente o episódio em que os estudantes colocaram uma sinuca na sala, alegando que se tratava de uma mesa. Depois da instalação, segundo ela, já não podiam retirar o objeto sem autorização dos próprios alunos. Ao descobrir que, na unidade de Lourdes, o DA no nosso andar é vinculado ao curso de Direito, divertiu-se com a situação e fez piada sobre a diferença entre os campi. Fernanda comentou que aproveitou bastante a vida acadêmica no Coração Eucarístico, mas demonstrou felicidade ao ver o curso se expandindo para outra unidade.
Fernanda, termina a entrevista com um sorriso. Aponta, novamente, que faz parte de uma geração que está na linha de frente para que o caminho não seja tão tortuoso para as próximas sucessoras. Ela parece estar conseguindo. Ainda bem.
Conteúdo produzido por Bruna Ribeiro, Ester Filgueiras e Maria Eduarda Pimentelna disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges.




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