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Helena Corezomaé/ Foto: Reprodução Rede Katahirine

Helena Corezomaé: a única voz indígena no jornalismo de Mato Grosso

Repórter, editora, cineasta, fotógrafa, escritora e a solidão de ser a primeira

“Sou a única jornalista indígena em Mato Grosso.” 

A frase não é dita com orgulho vazio, mas com o peso de quem carrega sozinha a representação de um povo inteiro dentro das redações. Helena Indiara Ferreira Corezomaé, 37 anos, é da aldeia Umutina, território Balatiponé, no município de Barra do Bugres (MT), nome que a jornalista considera um desrespeito histórico, pois “Bugres” é um termo inadequado para se referir aos povos indígenas, segundo ela, o correto seria Barra dos Balatiponé.

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) em 2015, mestre em Antropologia Social, Helena Corezomaé atua há mais de uma década entre a grande mídia (TV Centro América, afiliada da Rede Globo) e o ativismo indigenista, hoje, como profissional da Operação Amazônia Nativa (OPAN). Mas sua história não começa nos estúdios, começa com uma operação da Polícia Federal e a pergunta que mudou tudo.

Em 2009, a comunidade Umutina foi alvo de uma fiscalização de pesca predatória. Não encontraram pescado, mas usaram spray de pimenta contra lideranças que foram ao porto indagar o que acontecia. Várias pessoas ficaram feridas. Ninguém da comunidade foi ouvido. “Eu lembro de pensar: ‘nossa, como seria importante se a gente tivesse algum jornalista indígena’”, conta. No ano seguinte, a UFMT abriu processo seletivo específico pelo programa Pró‑Indi. Helena fez vestibular, passou e começou sua luta na faculdade.

Ao sair do território em 2010, Helena nunca mais voltou a morar na aldeia. Concluiu a graduação em 2015 e, incentivada por uma professora que mandava mensagem todos os dias para garantir sua inscrição, entrou no Mestrado em Antropologia Social em 2016, sem intervalo. “Ela insistiu muito. E eu realmente me inscrevi por muito incentivo dela”. De lá para cá, vive em Cuiabá, a duas horas e meia de sua comunidade.

Helena é casada com Isaac Amaju Nepá, também da mesma comunidade e do mesmo povo Balatiponé. Começaram a namorar na adolescência e completaram 18 anos juntos em 2026. O filho, Kaima Nepá (10 anos), que significa “rei dos gaviões”, é autista nível 3. “Ele é fundamental para incentivar tudo que eu faço. Como ele vai me enxergar, ou o que vão falar sobre mim, me inspira a tudo”.

A única, e o que isso significa na redação

Durante anos, Helena foi a única indígena nos corredores da TV Centro América, onde chegou ao cargo de editora. O que isso significa na prática?

“Ter que ouvir tanta coisa absurda na redação, como ‘você não tem vergonha de falar que você é indígena?’, brincadeiras, pessoas me verem no elevador e pegarem no meu brinco, na minha pele, no meu cabelo, como se eu fosse um objeto”

Ela descreve a sensação de ser tratada como “um bichinho inanimado”, tão rara naquele espaço em que as pessoas se sentiam autorizadas a tocar.

A solidão profissional também se manifestou na pauta. Ela lembra que a primeira viagem financiada por um veículo jornalístico para ir ao território não veio da Globo, mas da Agência Pública. “Tudo que eu fazia era muito esforço meu, individual, de cobrir a pauta. Foram incontáveis matérias que eu fiz fora do meu horário de trabalho”. Entre elas, um trabalho solitário e incômodo: o acompanhamento da mortalidade infantil entre os Xavantes em Mato Grosso. “Criança morrendo por sarna, por diarreia. Às vezes chegava no hospital e o médico falava: ‘elas estão com fome’”. Ela mesma levantava os dados, analisava, publicava, sem apoio estrutural.

O cinema que nasceu da militância

Helena também é cineasta, integrando a Rede Katahirine, que reúne quase 90 cineastas indígenas do Brasil. Seus primeiros vídeos, porém, não tinham pretensão artística: eram registros de manifestações e da militância de estudantes indígenas na UFMT. “Eu falo assim: as reportagens em texto eu utilizo para contar a história dos outros. A maioria das vezes que eu faço documentário, é para contar histórias íntimas, muito íntimas, minhas mesmas ou de quem eu gosto”.

Produção audiovisual indígena/ Foto: Reprodução Rede Katahirine

Seu primeiro filme autoral é sobre um córrego que passava dentro de seu território e secou, chamado Elotinopopare. O mais recente, “Kaima Nepá” – nome de seu filho – é um documentário sobre o menino autista e a relação de cuidado com o pai, Isaac Amaju Nepá, também indígena do povo Balatiponé. O filme rodou festivais na França, na Inglaterra e no Brasil. “A gente vê muito aquele documentário padrão, falando sobre declaração de lideranças. Eu trago outra perspectiva”.

A Operação Amazônia Nativa e inspirações na carreira

Em 2024, Helena deixou a TV aberta e foi para a OPAN, a organização indigenista mais antiga do país. Lá, tem se dedicado a um tema pouco coberto: as violências sofridas pelos povos indígenas durante a ditadura militar. “São povos que foram retirados de seus territórios, levados à força com arma apontada para a cabeça”. Ela acompanha casos dos povos Kaiabi, Tapayuna e outros que ainda lutam para voltar às suas terras. “As pessoas defendem o marco temporal sem conhecer todos esses contextos”. O marco temporal é uma tese jurídica que restringe a demarcação de terras indígenas apenas àqueles territórios que estivessem sob posse ou em disputa judicial pelos povos originários em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da atual Constituição.

Na COP 30, realizada em Belém, em 2025, Helena esteve presente pela Rede Katahirine e pela OPAN, lançando um novo filme sobre as mulheres da Associação Thutalinãnsu, do território Tirecatinga (MT), que estão revolucionando com atividades que trazem qualidade de vida para toda a comunidade.

Ela tem duas referências na sua carreira: a primeira é Naine Terena, também comunicadora e artista, formada em rádio e TV (atual cinema) pela UFMT. “Ela me encontrou pelos corredores da UFMT e me adotou. Eu falo que sou a filha dela”. Foi Naine quem a chamou para o primeiro trabalho bem remunerado ainda como estudante: um projeto para fortalecer as artesãs de seu território, que resultou no grupo Boloriê.

A segunda é a jornalista Renata Tupinambá. Quando Helena foi convidada para participar da bancada do programa Roda Viva (TV Cultura), ao lado da então ministra Sônia Guajajara, ficou muito nervosa. “Eu lembro da Renata, da tranquilidade, da leveza. Me inspirei muito nesse jeito dela”. Depois do programa, mandou uma mensagem para agradecer.

Helena Corezomaé e uma carreira de lutas indigenistas

Helena Corezomaé é a única jornalista indígena em Mato Grosso. No Brasil inteiro, segundo ela, existem cerca de 50 jornalistas indígenas, e a maioria está em assessorias, não nas redações.

“As redações realmente se tornam um espaço muito difícil para a gente estar, tanto financeiramente quanto da própria atuação.”

Ainda assim, ela segue. Como escritora, como cineasta, como repórter – quase como uma polímata dos povos originários – que cobriu segurança pública, meio ambiente e a morte silenciosa de crianças Xavantes, quase sempre fora do horário de trabalho. Porque, como ela diz, “era importante, eu tinha que falar, eu tinha que fazer sobre isso”, provando que a luta por direitos coletivos é incessante e não pode parar nunca.

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