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Arquitetura da memória: lembranças de uma trajetória dedicada a manter o passado presente 

O responsável pelas curvas de Copacabana fala sobre uma trajetória marcada pelo amor à cidade e sua poesia

Deus e os arquitetos têm trabalhos parecidos: ambos criam a partir do nada. Deus desenha paisagens, molda a natureza e compõe cenários únicos e deslumbrantes. Os arquitetos, por sua vez, também trazem à vida realidades que antes não existiam. Por meio de ideias e traços, conjugam formas, curvas, cores e proporções, além de harmonizar materiais e texturas. Ao final, deixam sobre o solo configurações que ultrapassam o presente e alcançam plenamente o futuro. Dito isso, talvez se possa pensar que, se Deus tivesse uma profissão, ele seria arquiteto.

“Tem que ter o espírito do arquiteto, porque é preciso compor em cima do nada.” 

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro é uma pessoa que sempre viveu com um propósito. Com cinco minutos de conversa, já é possível identificar por quais paixões e interesses ele se move – a arquitetura e o urbanismo são algumas delas. 

Quando cheguei ao seu apartamento para realizar uma entrevista – uma espaçosa e estonteante residência em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro –  não fiquei nem um pouco surpresa. Quando penso em como seria o lar de um arquiteto bem-sucedido como ele, imagino exatamente o que encontrei. Além da vista fascinante da lagoa por todos os cômodos, a casa é preenchida por inúmeras obras de arte que fazem do lugar uma espécie de museu aconchegante. No quarto de visitas, noto uma longa estante repleta de filmes separados por países de origem e, no escritório, mais uma estante abriga inúmeros livros. Belíssimos móveis se espalham pelos ambientes, e porta-retratos com sua esposa, filhos e netas estão distribuídos por toda a casa. Tudo ali faz muito sentido.

Em uma cultura marcada por uma padronização excessiva, a casa de Augusto Pinheiro afirma justamente o oposto: ela demonstra originalidade e transparece o carinho e orgulho que ele tem por sua trajetória pessoal e profissional. 

 Qualquer que seja o seu caminho, ele é válido, desde que você não perca o foco do objetivo – porque é ele que te sustenta

Augusto Ivan de Freitas

Nascido em 17 de novembro de 1944, em Palma, Minas Gerais, diz que se orgulha de ter escolhido seguir a profissão de arquiteto, uma vez que vem de um lugar onde ninguém sequer tinha ouvido falar dessa possibilidade de carreira. Na verdade, uma pessoa sim: sua tia – podemos chamá-la de sensitiva, visionária, atenta e perspicaz, você escolhe – o viu desenhando no chão e logo elogiou suas habilidades, recomendando-o a fazer arquitetura. A partir desse momento, o seu destino começou a tomar forma.

Augusto Pinheiro graduou-se em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1968 e afirma que, nessa época – um período de intensas transformações políticas e sociais – “havia uma efervescência comportamental e discursiva muito grande, com forte participação estudantil, o que impactava também as atividades ligadas ao curso de Arquitetura”. No início da graduação, percebeu que os alunos não eram vistos como membros ativos da sociedade, mas apenas como futuros profissionais voltados para uma formação mais fechada. No entanto, por influência do contexto histórico em que vivia, viu-se profundamente engajado em uma arquitetura e em um urbanismo intimamente voltados à sociedade e à forma como esta se relaciona com o espaço urbano. Sua atuação profissional destacou-se, sobretudo, na preservação do patrimônio histórico do país e na preocupação com a ocupação democrática da cidade. 

Em 1974, cursou uma pós-graduação em Planejamento Urbano em Roterdã, na Holanda, e, em 1978, na mesma cidade, especializou-se no programa especial do Instituto de Habitação e Desenvolvimento Urbano. Esse período de estudos em um país tão diferente do Brasil, ajudou-o a adquirir maiores conhecimentos acerca da participação da população nas decisões urbanas. Na Holanda, naquela época, já se valorizavam projetos urbanísticos mais abertos e conectados com as pessoas, como as ruas exclusivas para pedestres, que transformaram a dinâmica urbana e trouxeram mais vida aos espaços públicos. 

Outro ponto que Augusto Pinheiro me indica é o marcante costume holandês de usar bicicleta como meio de transporte. Essa prática abriu seus olhos para como alternativas ao automóvel podem ser integradas ao planejamento urbano, incentivando uma mobilidade mais sustentável – tema que começava a ganhar espaço também no Brasil. 

Toda essa vivência internacional, aliada ao contato com novas metodologias e a um ambiente multidisciplinar, contribuiu para que ele se tornasse um profissional com uma visão mais ampla, moderna e socialmente engajada do urbanismo. O olhar acabaria sendo aplicado, segundo o arquiteto, no trabalho que ele desenvolveu no Rio de Janeiro. 

“Uma cidade sem memória é uma cidade que não existe. É zero.”

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro

Em 1976, o Palácio Monroe, icônico edifício localizado na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, que serviu como sede do Senado Federal entre 1925 e 1960, foi demolido. Por meio de um decreto de Ernesto Geisel, quarto ditador da Ditadura Civil-Militar brasileira, o edifício, famoso por sua beleza arquitetônica, foi inteiramente reduzido a escombros.

Na vista aérea da década de 1960, o Palácio Monroe, projeto de Souza Aguiar, ainda de pé.  Foto: Arquivo / O Globo

 Contudo, Augusto Pinheiro relata que essa situação gerou manifestações populares inesperadas que representaram um ponto de virada e um despertar da população em relação à preservação do patrimônio cultural material das cidades. 

A partir das mobilizações dos cariocas inconformados com a demolição, o prédio tornou-se um dos maiores símbolos de defesa da preservação do patrimônio histórico e cultural no Brasil e, especificamente na trajetória profissional de Augusto Pinheiro, representou uma conjuntura favorável ao desenvolvimento de seus projetos voltados à preservação e memória das cidades. Isso porque, como ele mesmo diz, “um prédio não serve só como valor arquitetônico, ele tem outros valores, tanto sentimentais, como afetivos, históricos e acadêmicos”.

Nesse cenário, após retornar do período de estudos no exterior, o arquiteto – acredito que, como todo jovem profissional – sentia-se perdido em relação ao que faria no futuro. Porém, contando com uma pitada de sorte e a ajuda de mãos amigas, recebeu um convite especial. 

Seu amigo Armando Leitão Mendes, arquiteto e diretor do setor de planejamento urbano da Secretaria Municipal de Urbanismo, fez aquele tipo de proposta que não se recusa. Perguntou a Augusto:“Você não quer aproveitar tudo isso que fez lá fora e colocar em prática aqui no Rio? Eu te dou uma equipe, um espaço para projetar e depois você propõe algo que possa ser aplicado”.

Augusto Pinheiro aceitou o convite e iniciou o que viria a ser uma carreira de décadas na Prefeitura do Rio de Janeiro, focada essencialmente em identidade e conservação do espaço urbano. Foi nesse contexto que surgiu um de seus maiores projetos como arquiteto e urbanista: o Corredor Cultural. 

Corredor cultural

Se você, ao visitar o centro do Rio de Janeiro e, em suas andanças como turista, fica maravilhado com as construções tradicionais que contam a história do Brasil, agradeça ao projeto Corredor Cultural.  O plano, que abrange a região da Praça XV, Cinelândia, Lapa, Saara, Praça Tiradentes, Rua do Ouvidor e Gonçalves Dias, foi desenhado para proteger, revitalizar e recuperar o patrimônio arquitetônico do Centro Histórico carioca. 

A virada de chave aconteceu no final da década de 1970. Naquela época, o Rio de Janeiro ainda se recuperava dos impactos da perda do posto de capital federal somados ao avanço da modernização que se instaurava, de forma alastrante, nas bases da cidade, demolindo as raízes do passado em nome do avanço progressista. Diante dessa ameaça de apagamento, Augusto Pinheiro surgiu com seu olhar sensível e determinado, buscando frear essa onda de demolições e destacando-se como um dos pilares da resistência urbana. Esse movimento de protesto contra uma modernização excludente ganhou força no IPLANRIO – órgão responsável pelo planejamento urbano do Rio na época – que reunia os melhores arquitetos, geógrafos e sociólogos urbanos do município. Foi nesse cenário técnico e progressista que o projeto do Corredor Cultural nasceu. 

Trazendo uma visão afetiva a respeito do conceito de cidade e centro urbano, Pinheiro percebeu que a alma do Centro Histórico do Rio se encontrava na identidade carioca, que se refletia nos sobrados tradicionais e nas fachadas históricas. Essa ideia de que a cidade é intrínseca ao convívio social e à identidade cultural se manifestou ainda em outro marco na carreira do arquiteto e urbanista: o alargamento da Praia de Copacabana e a reurbanização da Lapa. 

A orla de Copacabana e a revitalização da Lapa

Quando questionado sobre esse projeto, foi notável o brilho no olhar e a paixão que transbordava de suas palavras enquanto relatava com adoração os detalhes dessa vivência. Afinal, como citado pelo próprio Augusto, a praia de Copacabana sempre foi um ícone carioca. Mexer em Copacabana e na Lapa significava intervir no coração da cidade. Esse aspecto boêmio presente nessas duas partes do Rio representa a vida cultural, o entretenimento e a convivência social que os caracterizam. Porém, algo precisava ser feito para conservar esses aspectos frente à modernização agressiva que ameaçava Copacabana. “Em determinado momento, ela se tornou impraticável, porque havia o péssimo hábito de carros estacionarem sobre as calçadas, em qualquer espaço disponível. Eles achavam que o carro tinha direito de ocupar qualquer lugar livre. Mas é uma cidade praiana, feita para pessoas caminharem, se encontrarem e ocuparem o espaço público”, destaca Augusto. 

A execução desse projeto fez com que o jovem arquiteto, no começo da década de 1970, mergulhasse no coração de ambos os bairros, observando suas ruas e dialogando com as mais variadas pessoas, afinal, era preciso entender a essência da formação desses espaços. 

Se juntando às arquitetas Sônia Mattos de Caúla e Maria de Lourdes Derenusson Kowarski, começou o detalhamento e desenvolvimento do projeto, baseado em conversas realizadas com a própria comunidade. Augusto Pinheiro deixou claro o objetivo da proposta: definir as áreas de pedestre e adaptar o traçado existente a um modelo mais contemporâneo de cidade. A rotina do projeto foi marcada pela produção de diversos desenhos e detalhamentos urbanos. Um dos pontos mais discutidos, de acordo com ele, era a respeito do formato das ondas da famosa calçada de Copacabana – se deveriam ser mais alongadas no sentido da praia ou paralelas ao mar. Esse trabalho minucioso acabou se diluindo nas memórias de Augusto, sendo resgatada anos mais tarde. “Eu mesmo tinha me esquecido disso”, recorda. “Até que uma conhecida, pesquisando sobre o Posto 6, descobriu que fomos nós que desenhamos aquelas curvas”.

Apesar de suas intervenções, que se estenderam desde a Avenida Atlântica até as faixas de areia, continuarem  intactas até os dias de hoje, o olhar de Augusto Pinheiro sobre Copacabana nunca ficou parado no tempo. Anos depois, quando já havia consolidado sua carreira, ele e sua esposa, Eliane Canedo, também arquiteta e urbanista, realizaram um estudo pioneiro sobre a ocupação da praia e o volume econômico que era gerado na faixa de areia. 

 Orla da praia de Copacabana. Foto: Eleonora Sommer    

“Queríamos combater a ideia de que o comércio informal só gerava desordem. Na verdade, ele movimentava muito dinheiro. E era bonito ver os vendedores de chapéu de palha, de biscoito Globo, ciganas, pessoas fazendo castelos de areia, tudo isso ainda faz parte da paisagem”. Ao enxergarem o comércio informal para além de uma mera desordem que precisava ser extinguida, Augusto e Eliane provaram o contrário. Na verdade, esse tipo de comércio passou a movimentar uma economia equivalente ao orçamento de um município inteiro, como o de Nova Iguaçu. 

Graças a consolidação dessa base sólida de ordenamento urbano que foi constituída lá atrás – que permitiu a regulamentação desses comerciantes e trabalhadores pela prefeitura –, Copacabana se transformou em um espaço cultural inovador. Atualmente, a praia é considerada o maior palco a céu aberto existente, abrigando as tradicionais celebrações de Réveillon, e também shows internacionais anuais, como Madonna, Lady Gaga e Shakira – tudo isso sem perder sua intensa atividade urbana consolidada no cotidiano.

 “Era fascinante ver a capacidade do ser humano criar, inventar e estabelecer um novo tipo de assentamento urbano.”

Depois de deixar sua marca em projetos como o de Copacabana e o Corredor Cultural, Augusto Pinheiro levou sua experiência para as favelas cariocas, trabalhando no Fundo Municipal de Desenvolvimento Social. Quando o questionei sobre sua atuação direta na urbanização das favelas, sua esposa Eliane se juntou entusiasmada à conversa, relatando suas experiências com uma visível admiração e carinho pelo projeto. O arquiteto, ainda, acrescentou uma consideração sentimental e pessoal acerca do tema: foi durante o desenvolvimento dessas atividades que conheceu Eliane.  

A experiência fez com que ele deixasse de lados certos preconceitos técnicos que poderiam se manifestar e decidiu usar a experiência para aprender com a comunidade e a genialidade popular oferecida. Ao contrário de quem enxerga aqueles lugares somente como locais de carência e pobreza, Pinheiro maravilha-se com a engenhosidade dos moradores. “Era fascinante ver a capacidade do ser humano criar, inventar e estabelecer um novo tipo de assentamento urbano”, recorda, destacando ainda que a cidade do Rio de Janeiro serviu de exemplo por possuir as primeiras favelas do Brasil, construídas no Morro da Providência.  

Sem interferências externas, era fascinante a capacidade da população de articular soluções surpreendentes para habitarem os terrenos que a cidade rejeitava – as encostas íngremes e os alagadiços. Eliane recordou algumas dessas situações que percebeu: “A gente viu registrado a favela inteira descendo o morro, o sistema de água que a gente consegue distribuição vem pelos canos da calçada aqui na cidade, o deles vinha por cima voando, assim, igual fio de luz, onde cada rua desce um caninho”.

Essa imersão, entretanto, exigiu um jogo de cintura maior. Atuar em áreas dominadas pelo tráfico de drogas demandou um código estrito de convivência. Para garantir a segurança da equipe que estava responsável pelas obras, foi preciso enviar um aviso prévio às lideranças locais. Por mais que houvesse certo receio, o respeito pelo trabalho social e pelas comunidades prevaleceu. 

A rotina do projeto era marcada por reuniões noturnas em associações de moradores locais, considerando que esse era o único horário que os trabalhadores poderiam participar. No início, a equipe foi recebida com certo receio, repleto de olhares de desconfiança e desconforto, porém, à medida que o projeto se desenvolvia, ele se tornava cada vez mais compreendido e aceito. Eliane reforça que, apesar de haver situações tensas uma vez ou outra, era extremamente instigante conhecer mais daquela realidade que se encontrava tão perto, porém ainda tão distante.

Bondinho de Santa Teresa, Lapa. Foto: Dalila Sousa

Toda essa bagagem política e social permitiu que Augusto Pinheiro, anos mais tarde, desenvolvesse um extenso e denso estudo sobre favelas para o governo da Holanda, em conjunto com outra arquiteta. O êxito do relatório acarretou em um convite para uma apresentação com foco nos complexos da Maré e da Rocinha. Essa pesquisa serviu de indicador ainda para a Prefeitura do Rio. 

A carreira de Augusto Pinheiro consolida um objetivo final: a revitalização do espaço público, a devida introdução de sistemas de esgoto, iluminação correta, abastecimento de água e abertura de caminhos para escoamento e circulação das chuvas nas encostas. Por atuar na frente da coordenação desses projetos complexos e significativos, ele construiu uma trajetória extensa e marcante nas comunidades cariocas. Foi um período de conversas e discussões eletrizantes e de convivência com mentes brilhantes, que fazia tudo valer a pena. Para Augusto Pinheiro, o Rio de Janeiro é uma cidade viva e complexa, que sempre exigiu uma sensibilidade para além do desenho técnico. 

“Uma pessoa razoável não renuncia aos seus princípios.”

Quando perguntado se o Rio de Janeiro de hoje está mais próximo ou mais distante da cidade ideal que ele imaginava no início da sua carreira, recebi uma resposta que – para uma pessoa pessimista como eu – me surpreendeu: “Então, eu acho que andamos para frente”. Percebo, em sua fala, que existe um orgulho pelo caminho percorrido ao longo desses anos dedicados à defesa do patrimônio histórico e cultural brasileiro. 

No entanto, Augusto Pinheiro também me lembra que essa trajetória foi – e continua sendo – permeada por inúmeros desafios. A influência da política, muitas vezes representando interesses pessoais e escusos de grupos mais influentes da sociedade, acaba prejudicando o andamento de diversos projetos. “Tem momentos que foram bravos, que a política entrou e ela nem sempre é uma boa companheira e nem uma boa aliada”, reflete ele. 

A pressão exercida por empresas do setor imobiliário também representa um obstáculo significativo. Isso porque esse setor resiste à projetos de tombamento e preservação histórica por limitarem o potencial econômico de terrenos e edifícios, uma vez que impedem demolições, ampliações ou novos empreendimentos mais lucrativos. 

Vale destacar que, como professor universitário por mais de 25 anos, Augusto procurou transmitir os princípios norteadores de seu trabalho aos diversos alunos que teve contato ao longo de anos de docência. Para ele, seus alunos o ajudaram a manter acesa a vontade de ensinar aquilo que aprendeu durante tantos anos de profissão. Com o semblante emocionado, declara que “o aluno talvez seja a coisa mais rica da arquitetura ou uma das coisas mais ricas que possam existir. Eles estão num estágio de amadurecimento grande, conseguem refletir sobre as coisas e estão sempre buscando novas curiosidades”.

Além de arquiteto, urbanista, professor e praticante de ioga aos 81 anos – quando cheguei ao seu apartamento para entrevistá-lo, precisei esperar pacientemente enquanto ele terminava sua aula –, Augusto Pinheiro também é um escritor premiado. Seu livro “Rua do Lavradio” foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura em 2008, na categoria “Arquitetura, Urbanismo e Artes”. A obra trata da história do Rio Antigo, destacando a evolução da primeira rua residencial da cidade, com uma abordagem essencialmente histórica, mas também bastante poética.  

Livro  “Rua do Lavradio”. Foto: Eleonora Sommer

Eu estou esquecendo das coisas”

Devido ao avanço da idade, por vezes, ao revisitar suas memórias, alguns pormenores e datas lhe escapam. Ainda assim, nada disso compromete a riqueza das experiências que compartilha.  Confesso que fico profundamente emocionada ao conversar com pessoas que dedicaram a vida inteira a fazer o que amam. Elas parecem mais leves, mais felizes e em paz consigo mesmas – e isso transparece de forma nítida em Augusto Pinheiro. Depois da escuta atenta de sua trajetória completa, tenho a opinião que talvez não seja tão importante assim que Augusto apresente essas pequenas falhas de memória. Elas conseguem ser facilmente supridas por seus projetos e trabalhos que permanecem inscritos na cidade, visíveis para todos aqueles que andam pelo Rio de Janeiro. 

O profissional da arquitetura e do urbanismo fica responsável por traduzir a vida de maneira palpável. Por meio de conceitos e traços, sua arte se torna interativa por natureza; ela detém o solo, molda a paisagem e transforma-se no cenário onde o dia a dia da população ocorre. Ao final, eles deixam uma obra viva que atravessa o tempo e dita o ritmo do futuro.

O importante é que Augusto Ivan de Freitas Pinheiro nunca deixou de seguir seu próprio percurso pela vida e, como ele mesmo diz: “Estou esquecendo das coisas, né? Mas digo que está tudo bem, que está tudo andando, soprado pelo vento…”.

Conteúdo produzido por Anna Cláudia Gomes, Eleonora Jaeger Sommer, Iara Solo Lessa, Maria Fernanda Schofield na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges. 

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