Em 6 de maio de 1982, nasceu em Taboão da Serra, uma mulher destinada a viver a paixão pelo futebol desde a sua infância. Sua jornada como jogadora começou através do incentivo dos seus irmãos mais velhos, acompanhando-os em todos os jogos dos fins de semana, brincando de travinha tanto na rua, quanto no quintal de casa e até ficando no gol nos jogos que ia — o que não era tão comum para mulheres naquela época.
Vingadora e resistente
Uma conversa tão importante não poderia ter acontecido em outro lugar senão no ambiente onde ela vive a sua maior paixão. Com o som de um jogo de futebol no fundo, e entre os brasões e as artes do time que lidera, Fabiana Guedes, a Fabi, atual técnica das Vingadoras (Clube Atlético Mineiro) nos apresentou a Vila Olímpica do Galo e contou um pouco mais da sua história.
Em uma época em que o esporte ainda era um espaço predominantemente masculino, Fabi encontrou ali um espaço de pertencimento. O futebol se tornou muito mais do que uma brincadeira com os irmãos na rua, ele virou parte da sua identidade. A ex-atleta passou por diversos clubes como jogadora, entre eles: Juventus, Santos (Sereias da Vila), Seleção Brasileira Feminina, SV Neulengbach, São José-SP, Keynsham Town. O que a movia e não deixava desistir era acreditar, mesmo vindo de um cenário no qual não havia muitas oportunidades para o público feminino, a sua competência a levou muito longe — de jogos em projetos sociais na periferia de Taboão da Serra, à convocação para a Seleção Brasileira e até ao frio da Áustria e da Inglaterra — enquanto ainda jogava.
“O treinador falou: ‘Olha você tem potencial, eu vou marcar uma avaliação para você no Juventus.’ Ele marcou a avaliação, passei de primeira. Essa forma profissional entrou na minha vida nessa avaliação, porque eu vivia em uma bolha dentro da periferia de Taboão da Serra, que é onde eu moro, que todo mundo brincava na rua, brincava no social, mas a gente não ampliava o conhecimento para saber que tinha um time jogando, que tinha um time feminino, porque não era televisionado, a gente não tinha visibilidade então como é que eu ia assistir? Eu assistia o jogo do masculino, eu não assistia o jogo do feminino.”
Em sua experiência indo para a Áustria, em 2009, para jogar pelo clube austríaco SV Neulengbach, Fabi relatou que houve algo muito inesperado, engraçado e até um pouco trágico que ela não esquece até hoje. Enquanto preparava tudo para embarcar para o país europeu, a ex-jogadora recebeu de seu empresário da época uma lista de coisas que precisaria levar para aguentar o inverno austríaco, mas o que ela não esperava é que só estivessem listadas peças de roupas masculinas, como cuecas. O empresário não estava acostumado a trabalhar com mulheres e como ela era a primeira atleta dele, ele não se atentou a mudar as coisas listadas. “Aí ele falou: ‘pô, você me desculpa que eu não era acostumado a trabalhar com mulher, e aí eu nem troquei e tal, eu só tenho jogador homem, você é a primeira mulher que eu vou trabalhar’. Fui a primeira atleta dele.”
Fabi contou sobre a incerteza em meio a tantas dificuldades — viver em uma casa com 25 pessoas, jogar em um país onde não sabia falar o idioma local, não receber o suficiente e o cansaço da rotina de jogadora — e falou sobre como abriu mão de receber mais como atleta, para ter algo que na época não era tão comum para as jogadoras, o estudo. “Mesmo tendo a oportunidade de ganhar um pouco mais de dinheiro, eu optei pela faculdade.”. Apesar de ter encerrado a carreira de jogadora aos 32 anos, o seu amor pelo futebol não deixou que a sua trajetória se encerrasse ali. Apaixonada por entender a tática do jogo e tendo o esporte em seu DNA, a atleta se formou em Educação Física e pós-graduou em Futebol com Licença Pro da CBF, migrando para a comissão técnica e atuou como auxiliar técnica nos times: Audax (2018), Santos (2021) e Red Bull Bragantino (2023-2025) até ocupar a cadeira de técnica no Atlético-MG Feminino.

A sua chegada no Galo Feminino, em maio de 2025, foi um marco muito importante. Não só para o time que voltou a ter uma mulher na gestão depois de alguns anos, mas também para sua carreira, já que é a sua primeira atuação oficialmente como técnica, saindo da cadeira de auxiliar.
O dia a dia e a relação com as Vingadoras vai muito além de treinadora e jogadoras ou de uma simples equipe de futebol, elas se tornaram uma família. Apesar de estar longe da sua casa e sozinha em Belo Horizonte, assim como muitas das suas jogadoras, o afeto que construiu com as garotas do time é algo significativo para a técnica. Em seu aniversário, as atletas preparam uma surpresa com um bolo e ela contou como isso a surpreendeu positivamente: “Cada dia mais eu me surpreendo com elas, porque esse bolo eu não estava esperando, elas fizeram uma surpresa para mim, totalmente só elas, sem comissão, elas mesmas fizeram e isso fortalece o nosso laço”. Não é fácil lidar com o sonho de tantas jovens diferentes, que vêm de todos os lugares do Brasil, mas Fabi busca desempenhar isso com maestria e se inspira em líderes de liderança positiva, como o treinador de vôlei Bernardinho. Por já ter ocupado a posição de jogadora, ela tem muita empatia pelas meninas e conquistou muito do respeito delas.
“‘Aí, tem como eu chegar um pouquinho mais tarde?’ Tem, porque eu acho que faz parte. Elas também… Elas estão na sociedade, elas precisam aprender a dirigir, elas precisam ter autonomia na vida delas, e algumas meninas, às vezes só têm 22 anos, estão começando a vida. Então eu altero o treino, dou um jeitinho, ‘vai lá e faz’. É importante vocês terem a responsabilidade de ter o carro, pra vocês chegarem mais cedo, pra vocês terem conforto pra trabalhar, né? É importante vocês conseguirem lidar com as coisas… Lidar com conta, pagar e sair, e ajudar a família. Muitas, a maioria, têm que ajudar a família, então, eu falo para elas o quanto é importante e também como é importante elas desfrutarem das coisas que elas trabalham. Elas trabalham pra caramba, às vezes elas precisam ir num shopping, ir num cinema, ir numa praia que elas gostam muito de ir em um período de folga. Eu acho que tudo isso faz parte de uma gestão.”
Símbolo de representatividade feminina e negra no esporte
A sua presença na comissão é representatividade, hoje ela ocupa um cargo que apenas quatro mulheres tem no meio do futebol, sendo a única mulher preta entre elas. Além de Fabi Guedes no Atlético-MG, as outras três profissionais que comandam equipes no campeonato são Rosana Augusto, técnica do Palmeiras; Emily Lima, que está à frente do Corinthians; e Jéssica de Lima, que comanda o Grêmio.
Em dezembro de 2025, recebeu das mãos do Rapper Djonga o troféu Reflexões, no Prêmio Bola de Prata, por ser a primeira mulher negra a se tornar técnica. Ter recebido essa homenagem é algo que deu a ela um misto de sentimentos, mas principalmente o significado de ser exemplo para as que estão vindo. Fabiana Guedes se tornou muito mais do que um exemplo, ela se tornou uma inspiração para todas as mulheres negras que sentem que não conseguem chegar onde querem devido às suas lutas. Graças à sua história, essas mulheres sabem que é possível chegar, e que elas vão chegar. É inegável que todas precisarão se provar duas ou até três vezes mais que homens. Isso também se dá muito no cotidiano de Fabi, que apesar de chegar cada vez mais longe com seu conhecimento e competência, precisou se provar e estudar muito mais para isso.
“A gente sempre tem que provar mais. Na verdade, eu cheguei até aqui provando demais. Provar que eu sei o que eu tô fazendo. Eu tenho que estudar mais que todo mundo, eu tenho que ter mais diploma que todo mundo, eu tenho que ter mais curso que todo mundo, e às vezes eu perdi emprego pra gente que nem tinha. Que nem tinha tanta formação e tanto conhecimento quanto eu. Foi muito. E é luta, tá? Porque a gente ainda vai continuar tendo que fazer isso. A gente vai ter que continuar provando.”

Viver sozinha em uma nova cidade não é nada fácil, mas viver longe de uma pessoa que se tem uma ligação tão forte é algo bem mais difícil, principalmente quando essa é a pessoa que te deu a luz. Comemorar os aniversários por meio de chamadas de vídeo se tornou algo cotidiano para a ex-atleta. Apesar disso, ela e a mãe já se acostumaram, pois mesmo sendo a caçula, é a filha que vive longe de casa desde a adolescência. Apesar da saudade ser algo inevitável e muitas vezes doer, a mãe da treinadora torce muito pelo sucesso da filha e para que continue onde está, crescendo cada vez mais. “Ela fala assim ‘poxa, eu queria que você estivesse aqui, mas eu tô orando para você ganhar, para você ficar mais’”.
Em todo esse tempo e todas as cidades, países e estados que passou, a paulista sentia que não conhecia verdadeiramente os lugares e recentemente tomou isso como um hobby em seu tempo livre. Além da musculação, ela também tem buscado conhecer restaurantes e até visitou Ouro Preto.
Como reconhecimento do seu trabalho qualificado, sua próxima parada é para compromissos muito importantes em São Paulo e Fortaleza. Depois de já ter passado pela Seleção Brasileira de Futebol Feminino como jogadora, Fabi Guedes foi convocada pelo técnico Arthur Elias para integrar a comissão técnica do time e retornar como auxiliar técnica durante a data FIFA para os amistosos contra os EUA em Junho de 2026. Sua jornada no futebol é emocionante. Depois de todas as dificuldades e lutas como uma mulher negra, Fabiana Guedes cresce cada vez mais dentro do esporte, demonstrando que mulheres também são capacitadas para ocupar esse espaço.
“Mas eu acho que, cada dia mais, eu acredito que a gente só precisa de uma oportunidade. Isso é provado, né? Todo mundo, todas as mulheres que estão inseridas dentro de algum cargo de liderança, elas estão dando show. Então a gente só precisa de espaço mesmo.”
Conteúdo produzido por Ana Luísa Muniz e Rafaelly Barcelos na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges Gomes.




Arrasaram muito, meninas! A matéria prende do início ao fim, fizeram um ótimo trabalho ❤️