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Na imagem tem uma mulher de cabelos escuros posando de frente, usando regata azul e um lenço branco e azul. Ao fundo, temos uma pequena árvore atrás da mulher e também igreja barroca histórica, pintada de amarelo nas bordas e branco como cor principal.
Nathália Bini em viagem por Minas Gerais/ Foto: Acervo Nathália Bini

Nathália Bini: de histórias cotidianas a narrativas sensíveis 

Da cobertura policial ao programa Ateliê, a jornalista transforma escuta, política e cultura em narrativa humanizada

Entre coberturas policiais, debates políticos e viagens pelo interior de Minas Gerais, Nathalia Bini construiu um jornalismo que escuta pessoas e transforma histórias cotidianas em narrativas sensíveis. Nascida em Belo Horizonte, no ano de 1980, a repórter cresceu na região Oeste da capital mineira. Com uma avó analfabeta e pouco acesso à educação por parte da família materna, Nath, como gosta de ser chamada, percebeu desde cedo que o estudo seria a principal forma de mobilidade social. 

Foi na Escola Municipal Marconi, onde estudou durante a juventude, que percebeu pela primeira vez a força da comunicação. Participando do grêmio estudantil e de um jornal produzido pelos alunos, escreveu uma matéria sobre festas de 15 anos e questionou a lógica de um evento social inacessível para a maioria das meninas da escola pública. A inquietação já estava ali. O jornalismo parecia inevitável.

Eu gosto de escrever, tenho facilidade com o português, gosto de ler e gosto de conversar 

Nathália Bini

Nathália se descreve como “mãe, jornalista muito engajada em causas sociais e feminista”. Atesta que o jornalismo, além de ofício, é “o que eu sei fazer da vida… É  perguntar e me afetar por tudo o que acontece”. Hoje, com uma bagagem profissional de mais de 26 anos, a comunicadora admite ser apaixonada pela área e profundamente interessada “na vida do outro, na vida do país e na vida da comunidade”.

Experiência em emissoras e no interior 

Antes mesmo de ter o diploma em mãos, Nathalia já era contratada da PUC Minas, onde também se formou em Jornalismo e trabalhou na PUC TV. A garantia de sair da faculdade empregada trouxe alívio, mas ela não se conformava com o “comodismo” em que se encontrava. Por isso, logo após a conclusão do curso, foi informada por uma amiga sobre uma oportunidade em uma afiliada da Globo.

A jovem aproveitou a chance e enviou alguns de seus trabalhos produzidos na TV universitária para o diretor que assumia o jornalismo da TV Integração, emissora responsável pela cobertura do Triângulo Mineiro. Aos 21 anos, trocou Belo Horizonte por Ituiutaba, cidade localizada a quase 700 quilômetros da capital. Para o desespero dos pais, saiu da estabilidade da universidade para morar sozinha no interior.

A partir dali, fez morada em outras cidades interioranas das regiões do Pontal do Triângulo, Alto Paranaíba e Centro-Oeste mineiro. Depois de cinco anos no interior, Divinópolis, na região Centro-Oeste, foi a última cidade em que viveu antes de retornar à capital. De volta a Belo Horizonte, Nathália retornou à PUC TV, mas, pouco tempo depois, seguiu para a TV Alterosa, onde inicialmente cobria férias de outros profissionais até conquistar uma vaga fixa na emissora.

Montagem com duas fotografias lado a lado. Na imagem à esquerda, um homem negro (Adilson Oliveira) e uma mulher de cabelos escuros (Nathália Bini), posam juntos em um ambiente escuro segurando equipamentos de reportagem antigos. Na imagem à direita, os dois aparecem anos depois, sorrindo e abraçados em um estúdio iluminado, com câmera profissional e microfones à frente.
Registro de dois momentos da trajetória profissional do jornalista, Nathália Bini e do cineasta Adilson Oliveira, reunidos novamente depois de 24 anos, diante das câmeras e microfones. /Foto: Instagram Nathália Bini

Mergulhando no jornalismo policial, Nathalia percebeu uma rotina que começava ainda de madrugada, acompanhando acidentes, homicídios e operações policiais. Em meio à pressão do hard news e à disputa por audiência, a repórter se viu diante de histórias que mudariam sua forma de enxergar a profissão e a sociedade. 

O jornalismo te dá acesso a realidades que talvez você nunca conheceria

Nathália Bini

A virada definitiva ocorreu após a cobertura de um caso de violência sexual infantil. Depois daquele dia, Nathália decidiu que precisava encontrar outro caminho na profissão. 

Política, escuta e o outro lado da Assembleia

Já casada, Nathália tinha o sonho de se tornar mãe, o que com uma carga horária extensa e presenciando brutalidades diariamente, não via como algo possível.Em 2008, prestou concurso para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Passou em primeiro lugar para o cargo de repórter e iniciou, no ano seguinte, uma nova etapa da carreira.

Acostumada a entrar na Assembleia apenas para coberturas rápidas e frequentemente negativas da política institucional, encontrou um cenário diferente quando passou a fazer parte da TV Assembleia. Pela primeira vez, conseguiu acompanhar os bastidores dos projetos de lei, das negociações e dos conflitos políticos de forma contínua.

A experiência transformou seu olhar sobre o jornalismo político. Para ela, a política deixou de ser apenas disputa partidária e passou a representar algo muito mais cotidiano: o ar que se respira, os direitos básicos, os impostos, o transporte, a educação e as desigualdades sociais.

Quatro pessoas trabalham em uma gravação ao ar livre em uma praça arborizada. À esquerda, um cinegrafista opera uma câmera profissional em tripé. No centro, um homem segura um rebatedor de luz acima de uma mulher de blusa amarela. À direita, outro homem segura um microfone. O local é ensolarado e cercado por árvores e prédios.
 Nathália Bini e equipe de reportagem, gravando externa em praça durante produção de conteúdo audiovisual. / Foto: Acervo Nathália Bini

Ao longo dos anos, apresentou programas na TV Assembleia, mediou debates e participou de transmissões eleitorais e coberturas especiais. Em um ambiente ainda majoritariamente masculino e conservador, precisou aprender a construir autoridade diante de deputados mais velhos e experientes. “Eu precisava botar uma banca”, relembra.

Mesmo em meio à formalidade institucional, a jornalista tentava encontrar brechas para humanizar as pautas. Enquanto muitos enxergavam apenas reuniões e projetos de lei, ela buscava imagens e histórias capazes de aproximar o público da política.

O Ateliê e a delicadeza como escolha

Depois de décadas atravessando redações, plantões policiais e coberturas políticas, Nathalia Bini encontrou no Ateliê um espaço raro na televisão: o tempo da escuta.

Criado para a TV Assembleia de Minas, o programa nasceu quase como uma resposta íntima aos anos de hard news. Depois de conviver diariamente com tragédias, pressa e violência, a repórter começou a desejar um jornalismo que pudesse respirar. Um jornalismo menos preocupado em disputar audiência e mais interessado em observar pessoas, processos e afetos.

A ideia surgiu durante um período de insônia. Acostumada a consumir arte como forma de refúgio pessoal, Nathália pensou em um programa cultural que não fosse apenas educativo ou expositivo. Ela não queria uma narrativa tradicional sobre artistas ou técnicas. Queria entender o que existe por trás da criação.

“Que lugar reúne tudo isso?”, perguntou a si mesma enquanto desenvolvia o projeto. A resposta apareceu na palavra “ateliê”. Originário do francês, o termo remete ao espaço onde algo é produzido artesanalmente. Um lugar de criação, tentativa, erro, memória e permanência. Para Nathália, o conceito permitia expandir a ideia clássica de arte. No programa, um ateliê pode ser o espaço de um ceramista, a cozinha de uma chefe do interior, o salão de ensaio de um grupo de dança ou até a rotina de um produtor rural que preserva técnicas centenárias. O filtro principal nunca foi apenas a arte, mas a relação daquela produção com Minas Gerais.

Existe um jeito mineiro de contar histórias, cozinhar, construir, bordar, dançar

Nathália Bini

Cada episódio parte dessa tentativa de compreender como os artistas traduzem o estado em suas obras. Mais do que mostrar um produto final, o programa busca registrar o processo, os detalhes e as memórias que atravessam cada criação.

A ideia na prática 

O primeiro episódio acompanha o trabalho do coreógrafo Gustavo Côrtes, do grupo Sarandeiros. A dança aparece não apenas como espetáculo, mas como uma forma de preservar tradições populares mineiras. 

Em outro programa, a equipe viaja até Lapinha da Serra para contar a história de uma chefe de cozinha que reconstrói receitas antigas da região a partir da memória dos moradores locais. Ali, a comida deixa de ser apenas gastronomia e passa a funcionar como documento histórico.

Duas mulheres conversam sentadas em uma bancada de madeira em uma cozinha rústica e iluminada por lâmpadas pendentes. Uma delas usa vestido azul-claro e está de costas para a câmera. A outra, com cabelos presos por um lenço rosa e tatuagens nos braços, fala enquanto apoia as mãos sobre a bancada. Ao fundo, há utensílios domésticos, plantas e janelas de madeira.
Nathália Bini durante gravação de um episódio do programa Ateliê/ Foto: Acervo Nathália Bini

Na Serra da Moeda, um episódio leva a equipe até a onde artesãs bordam pássaros e elementos da natureza sobre peças de cerâmica. A jornalista descreve a experiência como um mergulho em pequenas delicadezas que normalmente passam despercebidas pela lógica acelerada da televisão.

O próprio formato do programa rompe com convenções tradicionais do jornalismo televisivo. Nathália nunca olha diretamente para a câmera. Em vez de explicar didaticamente o processo para o público, ela conduz a narrativa a partir da conversa e da observação.

A ideia é que o espectador descubra aquele universo junto com ela.

Os textos também seguem outra lógica. Os offs, como são chamadas as narrações gravadas fora da imagem, abandonam o tom duro do telejornal e assumem uma linguagem mais poética e sensorial. Ventos, silêncios, memórias e paisagens passam a ocupar espaço dentro da narrativa. “Eu quero que a pessoa sinta aquele lugar”, resume.

Para Nathália, o Ateliê representa também uma mudança pessoal. Depois de anos precisando endurecer a voz para mediar debates políticos e sobreviver ao ambiente agressivo do jornalismo diário, ela finalmente encontrou um espaço em que pode ser apenas “Nath”.

A jornalista séria e rígida das coberturas políticas divide espaço com alguém fascinada por fotografia, arquitetura, literatura, artesanato e pelas pequenas histórias do cotidiano mineiro.

Mulher de cabelos longos e cacheados observa uma parede decorada com quadros e peças artesanais. Ela veste blusa azul e está de perfil. Na parede, há ilustrações emolduradas, um bordado com frase decorativa e uma obra colorida ao fundo.
Nathália Bini observando quadros e peças de artesãos mineiros./ Foto: Acervo Nathália Bini


Nos bastidores, o programa funciona quase como um exercício coletivo de sensibilidade. A equipe viaja pelo interior observando detalhes, esperando a luz certa, acompanhando gestos silenciosos e construindo intimidade com os entrevistados antes mesmo de ligar efetivamente a câmera.

Em muitos momentos, o que mais importa não é exatamente a fala, mas aquilo que acontece entre uma pergunta e outra: um choro contido, uma mão trêmula, um olhar emocionado ou um silêncio atravessado pela memória.

O projeto funciona como uma síntese da própria trajetória de Nathália Bini. Depois de tantos anos lidando com urgência, violência e disputa política, ela escolheu desacelerar o olhar para registrar aquilo que normalmente escapa da pressa: a delicadeza.

Conteúdo produzido por Augusto Silva, Izabela Mourthe, Rafaela Zanandrez, Rodrigo Azarias e Victor Hugo Alves na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão da professora e jornalista Fernanda Sanglard. Diagramação feita pela monitora Ana Luiza Rodrigues.

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