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Hoje, além de empreender, Michelle impacta outras mulheres que buscam autonomia financeira.

Enfermeiras transformam furo humanizado em negócio

Prática de body piercing humanizado impulsiona autonomia financeira e amplia a atuação da enfermagem

Furar orelhas de bebês ainda é, para muitos, uma prática associada a farmácias, marcada pelo barulho do aparelho e, muitas vezes, por desconforto. Mas e se esse processo fosse conduzido com técnica, cuidado, humanização e ainda se transformasse em um negócio? Foi essa possibilidade que chamou a atenção de Michelle Carbonaro, moradora de Belo Horizonte, enfermeira especialista em furo humanizado há mais de quatro anos, que viu na prática uma oportunidade de empreender.

Michelle atua com furo humanizado, uma técnica de body piercing aplicada principalmente em bebês, crianças e adultos, que prioriza cuidado, segurança e conforto durante o procedimento. Diferente do método tradicional, que usa aparelhos de pressão comuns em farmácias, o processo é realizado com materiais esterilizados, técnicas de biossegurança e atenção individualizada ao paciente. Com formação em enfermagem, ela utiliza conhecimentos como uso de EPIs, assepsia e manejo adequado de perfurocortantes para garantir um atendimento mais seguro e humanizado, transformando a prática em um serviço especializado dentro da área da saúde e estética.

Nas mídias sociais, a empreendedora afirma já ter realizado mais de 2 mil perfurações e hoje também ensina outras mulheres a entrar no mercado. “Te ensino como começar a empreender do zero! E mudar de vida!”, divulga. Com mais de 100 alunas formadas, Michelle deixou o trabalho hospitalar e passou a viver exclusivamente do próprio negócio, trajetória que dialoga com o crescimento do empreendedorismo feminino no país.

Furo humanizado é uma técnica de body piercing que substitui o aparelho de pressão por um procedimento esterilizado e individualizado, priorizando segurança, conforto e menor estresse, especialmente em bebês. Reprodução: mídias sociais / Michelle Carbonaro

Da enfermagem ao empreendedorismo

Dados do Sebrae mostram que o Brasil registrou aumento de 27% no número de mulheres donas de negócio nos últimos dez anos, passando de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em 2025, um recorde histórico. Apesar do avanço, elas ainda representam 34,3% dos empreendedores, o que evidencia um cenário de desigualdade, mesmo com a expansão.

No caso de Michelle, a virada começou ainda na faculdade, durante a escolha do tema do TCC, em 2019. “Eu não me enquadrava, não conseguia me ver dentro dos temas intra-hospitalares. Não estava me achando”, relata. A mudança veio a partir de um questionamento que a marcou:

“Por que enfermeiro não empreende? Enfermeiro tem que trabalhar pros outros pro resto da vida?”

A inquietação a levou a buscar caminhos fora do modelo tradicional. “Era algo muito novo, não se falava sobre empreendedorismo na enfermagem, não tinha isso na nossa grade curricular”, afirma. Ao explorar possibilidades, encontrou o furo humanizado, área que já dialogava com seu interesse pela saúde materno-infantil. “Foi aí que eu percebi que o furo humanizado era uma oportunidade de negócio.” conta.

Michelle ao lado de enfermeiras que concluíram seu curso de furo humanizado. Reprodução: Mídias sociais / Michelle Carbonaro

A falta de referências foi um dos primeiros desafios. Segundo ela, havia poucos artigos acadêmicos sobre o tema e nenhuma formação disponível em Belo Horizonte. “Tive que fazer meu curso no Rio de Janeiro. Aqui não se falava sobre isso”, conta. Ainda assim, decidiu apostar na área, mesmo sem garantias de retorno.

Com o tempo, a atividade se mostrou financeiramente viável. “O investimento inicial é baixo, o material é barato e, como é um serviço personalizado, a gente cobra mais caro, então tem uma margem de lucro interessante”, explica. O cenário acompanha uma tendência apontada pelo Sebrae: embora as mulheres ainda tenham rendimento médio 24% inferior ao dos homens, houve redução dessa diferença e crescimento da renda feminina, que chegou a R$ 2.929,94 em 2025.

Novo mercado e impacto entre mulheres

A formação em enfermagem foi essencial nesse processo. “Biossegurança, uso de EPIs, descarte de materiais, humanização… tudo isso a gente aprende na enfermagem e aplica no furo humanizado”, diz Michelle, destacando o cuidado como diferencial no atendimento.

O que começou como renda extra rapidamente se consolidou como principal fonte de sustento. “Hoje minha renda é 100% do furo humanizado. Me trouxe liberdade financeira e geográfica”, afirma. A formalização também fez parte desse caminho, em linha com o cenário nacional, onde 37% das mulheres empreendedoras possuem CNPJ.

“As próprias enfermeiras começaram a me chamar, perguntando se eu ensinava. Isso despertou em mim a vontade de ministrar cursos”.

Michelle Carbonaro – Enfermeira e empresária

Hoje, além de empreender, Michelle impacta outras mulheres que buscam autonomia financeira. “Tenho alunas que conseguiram sair da CLT e vivem só do furo humanizado”, conta. Para ela, o retorno vai além da renda: “É muito satisfatório poder proporcionar esse conhecimento e contribuir para a qualidade de vida e liberdade financeira delas”.

O avanço da escolaridade feminina também acompanha esse movimento. Segundo o Sebrae, houve aumento significativo no número de mulheres empreendedoras com ensino superior, o que reforça a qualificação como motor desse crescimento. Michelle faz parte desse perfil ao utilizar a própria formação para inovar dentro da área.

Mesmo com os avanços, os desafios persistem: a taxa de empreendedorismo entre mulheres (11,5%) ainda é menos da metade da masculina (23,6%). Ainda assim, histórias como a dela revelam um movimento em expansão, de profissionais que transformam conhecimento técnico em negócio e ampliam as possibilidades da enfermagem para além do ambiente hospitalar. “Empreender é muito bom, mas dá muito trabalho também. Você trabalha 24 horas se deixar”, resume a empreendedora e enfermeira. Ainda assim, para ela, o saldo é positivo e crescente, tanto no próprio negócio quanto na vida de outras mulheres.

Janaina Veloso

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