Entenda a popularização e as dificuldades vivenciadas nos bastidores da arte híbrida nos palcos nacionais
Quando se fala em teatro musical, os palcos nova-iorquinos e londrinos, os telões da Times Square e as premiações Tony e Olivier são referências mundiais e unânimes. Mas esse cenário, que evidencia durante décadas uma expressão artística bastante limitada, apresenta novos rostos, referências e talentos, assim como ocupa cada vez mais o território nacional. Em um país onde ser artista é sinônimo de resistência, o mercado do teatro musical abriu novas portas e, surpreendentemente, nos últimos meses, recebeu grande destaque nos palcos e na mídia brasileira.
A adaptação cinematográfica e a produção brasileira de grandes sensações da Broadway têm sido fundamentais na valorização, acessibilidade e construção de um novo público consumidor da arte híbrida. Com a popularização do musical prequel de ‘‘O Mágico de Oz’’, clássico da literatura e do cinema, o enredo de ‘‘Wicked’’, que é baseado na história não contada das bruxas de Oz, se consolida como um dos maiores sucessos dos palcos mundiais e ganhou ainda mais visibilidade com o lançamento duplo dos filmes protagonizados por Cynthia Erivo e Ariana Grande, que vivem as personagens Elphaba, a bruxa má do leste, e Glinda, a bruxa boa do norte.

Contudo, a essência caótica e inspiradora da dupla verde e rosa não são fenômenos apenas nas telonas internacionais. Interpretando as bruxas no Teatro Renault, em São Paulo, as atrizes Myra Ruiz e Fabi Bang encantam o público brasileiro por uma década. Além de apresentar uma estrutura de excelência e reconhecida internacionalmente, o espetáculo acumula 1 milhão de espectadores e soma reconhecimento para além das fronteiras, como ao sediar o evento de premiere com o elenco e equipe de ‘‘Wicked: For Good’’ no Brasil, em novembro de 2025, e garantir Myra e Fabi como dubladoras oficiais do longa. Durante três temporadas, a produção esteve em São Paulo e, devido à grande demanda, a produção brasileira agora leva a Cidade das Esmeraldas e a história da amizade que moldou o cenário da cultura musical para uma temporada no Rio de Janeiro pela primeira vez, em julho de 2026. https://www.wickedbrasil.com

Quebre a perna, Brasil!
Nascida no Rio de Janeiro, Tamiris Pires, autora de musical e crítica no site Broadway Meme, relata que o cenário de teatro musical no Brasil está em plena ascensão: “Existem vários espetáculos em produção, e movimentos que possibilitam a produção de novas histórias autorais e brasileiras. A demanda existe, muito além do eixo Rio-São Paulo, e o Brasil já se mostrou um importante terreno para a produção de grandes espetáculos”.
Atualmente, o Brasil também se destaca por um novo “boom” nas produções e revivals de diversas produções originais. O sucesso da nova montagem de ‘A Ópera do Malandro’, releitura da obra clássica de Chico Buarque, assim como a produção de ‘Tim Maia – Vale Tudo’ e ‘Djavan – O musical: Vidas Pra Contar’, homenageiam e celebram grandes nomes, culturas e músicas que nasceram no país. “Há um tempo, o cenário de teatro musical era praticamente só de histórias importadas, mas, creio que, com o crescimento e a ampliação desse segmento, surgiu a necessidade de contarmos nossas próprias histórias”, explica Tamiris Pires. A autora também acredita que quando o brasileiro enxerga no palco, sua visão, seu jeito de falar e de ver o mundo, a identificação é imediata. Ela também defende a profissionalização do campo para escritores e roteiristas do país: “É de suma importância que haja o desenvolvimento e formação de cada vez mais autores que escrevem o Brasil para os brasileiros, histórias de diferentes formatos, vertentes. É importante também valorizarmos dramaturgia nacional e autores que se atrevem a contar histórias sob a ótica brasileira, como Tauã Delmiro e Vitor Rocha, autores premiados e reconhecidos por sua criatividade e originalidade”, explica.
Apesar do crescimento significativo na apreciação das obras musicais, são notórias as dificuldades dentro e fora dos bastidores. Os desafios econômicos, as inconveniências na profissionalização e no incentivo do campo artístico, somados com os preços altíssimos dos ingressos, impossibilitam o acesso às performances que demandam artistas, bailarinos, cantores, músicos, e claro, público.
É cabível lembrar que ter interesse pelo o que acontece on e off-Broadway é um desafio por si só. Estar fora do mapa das produções mais renomadas e bem financiadas, principalmente na América Latina e em um país em que as artes cênicas podem ser desvalorizadas, também é uma problemática para os próprios fãs. No Brasil, o aumento do preço e a realização de temporadas curtas, apresentadas unicamente no eixo Rio-São Paulo, dificultam o acompanhamento e as tradições clássicas dos adoradores, como ser“repeat attenders” e colecionador de programas.
Apaixonada por teatro musical desde a infância, Mariana Galeazzi, moradora de Santa Catarina, reflete o modo como construiu esse apreço crescendo em uma cidade pequena, assistindo filmes musicais, até a sensação mágica de estar em um teatro pela primeira vez aos dez anos de idade. “Desde então eu fico correndo atrás desse sentimento, mas descobri que a realidade é outra”. Ela menciona a frustração de gostar de uma arte quase nunca acessível e soma que além dos gastos com ingressos, transporte, hospedagem e alimentação, a falta de diversidade nos projetos e nos elencos desanima ainda mais. “Por fim, acabei me acostumando a viver esse universo de longe: escutando as músicas pelo Spotify, assistindo gravações no Youtube com a qualidade péssima, acompanhando as trocas de elenco via TikTok…Coisas que não substituem a experiência real”, revela Mariana Galeazzi.
As restrições dentro dos espaços de apresentações profissionais também são desencadeadoras da falta de acesso desse meio artístico. Mais rígido em comparação com outros teatros e tipos de apresentações, regras como a proibição de fotografias e filmagens, pontualidade estrita e os rigorosos processos de liberação e reprodução requerem que os consumidores utilizem os mais diversos recursos para ter acesso às obras e às mudanças de elencos. A comunidade de fãs de teatro musical frequentemente recorre à gravações clandestinas, filtradas pelo título “slime tutorials” na internet, assim como versões pirateadas de pro-shots (filmes com gravações profissionais de musicais teatrais), geralmente limitados temporariamente e exclusivos para determinadas localidades.
De acordo com a escritora carioca Tamiris Pires, “o teatro musical, infelizmente, ainda é uma arte elitista, a maior parte da população não tem acesso por diversas questões, principalmente a econômica”. Ela destaca a necessidade de grandes produtoras pensarem em alternativas para quebrar a barreira e facilitar o acesso. “O brasileiro claramente prestigia o teatro, mas, infelizmente, os valores ainda limitam demais quem pode e quem não pode aproveitar. O salário mínimo é basicamente para a sobrevivência e não sobra nada para algo como entretenimento. Existe demanda e procura, o que não existe são políticas públicas que possibilitem o acesso da maior parte da população a essa arte e talvez o interesse de grandes produtoras em pensar realmente alternativas para melhorar esse cenário”.
A Broadway Mineira
Além das grandes metrópoles brasileiras, a paixão por teatro musical se expande para diversas regiões do país. Na região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais, a Cia Sol em Cena surge como inovadora nos trabalhos de arte independente.
O projeto nasceu em novembro de 2024, com o intuito de democratizar o acesso à arte na cidade de Barbacena e formar artistas de todas as idades, níveis de aptidão e condição socioeconômica. “O maior diferencial da Cia Sol Em Cena são as turmas de teatro musical, área pouco explorada não só em Barbacena, como em todo estado de Minas Gerais. No ano passado, fizemos uma adaptação de ‘Mamma Mia!’ que nos abriu portas e pavimentou o caminho para que outras peças sejam montadas e o projeto alcance mais alunos”, explica a atriz e cantora Gigi Santarosa, integrante do grupo.

Ela conta que tudo começa na escolha da obra e estudo completo por parte do diretor Alexandre Magno, e detalha o processo: “Os primeiros meses de aula são de preparação a partir de atividades lúdicas, que capacitam os artistas de forma a respeitar suas limitações, enquanto expandem o repertório cultural, expressão corporal e teatral, e aumentam as noções musicais de cada um”. Gigi Santarosa também explica que durante esse processo que o roteiro é montado e as músicas são adaptadas para o português.”Um pouco antes do início do segundo semestre, são feitas as audições e os papéis são definidos. A partir daí, temos dois ensaios semanais que englobam as três esferas do teatro musical: atuação, canto e dança. Ao longo do processo, a produção do cenário e figurinos é feita e temos ensaios com a banda que nos acompanhará”.
A necessidade de viver de arte vai além de quem está sob os holofotes. Muitas vezes, é das cadeiras da plateia que nasce a inspiração para conviver, levar continuidade e apoiar o meio artístico, especialmente em cidades com pouca estrutura. “Sem dúvidas, a recepção do público barbacenense foi muito mais calorosa do que esperávamos. Esgotar a sessão de estreia foi uma surpresa que nos encheu de esperança e novas perspectivas. Durante nossa curta temporada, tivemos retornos lindos e positivos do público que nos acolheu e respeitou desde o primeiro momento”. A artista celebra que o ano de 2026 começou com enorme procura para a turma intermediária de teatro musical e com a criação da turma infantil.”As peças escolhidas para esse ano, que ainda serão divulgadas, são clássicas na história do teatro musical e poder trazê-las para Barbacena será a realização de algo muito maior que nós, abrindo o caminho para uma nova fase da arte na nossa cidade”, responde Gigi Santarosa.

Motivados por muito trabalho em equipe, as companhias independentes mantém resistência numa luta diária entre a paixão incondicional e os desafios de reconhecimento, os obstáculos socioeconômicos, incluindo o longo e complexo processo de montagem e adaptação de obras internacionais. O músico e professor Alexandre Magno relata que uma das maiores adversidades no lançamento de um projeto feito majoritariamente por jovens está na busca por apoio e credibilidade. “Sempre que vamos correr atrás de patrocínio é muito difícil, assim como ser enxergado como algo profissional e sério. A arte já tem muita dificuldade de ser levada como algo sério no Brasil. Tratam como “subemprego” ou diversão. Então, quando a juventude se envolve, corre ainda mais riscos de ser visto como bobeira e ser desmoralizado”.
Alexandre também revela a complexidade na rotina, capacitação e falta de oportunidades em cidades menores. “O ideal para criar um musical, seriam quatro aulas por semana (para cada uma das especialidades envolvidas). Acaba que não temos o privilégio de oferecer essas aulas independentes para eles e, ao mesmo tempo, eles não têm o privilégio de tempo”. Entretanto, são dessas contrariedades que nasce a importância do espírito de ajuda entre os alunos. Os pontos fortes e fracos dos artistas independentes se tornam mecanismos de suporte, transformando a magia do espetáculo em conjunto. Alexandre Magno ressalta que tornar acessível e nacionalizar o teatro musical ultrapassa as barreiras do preconceito e do individualismo tão visivelmente presentes na sociedade atual. “O teatro é uma arte coletiva. Eu seguro a minha mão na sua e você segura a sua mão na minha, para que juntos possamos fazer aquilo que eu não posso fazer sozinho”, finaliza o diretor, bailarino e ator.




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