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(Foto: Flickr FMF)

Cruzeiro volta ao topo em Minas e tenta se firmar no cenário nacional

Cruzeiro conquista o Campeonato Mineiro depois de seis anos, tenta retomar confiança e agrava crise no rival

A vitória na final marca o retorno do Cruzeiro ao protagonismo em Minas Gerais. De volta à Libertadores após seis anos e embalado por uma boa temporada em 2025, o clube celeste inicia 2026 tentando se consolidar entre as principais equipes do país. Após um longo período em baixa, a Raposa voltou a disputar um campeonato Mineiro como favorito. Da mesma forma que havia sido em 2019, o Cabuloso começou o ano com um elenco mais caro que o de seu rival e manutenção de boa parte do elenco que de certa forma obteve sucesso esportivo no ano anterior.

Com gol de Kaio Jorge, Cruzeiro venceu o Atlético no Mineirão e voltou a conquistar o Campeonato Mineiro (Foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)

Vindo do bicampeonato da Copa do Brasil em 2018, o Cruzeiro foi rebaixado em 2019, passou os três anos seguintes na Série B e passou por instabilidades em 2023 e 2024, chegando a brigar para não cair em alguns momentos. Sob o comando de Leonardo Jardim, o clube voltou em 2025 a brigar na parte de cima da tabela e a ser competitivo. Além de ficar em 3° no Brasileiro, atrás apenas de Flamengo e Palmeiras, o time foi semifinalista da Copa do Brasil. 2026 pode ser para o Cruzeiro o marco definitivo do retorno de um dos maiores times do Brasil ao seu lugar de direito.

2019: Começo promissor

A manutenção do elenco e da equipe técnica que conquistou o bicampeonato da Copa do Brasil em 2018, somada às chegadas de Rodriguinho, Dodô, Pedro Rocha e Orejuela, colocava o Cruzeiro entre os favoritos para todas as competições que disputaria em 2019. A única saída relevante foi a de Arrascaeta, mas o time recheado de estrelas como Fábio, Dedé, Lucas Silva e Fred começou o ano com grandes expectativas. Além de ser campeão mineiro invicto, o clube teve a segunda melhor campanha da fase de grupos da Libertadores. A queda da invencibilidade na temporada só aconteceu no dia 27 de abril de 2019. A derrota aconteceu na estreia do Brasileirão, contra o Flamengo, e antes disso foram 16 vitórias e cinco empates em 21 jogos.

A queda do Gigante

Manchete nas páginas policiais, o Cruzeiro passou em 2019 pela maior crise de seus quase cem anos até então. O caos extracampo contagiou os bastidores do clube. Em meio a um escândalo de corrupção, o Cruzeiro teve contratos expostos, revelando pagamentos exagerados para dirigentes e até pagamentos do clube para torcidas organizadas. Com atrasos de salários, aumento da pressão externa, demissão de técnicos e embates constantes entre jogadores, treinadores, diretores e torcida, o Cruzeiro foi rebaixado pela primeira vez em sua história. 

O ídolo Thiago Neves foi um dos grandes personagens do rebaixamento do Cruzeiro ( Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)

A temporada desastrosa de medalhões como Thiago Neves, Edílson, Egídio, Robinho e outros acabou com a idolatria de um dos elencos mais vitoriosos da história do Cruzeiro. Nos anos seguintes, o clube passou por situações que nunca havia passado. Acostumado a disputar títulos e ser protagonista, o time celeste se viu obrigado a aceitar sua nova realidade e se adaptar. O time tinha uma das maiores folhas salariais do futebol brasileiro, de 16 milhões de reais, e teve que reduzi-la para quase 3,5 milhões. O teto salarial para novas contratações era de 150 mil e, dessa forma, o Cruzeiro iniciou sua reformulação. Entre os jogadores que foram rebaixados, ficaram apenas Fábio, Léo, Cacá e Welinton.

2020 e 2021 seguiram roteiros parecidos. Eliminado precocemente no estadual e na Copa do Brasil, o Cruzeiro teve dificuldades para se adaptar ao novo contexto, trocou de treinador e passou longe de voltar à Série A. Foram dois anos seguidos no meio de tabela e enfrentando desafios financeiros causados pelas gestões anteriores.

De volta à série A

A chegada de Ronaldo Fenômeno na gestão do clube agitou os bastidores no final de 2021. Com acordos na justiça e entrando em processo de recuperação judicial, o clube começou a se organizar financeiramente e trouxe esperança para a torcida de que dias melhores viriam. O ex-jogador adquiriu 90% da SAF do Cruzeiro e prometeu profissionalizar todos os setores do clube. De volta à final do Mineiro, foi derrotado pelo Atlético por 3 a 1, mas na Série B de 2022 mostrou qualidade e foi protagonista. Com um elenco mais acostumado com a competição e jogadores que recuperaram a identificação com a torcida, o Cruzeiro foi campeão e conquistou o acesso para a primeira divisão sob o comando do uruguaio Paulo Pezzolano.

Cruzeiro conquistou o acesso depois de três anos na Série B (Foto: Cris Mattos-STAFF IMAGES)

Recuperando-se financeiramente e tentando reforçar o time para brigar por posições mais avançadas no Brasileirão, o Cruzeiro trouxe 25 jogadores em 2023. O principal deles, Matheus Pereira, foi e é até hoje a maior referência técnica do time. Cruzeirense, o camisa 10 fez carreira no exterior e atuou em grandes ligas europeias, e voltou para o Cruzeiro para se reencontrar no futebol e na vida. O clube terminou o ano em 14° e voltou a disputar em 2024 uma competição Sulamericana.

De Ronaldo à Pedrinho: virada de chave

A eliminação para o modesto Sousa-PB na Copa do Brasil e a derrota de virada na final do Mineiro para o Atlético, somadas a uma série de resultados ruins revoltou a torcida. Em protesto, uma bandeira de Ronaldo Fenômeno foi queimada pelos torcedores, o que colaborou para sua saída da SAF. Em abril de 2024, Fenômeno passou o comando da SAF para o empresário Pedro Lourenço. Com ele, vieram Cássio, Lucas Romero, Matheus Henrique e Kaio Jorge para encorpar o time. O Cruzeiro foi finalista da Sulamericana, mas foi derrotado pelo Racing na final por 3 a 1. No Brasileirão, terminou o ano no meio da tabela.

Para 2025, chegaram Gabigol, Dudu, Christian, Fagner e Fabrício Bruno. Em um ano de muito investimento, o Cruzeiro trouxe ainda o português Leonardo Jardim. Eliminado na fase de grupos da Sulamericana e na semifinal do Mineiro, o clube prometeu foco total no Brasileirão e na Copa do Brasil e assim o fez. Semifinalista da Copa do Brasil, a Raposa fez também grande campanha no Campeonato Brasileiro e ficou em terceiro. Com isso, o clube volta finalmente a disputar a maior competição do continente: a Copa Libertadores.

Comandado por Kaio Jorge e Matheus Pereira, o Cruzeiro voltou a brigar por grandes títulos em 2025 (Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

De volta ao protagonismo?

Para 2026, o Cruzeiro optou pela manutenção do elenco e pela contratação do volante Gerson, ex-Flamengo, contratação mais cara da história do clube. A Raposa ainda recusou uma proposta de 30 milhões de euros do Flamengo pelo artilheiro Kaio Jorge. Tentando firmar o clube entre os protagonistas do futebol nacional, Pedro Lourenço preferiu segurar o camisa 19 e não reforçar um rival direto.

É certo que o Cruzeiro já voltou a brigar pelo lugar de protagonismo em Minas Gerais, mas ainda busca se firmar nessa posição no cenário nacional. Além de Kaio Jorge, Matheus Pereira e agora Gerson, o clube conta em seu plantel com jogadores da seleção brasileira e contratou recentemente o português Artur Jorge, campeão da Libertadores em 2024 com o Botafogo, para tentar levar o clube a conquistar seus objetivos. Para Guilherme Frossard, no entanto, ainda é cedo para colocar a Raposa na discussão com Flamengo e Palmeiras. O jornalista enxerga o bom 2025 da equipe celeste como um ponto fora da curva e credita o desempenho ao ótimo trabalho de Leonardo Jardim no comando da equipe.

Artur Jorge chega ao Cruzeiro para tentar colocar o clube na briga pelas principais competições do continente (Foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)

Cruzeiro ainda não se firmou no cenário nacional

Frossard coloca o Cruzeiro em uma prateleira de clubes intermediários, um pouco acima do Atlético. “Não vejo o Cruzeiro como candidato aos principais títulos do Brasil nesta temporada. Acho o elenco de razoável para bom, com lacunas menos evidentes do que o rival. Mas ainda assim longe dos principais clubes do país em qualidade de elenco e capacidade de brigar pelas grandes conquistas”. O começo ruim no Brasileirão conta a favor do que disse o jornalista. O Cruzeiro está no Z4 da competição e conquistou apenas sete pontos nas primeiras dez rodadas. 

A chegada de Artur Jorge agrega e mostra que o objetivo de Pedrinho é colocar o Cruzeiro novamente no topo. Cruzeirense apaixonado, Pedro Lourenço chorou na apresentação do novo treinador e tem mostrado sofrer muito vendo a situação do Cruzeiro. Frossard avalia o trabalho da SAF como “emocional demais”.

Além disso, questiona se a SAF de torcedores, fenômeno em Minas Gerais, seria de fato o melhor caminho para a profissionalização da gestão dos clubes: “Sendo mais emocional do que deveria, a SAF do Cruzeiro já deu alguns tiros no pé tentando pular etapas para retomar o protagonismo na marra. Acho que essa coisa meio passional demais, torcedor demais, faz mal pro clube ao longo prazo. Por enquanto, essa relação entre a torcida do Cruzeiro e o dono do clube é harmônica. Mas em 2021 quando o Galo estava sendo campeão a relação com os donos também era de idolatria. É preciso ter um afastamento temporal para entender como essa relação vai acontecer à longo prazo.”

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Arthur de Pinho

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