“Condenai-me. Não importa. A história me absolverá.”
Esse foi o discurso de um jovem Fidel Castro no seu julgamento de portas fechadas em 1953, quando o revolucionário (e advogado) defendeu a si próprio pelo ataque coordenado ao Quartel Moncada. A frase imponente já mostrava um líder confiante e crente de que a ditadura de Fulgencio Batista não perduraria décadas adiante enquanto Fidel respirasse.
Fidel Castro, se estivesse vivo neste 13 de agosto de 2026, estaria completando seu centenário, justamente neste ano em que Cuba passa por uma das maiores crises desde 1990 com o fortalecimento do embargo desumano imposto pelos EUA, que já dura mais de seis décadas. E mesmo com o embargo que causa crises e dificuldades ao povo cubano, e o líder revolucionário ter nos deixado em 2016, ainda hoje é latente o legado que deixa Fidel Alejandro Castro Ruz.
O meu primeiro contato com sua história, curiosamente, foi aos 12 anos de idade, através do filme O Poderoso Chefão: Parte II que mostrava Michael Corleone negociando com os “donos” daquela bela ilha tropical num momento pré-revolução cubana. Somente anos depois entendi que aquilo retratava o governo fortemente imperialista estadunidense dominando um país vizinho. Imperialismo esse que conheceu seu “fim” em 1959 com a revolução de Fidel e Che Guevara – e digo “fim” com aspas, pois o imperialismo dos EUA sempre espreitou e espreita o país latino.
Mas a revolução não foi do dia para a noite, é como se Fidel tivesse preparado uma vida inteira para aquilo. Nascido em 1926, era filho de agricultores e cresceu rodeado de plantações de cana e trabalhadores na zona rural, o que aguçou seu tino de justiça social. Frequentou colégios católicos pelo interior cubano e na capital, mas foi em 1945 após ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de Havana que demonstrou um poder de oratória sem igual e participou de ações pela independência de Porto Rico e presenciou levantes contra ditaduras na América-latina. Tais experiências foram fundamentais para formar seu caráter marxista-leninista e anti-imperialista.
Os próximos anos seriam marcados pelos atos que deram início ao processo de revolução, como o ataque ao Quartel Moncada em 1953 que o levou a ser preso com o punhado de rebeldes que sobreviveram ao atentado – entre eles, seu irmão Raúl Castro – e, após 22 meses foi liberado por pressão popular e seguiu para o México, onde os irmãos Castro conheceram uma das principais figuras da revolução cubana, Ernesto Guevara de la Serna.
Os três revolucionários retornam a Cuba em 1956 e após formar o exército rebelde e conquistar o apoio entre trabalhadores, pouco mais de dois anos depois de luta, no dia oito de janeiro de 1959 Fidel entra vitorioso em Havana. Porém o que muitos não sabem é que a revolução tinha inicialmente um cunho puramente anti-imperialista, somente em 1961 Fidel anunciou publicamente como uma revolução socialista e democrática dos humildes, pelos humildes e para os humildes. E não tardou um dia, para Cuba receber um ataque estadunidense, sinal de que a partir dali a crise com os EUA só pioraria.
Em 1962 o mundo segurou a respiração pelo medo da iminente guerra nuclear durante a guerra fria com a crise dos mísseis em Cuba. Mísseis esses colocados pela União Soviética – principal aliada de Cuba desde a implantação do governo socialista – mirados para os Estados Unidos. Mas o que acho curioso nesse acontecimento, é como ele é a prova viva da influência e soft-power dos yankees mundo afora, pois, pouco se fala que a implementação do armamento nuclear soviético em Cuba foi uma resposta aos mísseis estadunidenses colocados na Turquia, mirados para a URSS.
Nos anos que se seguiram, Fidel comandou a nação cubana a um nível de incentivo geral à educação, saúde, ciência e agroecologia. Qualquer país latino com o embargo já teria se entregado à derrota, mas Fidel conseguiu reduzir o nível de analfabetismo, fazer reforma agrária, criar doutores e investir em um nível tão alto para a ciência que Cuba foi o primeiro país latino a criar sua própria vacina contra a Covid-19 em 2021.
Tal sucesso incomodava tanto os Estados Unidos que desde 1959 foram registrados mais de 600 tentativas de assassinato orquestradas pela CIA a Fidel. O mais notório sendo o caso da agente Marita Lorenz que entrou em Cuba com pílulas letais escondidas em um pote de creme, mas desistiu do assassinato ao encontrar Fidel e se relacionar sexualmente com o mesmo. Porém o povo cubano achava que seu líder era eterno, e em 2016 com 90 anos, Fidel nos deixou – o que ao meu ver foi uma vitória sem igual para Cuba e Fidel Castro, que morrera de velhice depois de tantas tentativas de assassinato.
Não há texto ou forma de mídia suficiente para registrar todas as anedotas de Fidel com os seus conterrâneos, um líder que viveu tão perto do povo. Que fazia o que para algumas lideranças mundiais seria impensável: reconhecia seus erros perante Cuba. A análise que seu legado mostra é de que Fidel não é um líder nem um presidente ou político, ele é a própria revolução. Revolução esta que é um processo constante e corre risco todos os dias, mas é fortalecida toda vez que seu povo recorre aos seus pensamentos e ensinos, e não há hora mais importante que esta.
Gabriel García Márquez dizia que Fidel “Cuidava muito das palavras”, essa para mim é a principal parte do revolucionário para a minha área de estudo, a comunicação. Sua sobrinha Mariela Castro já disse que Fidel é acima de tudo um comunicador, esse eu diria é o principal ponto que Cuba sofre com sua perda. Mesmo hoje, dez anos depois de sua morte, o país ainda está aprendendo a comunicar sem Fidel. Contudo, acredito que sua voz ainda será ouvida no próximo centenário.
