{"id":16122,"date":"2024-03-27T16:48:49","date_gmt":"2024-03-27T19:48:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/?p=16122"},"modified":"2024-08-23T14:22:55","modified_gmt":"2024-08-23T17:22:55","slug":"predio-em-belo-horizonte-foi-centro-de-tortura-durante-a-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/predio-em-belo-horizonte-foi-centro-de-tortura-durante-a-ditadura-militar\/","title":{"rendered":"Pr\u00e9dio em Belo Horizonte foi centro de tortura durante a Ditadura Militar"},"content":{"rendered":"\n<p>Avenida Afonso Pena, 2351. Em uma das principais vias de Belo Horizonte, um pr\u00e9dio de tra\u00e7os arquitet\u00f4nicos modernistas se destaca na paisagem urbana. Sua hist\u00f3ria, por\u00e9m, vai na contram\u00e3o de qualquer esp\u00edrito de vanguarda. Durante a Ditadura Militar, esse era o endere\u00e7o do DOPS, Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, cen\u00e1rio de tortura, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"456\" height=\"343\" sizes=\"auto, (max-width: 456px) 100vw, 456px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16145\" style=\"width:456px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70.png 456w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70-300x226.png 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70-370x278.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70-270x203.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70-80x60.png 80w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/predio-do-dops-anos-70-150x113.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pr\u00e9dio do DOPS, 1970. : APM, Fundo Dops\/MG, Rolo 055, Pasta 4163, Imagem 821.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o dos DOPS no Brasil \u00e9 anterior ao golpe de 1964. O \u00f3rg\u00e3o existia desde a d\u00e9cada de 1920 e era uma esp\u00e9cie de pol\u00edcia pol\u00edtica, um bra\u00e7o forte do Estado para reprimir cidad\u00e3os considerados \u201csubversores da ordem\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Estava fundamentalmente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos governos quando estes decidissem vigiar e\/ou aprisionar certos indiv\u00edduos, combater determinados comportamentos e estigmatizar grupos inteiros, tidos sempre como \u201cnocivos\u201d e perigosos para a ordem p\u00fablica e a seguran\u00e7a nacional\u201d<\/p>\n<cite>Dossi\u00ea de tombamento do edif\u00edcio, 2013<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em Minas Gerais, a sede do departamento foi inaugurada em 1958, com projeto do arquiteto H\u00e9lio Ferreira Pinto. A constru\u00e7\u00e3o em um ponto estrat\u00e9gico, na regi\u00e3o central da capital mineira, fazia parte de um projeto pol\u00edtico do governo estadual, que via a necessidade de equipar a Pol\u00edcia Civil para combater o que se entendia por \u201camea\u00e7a comunista\u201d. No regulamento do DOPS, destaca-se entre suas compet\u00eancias a <em>\u201cdire\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de preven\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o dos delitos de natureza pol\u00edtico-social\u201d <\/em>(Art. 2, 1956)<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os militares tomaram o poder, a atua\u00e7\u00e3o se intensificou.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Durante a Ditadura Militar esse pr\u00e9dio funcionou como uma esp\u00e9cie de quartel-general. N\u00e3o era somente um local onde os presos pol\u00edticos eram levados, mas tamb\u00e9m um centro de informa\u00e7\u00e3o, operacional. \u00c9 claro que voc\u00ea tinha em Belo Horizonte outros pr\u00e9dios, por exemplo, ligados ao Ex\u00e9rcito Brasileiro, mas o DOPS era que fazia investiga\u00e7\u00f5es, perseguia, fichava, prendia, torturava. Tudo isso, e na maioria das vezes, na surdina, sem nenhuma ordem judicial. Sem que, inclusive, as pessoas soubessem por que elas estavam sendo perseguidas\u201d<\/p>\n<cite>Robson S\u00e1vio, coordenador da Comiss\u00e3o da Verdade em Minas Gerais<\/cite><\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"283\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dops-bh.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16125\" style=\"width:544px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dops-bh.png 400w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dops-bh-300x212.png 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dops-bh-370x262.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dops-bh-270x191.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dops-bh-150x106.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Agentes do DOPS prendem manifestante no centro de BH. Foto da d\u00e9cada de 1970. Cr\u00e9ditos: Dossi\u00ea de tombamento municipal do pr\u00e9dio <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tortura e vigil\u00e2ncia<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1970, no governo do general Em\u00edlio M\u00e9dici, foi criado um novo \u00f3rg\u00e3o: o <strong>DOI-CODI<\/strong>, composto por representantes das tr\u00eas For\u00e7as Armadas e das pol\u00edcias Civil e Militar. Seu objetivo era centralizar e organizar a repress\u00e3o aos advers\u00e1rios do regime, devido ao aumento da resist\u00eancia popular. O Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna <strong>(CODI) <\/strong>era respons\u00e1vel por coordenar e planejar as medidas repressivas. J\u00e1 o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es <strong>(DOI) <\/strong>era o bra\u00e7o operacional, ou seja, encarregado de colocar as a\u00e7\u00f5es em pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Belo Horizonte, o DOI-CODI come\u00e7ou a atuar em 1971, no 3\u00b0 andar do pr\u00e9dio do DOPS, na Afonso Pena. Este, por sua vez, continuou atuando de forma independente na investiga\u00e7\u00e3o, pris\u00e3o e interrogat\u00f3rio, muitas vezes por meio de sess\u00f5es de tortura. Ambos organismos faziam parte do Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Interna. Em depoimento ao Colab, tr\u00eas presos pol\u00edticos relembraram os horrores que viveram no local.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">S\u00e1lvio e Ana L\u00facia Penna<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Eu era um jovem cheio de esperan\u00e7a na transforma\u00e7\u00e3o. Com muitas certezas, que depois descobri que eram mais esperan\u00e7as do que certezas. Rec\u00e9m casado, com um filho de cinco dias de nascido\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que S\u00e1lvio Penna (80) descreve quem ele era aos 28 anos, quando foi preso pela Ditadura Militar. No dia 7 de dezembro de 1971, S\u00e1lvio saiu para trabalhar na<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/4doZYePGejzArhWdjl0wrA?si=26b71deb15064bdf&amp;nd=1&amp;dlsi=a9ea8d6be76d45d9\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;companhia sider\u00fargica Belgo-Mineira, em Contagem<\/a>, regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte. Ao chegar na portaria, percebeu uma movimenta\u00e7\u00e3o diferente. Agentes do DOPS, \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o do governo, o aguardavam. Aproveitando a distra\u00e7\u00e3o dos policiais, que interrogavam o porteiro, resolveu voltar para casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1lvio e sua esposa, Ana L\u00facia, eram militantes de um partido clandestino, a A\u00e7\u00e3o Popular (AP). Ele, trabalhador sider\u00fargico, era ligado ao movimento oper\u00e1rio. Ana, estudante de Hist\u00f3ria, atuava na organiza\u00e7\u00e3o com as mulheres do bairro. Era o governo do general M\u00e9dici, per\u00edodo conhecido como os \u201canos de chumbo\u201d da Ditadura (1968-74). \u201cA A\u00e7\u00e3o Popular tinha passado por uma persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel em 1968, com muitas pris\u00f5es em Belo Horizonte e Contagem, e, dois anos depois, estava totalmente reestruturada. At\u00e9 que a repress\u00e3o prendeu cerca de 250 pessoas, entre movimento oper\u00e1rio, movimento estudantil e os que eles chamavam de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, conta.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"540\" height=\"960\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/salvio-e-ana-lucia-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17489\" style=\"width:479px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/salvio-e-ana-lucia-2.jpg 540w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/salvio-e-ana-lucia-2-169x300.jpg 169w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/salvio-e-ana-lucia-2-370x658.jpg 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/salvio-e-ana-lucia-2-270x480.jpg 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/salvio-e-ana-lucia-2-150x267.jpg 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">S\u00e1lvio e Ana L\u00facia em 1970. \u00c9 a \u00fanica foto que sobrou do casamento dos dois, pois as outras foram levadas pelos agentes da repress\u00e3o. Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O casal j\u00e1 sabia que estava sendo vigiado, pois um companheiro de partido foi preso e acabou citando seus nomes. A orienta\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a da AP era para que eles fugissem. Por\u00e9m, o primeiro filho dos dois, Rodrigo, havia nascido h\u00e1 apenas cinco dias, em um parto a f\u00f3rceps. \u201cA Ana estava com 33 pontos na vagina, internos e externos. Eu \u00e9 quem estava cuidando dela, a m\u00e9dica passou as recomenda\u00e7\u00f5es, ela estava na cama, n\u00e3o podia levantar. Eu jamais fugiria com ela nessa situa\u00e7\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No dia de sua pris\u00e3o, por\u00e9m, S\u00e1lvio n\u00e3o teve outra escolha e decidiu sair da f\u00e1brica para fugir imediatamente com a mulher e o filho. Ao chegar, percebeu que era tarde demais: viaturas na rua anunciavam que a resid\u00eancia j\u00e1 estava ocupada. \u00c0s 7h ele foi preso. J\u00e1 Ana L\u00facia foi levada no fim da tarde. \u201cNo local n\u00e3o tinha telefone e as viaturas n\u00e3o tinham r\u00e1dio, ent\u00e3o os policiais ficaram sem saber o que fazer com um rec\u00e9m-nascido e uma m\u00e3e naquele estado. De in\u00edcio, ela negociou e eles deixariam o beb\u00ea ficar com os vizinhos. Mas depois chegaram ordens para lev\u00e1-lo tamb\u00e9m, pois perceberam que poderiam us\u00e1-lo para chantage\u00e1-la. Ent\u00e3o os dois foram levados para o Hospital Militar\u201d, relembra S\u00e1lvio.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1lvio foi diretamente para a sede do DOPS, na Avenida Afonso Pena, onde passaria os pr\u00f3ximos quatro meses, at\u00e9 ser transferido para a Penitenci\u00e1ria de Linhares (Juiz de Fora), em mar\u00e7o de 1972. As sess\u00f5es de tortura come\u00e7aram desde o primeiro dia e, segundo ele, aconteciam de domingo a domingo. Entre as pr\u00e1ticas usadas, as principais eram o pau de arara e os choques el\u00e9tricos. \u201c\u00c9 um cavalete onde voc\u00ea fica pendurado, pelos joelhos, de cabe\u00e7a para baixo. Ali te batiam, te davam choques, jogavam \u00e1gua e refrigerante no seu nariz, queimavam seu corpo com cigarro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O aposentado conta que a repress\u00e3o tamb\u00e9m usava rapazes do Centro de Prepara\u00e7\u00e3o de Oficiais da Reserva (CPOR) para fazer esse trabalho. \u201cEram novos, quase meninos, tomando \u00e1gua com a\u00e7\u00facar de t\u00e3o nervosos, para conseguir fazer aquilo\u201d. Segundo ele, o major Pedro Ivo, um dos torturadores mais citados em depoimentos, andava sempre com livros de romances cl\u00e1ssicos brasileiros. \u201cNa hora da tortura ele colocava na sua frente obras de Jorge Amado, Machado de Assis\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00e9todos tamb\u00e9m eram psicol\u00f3gicos. \u201cUsaram meu filho e a minha mulher para me torturar psicologicamente. No terceiro dia de pris\u00e3o, me mostraram o atestado de \u00f3bito da Ana. O torturador me mostrou e falou: \u2018Sua mulher t\u00e1 morta, ela morreu de flebite\u2019. Olha, eu tava em um centro de tortura, ela tinha sido presa com 33 pontos. Eu tive certeza que ela morreu. S\u00f3 fui descobrir que ela n\u00e3o tinha morrido depois uns 20 ou 30 dias, quando um carcereiro um pouco mais humano cochichou: \u2018Sua mulher n\u00e3o morreu, n\u00e3o. Outro dia, inclusive, eu vi ela aqui, ela veio para ser torturada\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para S\u00e1lvio, as viola\u00e7\u00f5es que aconteciam ali eram omitidas da sociedade civil. \u201cEu posso quase afirmar que era uma coisa velada. A repress\u00e3o que o pa\u00eds sofria era muito intensa na ditadura M\u00e9dici. Foi uma ditadura sangrenta, muita gente foi torturada, desapareceu ou foi assassinada. N\u00e3o era f\u00e1cil\u201d. Ele explica que por mais que a imprensa soubesse da exist\u00eancia do DOI-CODI, o que acontecia dentro do pr\u00e9dio era secreto. Al\u00e9m disso, existiam dificuldades para denunciar as viola\u00e7\u00f5es na \u00e9poca: \u201cN\u00f3s n\u00e3o consegu\u00edamos fazer den\u00fancia de tortura dentro do Brasil. Algumas pessoas faziam den\u00fancias no exterior. \u00c0s vezes mand\u00e1vamos cartas atrav\u00e9s de pessoas como o Dom Paulo Evaristo, que levavam para pa\u00edses da Europa\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>\u00c9 uma ilus\u00e3o e uma ingenuidade achar que a tortura foi s\u00f3 uma consequ\u00eancia de um grupo de homens e mulheres maus que passaram a torturar os presos. Tortura era uma coisa pensada, dirigida. Pensada para nos atingir na pol\u00edtica e na ideologia. E principalmente para nos destruir. Foi pensada nessa linha: destruir as pessoas para que elas passassem a achar que nem eram mais gente. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de n\u00e3o acreditar mais naquelas coisas que eles acreditavam, mas passar a acreditar que n\u00e3o eram mais pessoas, gente. E, paralelamente a isso, levantar informa\u00e7\u00f5es: endere\u00e7os, nomes, locais de arquivos, documentos. Tamb\u00e9m tentavam falas de arrependimento. Alguns companheiros \u2013 poucos, ainda bem \u2013 foram para a imprensa dizer que n\u00e3o existia tortura, que aquilo tudo era mentira, que estavam arrependidos\u201d.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ana L\u00facia Penna passou cerca de dois meses em um quarto-cela no Hospital Militar antes de ser transferida para a pris\u00e3o, no 12\u00b0 Batalh\u00e3o de Infantaria. Durante esse per\u00edodo, foi levada diversas vezes ao DOI-CODI. Sua situa\u00e7\u00e3o delicada de sa\u00fade n\u00e3o impediu que ela fosse torturada no mesmo pr\u00e9dio em que o marido estava, sem que ele soubesse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla era submetida a pancadarias, desfilava nua, colocavam v\u00e1rios agentes no corredor e tiravam a roupa dela. Eles ficavam rindo do sexo dela raspado, dos pontos. E era torturada no hospital, tamb\u00e9m. Porque o seio dela, nessa situa\u00e7\u00e3o, secou, ela n\u00e3o teve leite. Ent\u00e3o todo dia de manh\u00e3 uma enfermeira deixava uma garrafa de leite, que a gente n\u00e3o sabia se era fervido ou n\u00e3o, e era aquilo que ela tinha para alimentar o nosso filho o dia inteiro. 40 dias depois o beb\u00ea foi entregue para os av\u00f3s maternos, muito doente, claro\u201d, conta S\u00e1lvio.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com ele, Ana era examinada por um m\u00e9dico, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/colonia.lu\/pt-br\/dr-jean-paul\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Dr. Jean Paul Seeburger&nbsp;<\/a>, citado por outros presos pol\u00edticos na Comiss\u00e3o da Verdade. \u201cO m\u00e9dico, Jean Paul, tamb\u00e9m trabalhava na Belgo-Mineira, ou seja, era meu companheiro de trabalho. Virou agente da Pol\u00edcia Militar e serviu no DOPS e DOI-CODI. Era ele que avaliava se ela aguentaria mais tortura\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1lvio destaca a import\u00e2ncia dos jovens conhecerem a hist\u00f3ria do Brasil:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>A democracia \u00e9 um bem muito caro, que a gente tem que preservar e n\u00e3o pode abrir m\u00e3o. Eu continuo acreditando que a democracia \u00e9 poss\u00edvel. Temos que ser radicalmente contra a Ditadura e o autoritarismo. Meu conselho para os jovens \u00e9 n\u00e3o desacreditar, aproveitar a juventude, mas tamb\u00e9m estudar. Saber como foi o nosso passado porque a democracia \u00e9 uma consequ\u00eancia. \u00c9 uma luta dessas pessoas que morreram, que foram presas, torturadas<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"350\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17490\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1.jpg 640w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1-300x164.jpg 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1-370x202.jpg 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1-270x148.jpg 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1-570x312.jpg 570w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-salvio-1-150x82.jpg 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ficha de S\u00e1lvio no DOPS. Imagem: Arquivo P\u00fablico Mineiro<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Maria Dalce Ricas<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>Eu n\u00e3o matei, n\u00e3o roubei, n\u00e3o danifiquei patrim\u00f4nio p\u00fablico ou privado. Eu apenas me julgava no direito de me manifestar contra o que acontecia no pa\u00eds. E isso me custou quatorze meses de pris\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em 1971, Maria Dalce Ricas (75) era estudante de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Vinda do interior para a capital para estudar, Dalce conta que sempre teve ideais de justi\u00e7a e igualdade social. Suas aspira\u00e7\u00f5es fizeram com que ela logo se inserisse no movimento estudantil, atuando no cargo de vice-presidente do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o ter envolvimento com nenhuma organiza\u00e7\u00e3o ou partido, Dalce foi presa no dia 1\u00b0 de maio daquele ano. Era o feriado do dia do trabalho e ela estava na Avenida Paran\u00e1, no centro da cidade. A ideia era espalhar panfletos contra o regime, usando um artefato caseiro que se assemelha a um lan\u00e7a confetes. \u201cEra um canudo de papel\u00e3o. N\u00f3s coloc\u00e1vamos os panfletos enrolados dentro e na base uma rodela de papel. A\u00ed tinha um p\u00f3 que reagia, gerando uma corrente de ar. Tinha um efeito lento, demorava um pouco para explodir. Era uma coisa pequena, \u00e9 claro. Com aquilo os panfletos voavam. E, teoricamente, as pessoas iriam pegar\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano, por\u00e9m, deu errado. \u201cEntrei em uma farm\u00e1cia e fui fazer o neg\u00f3cio dentro do banheiro. N\u00e3o deu outra, explodiu na minha m\u00e3o\u201d. Apesar de n\u00e3o ter se machucado ou quebrado nada, o barulho foi o suficiente para chamar a aten\u00e7\u00e3o dos policiais. O colega de faculdade que a acompanhava fugiu e nunca mais foi visto por ela. Dalce foi presa em flagrante acusada de terrorismo e filia\u00e7\u00e3o a partido pol\u00edtico clandestino.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17494\" style=\"width:290px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-768x1024.jpg 768w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-225x300.jpg 225w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-370x493.jpg 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-270x360.jpg 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-570x760.jpg 570w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-740x987.jpg 740w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-640x853.jpg 640w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4-150x200.jpg 150w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcelo-paixao-4.jpg 900w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa da revista VEJA , com Marcelo Paix\u00e3o de Ara\u00fajo, em 1998. Cr\u00e9ditos: PersonalEscrito via Twitter<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A estudante foi levada para o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar, na Pra\u00e7a da Liberdade e de l\u00e1, encaminhada para o DOPS, na Avenida Afonso Pena. \u201cHoje, olhando para tr\u00e1s, eu fico pensando que realmente era muita ingenuidade nossa acreditar que conseguir\u00edamos enfrentar uma ditadura armada at\u00e9 os dentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas escadas do pr\u00e9dio j\u00e1 come\u00e7aram as agress\u00f5es. O tenente Marcelo Paix\u00e3o de Ara\u00fajo, que, em 1998, deu uma entrevista para a revista&nbsp;<strong>VEJA&nbsp;<\/strong>assumindo ter sido torturador, foi um de seus algozes. \u201cO Marcelo era um homem alto, enorme. Eu tenho 1,58. Logo que eu cheguei ele me deu um soco no est\u00f4mago. Depois come\u00e7ou a me xingar, me chamar de drogada. Eu nunca usei drogas na minha vida\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante aquela noite, Dalce foi interrogada e torturada. Seminua em uma sala cheia de homens, levou choques el\u00e9tricos nas m\u00e3os, nas pernas e na cabe\u00e7a. Segundo ela, suas companheiras de cela foram submetidas a situa\u00e7\u00f5es piores, com choques na vagina e nos seios. \u201cNa madrugada eu j\u00e1 tinha tomado tanto choque na perna direita que n\u00e3o conseguia mais levantar. O Dr. Jean Paul veio me examinar e falou que n\u00e3o era para darem mais choques na perna.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a penduraram no pau de arara, enfaixaram suas m\u00e3os e pernas para n\u00e3o deixar marcas. Al\u00e9m das viola\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, a tortura foi psicol\u00f3gica: \u201cPegaram um rev\u00f3lver, colocaram na minha cabe\u00e7a e apertaram o gatilho. Foram apertando at\u00e9 girar o tambor todo. E rindo, claro. N\u00e3o tinha bala. Racionalmente eu sabia mas, emocionalmente, n\u00e3o tem como controlar. Foi um terror\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse dia, ela n\u00e3o foi mais agredida fisicamente, apenas de forma verbal, fato que atribui \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o na \u00e9poca. \u201cEu era peixe pequeno. Era s\u00f3 estudante. As pessoas que eles sabiam que tinham mais envolvimento eles torturavam mais, pegavam pesado, queriam tirar informa\u00e7\u00f5es\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dalce tamb\u00e9m se recorda dos horrores que viu. Em um dos dias que passou presa, foi levada para uma sala onde um homem estava sendo torturado. O colocaram na frente dela, ensanguentado, para ver se ela o reconhecia. Em outra ocasi\u00e3o, uma mo\u00e7a foi levada para a tortura e agente da repress\u00e3o avisou: \u201cQuem n\u00e3o quiser ouvir gritos que tampe os ouvidos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>Tive uma colega de pris\u00e3o chamada Jussara, n\u00e3o me lembro o sobrenome. Ela apanhou tanto e levou tanto \u201ctelefone\u201d (<\/strong><em>dois tapas com for\u00e7a e simult\u00e2neos nos ouvidos, com as m\u00e3os em concha<\/em><strong>)&nbsp; que perdeu a audi\u00e7\u00e3o. A sorte \u00e9 que ela era de uma fam\u00edlia rica do Esp\u00edrito Santo. Eles conseguiram tirar ela de l\u00e1 e mandar direto para o aeroporto, para se exilar na Fran\u00e7a\u201d.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"522\" height=\"547\" sizes=\"auto, (max-width: 522px) 100vw, 522px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17495\" style=\"width:445px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1.png 522w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1-286x300.png 286w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1-370x388.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1-285x300.png 285w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1-270x283.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-1-1-150x157.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Carta enviada ao reitor da UFMG, solicitando a exclus\u00e3o de alunos envolvidos em atividades politicas. Cr\u00e9ditos: Comiss\u00e3o da Verdade em Minas Gerais<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do que passou na cadeia, Dalce sofreu consequ\u00eancias em sua vida pessoal. Assim que foi presa, ela foi uma das estudantes expulsas da UFMG, por meio do Decreto-Lei Federal 477. Anos depois, recebeu a retrata\u00e7\u00e3o e foi convidada de volta \u00e0 universidade, onde se formou em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas. No in\u00edcio, ela tinha vergonha da situa\u00e7\u00e3o, por ter sido presa pol\u00edtica. Mas depois percebeu que era admirada pelos colegas exatamente por isso. \u201cNos viam com respeito por termos enfrentado o regime. Tinha at\u00e9 um certo endeusamento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se recorda com carinho de um professor do curso de Direito:&nbsp;<a href=\"https:\/\/vozhumana.com.br\/advogados\/ariosvaldo-de-campos-pires\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ariosvaldo de Campos Pires<\/a>. No auge da repress\u00e3o, ele arriscava a pr\u00f3pria pele, enfrentando os policiais que tentavam invadir o pr\u00e9dio da faculdade e levar os estudantes.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"482\" height=\"93\" sizes=\"auto, (max-width: 482px) 100vw, 482px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-2-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17496\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-2-1.png 482w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-2-1-300x58.png 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-2-1-370x71.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-2-1-270x52.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/dalce-ricas-2-1-150x29.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ficha de Dalce no Dops<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Sobre as consequ\u00eancias da tortura, a ambientalista conta que, ap\u00f3s ser solta, passou um ano tendo pesadelos com a pris\u00e3o todos os dias. Hoje, enxerga o per\u00edodo como uma fase dura que passou na vida. \u201cEu consegui superar, mas muitos, n\u00e3o. Muita gente enlouqueceu, n\u00e3o conseguiu se reintegrar no mercado de trabalho. Aquilo destruiu a vida de v\u00e1rias pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>As gera\u00e7\u00f5es que sucederam ao golpe militar no Brasil n\u00e3o t\u00eam ideia do que \u00e9 viver em uma Ditadura. O que \u00e9 ter medo de falar, medo do vizinho que pode te denunciar por qualquer motivo torpe, medo de ser presas. \u00c9 uma absoluta falta de liberdade. N\u00e3o havia limites para a repress\u00e3o na Ditadura Militar. \u00c9 importante n\u00e3o esquecer o que aconteceu, para&nbsp; que as pessoas possam pensar antes de acreditar em falsos discursos. Uma ditadura, seja de qualquer natureza, pressup\u00f5e autoritarismo, tortura, morte e viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Emely Salazar<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>\u00c9 o pr\u00e9dio da tortura. Minha lembran\u00e7a \u00e9 s\u00f3 de tortura\u201d<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Emely Salazar (85) tinha 31 anos quando foi presa, no dia 9 de maio de 1970. Cursando o \u00faltimo ano do curso de psicologia da Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (hoje, Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais \u2013 PUC Minas), ela era vice-presidente do DCE e ligada ao movimento estudantil. Al\u00e9m disso, fazia parte da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Brasileira, organiza\u00e7\u00e3o que ajudava perseguidos pol\u00edticos. Recolhia doa\u00e7\u00f5es em dinheiro e chegou a oferecer ref\u00fagio em sua casa, na casa de amigos e parentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu fui presa porque denunciava tortura. Escrevia, fazia panfletos, distribu\u00eda, mandava para o Rio, para S\u00e3o Paulo. Era uma campanha que a gente fazia. Tamb\u00e9m escondi pessoas. Tudo que eu podia eu fazia\u201d, conta. Em fun\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es, durante os interrogat\u00f3rios, seu nome foi citado por presos de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es e partidos. Logo ela tamb\u00e9m entrou na mira da repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Emely foi presa em casa, na rua da Bahia. \u201cEles chegaram l\u00e1 (os agentes do DOPS) com um conhecido. Eu n\u00e3o percebi nada. Achei que tivesse acontecido alguma coisa, custei a perceber que eram eles. At\u00e9 que falaram: a senhora vai nos acompanhar at\u00e9 a delegacia\u201d. Como n\u00e3o era militante, em um primeiro momento ela imaginou que tudo n\u00e3o passava de um mal entendido. \u201cMinha m\u00e3e come\u00e7ou a chorar e eu disse: \u2018Calma! Eu vou l\u00e1, explico tudo e volto\u2019. E fiquei dois anos explicando\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"414\" height=\"297\" sizes=\"auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17497\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-1.png 414w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-1-300x215.png 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-1-370x265.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-1-270x194.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-1-150x108.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ficha de Emely no DOPS. Cr\u00e9ditos: Dossi\u00ea de tombamento do edif\u00edcio, 2013<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Durante os dois meses que passou no pr\u00e9dio do DOPS, antes de ser transferida para a penitenci\u00e1ria, foi torturada v\u00e1rias vezes. \u201cEles n\u00e3o queriam que eu falasse nada. Vinham com uma hist\u00f3ria pronta, me batiam e queriam que eu confirmasse\u201d. Ela afirma que passou por choques el\u00e9tricos, foi pendurada no pau de arara e sofreu espancamentos. \u201cUm dia eu levei tanta palmat\u00f3ria que n\u00e3o podia pegar nada com a m\u00e3o, minhas m\u00e3os ficaram uma bola. Eu n\u00e3o consegui ficar em p\u00e9 no ch\u00e3o. Tive de ser carregada no colo\u201d, contou, em seu depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando viu o m\u00e9dico do departamento no pr\u00e9dio, o reconheceu e sentiu um al\u00edvio. Ele era professor da faculdade de Medicina da UFMG, local onde ela trabalhava como secret\u00e1ria de ensino. \u201cNa hora que eu vi o doutor Jean Paul eu pensei: \u2018Gra\u00e7as a Deus tem algu\u00e9m da Medicina aqui\u2019. E depois fui descobrir que o cara era auxiliar de tortura. Ele examinou s\u00f3 para falar: ela aguenta mais, pode bater\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Emely, um dos momentos mais marcantes de sua pris\u00e3o foi o dia em que foi escondida dentro do arm\u00e1rio, embaixo da escada do DOPS. Na ocasi\u00e3o, uma equipe de advogados iria visitar o pr\u00e9dio para apurar den\u00fancias de tortura. \u201cEu estava muito machucada de tortura, com o olho todo roxo. Ent\u00e3o me amarraram e me colocaram no arm\u00e1rio. Fiquei horas ali, sem ter ideia do que estava acontecendo. Se soubesse, teria gritado\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17498\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image.png 1024w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-300x225.png 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-768x576.png 768w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-370x278.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-270x203.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-570x428.png 570w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-740x555.png 740w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-80x60.png 80w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/image-150x113.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arm\u00e1rio onde os militares esconderam Emely Salazar. Foto: Amanda Pena<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Anos mais tarde, ela encontrou um de seus torturadores em uma festa de casamento. O reconheceu imediatamente. \u201cDe in\u00edcio ele n\u00e3o estava me reconhecendo, mas quando eu falei meu nome ele lembrou na hora. E eu disse: \u2018\u00e9, quem bate esquece, quem apanha, n\u00e3o\u201d. Emely conta que os dois tiveram uma conversa amena por alguns instantes, at\u00e9 o militar perguntar como ela estava: \u201cFalei para ele: \u2018estou bem. Minha vida \u00e9 um livro aberto, n\u00e3o tenho nada a esconder de ningu\u00e9m\u2019. Ele respondeu: \u2018eu tamb\u00e9m n\u00e3o\u2019. E eu falei: \u2018ah \u00e9? Sua mulher e seus filhos sabem que voc\u00ea era um torturador?\u2019 Ele deu as costas e saiu andando\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"411\" height=\"317\" sizes=\"auto, (max-width: 411px) 100vw, 411px\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-parte-2-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-17499\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-parte-2-1.png 411w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-parte-2-1-300x231.png 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-parte-2-1-370x285.png 370w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-parte-2-1-270x208.png 270w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/ficha-emely-parte-2-1-150x116.png 150w\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ficha de Emely no DOPS- FOTO: Comiss\u00e3o da Verdade<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Faz parte da minha hist\u00f3ria. Eu lido bem com essas coisas, n\u00e3o tenho problemas em falar sobre tortura, pris\u00e3o. Tenho colegas que ficaram traumatizados, n\u00e3o querem nem tocar no assunto, o que eu compreendo. Mas eu falo. O povo precisa conhecer nossa hist\u00f3ria\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Situa\u00e7\u00e3o atual<\/h2>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de um Memorial dos Direitos Humanos no pr\u00e9dio do DOPS foi aprovada pela Assembl\u00e9ia Legislativa de Minas Gerais por meio da<a href=\"https:\/\/www.almg.gov.br\/legislacao-mineira\/LEI\/13448\/2000\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> LEI n\u00ba 13.448, de 10\/01\/2000<\/a>: <em>\u201cArt. 6\u00ba &#8211; Fica declarado patrim\u00f4nio hist\u00f3rico estadual o acervo do Memorial, que se instalar\u00e1 em Belo Horizonte, no pr\u00e9dio ocupado pelo extinto DOPS\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, em fun\u00e7\u00e3o de disputas pol\u00edticas em torno do pr\u00e9dio, em 2005 houve uma altera\u00e7\u00e3o na lei, suprimindo o decreto inicial de que o memorial deveria ser instalado especificamente nesse local:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Par\u00e1grafo \u00fanico. O Memorial de Direitos Humanos tem sede em Belo Horizonte\u201d<\/p>\n<cite>(Par\u00e1grafo acrescentado pelo art. 1\u00ba da Lei n\u00ba 15.458, de 12\/1\/2005.)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A Pol\u00edcia Civil continuou ocupando o espa\u00e7o at\u00e9 2018, com a Delegacia do Narcotr\u00e1fico (DENARC). Entre a sa\u00edda da pol\u00edcia e a entrega para a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDESE-MG), o pr\u00e9dio ficou vazio e sofreu depreda\u00e7\u00f5es. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, todos recursos foram destinados a obras de salvaguarda, visto que o edif\u00edcio estava muito deteriorado.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a SEDESE, ocorreu uma parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, envolvendo uma equipe interdisciplinar de mais de trinta pesquisadores, especialistas em em Museologia, Arqueologia, Hist\u00f3ria e Direito. Os estudos feitos por eles s\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o do projeto museol\u00f3gico. A pr\u00f3xima etapa \u00e9 o projeto executivo, que envolve tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos e legais. Quando esta for aprovada, ser\u00e1 poss\u00edvel estipular or\u00e7amento e prazos para que o Memorial seja finalmente instalado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Confira imagens atualizadas do pr\u00e9dio:<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter has-nested-images columns-3 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" data-id=\"16135\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/colab\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/WhatsApp-Image-2024-03-27-at-11.07.59-2-1-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16135\" 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A pesquisadora Debora Raiza, mestre em Hist\u00f3ria pela UFMG, escreveu sua disserta\u00e7\u00e3o sobre o tema e explica a import\u00e2ncia do tombamento. \u201cComo o pr\u00e9dio \u00e9 um patrim\u00f4nio, n\u00e3o pode ser demolido e nem sofrer grandes mudan\u00e7as. Uma das diretrizes, por exemplo, garante que as guaritas n\u00e3o sejam retiradas, porque elas demonstram que existia vigil\u00e2ncia ali. Outro espa\u00e7o, da piscina e a sauna, onde supostamente ocorreram torturas de \u201cesquenta e esfria\u201d e sess\u00f5es de afogamento, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser alterado. Tudo isso \u00e9 fundamental para a preserva\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A historiadora destaca que a Comiss\u00e3o da Verdade identificou 24 lugares de tortura em Minas Gerais, mas o pr\u00e9dio do DOPS \u00e9 um dos mais referenciados. \u201cEmbora n\u00e3o fosse uma regra, a sede do Dops\/MG costumava ser o primeiro lugar do sistema repressivo pelo qual os presos pol\u00edticos eram encaminhados. Muitas pessoas passaram por ali, ent\u00e3o aquele lugar se transformou, de fato, em um territ\u00f3rio de mem\u00f3ria, do qual eles se apropriam com muita veem\u00eancia. Tem um monumento na porta com os nomes dos 54 mortos e desaparecidos no estado. Os familiares costumam depositar velas e flores l\u00e1\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o em Memorial dos Direitos Humanos, Raiza aponta que a demora para a concretiza\u00e7\u00e3o do projeto se deu por raz\u00f5es simb\u00f3licas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 importante pensar que no Brasil existe o que o professor Rodrigo Patto chama de \u201ccultura pol\u00edtico-conciliat\u00f3ria\u201d, ou seja, a gente n\u00e3o tem coragem de enfrentar alguns conflitos\u201d. Ela explica que existe uma quest\u00e3o sens\u00edvel para que o Memorial seja instalado, visto que a ideia \u00e9 de um antigo pr\u00e9dio da pol\u00edcia, no centro da cidade, evidenciando problemas s\u00e9rios do passado. \u201cVai ser um lugar que vai escancarar a tortura aqui, no meio da Afonso Pena. O Memorial foi criado em 2000, por lei, e at\u00e9 hoje n\u00e3o foi institu\u00eddo. Na minha disserta\u00e7\u00e3o, eu chamei isso de \u201cl\u00f3gica da protela\u00e7\u00e3o\u201d que o Estado utiliza. Existe uma rela\u00e7\u00e3o de dif\u00edcil defini\u00e7\u00e3o do que vai ser aquele espa\u00e7o, com os familiares das pessoas desaparecidas, com os ex-presos pol\u00edticos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Robson S\u00e1vio, doutor em Ci\u00eancias Sociais e coordenador da Comiss\u00e3o da Verdade em Minas Gerais, afirma que o pr\u00e9dio do Dops pode significar, no presente, um s\u00edmbolo da resist\u00eancia ao governo ditatorial. \u201c\u00c9 importante mostrar para as pessoas n\u00e3o s\u00f3 o que foi aquele local, mas tamb\u00e9m o que significa esse per\u00edodo t\u00e3o nebuloso da nossa hist\u00f3ria. \u00c9 um local estrat\u00e9gico em termos de mem\u00f3ria do passado, para que esse passado n\u00e3o possa se repetir\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para S\u00e1lvio Penna, que foi preso e torturado no local entre 1971 e 72, a cria\u00e7\u00e3o do museu \u00e9 uma esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O pr\u00e9dio do Dops representa a mem\u00f3ria que a gente precisa guardar. Eu falo sempre que posso. Infelizmente, poucos sabem o que aconteceu, ent\u00e3o eu conto essa hist\u00f3ria, esses momentos, porque as pessoas precisam saber. Eu acho que ainda existe pouca coisa escrita sobre o golpe e os tempos de Ditadura. Eu n\u00e3o perdi a esperan\u00e7a de que n\u00f3s vamos lutar e transformar esse lugar em um museu. \u00c9 importante demais, no centro da cidade, no cora\u00e7\u00e3o de Belo Horizonte, termos um lugar restaurado, intacto, como ele recebeu as pessoas para serem torturadas. E \u00e9 isso que eu vejo l\u00e1, n\u00e3o consigo passar por ali sem ter essa coisa mexendo no meu cora\u00e7\u00e3o: n\u00f3s ainda vamos ter nossa mem\u00f3ria depositada aqui\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Essa reportagem \u00e9 uma homenagem a  Ana L\u00facia Penna, falecida em 2016, e em mem\u00f3ria de todos os brasileiros torturados, mortos e desaparecidos durante a Ditadura Militar. Nunca esqueceremos.<br><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Local foi sede do DOPS e do DOI-CODI, \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o aos opositores do regime<\/p>\n","protected":false},"author":80,"featured_media":16127,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[874,765,1762,1006,210],"class_list":["post-16122","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","tag-censura","tag-ditadura-militar","tag-golpe-de-1964","tag-historia","tag-politica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Pr\u00e9dio em Belo Horizonte foi centro de tortura durante a Ditadura Militar - Colab<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"No local, era comum a pr\u00e1tica de tortura. 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