De acordo com dados do Mapa de Jornalismo Independente, publicado pela Agência Pública, entre 2013 e 2016 houve a criação de pelo menos 49 novos veículos de mídia independente no país. Durante os protestos de 2013 e nos anos que se seguiram, houve um aumento considerável na criação de veículos como a Mídia Ninja, Intercept Brasil, jornal Nexo e Ponte Jornalismo com objetivo de trazer uma cobertura jornalística diferente da imprensa tradicional.
Ainda que as Jornadas de Junho tenham possibilitado um destaque ainda maior para o que a professora e pesquisadora do PPGCOM da PUC Minas Nara Lya Scabin, chama de “movimentos de mídia ativismo” no país, experiências jornalísticas independentes datam do período da ditadura civil-militar. Esse destaque veio graças a popularização de ferramentas de comunicação digitais, juntamente com um movimento político e econômico que comumente se manifesta após grandes transformações tecnológicas.
Apesar disso, Nara Scabin argumenta que 2013 não é o marco inicial de uma mudança no ecossistema midiático. Para a pesquisadora, já existia um processo de mudanças estruturais ocorrendo na mídia e no jornalismo gradativamente. Segundo ela, desde o início do século XXI foi registrada a aparição de uma “blogosfera progressista” que se formou a partir da migração de jornalistas consagrados nos meios de comunicação tradicionais para blogs e portais digitais.
A professora aponta que o motivo da migração foi uma insatisfação dos próprios profissionais com a falta de liberdade editorial. Segundo Nara Scabin, durante as Jornadas de Junho o aumento da criação de novos veículos alternativos surgiu como forma de contrapor visões políticas da mídia hegemônica, principalmente naquele momento em que se formava um movimento antipetista na imprensa brasileira.
“Com o fortalecimento e ampliação da importância política e econômica das big-techs ao longo dos anos 2010 a gente tem também novas movimentações que transformam o cenário jornalístico no Brasil e no mundo, tanto na mídia hegemônica como na mídia alternativa”, contextualizou a professora Nara Scabin.
A pesquisadora se diz cética quanto às transformações que tivemos no início do século e questiona se todas as mudanças graduais no ecossistema durante o anos 2010 foram “libertadoras” para a sociedade. Citando o início da internet como exemplo, ela argumenta que havia uma expectativa de avanços emancipatórios e democratizantes a partir da popularização da web, algo que não se concretizou. “A ascensão e fortalecimento das grandes empresas de tecnologia deram um alcance e força nunca antes visto, mas só reorganizaram o ecossistema midiático, sem subverter a concentração de poder”, explica.
Nara Scabin explicita que o alcance transnacional das “big-techs” como o Grupo Meta, dono do Facebook, Instagram e WhatsApp, e a Alphabet, dona do Google, entre outras, deu a elas uma força incomparável aos antigos conglomerados de mídia. Na visão da professora, essa é a grande mudança estrutural no ecossistema midiático e não foi uma evolução completa. “Ela [a mudança] não é exatamente uma transformação estrutural libertadora ou democratizante”, finaliza a professora.
Nesse contexto, a mídia independente se mantém estável a partir das novas ferramentas digitais e de um movimento político que influencia na construção de uma alternativa aos grandes conglomerados de mídia. Entretanto, esses veículos começam a produzir um jornalismo que precisa passar pelo filtro das “big-techs” que, assim como a mídia hegemônica, não é isenta de interesses próprios.
“As mídias independentes se devem muitos mais a uma dinâmica de dissidências e divergências políticas do que a um aspecto tecnológico”, argumenta a pesquisadora Nara Scabin.
De acordo com a professora, a discussão sobre o novo ecossistema midiático formado neste século não passa somente pela popularização das tecnologias da comunicação. Na verdade, segundo Nara Scabin, a relação entre as dissidências políticas, o contexto político nacional nos anos 2010 e a existência de tecnologias que barateiam a produção é a resposta para entender essa nova organização dos meios de comunicação em que novas mídias independentes foram criadas e se mantiveram.
Nova hegemonia e desafios adicionais
Andrew Fishman é jornalista e presidente do The Intercept Brasil, um dos maiores veículos de mídia independente do país. Para ele, o jornalismo independente com financiamento próprio é “essencial” para continuação da democracia no Brasil. Nascido nos Estados Unidos e formado em Relações Internacionais, Fishman se apaixonou pela profissão depois de participar do Listening Post, um programa do veículo internacional Aljazzera.
“O jornalismo é uma carreira extremamente importante, mas que também te dá [a] oportunidade de cair no meio da vida das pessoas, fazer perguntas impertinentes e conhecer pessoas incríveis. E aí não acreditei. Não achei que era possível ser pago para fazer isso. Então isso acendeu uma chama.”, Fishman.
Fishman relata como o alcance do The Intercept Brasil diminuiu abruptamente em seus perfis nas plataformas nos últimos anos, com as mudanças feitas por Mark Zuckerberg da Meta. Além disso, segundo ele, as plataformas mudam seus algoritmos a cada três meses, o que faz com que o veículo tenha que modificar constantemente sua distribuição, prejudicando o alcance de veículos independentes que sofrem com capital financeiro reduzido.
Fishman também alerta sobre a newsletter, um novo tipo de formato de publicação que entrega as reportagens ou notícias diretamente no e-mail e que vem se popularizando como alternativa aos algoritmos das plataformas. Porém, de acordo com ele, a maioria dos assinantes do Intercept usa o Gmail, a plataforma de e-mails do Google. Dessa forma, ele exemplifica que, assim como as outras plataformas, o Gmail utiliza um algoritmo. Sendo assim, a partir do momento que os donos decidirem também não entregar as newsletters, eles precisarão se diversificar novamente. Essa “efemeridade” nas estratégias de publicação prejudica a força do veículo.
“A gente precisa estar com a capacidade de capitalizar e, crescer em cada nova situação e adaptar sempre. E obviamente isso dificulta bastante, ainda mais para um veículo pequeno”, alega o Presidente do Intercept Brasil, Andrew Fishman.
Nara Scabin reprova o uso da palavra “plataforma”, pois acredita que a expressão constitui um equívoco calculado pelas empresas de tecnologia que sugerem o uso para mitigar as críticas à sua atuação. Segundo ela, o termo comunica uma imagem de neutralidade ou de um espaço onde ideias circulam livremente e isso se opõe à lógica do algoritmo.“[Plataformas] se tratam de uma infraestrutura tecnológica que organiza e formata discursos diversos, de determinada maneira em função da lógica algorítmica”, Nara Scabin.
As contradições de produzir jornalismo moram no berço da profissão e nas decisões tomadas pelos veículos ao longo dos séculos. Para se reinventar, jornalistas independentes se apropriam das tecnologias de comunicação e subvertem o poder dos grandes conglomerados de mídia, em veículos alternativos. Porém, atualmente, além dos conglomerados, agora é preciso se adequar aos algoritmos impostos pelas “big-techs”. Tudo isso perpassa por um elemento essencial: o dinheiro.
O dinheiro no centro do jornalismo
Uma das marcas do jornalismo independente é um financiamento desvinculado de setores empresariais ou grandes conglomerados de mídia. Em comparação ao modelo comercial dependente de publicidade, o objetivo de veículos alternativos é ter um modelo que amplie a liberdade editorial. As ferramentas digitais, assim como diminuiram o valor das produções, também criaram novas possibilidades de financiamento em contraponto ao modelo comercial. As possibilidades de bancar independência no ambiente digital são variadas: financiamento coletivo, doações avulsas de leitores, editais de fomento e até verbas de fundações filantrópicas internacionais.
“Evidentemente a gente teve [surgimento] de ferramentas que trazem possibilidades técnicas de expressão alternativa aos conglomerados de comunicação tradicionais e [permitiram] também novas formas de financiamento.”
Segundo Nara Scabin, os novos modelos de financiamento do jornalismo não surgem somente pela existência de ferramentas que permitem colocá-los em prática, mas também por um desgaste do próprio modelo tradicional. “Um certo desgaste da credibilidade, dos modelos de financiamento e também uma certa perda de prestígio do jornalismo tradicional”, pontuou a pesquisadora. Nara Scabin acredita que esse enfraquecimento do modelo se deva também às big-techs que dividiram as possibilidades de propaganda entre as grandes empresas de tecnologia e a imprensa tradicional.
De acordo com Fishman, atualmente 80% do financiamento do The Intercept Brasil é fruto das doações da audiência. O restante vem de fundações filantrópicas e parcerias com outros veículos para uso da infraestrutura. “Principalmente doações recorrentes mensais, na média de R$34 por doação. Isso é a grande maioria”.
“Eu diria que nosso modelo é o sonho em termos de independência”, Fishman.
Presidente e cofundador do Intercept, Fishman viu o início do veículo, suas mudanças e as estratégias criadas para a manutenção do modelo independente. Para ele, é cansativo ficar pedindo doações, mas não deixa de contestar as críticas que o veículo recebe por isso, e reitera a importância de conseguirem se manter livres para buscar as pautas que, para o Intercept, realmente importam. “Sim, a gente precisa ficar pedindo dinheiro, mas eu não enxergo como mendigando, a gente tá convidando pessoas a fazerem parte de uma ideia, de uma missão. De um movimento que a gente está querendo construir e manter”, assumiu.
Diversidade gera independência?
Na visão de Nara Scabin, a grande diversidade de doadores é o que permite uma linha editorial mais independente ou, em alguns casos, até mesmo combativa, como o próprio Intercept. O modelo comercial tradicional reside no financiamento a partir da publicidade, desse modo, quem publica pode retirar seu apoio financeiro caso não aprove uma reportagem, por exemplo. Entretanto, no modelo de jornalismo alternativo, como o do Intercept, sofre-se menos prejuízo com matérias que não agradam seus financiadores. Tendo em vista que o dinheiro arrecadado depende das doações de um grande número de leitores e não de uma empresa em específico.
Fishman também acredita que esse sistema de produção mantém os jornalistas mais próximos da audiência, com um novo tipo de confiança entre quem produz e quem consome. “Quando as pessoas decidem doar, eles estão doando porque acreditam no que a gente acredita e no que a gente representa”, confessa, com orgulho. Segundo ele, essa credibilidade restaurada pelo jornalismo independente, e em disputa na profissão como um todo, resiste a erros graças à transparência e à capacidade dos veículos alternativos de assumirem seus vieses políticos, muitas vezes acinzentados na imprensa tradicional. “Quando você erra, eles entendem por que essa conexão é muito maior”, defende o jornalista.
“A questão é como você lida com essas falhas para manter a sua integridade. Porque nossa integridade é nosso maior bem, é a nossa marca, nossa reputação.”, Fishman.
Caráter combativo assumido
Credibilidade é um adjetivo obrigatório para descrever um bom jornalismo. Para se manter fiel aos ideais que guiam a profissão como objetividade, imparcialidade e veracidade, é preciso muito mais do que um bom modelo de financiamento, bons profissionais e liberdade editorial. Fishman reconhece os vieses progressistas do veículo que preside e não esconde o que o Intercept defende com unhas e dentes. “A gente acredita nos conceitos de ser justo e ser honesto”, afirmou.
Fishman expõe o caráter combativo e assumidamente político do Intercept, bem como as crenças políticas da sua audiência, porém, defende que isso não se sobrepõe ao interesse público. Ele exemplifica que, caso decidam abrir uma investigação sobre uma pauta e o resultado for de encontro com a ideologia da base de apoiadores, assim como é esperado de um veículo tradicional, as descobertas são publicadas na íntegra. “É nosso papel ser impertinente e fazer coisas que talvez não sejam politicamente convenientes. E isso é a verdadeira independência”, esclareceu. Ainda assim, Fishman revela que, em vez de perder assinaturas após matérias consideradas polêmicas ou inconvenientes para um grupo de assinantes, o Intercept acaba ganhando mais assinaturas de outros grupos com perspectivas diferentes.
Um jornalismo de impacto
Durante os protestos de 2013, Thalys Alcântara, um jovem jornalista ainda cursando Comunicação Social na Universidade Federal de Goiás (UFG), participava ativamente das manifestações que entraram para a história recente do país. Alcântara produzia vídeos para um canal de Youtube pessoal, mas admite que na época os vídeos tinham uma “vibe mais militante”. Hoje, Alcântara faz parte do Intercept cobrindo principalmente segurança pública. Repórter há dez anos, acompanhou junto com uma geração de jornalistas a crise e as contradições do jornalismo tradicional.
“Sem publicidade privada ou pública, temos [Intercept] uma possibilidade de linha editorial bem mais livre e aberta do que os jornais que dependem dessa publicidade, e que estão submetidos aos interesses dos donos”, jornalista Thalys Alcântara.
Alcântara também trabalhou em veículos da mídia tradicional como o jornal O Popular, um dos maiores de Goiás, e o portal Métropoles, com uma audiência mensal de 86 milhões de usuários. Ele revela que, no geral, os jornalistas são “bem progressistas”, quando se refere também aos colegas que trabalham em veículos tradicionais.
Apesar disso, ele reconhece que os interesses dos donos dos veículos podem se sobrepor aos objetivos dos repórteres, o que não acontece no Intercept. Na visão de Alcântara, essa diferença se sustenta nas divergências das propostas dos veículos tradicionais e dos independentes. Enquanto o jornalismo tradicional busca primeiro manter uma audiência fixa, o independente busca, além de se manter, transformar a realidade. O repórter aborda um ponto crucial para entender a forma como o jornalismo independente atua: o impacto.
O presidente do Intercept Brasil, Andrew Fishman, explica melhor essa proposta transformadora, não só do ponto de vista social, mas também como uma estratégia política. “A gente se organiza editorialmente em volta do conceito de impacto, porque jornalismo investigativo deve sempre ser sobre impacto, não é só informar, é criar as condições para mudança”, argumentou Fishman.
Além disso, Fishman entendeu que o impacto não podia ser somente um elemento cultural dentro da empresa, precisava se tornar parte das rotinas de produção como um mecanismo importante para a reunião de pauta. “Quando fazemos uma pauta na reunião, as pessoas precisam trazer o título que pensam, o lead, o potencial de impacto que estão enxergando e o ‘e daí’, o por que [aquilo] importa”, elucidou Fishman. A estratégia de almejar impacto não deixa de ser econômica também. Tendo em vista, que quanto mais se procura transverter as reportagens em mudanças estruturais, mais pessoas conhecem o veículo e podem contribuir para a missão que Fishman e o The Intercept Brasil carregam.
“Pra mim o impacto é a sua matéria provocar algum tipo de transformação na vida real”, compreende Alcantara.
Thalys Alcântara confessa que quando a colisão do jornalismo com a realidade promove transformações é nesse momento que o repórter fica realmente satisfeito e dá um exemplo. Durante o tempo em que trabalhou no Métropoles ele investigou o desaparecimento de Alícia Marques, jovem trans que teve o caso arquivado sem que o delegado responsável tivesse tentado encontrá-la. Alcântara realizou uma investigação e conseguiu publicar uma reportagem mostrando que o policial estava arquivando o inquérito, mesmo diante de várias possíveis linhas de investigação para encontrar a jovem. Nove dias após a publicação da reportagem, o inquérito foi desarquivado e, pouco tempo depois, o corpo da mulher foi encontrado.
O repórter reconhece que a “correria” do jornalismo comercial é importante para sua manutenção no modelo de publicidade e impede revisões e checagens, mas não impossibilita de fazer um bom trabalho. “Seja onde você estiver sempre dá pra fazer um bom trabalho”, defende Alcântara citando uma professora que teve na universidade. Já no Intercept ele aponta, por exemplo, como o tempo para produção de reportagens permite um número maior de revisões e até uma equipe jurídica que analisa as matérias. E insiste que a comparação entre os profissionais de veículos independentes e comerciais é reducionista quando não compreendemos a estrutura em que eles estão posicionados.
Fishman defende o tipo de jornalismo que faz com vigor e um tipo de chama democrática que ele assume em certos momentos durante nossa conversa. Na visão dele, o jornalismo investigativo feito pelo Intercept precisa ter um caráter transformador, porque eles vão investir tempo e recursos na produção daquela reportagem e o jornalismo independente não trabalha com capital financeiro sobrando. “Vou continuar investigando até existir alguma mudança nessa situação […] Não é questão de viés, isso é a natureza da empreitada.”, completou.
Negar ou assumir: lados da mesma moeda?
“Eu diria que a grande mídia vive num estado de negação da realidade”, Fishman.
Fishman faz duras críticas ao jornalismo comercial baseado em ideais de isenção e neutralidade que, na visão dele, são impossíveis de atingir. Além disso, ele argumenta que cada escolha feita dentro da redação influencia diretamente no viés daquilo que se produz, ou seja, se esconder atrás de um verniz de neutralidade só fere a própria objetividade e veracidade entoada pelos jornalistas . O argumento não é novo, Gaye Tuchman, socióloga estadunidense especializada em mídia, já havia defendido a tese em um ensaio publicado pelo American Journal of Sociology da Universidade de Chicago em 1972.
Segundo a autora, os jornalistas reconhecem intrinsecamente que cada escolha feita durante o desenvolvimento das reportagens ou notícias é uma decisão que influenciará na recepção daquele conteúdo, sejam as fontes utilizadas, o recorte das aspas dos entrevistados ou a ordem que os fatos são apresentados. Para Fishman, a diferença entre o tipo de jornalismo que o Intercept produz e o feito pela imprensa comercial está na sinceridade em assumir o “seu jeito de olhar o mundo” e não se esconder atrás do verniz da imparcialidade.
Fishman ainda avalia que a ascensão do jornalismo independente está ligada diretamente a uma necessidade de contrapor essa lógica comercial que cria conflitos de interesse. “A grande mídia é a mais politizada e enviesada que existe porque eles têm o viés do capital, dos seus donos e todo mundo sabe dentro da mídia, mas não falam publicamente”, criticou Fishman.
Segundo Nara Scabin, além do desgaste do modelo de financiamento do jornalismo tradicional, também é preciso reconhecer a crise da pós-verdade na modernidade e a influência da extrema direita nesse enfraquecimento dos meios de comunicação. Na visão da pesquisadora, o “questionamento extremo das verdades”, entendidas por ela como parte do ambiente da modernidade, afeta diretamente a legitimidade do jornalismo como instituição social, assim como, de outras instituições que vêm sendo questionadas e sucateadas dentro das democracias liberais mundiais.
“Me parece que esse ponto de assumir com honestidade sua posição social e seu viés valorativo tem se colocado como caminho interessante de enfrentamento da crise do jornalismo tradicional”, Nara Scabin.
A pesquisadora Nara Scabin aponta um elemento importante para diferenciar a crítica direcionada a esses veículos que assumem lados políticos quando são taxados de parciais. Ela argumenta que a hiper partidarização ou radicalização de narrativas políticas, especialmente em veículos de extrema-direita, são um problema muito mais grave. Segundo a professora, o conflito não está necessariamente no lado político escolhido, mas na dúvida sobre os métodos aplicados pelos veículos radicalizados. “Nós teríamos muita dificuldade em dizer que eles são de fato jornalísticos, por que eles não seguem minimamente as exigências e critérios de rigor jornalístico”, defendeu Nara Scabin. De acordo com a pesquisadora, esses veículos radicalizados e sem método se utilizam de uma linguagem jornalística para buscar legitimidade na esfera pública.
O verdadeiro ideal do jornalismo
Para Bruno Fonseca, chefe de redação da Agência Pública, a separação entre veículos politizados e radicalizados está na escolha por apuração rigorosa, por princípios editoriais sólidos e transparentes, para só assim fazer um jornalismo fiel aos ideais da profissão. “Isso não é ativismo político, mas os princípios que estão na profissão de jornalista”, declarou. Na visão dele, o desafio de se manter sincero e verdadeiro com seu público não é uma batalha travada só pelo jornalismo independente, mas também pelos veículos tradicionais. Fonseca vai além, e alerta sobre possíveis campanhas eleitorais dentro da imprensa tradicional em 2026. “Vamos ter veículos cujos donos vão estar em plena campanha eleitoral. Inclusive editoriais de jornais, o que sempre existiu, defendendo o voto no candidato X ou Y”, lembra o repórter.
“O momento que a gente vive hoje é mais um momento de transformação desses valores jornalísticos que estão sendo tensionados. Assumir o lado político faz parte dessa nova geração de jornalistas e esses veículos independentes têm assumido esse lugar mas, é claro, mantendo o jornalismo factual e com respeito à realidade”, Nara Scabin.
Nara Scabin retoma a ideia do jornalismo como uma práxis em constante mudança e como esse processo também se transmuta para a forma como os novos veículos vão se posicionar. “Não é porque um veículo jornalístico assume mais claramente seu lado político que ele é menos neutro do que um veículo que não assume seu lado político, mas tem evidentemente um lado”, justifica a professora.
Fonseca também reflete sobre a prática, todavia, observa com um olhar macroestrutural quando se refere aos veículos radicalizados e a desinformação. Para ele, é uma situação complexa sem respostas prontas, mas que, de início, precisa ser investigada e solucionada pela sociedade com um todo. “A saída disso, se houver, não passa só pelo jornalismo, mas pela educação, pela cultura, pela própria sociedade organizada”, concluiu o jornalista.
