A vida na cidade grande dificilmente molda meu gosto por ela, toda essa muvuca, esse caos, essa… banalização do desprezo ao ser, é muito difícil morrer de amores pela selva de pedra. Esse povo daqui também é muito convicto de si, o proletário totalmente domado pelo seu tripalium – poxa, se a própria etimologia do trabalho vem de tortura e dor, eu é que não vou gostar dessa palhaçada – mas parece que cansaram-se de seus capatazes, e pelo que pude perceber, dos seus direitos trabalhistas tão suadamente conquistados pelos seus antepassados.
Outro dia mesmo, pedi um uber depois do trabalho e logo me vi dentro desse Ford Ka branco (pelo estado do carro, uns 80 mil quilômetros rodados). O motorista, bem cheio, quase não cabia no próprio carro, mas sobretudo, tinha feição de trabalhador honesto. Assim que começou a viagem ele me disse:
— Rapaz… esse trem de trabalhar com a uber é bom demais, viu!
Logo me contou que seu antigo tripalium era no setor financeiro, um banco de alto renome no país, onde ficava atrás de uma mesa de mogno escuro – em que, assim como seu Ford Ka, também não o cabia.
Geralmente, eu concordo com tudo que o motorista me fala, porque, bem, estamos na era da avaliação, tudo possui nota hoje em dia – os créditos sociais chineses estão cada dia mais próximos da globalização – e, ao final da corrida, eu também sou avaliado nesse aplicativo endemoniado. Então, se o piloto me falar que o céu é verde, eu completo dizendo “verde-limão inclusive”.
Mas, naquele dia, eu me sentia tão seguro de mim mesmo, tão confiante… aula de sociologia pela manhã e Byung-Chul Han nos intervalos. Peraí, depois disso tudo e longos anos acadêmicos na filosofia eu não vou argumentar com o cidadão? Nem pensar. Então, depois de todo o endeusamento da vil plataforma por parte dele, eu disse:
— Mas meu amigo, a uber paga tão melhor assim que um banco? Ao qual ele respondeu:
— Na verdade, ganho quase a mesma coisa, mas não ter chefe te enchendo os colhões não tem preço viu.
Os diálogos se estenderam dez minutos adentro na corrida e eu me dei conta: o trabalhador médio não faz ideia, o capitalismo venceu, acabou. Ele não faz ideia da uberização, da plataformização e de todos esses “zação” que nos assolam por aí. Mas não desanimei, me senti na obrigação de conscientizar esse largo moço. Uma sequência de argumentos e explicações de como esse sistema lhe tira os direitos, substitui seu patrão humano pelo capataz digital, um mero escravo à plataforma corporativa, foi se seguindo ao longo da viagem.
Chegando aos finalmentes da corrida, eu já exaurido da fala e convencido de que o nutrido homem não entendera bulhufas, breve ele me surpreende:
— Sabe rapaz, até que você tem razão, faz sentido, muito obrigado pela conversa.
Saí dali cheio de orgulho, ego lá no alto, me senti realizado de, ao que me pareceu, acordar um cidadão da matrix. Mas, ao mesmo tempo, pensei comigo mesmo: “isso é de uma canseira absurda, vou seguir apenas concordando nos próximos mesmo, aliás, a preguiça move o mundo. Teria o homem inventado a roda se não fosse a preguiça de andar?”
Prontamente, outro dia raiou e, mais uma maldita vez, o ônibus dessa precária máfia do transporte público atrasara. Me vi novamente na situação de pedir um uber, meu bolso vai me odiar ao final do mês. Manhã, cansado, estafante terça-feira pela frente, ao entrar no carro como se já não bastasse o detestável cantor sertanejo gritando no som da frente, o motorista me fala:
— Rapaz… esse negócio de trabalhar com a uber é bom mesmo, viu!
