Rodrigo Leal comanda o universo automotivo na televisão mineira à frente do programa Auto TV, exibido semanalmente na Rede Minas, aos domingos de manhã. Como apresentador e videomaker, ele é o responsável por traduzir a adrenalina das pistas para as telas, cobrindo desde os lançamentos do mercado até os bastidores da cultura do drift na Grande BH. Além de reportar, Rodrigo vive essa realidade na pele: ele utiliza sua experiência prática como piloto para testar veículos, entrevistar grandes nomes do setor e produzir conteúdos dinâmicos que conectam o público com a verdadeira paixão pela velocidade.
O início
Rodrigo nunca pareceu muito confortável em caminhos previsíveis. Cresceu em uma casa onde o estudo ocupava um lugar quase incontestável. A mãe construiu trajetória na História, na Psicologia e na Teologia. O pai se aposentou na magistratura. Dentro daquela lógica familiar, Rodrigo costuma brincar que sempre foi o “desvio de rota”. Reprovou no sexto ano, repetiu o segundo ano do ensino médio e admite, entre risos, que “sempre deu trabalho” na escola.
Na adolescência, o futuro parecia distante demais para caber em qualquer planejamento. Aos 17 anos, dizia que não queria mais estudar. O plano, naquela época, era simples: tocar música de bar em bar e pilotar moto sem habilitação. “Minha cabeça era essa”, conta, rindo da própria lembrança.
Se o interesse para os estudos era pequeno, disposição para trabalhar nunca faltou. Rodrigo foi garçom, vendeu sorvete, lavou carros, trabalhou em festas e em bares. “Sempre corri atrás”, resume. A inquietação que atrapalhava na escola parecia encontrar algum sentido na correria dos trabalhos improvisados, nos turnos puxados e na sensação constante de movimento.
Apesar do perfil inquieto, fala dos pais com respeito evidente. Diz que teve uma criação livre, mas com uma condição muito clara dentro de casa: estudo e trabalho precisavam caminhar juntos. Aos 18 anos, conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada na construtora de um primo, enquanto terminava o ensino médio. Foi ali que quase entrou para a engenharia. O primo precisava de um sucessor para assumir os negócios futuramente e Rodrigo, impressionado com a estabilidade financeira daquela vida, decidiu tentar seguir pelo mesmo caminho. Durou pouco.
Três meses depois, já sabia que não suportaria aquela rotina. E foi justamente nesse período que a fotografia apareceu. Rodrigo gosta de olhar para esse momento quase como uma coincidência inevitável. “Olha que ironia da vida. Tem coisas que a gente não escolhe; Deus determina”, diz.
A relação dele com a faculdade também nunca foi linear. Tentou Engenharia, depois Direito, muito por insistência familiar. “Meu pai sempre me deu muita liberdade, mas dizia: ‘meu filho, se posso te dar um conselho, faça Direito’”, relembra. Dias antes da prova, mudou de ideia mais uma vez e trocou a inscrição para Publicidade. Passou.
Tempos depois descobriu que também havia sido aprovado em Engenharia, após uma correção no gabarito da prova. Mesmo assim, já não queria mais aquilo. A Publicidade também não durou tanto quanto imaginava. “Brinco que a faculdade serviu mais para eu conhecer o cenário e ter certeza de que eu não queria trabalhar com isso”, conta. Mas foi nesse curso que encontrou Marina, sua futura esposa. Os dois se aproximaram ainda na época da faculdade. Pouco tempo depois, Rodrigo abandonou a graduação. O relacionamento, não.
A paixão pelo audiovisual
O pai insistia para que ele continuasse em alguma faculdade. A fotografia, naquela altura, já deixava de ser apenas curiosidade. Rodrigo começou a trabalhar cada vez mais com audiovisual até decidir ingressar no Cinema. Em 2012, passou a filmar casamentos e criou a própria empresa de fotografia e vídeo voltada para eventos. A prática, segundo ele, ensinava mais do que qualquer teoria dentro da sala de aula.
Embora diga que nunca foi apaixonado exatamente pelo cinema, encontrou no audiovisual um lugar confortável para existir, principalmente no documentário. Gosta da ideia de observar as coisas acontecendo naturalmente, sem grandes interferências. “A câmera tá ali, tá gravando, deixa acontecer como tem que ser”, explica. Talvez seja por isso que fale tanto em memória.
“A gente não lembra das coisas, a gente lembra de flashes”, diz, enquanto tenta explicar a própria relação com o registro audiovisual. Para ele, cada pessoa guarda versões diferentes de uma mesma experiência. “Daqui um ano, quando vocês lembrarem das conversas que tivemos aqui, cada um vai ter uma lembrança diferente”.
Enquanto fala, Rodrigo parece alguém constantemente tentando preservar aquilo que o tempo inevitavelmente desgasta. Não por acaso, o audiovisual surgiu em sua vida como ferramenta de observação. Registrar, para ele, não parece ser apenas guardar imagens. Parece ser uma tentativa de segurar momentos antes que desapareçam. Essa forma de enxergar o audiovisual acabou desembocando no Auto TV.
O projeto nasceu em maio de 2020, em plena pandemia, enquanto Rodrigo trabalhava na TV do Carmo. A emissora precisava preencher espaços da programação tomados majoritariamente por anúncios comerciais. Ele sugeriu criar um conteúdo próprio. Ouviu como resposta uma frase simples: “Uai, produz tu”. Produziu.
No começo, quase sozinho. Rodrigo organizava gravações, montava cenário virtual e tentava fazer tudo funcionar ao mesmo tempo. “Sempre produzi 90% sozinho. Eu filmava, editava, apresentava. Ia pro estúdio, montava chroma key… Bicho, uma loucura”, relembra.
Depois do fim de uma breve sociedade, o programa passou a carregar ainda mais a personalidade dele. O foco deixou de ser apenas lançamentos de carros. Rodrigo levou as câmeras para as pistas, para os boxes e para os bastidores da Stock Car e da Fórmula 3. Conta que o que realmente o move nunca foi exatamente a parte comercial do mercado automotivo, mas a adrenalina, o improviso e a emoção das pistas. Mas a relação com carros começou muito antes da televisão.
A Saveiro
Um dos episódios mais marcantes da adolescência aconteceu aos 16 anos. Na época, Rodrigo insistia para ganhar uma moto, mas o pai recusava sem rodeios. “Cara, eu não vou te dar uma moto, você vai morrer na rua.” Enquanto seguia andando de bicicleta para todos os lados, outra possibilidade começou a surgir bem na porta de casa.
Perto da sorveteria onde trabalhava, um homem decidiu vender uma Saveiro quadrada, modelo 94/95. Rodrigo ainda fala do carro com entusiasmo juvenil. Recorda da suspensão rebaixada, das duas saídas de escapamento e da sensação de finalmente ter encontrado algo que parecia conversar diretamente com aquela obsessão precoce por velocidade e automobilismo.
Depois de muita insistência pela moto, o pai apareceu com uma proposta inesperada. “Um belo dia, meu pai chegou em casa e falou assim: ‘vamos ali’”. Os dois atravessaram a rua e Rodrigo recebeu a chave da Saveiro.
A experiência rapidamente saiu do controle. Rodrigo relembra, aos risos, que acelerou mais do que devia pelas ruas do bairro, enquanto o pai o xingava no banco do passageiro. O carro nem andava tanto, já que estava com escapamento solto, mas isso não diminuía a emoção da cena. Ao voltar para casa, ouviu do pai uma frase que nunca esqueceu: “Tô fazendo uma m*rda […] parabéns, o carro é seu”.
O presente virou motivo de preocupação dentro de casa. Rodrigo recorda a Saveiro quase como um “presente grego”. A mãe não permitia que ele saísse com o carro “nem a pau”, enquanto o pai alternava entre o orgulho e a preocupação. Poucos meses depois, o veículo foi vendido de volta para o antigo dono. “Eu não dava sossego”, resume, rindo da própria inquietação adolescente.
Sem carro, a paixão pela velocidade encontrou outros caminhos. Vieram motos, trocas impulsivas e, depois, o primeiro carro que considera realmente seu: um Chevrolet Celta recebido aos 18 anos, após uma promessa do pai caso passasse em uma universidade federal. Rodrigo ainda rememora a empolgação ao ver uma promoção do modelo na televisão. “Cara, promoção do Celta!”, avisou imediatamente. A resposta inicial do pai foi direta: “Nem a pau”. No dia seguinte, os dois estavam na concessionária.
O carro era básico. “Pelado, duas portas, tinha roda e volante, mais nada”, descreve, entre risos. Mesmo assim, transformou o veículo do jeito que conseguia. Rebaixou-o, trocou peças, negociou rodas, colocou banco de couro e turbinou o motor. Hoje, reconhece o quanto aquelas decisões eram irracionais. “Você gostar é um problema, porque é prejuízo atrás de prejuízo”.
Ainda assim, a lembrança permanece carregada de afeto. Afinal, como ele mesmo reforça: “É o primeiro carro”.
Durante muitos anos, o Mega Space ainda parecia distante para Rodrigo. O complexo automobilístico localizado em Santa Luzia, conhecido por sediar eventos de drift, arrancada e encontros automotivos em Minas Gerais, ocupava um lugar importante no imaginário dele desde a adolescência. Ainda assim, frequentava a Mega Quinta apenas ocasionalmente, geralmente acompanhado da esposa ou de amigos, e se enxergava mais como admirador daquele universo do que como alguém realmente inserido nele.
Foi com a chegada do Auto TV que essa relação mudou.
Aos poucos, deixou de ser apenas espectador e passou a circular pelos bastidores daquele ambiente que admirava desde a adolescência. Tornou-se figura conhecida entre pilotos, equipes e frequentadores do local. “Eu fui me ver realmente enfiado nesse negócio depois do programa”, relembra.
Hoje, fala do Mega Space quase como quem descreve um personagem importante da própria vida. Acredita que o espaço ainda sofre preconceito por estar localizado em Santa Luzia e carregar uma imagem muito associada à periferia. Mesmo assim, o defende com entusiasmo. “O Mega tem uma importância absurda”, afirma.
Ao longo da conversa, Rodrigo demonstrou admiração ao falar da história do local e das pessoas que ajudaram a construir o espaço, especialmente Carlos Alberto Parrilo Calixto, criador do Mega Space. Conta que o projeto nasceu sem grandes pretensões automobilísticas, mas acabou se transformando em um dos principais pontos de encontro da cultura automotiva em Minas Gerais.
Quando o assunto é drift, o entusiasmo aumenta ainda mais. Rodrigo acredita que o traçado do Mega lembra as descidas de montanha presentes na origem da modalidade japonesa e afirma, sem hesitar: “O Mega Space é uma das pistas mais desejadas do mundo.”
Mesmo reconhecendo limitações estruturais, acredita que o espaço ainda está longe do reconhecimento que merece. “Ainda está muito aquém do que pode ser”, diz. Ao falar das coberturas automobilísticas, Rodrigo demonstra enxergar a comunicação muito além da técnica. Para ele, cada ambiente exige uma forma diferente de conexão. Conta que conversar com o público da Mega Quinta, entrevistar pilotos de drift ou circular pelos boxes da Stock Car exige linguagens completamente distintas. Ainda assim, acredita que autenticidade continua sendo o mais importante.
Na Mega Quinta, por exemplo, buscava transmitir leveza. “Eu quero divertir”, resume. Mais do que mostrar carros, queria quebrar preconceitos sobre aquele universo e aproximar famílias, curiosos e pessoas que nem sempre estavam diretamente inseridas na cultura automotiva.
Já nas pistas de drift, a convivência com pilotos e equipes acabou tornando as entrevistas mais espontâneas. Rodrigo admite que, durante muito tempo, tentou controlar a própria informalidade diante das câmeras. Depois percebeu que aquilo também fazia parte da identidade do seu trabalho. “Eu já me condenei, eu falei: ‘cara, não posso ser tão informal assim com o piloto’. Só que as pessoas me conhecem mesmo.”
O crescimento do Auto TV levou Rodrigo à Band, em 2023, e depois à Rede Minas. Na emissora pública, diz que precisou amadurecer ainda mais o projeto. “Lá o controle de qualidade é absurdo. Qualquer erro num letreiro pode impedir a exibição”, explica.
A mudança também exigiu adaptação. O programa passou a buscar um conteúdo mais acessível ao público comum, equilibrando o universo das pistas com informações úteis sobre manutenção, cuidados com veículos e cotidiano automobilístico. Rodrigo percebeu que precisava dialogar não apenas com apaixonados por velocidade, mas também com quem enxergava o carro apenas como necessidade diária.
Ainda assim, quando fala da própria vida, o trabalho rapidamente perde espaço para outro assunto: a família. Quando criança, Rodrigo dizia que queria ter “uma esposa, filhos, uma casa e uma loja de carros”. Hoje, ri ao perceber o quanto a vida acabou se aproximando daquela ideia simples de felicidade. Grande parte disso passa por Marina. Rodrigo fala da esposa com admiração espontânea, sem tentar esconder o quanto ela ocupa lugar central na própria trajetória. “Ela é a maior investidora do meu trabalho. Das várias vezes em que pensei em desistir, ela não deixou.”
Quando perguntado sobre quem é fora das câmeras, não responde falando de audiência, programa ou carreira. Responde falando dos filhos. “Eu tenho dois filhos”, diz, quase imediatamente. Lucca, de três anos, e Lara, de um, reorganizaram completamente sua forma de enxergar a vida. Rodrigo fala da paternidade sem romantizar demais. “É inexplicável ser pai. É difícil, muito difícil, mas te faz mudar a perspectiva de tudo.” Hoje, as viagens e os dias longe de casa ganharam outro peso. Existe sempre certa urgência em voltar. A felicidade parece morar justamente nas cenas mais simples: Lara exigindo colo assim que ele cruza a porta e Lucca anunciando sua chegada pela casa.
Neste ano, pela primeira vez, Rodrigo decidiu não ir à Mega Quinta de abertura do ano. Não havia obrigação formal de comparecer, mas ele nunca tinha faltado. Naquele dia, preferiu permanecer com a família na casa dos sogros. Conta que a escolha lhe trouxe uma sensação inesperada de liberdade e o fez refletir sobre o que realmente importa.
O futuro, para ele, parece menos um plano detalhado e mais um movimento contínuo. “Não sei muito bem onde eu vou chegar”, admite. Diz apenas que se reconhece como comunicador. Tem vontade de trabalhar com rádio e admite que, em alguns momentos, gostaria de dividir melhor o peso das responsabilidades do Auto TV. “Tô vivendo, tô levando”, resume.
Quando perguntado sobre qual mensagem deixaria para quem deseja desbravar o universo do audiovisual e do mercado automotivo, Rodrigo não hesita: “Eu acho que a gente tem que fazer o que a gente quer fazer”. Para ele, é preferível lidar com as consequências de uma tentativa do que carregar o peso do “e se?”. Seu podcast (Auto Talks) é a prova viva dessa filosofia: nasce nos espaços que o tempo permite e, mesmo navegando em um mar de concorrentes, recusa-se a deixar de existir. Afinal, disputa é o que não falta, seja nas telas, nas pistas ou em qualquer outra escolha da vida. O essencial não é esperar o cenário perfeito, mas ter a coragem de começar; a vida só acontece para quem se atreve a tentar.
Durante toda a conversa, uma característica permaneceu evidente: a facilidade que Rodrigo tem de transformar qualquer assunto em uma história longa, cheia de detalhes, desvios e humor. Parece gostar mais das conexões humanas do que de roteiros rígidos. Admite, inclusive, que talvez seja “aberto demais” para a internet. Ainda assim, acredita que autenticidade continua sendo sua principal marca.
“A originalidade é o que diferencia a gente.”
Rodrigo Leal
Talvez seja justamente isso que explique sua trajetória. Rodrigo nunca pareceu confortável em caminhos muito previsíveis. Saiu da engenharia, desistiu da publicidade, encontrou o audiovisual quase por acaso e transformou um improviso de pandemia em um programa consolidado. Entre câmeras, pistas, filhos, mudanças de rota, memórias e histórias acumuladas pelo caminho, segue vivendo de um jeito muito próximo daquele que imaginava quando era criança: cercado pelas pessoas que ama, contando histórias e tentando guardar pequenos flashes da vida antes que eles desapareçam.
Conteúdo produzido por Arthur Carvalho, Felipe Olimpio, Maria Eduarda Sausmikat e Yngrid Marcelly na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges.
