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O cachimbo que não era um cachimbo

Foto: reprodução wikipédia.

Esse texto estava engavetado e já havia sido publicado em outro momento. Porém, como forma de colaboração temporal (com meu eu do passado) quis recuperá-lo e colocá-lo à frente de novos olhos com algumas pequenas alterações. Se você já leu, releia. Senão, talvez seja a sua oportunidade. Construo e reconstruo para me manter aqui, vivo.

A pintura La trahison des images ou A Traição das Imagens, de 1929, do pintor surrealista René Magritte, é uma pintura em óleo sobre tela de um cachimbo e, abaixo, em forma de legenda, a frase: “Ceci n’est pas une pipe”, que, em tradução livre, seria “isso não é um cachimbo”. A pintura discute as dificuldades do diálogo entre imagens, palavras e objetos a partir de uma linguagem publicitária na pintura. A crítica de Magritte se situa na ideia de que se convencionou chamar a representação de uma coisa pelo nome da coisa, logo, nesse caso, a imagem ou ícone ali presente na obra não é um cachimbo e sim a representação de um cachimbo. Agora, dadas as introduções, vou trazer a vós uma reflexão.

Um tratado sobre a impossibilidade de conciliar palavra, imagem e objeto, desafia a convenção de identificar a imagem de um objeto como o próprio objeto. Apresentada no estilo de um anúncio publicitário, com o texto cursivo elegante formando uma legenda semelhante a um slogan sob a imagem do cachimbo, a pintura leva o espectador a refletir sobre suas mensagens conflitantes. 

Foto: reprodução wikipédia.

Eu queria escrever algo. Algo novo, algo rebuscado, algo que realmente fizesse sentido e pudesse, quem sabe, mudar o rumo da política nacional ou, quiçá, mundial. Mas, enquanto sentava à beira do computador, lembrei-me da pintura de Magritte e fiz um esforço monumental para pensar em algo “importante” para escrever a respeito. Nesse tempo, finalmente coloquei no mundo um pensamento que já vinha gestando há algum tempo. A conclusão de que, para algo ser importante ou merecer ser escrito, não necessariamente precisa ser sobre a política ou sobre um evento grandioso, nem sequer precisa ser verdade, afinal, grande parte dos textos que mudaram a minha vida não eram o cachimbo, e, sim, falavam do cachimbo.

Crescemos lendo, assistindo ou, em alguns casos, ouvindo sobre o mundo; depois, vivemos o nosso mundo e vamos morrer sem ter provado todos os mundos possíveis. É humanamente impossível ter contato com a realidade de todos à nossa volta, pois cada um existe enquanto vive e cada um enxerga a realidade de um escopo completamente diferente.  É preciso ter certa sensibilidade a essas questões para entender a diversidade ao seu redor, mas, se estiver disposto a conhecer as outras realidades, você pode, a partir das histórias verídicas ou inverídicas contadas, enxergar os diversos mundos que conversam entre si. Dessa forma, seria possível velejar pelas realidades sem vivê-las por completo. Além de se dispor a enxergar o mundo de escopos diferentes, você também pode escrever sobre o seu mundo de maneira que o outro o enxergue sinceramente.

Eu gosto de imaginar um mundo recheado desses meus textos cobrindo as montanhas, em que eu me interesso com sinceridade por tudo aquilo que leio. Onde não preciso mentir sobre meus objetivos ou vontades. Onde o único propósito de existir seria escrever e escrever até morrer. Que a sensação de prazer máximo fosse a interrupção da pausa com mais escrita. Nesse mundo, eu seria feliz e menos ansioso. Mas nesse mundo não seria nada. Seria mais um humano normal, morrendo de viver enquanto acredita que a vida é só aquilo ali. Uma morte eterna memorizada em páginas milenares.

A escrita é uma das habilidades mais complexas e antigas da humanidade, fez parte de quase todas as culturas e é uma das maneiras mais completas de se expressar, além de ter potencialidades que só ela pode proporcionar. Usar as palavras certas nas frases corretas e nos contextos que lhes caibam tem total diferença na forma como a mensagem vai chegar ao receptor, e isso é importante de se compreender em uma sociedade tão centrada nas mídias. Eu montei minha subjetividade como um grande quebra-cabeça sem peças certas ou completas, ainda assim, vivo desconstruindo e reconstruindo para que essa brincadeira não se torne libertina demais. A leitura sempre fez parte da minha vida, mas, ao longo do tempo, houve momentos em que li mais do que escrevi, assim como houve momentos em que nem sequer li ou escrevi, por vontade própria, é claro. A escola sempre esteve ali como figurante deste processo que eu levava mais intrinsecamente.

Foto: domínio público.

Hoje, a leitura e a escrita fazem parte da minha vida como nunca fizeram e se mostram como uma dupla de revolucionários buscando reajustar a minha atenção às coisas que realmente importam. Essa dupla atraiu outros revoltados ainda mais dispostos a subverter o meu foco, como a reflexão crítica, as crises existenciais e as discussões internas sobre os mais variados assuntos. Em uma panela mental untada com café, cerveja ou algumas lágrimas, todo esse “mexidão”, para usar uma boa e velha referência gastronômica, culmina em diversas crises criativas que, de tempos em tempos, trago para os meus textos mais subjetivos e abstratos. A crise criativa de hoje é, justamente, voltada a uma angústia que venho sentindo a respeito da minha escrita. Numa forma de preocupação sincera e crônica, tenho me tornado mais crítico sobre aquilo que escrevo, e isso é bom.

Entretanto, julgo importante sempre me questionar até que ponto certos caminhos que tomo não são feitos por pura pressão do ambiente em que vivo. A faculdade de jornalismo, como muitos de vocês (tirando os gados golpistas) devem imaginar, nos obriga a ser mais objetivos e imparciais, mesmo sabendo da impossibilidade de alcançar esses ideais. Nesse sentido, imagino que este tipo de texto se torne essencial para desconstruir o meu quebra-cabeça subjetivo e reconstruí-lo novamente, como uma nova exposição de museu que se molda de acordo com os seus visitantes, impedindo que eu abandone os meus traços mais pessoais e mais livres ao escrever.

Minhas crises criativas me mostram que há muito o que se tirar de mim quando decido buscar mais liberdade ao escrever. Ao mesmo tempo, me permitem entender o porquê das regras que guiam a profissão existirem. Elas foram criadas justamente para impedir que nos tornemos tendenciosos ao escolher as notícias que mais se relacionam com a realidade que enxergamos sem nos perguntarmos o que aquilo quer dizer para o mundo. O trabalho do jornalista, muitas vezes, é situar o público no contexto em que aquela informação se apresenta, afinal, nem todo mundo entende por que o valor de exportação do café ter caído importa tanto, se eu trabalho como Uber. Talvez não importe mesmo.

Além disso, essas crises ainda me fazem questionar as bases da profissão, tendo em vista que, se eu aprendi muito do que eu sei pela história de outras pessoas, da boca dos meus pais, das ações dos meus vizinhos e das discussões políticas do bar, por que não podemos aprender sobre o mundo pelas histórias pessoais daqueles que retratam essa memória coletiva no momento em que ela acontece? Os jornalistas, no final ou no começo, dependendo do ponto de vista, são os primeiros historiadores a contextualizar, apresentar e organizar o tempo histórico.

No livro O jornal como fonte histórica, de José D’Assunção Barros, o historiador faz uma pontuação que acredito que conclama a minha argumentação sobre o assunto:

“A bem dizer, os jornalistas veem passar a história do tempo presente diante dos seus olhos diariamente durante o seu ofício, e uma de suas funções é precisamente a de transferir os incessantes acontecimentos e processos históricos para as páginas e telas dos jornais.”

Não estou fazendo juízo de qualidade ou responsabilidade do jornalismo produzido hoje, já que, claramente, não sou a pessoa mais experiente para fazer isso, entretanto, minha ideia aqui é questionar o potencial inovador que as histórias retratadas de pontos de vista específicos podem ter se feitas de forma aberta e sincera para um público capaz de criticar e refletir pessoalmente sobre o assunto, conteúdo ou história ali contada.

O jornalismo conhecido como hard news tem um papel essencial dentro da sociedade, mas não é o único a ser feito. Esse jornalismo mais literário e pessoal já tem seus precursores; eu não sou nenhum pensador inovador, no entanto, seria bom que esse tipo de produção chegasse às mãos do público mais frequentemente. Ainda mais importante que isso é que, ao chegar às mãos do público, ele (o público) tivesse capacidade de entender  sua relevância e  postura correta ao se colocar à frente daquele texto.

Eu queria escrever algo novo e consegui. Não é obrigatório que você escreva, mas diria que é urgente escrever qualquer coisa, afinal, essa habilidade ainda é sua, não mais só sua, mas ainda é sua. A alma que colocamos em nossos textos é essencial para construir nossa subjetividade. Aquilo que lemos, ouvimos e assistimos também faz parte desse processo de construção e desconstrução. Coloque-se frente a ideias com as quais não concorda, procure saber o que não sabe e, sempre que puder, reflita um pouco; quem sabe isso não dá um texto como esse aqui. Adoraria lê-lo.

O cachimbo ainda será um cachimbo na sua representação, porém, ele vai causar respostas e reações diferentes a cada um que se dispuser a desmontá-lo. 

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