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O autismo na vida adulta

Abril é o mês da conscientização sobre o Autismo. A causa é comumente retratada com foco nas crianças, abordagens sobre o diagnóstico na infância e os desafios na acessibilidade educacional. Mas quando o assunto se volta para os autistas adultos, o foco é diferente. Na vida adulta, os sinais de infância permanecem e ainda trazem efeitos para o cotidiano, como a dificuldade de comunicação, sensibilidade sensorial, rigidez comportamental e hiperfoco. Atualmente, muitos autistas adultos recorrem à terapia em busca de um diagnóstico tardio para compreender os sinais e se sentirem mais aliviados. 

Os níveis de autismo vão de leve a moderado e grave. O transtorno leve é considerado pela falta de interação social e problemas de organização. O moderado é caracterizado por déficits de comunicação e dificuldades em mudanças. O grave apresenta dificuldades mais severas na comunicação verbal e a modos de comportamentos restritivos.

A vereadora belorizontina Michelly Siqueira (PRD) atua na causa autista. Ela afirma que o diagnóstico não muda quem a pessoa é, só explica a sua trajetória. Segundo a parlamentar, os passos para compreender o transtorno incluem buscar informação correta, se autoconhecer, pois as dificuldades vividas passam a fazer sentido sob uma nova perspectiva e, enfim, buscar uma rede de apoio que represente acolhimento. “Terapia, profissionais que compreendam o espectro e contato com outras pessoas autistas ajudam muito nesse processo. O diagnóstico tardio não é um ponto final. É o começo de uma nova forma de se entender e viver com mais consciência e autonomia”.

Existem várias mães de adultos autistas com experiências diversas vivenciadas com seus filhos. Catiane Gomes é uma delas. Ela é assessora parlamentar e tem um filho chamado Jorge, de 18 anos, que é autista de diagnóstico nível três. Ele é não-verbal e ainda se mostra dependente dos pais. Além disso, não tem autonomia para realizar tarefas do cotidiano adulto de forma independente. “Ele não consegue andar sozinho, fazer uma ligação ou enviar mensagens pelo telefone. Por não ser verbal, está em processo de comunicação por meio alternativo, mas ainda com muitas limitações. Por isso, para o Jorge, a fase adulta acaba sendo uma extensão da infância, só que, agora, em um corpo de adulto”, relata a mãe.

Vida profissional

Os autistas enfrentam dificuldades para conseguir um emprego e se adaptar ao local. Dificuldades na comunicação e mudanças na rotina são alguns dos aspectos que afetam o dia a dia no turno de trabalho. Por parte dos empregadores e colegas, a falta de conscientização e de treinamento pode dificultar a adaptação dos autistas, já que eles precisam de suporte para realizar as tarefas. A Lei 12.764/2012, conhecida como a Lei Berenice Piana, garante direitos para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), incluindo a inserção no mercado de trabalho. Apesar das dificuldades, os autistas adultos têm boa percepção aos detalhes, bom raciocínio lógico, preferência por rotinas e gostam de demonstrar suas próprias habilidades. Euler Filgueira, de 32 anos, trabalha como bartender e conta que se sente bem em seu local de trabalho, apesar das dificuldades com as dinâmicas sociais do serviço. “As pessoas respeitam meu domínio na minha área de atuação”.

A vereadora e advogada Michelly Siqueira relata que, mesmo com a lei garantindo o direito ao trabalho, não basta apenas que as empresas realizem contratações, elas devem adaptar o ambiente de trabalho para o autista. “Na prática, isso significa ajustar rotinas, formas de comunicação e ambiente, além de capacitar equipes. Inclusão não é cumprir cota. É garantir condições reais para que a pessoa permaneça, se desenvolva e seja respeitada. Sem isso, a contratação vira só número”.

Vida acadêmica

Na universidade, os alunos autistas conseguem ingressar como pessoas com deficiência por meio de cotas ou de vagas específicas. Porém, mesmo com a inclusão avançando em diversas instituições no Brasil, ainda há poucas ações de acessibilidades efetivas. Os desafios incluem a falta de compreensão das regras, o isolamento social e a falta de um suporte adequado para uso dos materiais didáticos.

Sophia Braga tem 21 anos, é autista e estudante de História na PUC Minas. Ela fala como as sessões de terapia têm ajudado na rotina acadêmica. “Eu normalmente tenho sessões com a minha psicóloga. Ela me ajuda a me acalmar e a lembrar que eu já sou o suficiente e que eu só preciso me dedicar. Eu também faço meus trabalhos adiantados. Eu também tenho um centro de apoio que me ajuda, como a minha tia”. Já Euler estuda Gestão de Dados, mas deixa as atividades para fazer próximo à data de entrega, pela pouca disponibilidade de tempo: “Eu sacrifico qualidade de sono e tempo de qualidade em prol de concluir as atividades”. Em relação ao apoio, ambos os alunos entrevistados buscam ajuda em caso de situações complicadas. Sophia procura as pedagogas do Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI) – órgão responsável por oferecer atendimento e suporte a alunos com diferentes tipos de deficiência ou necessidades específicas no contexto do ensino superior -, colegas de sala e funcionários do prédio onde estuda. Já Euler recebe ajuda de uma aluna veterana.

“Hoje, poucos autistas adultos conseguem dar continuidade à vida acadêmica, e os que conseguem, em sua maioria, são pessoas com nível 1 ou 2 de suporte. Ainda assim, relatam muitas barreiras de acesso, seja pela falta de adaptação dos espaços, seja pela ausência de apoio pedagógico adequado”, relata a assessora Catiane que, sendo mãe de um filho autista, também reconhece os inúmeros desafios.

A parlamentar Michelly Siqueira acredita que o acesso ao universo acadêmico melhorou, mas a permanência ainda é um grande desafio. As instituições devem, de acordo com a vereadora, garantir condições para que o aluno permaneça na faculdade e aprenda. “Isso envolve adaptação razoável, ajustes em provas e prazos, metodologias mais acessíveis e professores preparados para lidar com a diversidade. Também é fundamental que os núcleos de acessibilidade funcionem de forma efetiva. Se o aluno entra, mas não consegue permanecer, não houve inclusão. Houve apenas acesso formal”.

Capacitismo

Muitas pessoas ainda desconhecem a causa autista e menosprezam as pessoas autistas com piadas, críticas e exclusão. O fenômeno é conhecido como capacitismo, causando impacto na saúde mental, baixa autoestima e redução de oportunidades. Muitos acreditam, de acordo com uma visão de senso comum, que autismo é uma doença e que tem cura. Assim como acontece com as pessoas com deficiência, muitos autistas são taxados de incapazes ou são tratados como crianças.

Michelly Siqueira ressalta a importância da informação e do conhecimento da causa na sociedade. “O maior desafio hoje não é falta de lei, é falta de informação de qualidade e falta de cumprimento da lei. É preciso comunicar de forma simples, acessível e responsável, sem reforçar estereótipos. Dar voz às próprias pessoas autistas é essencial. Elas precisam ser protagonistas nesse debate. Além disso, a educação sobre o tema deve começar desde cedo, nas escolas, para formar uma sociedade mais consciente. Enquanto o autismo for visto como algo fora do padrão, a inclusão será limitada”.

Catiane aposta em levar informações sobre o assunto para eventos culturais, palestras, rodas de conversas, participação em programas de TV e rádio, mídias sociais, além de participar da construção das políticas públicas voltadas para o público autista. Ao contrário do que muitos pensam, ela deixa um importante recado: “O autismo não se encerra na infância; é uma condição que acompanha a pessoa em todas as fases da vida”, conclui.

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