A fumaça sobe lentamente do fogão a lenha e o cheiro tradicional é capaz de se sentir ainda na porta de entrada. O estalar da madeira se mistura ao som da colher de pau raspando o fundo de uma panela de ferro. No ar, o cheiro de alho dourado, angu recém-cozido e folhas frescas do quintal. Antes mesmo de servir a comida, a cozinha já conta uma história.
Em Minas Gerais, essa história quase sempre passa pelas mãos de mulheres negras. A tradicional culinária mineira advém dos saberes afro-brasileiros, e isso raramente é reconhecido nos livros de receitas, nos menus de restaurantes ou nas narrativas oficiais sobre a gastronomia do estado, mesmo que se perpetue até hoje pelas mãos, pela memória e pela voz de mulheres que carregam esses saberes como herança e resistência.
Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostram que essa presença reflete também no mercado de trabalho contemporâneo.
Já o levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Ministério da Igualdade Racial revela que a maioria do trabalho doméstico no Brasil é feito por mulheres negras, evidenciando a permanência histórica dessas trabalhadoras em atividades ligadas ao cuidado, à alimentação e à sustentação da vida cotidiana.
Para Bianca Zacarias França, antropóloga, esses números não são fruto do acaso. Eles dialogam com uma longa trajetória de protagonismo feminino negro na organização da vida social brasileira. Segundo ela, durante o período escravista, as mulheres negras exerceram um papel central na organização econômica, alimentar e cultural do país.
Para além do estereótipo da cozinheira e da mãe preta, essas mulheres atuavam como comerciantes, articuladoras de redes sociais urbanas e transmissoras de conhecimentos”, explica.
Muitas delas ficaram conhecidas como “ganhadeiras”, mulheres escravizadas ou libertas que circulavam pelas cidades vendendo alimentos, quitutes, frutas, ervas e outros produtos. O dinheiro arrecadado ajudava a sustentar famílias, financiar irmandades negras e, em alguns casos, comprar alforrias.
É justamente dessa herança que nasce boa parte da culinária que hoje compõe o imaginário gastronômico mineiro. Embora as mãos negras tenham sido fundamentais na construção desses saberes, o reconhecimento nem sempre acompanhou esse protagonismo. Para a mestra Kelma Zenaide, cozinheira quilombola e proprietária do Kitutu Gastronomia Afro-brasileira, em Belo Horizonte, a história da cozinha mineira ainda carrega marcas profundas desse apagamento.
Segundo ela, os africanos trazidos para Minas Gerais, especialmente da Costa da Mina, foram incorporados à economia colonial não apenas como força de trabalho, mas também como detentores de conhecimentos essenciais para a alimentação e a produção agrícola da época. Eram eles que cozinhavam nas tropas, cultivavam a terra, criavam os animais e preparavam muitos dos pratos que, séculos depois, seriam celebrados como símbolos da identidade mineira. “A mão de obra era nossa. Éramos nós que estávamos ali fazendo aquilo tudo”, afirma.
Afro, Diaspórico, Brasileiro ou Mineiro: Você sabe a diferença? de Mariele Vitória Furtado Ferreira
Histórias de fogo: do fogão de lenha à memória
Na cozinha, a memória de Tuquinha Dias, líder do Quilombo Chacrinha dos Pretos em Belo Vale (MG), atravessa gerações. Antes mesmo de se tornar liderança quilombola, mestra griô e proprietária do restaurante Sabor do Quilombo, ela era uma menina que observava atentamente os gestos das mulheres de sua família.
“Esse negócio de cozinha vem de geração para geração”, conta. A herança começou com a bisavó, passou pela avó, pela mãe e pela tia, com quem aprendeu a fazer quitandas. Entre as lembranças mais antigas está a sopa de peixe preparada pela bisavó, pescado pelos moradores da comunidade no Rio Paraobepa, e então transformado em alimento compartilhado. “Hoje o povo fala moqueca, mas o povo antigo falava sopa de peixe”, recorda.
Enquanto o pai de Tuquinha cuidava das plantações, as crianças participavam do processamento dos alimentos. “A mãe colocava a gente para socar o arroz”, lembra. Depois era preciso ralar o milho para produzir o fubá. O resultado desse trabalho coletivo aparecia em pratos que permanecem vivos em sua memória: arroz recém-beneficiado, feijão novo, frango com broto de quiabo e angu. “Quando a mãe terminava de fazer, a gente até brigava pela rapa do arroz e pela rapa do angu.”
Embora tenha crescido no Quilombo Chacrinha dos Pretos, Tuquinha só compreenderia anos mais tarde o significado político, cultural e histórico da palavra “quilombo”. A descoberta aconteceu apenas em 2001, quando uma aluna do curso de História chegou à comunidade para desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Ela falou que aqui era uma comunidade quilombola. Eu perguntei: ‘Mas o que é isso? Eu nem sei’ ”, relembra.
O reconhecimento formal pela Fundação Cultural Palmares veio pouco depois, mas inicialmente não mobilizou os moradores. Foi somente anos mais tarde, com a participação no Ponto de Cultura e no projeto Ação Griô, que a comunidade passou a compreender a dimensão política e histórica daquela identidade. “A gente aprendeu muito sobre os nossos direitos […] A partir do momento em que a gente soube dos nossos direitos, a nossa vida mudou”, afirma. O processo despertou a urgência de recuperar saberes que corriam o risco de desaparecer e lutar contra o apagamento cultural. “A primeira coisa que eu falei foi resgatar a nossa culinária quilombola, as nossas rezas, as nossas danças, as nossas cantigas”, conta.
O desconhecimento de Tuquinha e do Quilombo Chacrinha dos Pretos sobre a identidade quilombola não significava ausência de pertencimento. Pelo contrário. Como explica a antropóloga Bianca Zacarias França, os quilombos contemporâneos são muito mais do que comunidades formadas por descendentes de pessoas que foram escravizadas. “São espaços que perpetuam um sistema de ver o mundo, de ensinar e fortalecer coletivamente as pessoas”, afirma a pesquisadora. É nesses espaços que conhecimentos muitas vezes ausentes dos ambientes formais de ensino continuam sendo transmitidos entre gerações, preservados pela oralidade, pela observação, pela prática e pela convivência entre os mais velhos e os mais jovens.
Na infância, aqueles conhecimentos faziam parte da vida cotidiana. No fim das tardes, as mulheres da comunidade se reuniam para decidir o que seria preparado para o jantar. “O que a gente vai fazer de comida hoje?”, perguntavam umas às outras, compartilhando receitas, ingredientes e modos de preparo. Desses encontros surgiam pratos construídos a partir do que a terra oferecia: umbigo de banana, carapiá, broto de bambu, cansanção, serralha e diversas outras plantas que hoje são classificadas como Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). Mais do que momentos dedicados à alimentação, aquelas conversas funcionavam como espaços de transmissão de saberes, onde as mais velhas ensinavam às mais novas conhecimentos sobre o território, o cultivo e a cozinha.
Em um contexto de escassez, a criatividade e o conhecimento sobre os recursos disponíveis garantiam o sustento das famílias. “Naquela época quase não tinha carne”, lembra Tuquinha. Por isso, ingredientes como o ora-pro-nobis, conhecido como carne de pobre, o umbigo de banana e o carapiá assumiam o papel de proteína nas refeições, transformados em preparações que, segundo ela, lembravam a textura e o sabor da carne moída. Esses alimentos expressavam uma forte relação com o território e os conhecimentos acumulados por gerações de mulheres da comunidade.
Se, em Belo Vale, Tuquinha aprendeu a reconhecer a força da ancestralidade nas rodas de conversa das mulheres do quilombo, em Contagem outra menina também observava, sem saber, a construção silenciosa de um patrimônio. Entre panelas de ferro, carnes conservadas na banha e histórias contadas no quintal de casa, a Mestra Kelma Zenaide, começava a formar a memória que mais tarde daria origem ao seu trabalho de valorização da culinária afro-mineira.
Muito antes de se tornar referência na valorização da culinária afro-mineira, Kelma Zenaide era uma menina fascinada pelas histórias e pelos gestos do avô Raimundo Conceição. Nascido na comunidade quilombola de Peões, em Santa Luzia, ele se mudou para Contagem após conseguir trabalho em uma siderúrgica. Foi nesse ambiente familiar, compartilhado por pais, tios, avós e primos no mesmo quintal, que começaram as primeiras memórias da cozinheira.
Neta mais velha de Raimundo, Kelma passava boa parte do tempo ao lado dele. Gostava de ouvi-lo cantar, contar histórias e, principalmente, cozinhar. Uma das lembranças mais antigas remonta aos seus três anos de idade, quando observava encantada o avô preparar um coração de boi recheado. O ritual começava com o toucinho defumado pendurado ao lado das linguiças no varal, seguia pelo tempero macerado no pilão de madeira e terminava horas depois, quando a carne era lentamente cozida em panela de ferro sobre o fogão a lenha.
Eu ficava encantada. Ele recheava o coração, costurava com uma agulha de sapateiro e deixava cozinhar o dia inteiro. Era uma coisa mágica para mim”, recorda.
As carnes preparadas por Raimundo ocupavam lugar central na alimentação da família. Era ele quem cuidava do porco abatido, da produção das linguiças, das carnes conservadas na banha e dos cortes armazenados em latas sob a pia. Sem saber, Kelma observava ali não apenas receitas, mas tecnologias ancestrais de conservação, manejo dos alimentos e aproveitamento integral dos ingredientes – conhecimentos transmitidos de geração em geração e profundamente enraizados nas tradições afro-brasileiras.
Décadas depois, ela passaria a reconhecer que aqueles gestos cotidianos carregavam muito mais do que técnicas culinárias. O uso do pilão de madeira, das panelas de ferro, da conservação na banha e do cozimento lento no fogão a lenha fazia parte de um repertório de saberes herdados de seus ancestrais africanos e reelaborados ao longo da diáspora. “Tudo praticamente continua presente no meu trabalho. O pilão, as panelas de ferro, o jeito de fazer o alho macerado. São tecnologias importantes para determinar de que água você bebe, de onde você vem”, afirma.
A cozinha também era espaço de trabalho. Os pais mantinham estabelecimentos comerciais e, desde cedo, ela ajudava na rotina dos negócios familiares. Foi nesse período que começou a perceber uma contradição que a acompanharia por muitos anos. Os pratos preparados em casa – pés de porco, maçã de peito, carnes conservadas na banha, quitandas e receitas herdadas da família – eram elogiados por vizinhos e frequentadores das festas familiares. Mas, quando chegavam ao balcão do bar, não despertavam o mesmo interesse comercial.
Eu não conseguia entender por que as pessoas iam lá em casa, diziam que a comida era maravilhosa, mas não queriam pagar por aquilo. O que vendia era salsicha e coxinha”, lembra.
O questionamento se transformou em inquietação permanente. Por que os saberes cultivados por gerações de famílias negras e quilombolas não eram vistos como produtos de valor? Por que aquilo que alimentava afetos, memórias e celebrações parecia invisível quando o assunto era mercado?
Anos depois, essa pergunta se tornaria o ponto de partida para a criação da Kitutu. Antes disso, porém, Kelma percorreu um longo caminho de trabalho, estudo e reinvenção, carregando consigo as lembranças do avô, o cheiro do fogão a lenha e a convicção de que a comida produzida por sua família merecia ocupar um lugar de destaque na história da gastronomia mineira.
O protagonismo das mulheres negras
São mulheres como Tuquinha e Kelma que sustentam viva essa herança, mas ocupar o espaço de empreendedora e protagonista na gastronomia, um campo historicamente construído por mãos negras e pouco reconhecido por isso, segue sendo uma conquista disputada. A Mestre Kelma descreve uma pirâmide que ainda organiza esse mundo da gastronomia: no topo, o homem branco dono do estabelecimento; depois, a mulher branca; e, em último lugar, “a mulher preta, cozinheira, empreendedora”. Nos fundos das grandes cozinhas chiques, diz ela, quem está na frente ainda é, na maior parte das vezes, um chef branco, enquanto a mão de obra negra permanece invisível.
Essa invisibilidade não é acaso. Para Simone Lopes, analista do Sebrae que trabalha diretamente com empreendedoras do setor de alimentação, o que está em jogo é um abismo estrutural étnico, racial, de gênero e de classe. “Ainda tem um abismo muito grande entre quem faz e quem é reconhecido por fazer”, afirma. Ela aponta que as mulheres negras enfrentam racismo estrutural, menor acesso a crédito e uma descredibilização sistemática, e que isso se agrava quanto mais vulnerável é a situação econômica da empreendedora.
Mas as dificuldades enfrentadas por essas mulheres também são a principal razão para começarem a empreender:
É uma saída para mulheres que precisam empreender por necessidade”, conta Simone.
No noroeste de Minas, em Paracatu, Vânia Macedo – conhecida como Vânia Tempero de Minas – construiu sua trajetória entre panelas, quitandas e receitas herdadas da experiência. Quitandeira e vice-presidente da Associação de Quitandeiras do município, ela é filha de uma empregada doméstica e cresceu em uma família de poucos recursos. Aprendeu a cozinhar ainda criança, quando a mãe saía para trabalhar e deixava sob sua responsabilidade o preparo das refeições da casa. Mais tarde, atuando como empregada doméstica e em padarias, observava receitas, aprendia técnicas e ampliava seus conhecimentos culinários.
Assim como milhares de brasileiros que transformaram a necessidade em oportunidade, Vânia encontrou no empreendedorismo uma alternativa para atravessar um período de dificuldades financeiras. Segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2020, realizada no Brasil pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ), 50,4% dos empreendedores iniciaram seus negócios motivados pela necessidade durante a pandemia.
Foi nesse contexto que, diante da queda acentuada nas vendas de artesanato – atividade que desenvolvia ao lado do marido, o artesão Tarcísio -, ela decidiu apostar nos saberes acumulados ao longo da vida. Com o apoio de uma cunhada, começou a produzir empadões para vender e, aos poucos, conquistou uma clientela própria. O que surgiu como uma estratégia para complementar a renda da família acabou se transformando em profissão. Hoje, vive exclusivamente da cultura alimentar de Paracatu, produzindo quitandas tradicionais, participando de festivais gastronômicos e representando Minas Gerais em eventos nacionais.
“Antes de mim teve minha avó, teve minha mãe, teve mulheres incríveis que sustentaram famílias com o modo de fazer as quitandas ou com o modo de cozinhar”, afirma. Para ela, a cozinha deixou de ser apenas um espaço de trabalho invisibilizado para se tornar um lugar de reconhecimento, autonomia financeira e preservação cultural.
Aqui em casa, literalmente toda a renda vem da cultura. Eu vivo da cultura de Paracatu e de Minas Gerais.”
Outros números ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), no primeiro trimestre de 2021, 42,8% das mulheres negras estavam em situação de subutilização da força de trabalho, contra 29,1% das mulheres brancas. Em 2024, 7,3% das mulheres negras encontravam-se subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas, enquanto entre as mulheres brancas o índice era de 4,4%. A situação também se reflete no desalento: 4,6% das mulheres negras haviam desistido de procurar emprego, mais que o dobro do percentual observado entre mulheres brancas (2,1%).
As desigualdades começam ainda no acesso à educação. Segundo pesquisa do Ipea e do Ministério da Igualdade Racial, 52,4% das trabalhadoras domésticas negras não concluíram o ensino médio, percentual superior ao registrado entre as trabalhadoras domésticas não negras (42,9%). Para Simone, esse conjunto de barreiras ajuda a explicar por que tantas mulheres negras permanecem concentradas em posições de menor reconhecimento e remuneração, mesmo sendo fundamentais para a cadeia produtiva da alimentação. “A mulher negra tem um abismo estrutural muito grande relacionado a essa visibilidade e essa credibilidade”, diz.
Elas não empreendem mais e não empreendem com tanta oportunidade quanto outros grupos devido a essas limitações estruturais.”
No campo jurídico, quando se trata de proteger essas mulheres da apropriação de seus saberes por chefs, restaurantes e marcas, Steffane pondera que os instrumentos legais ainda são insuficientes. “É um risco totalmente fora do nosso controle”, admite. O mesmo saber que, quando reconhecido, pode gerar renda e visibilidade para a detentora original, pode também ser capturado e reapresentado por outros sem qualquer retorno à comunidade. “A gente tem o mesmo efeito gerando dois efeitos distintos e opostos”, resume.
Kelma faz questão de lembrar quem veio antes. Benê Ricardo, cozinheira mineira e negra, foi a primeira mulher a receber o título profissional de chef no Brasil e a primeira a cozinhar para um chefe de Estado – o então presidente do Brasil durante o regime civil-militar, Ernesto Geisel – feitos que, segundo Kelma, permanecem praticamente desconhecidos. É para romper esse silêncio que ela carrega, junto com a própria história, a de outras mulheres. “Ninguém descobriu o fogo sozinho. Para a manutenção desse fogo, também é necessário que sejamos mais de uma”, assegura a mestra.
Se mulheres como Tuquinha e Kelma mantêm vivas tradições ligadas aos quilombos mineiros, outras mulheres negras, como Vânia, também constroem caminhos de protagonismo a partir de diferentes heranças culturais.
Quando a tradição vira sustento
Transformar a memória em sustento não é um caminho linear. A mestra Kelma Zenaide, que participou do reality Chef de Alto Nível, da Globo, conhece bem essa travessia. Antes de consolidar a Kitutu, ela passou por três falências, e foi justamente nesse período de desacertos que ela parou para entender o que sempre esteve diante dela: a comida que a família fazia em casa, que as pessoas elogiavam, amavam nas festas, mas não queriam pagar. “Por que a gente não conseguia ganhar dinheiro com o que a gente produzia no próprio quintal?”, ela se perguntava quando ainda adolescente, vendo sua mãe servir pé de porco e maçã de peito, enquanto o que vendia mesmo era salsicha e coxinha.
A resposta foi chegando aos poucos por meio de uma especialização em literatura africana afro-brasileira na PUC, pelo apoio do Sebrae na estruturação do plano de negócios e por uma compreensão mais ampla do que significa ancestralidade. “Meu avô falava comigo que sabedoria era a única coisa que ninguém ia tomar de mim”, lembra.
A experiência de Vânia Macedo, revela como esse apoio institucional pode ser decisivo para mulheres que transformam conhecimentos culinários em fonte de renda. Foi com o auxílio do Sebrae que ela formalizou o próprio negócio e passou a enxergar a atividade para além da produção artesanal. “Quando eu passei de mera Vânia para Vânia Tempero de Minas, quando eu abri meu MEI, foi pelo Sebrae. Quando eu virei empreendedora, foi pelo Sebrae”, afirma.
Segundo ela, a instituição oferece capacitações que vão desde a gestão financeira até a redução do desperdício de insumos na cozinha. “O Sebrae nos capacita a cada dia, até o desperdício de material na sua cozinha ele dá curso para a gente, para crescer profissionalmente dentro da nossa empresa”, conta. Atualmente, Vânia participa de um programa de acompanhamento voltado para identidade de marca, embalagem e posicionamento comercial. “O Sebrae põe técnicos, pessoas estudadas para fazer isso. Vai soltar para a gente a logo da empresa, as embalagens. A gente vai ter mais de seis meses de curso para sair com a empresa toda montada”, relata.
Para a quitandeira, esse suporte foi fundamental para ampliar a renda familiar e fortalecer a cultura alimentar local. “Tudo que eu sou hoje de crescimento é pelo Sebrae também, porque ele trabalha tecnicamente com a gente”, diz.
O Sebrae conta com diversos programas de incentivo e apoio para que empreendedores assumam o protagonismo de seus negócios. Durante a entrevista com a analista Simone Lopes, foram destacados dois deles. Um é o Prepara Gastronomia, que teve uma edição em 2026 realizada em Belo Horizonte, voltada para quem atua no setor de alimentação fora do lar, com foco em transformar conhecimento em oportunidades reais de negócio.
O outro é o programa Comunidade Empreendedora, uma iniciativa gratuita do Sebrae que apoia pequenos empreendedores de comunidades mineiras, espaços que, como Simone destacou, concentram grande parte das mulheres negras empreendedoras. Em Minas Gerais, o programa alcança 372 comunidades, presentes em 33 municípios, impactando cerca de 598,7 mil moradores, o equivalente a aproximadamente 3% da população do estado.
Todas essas iniciativas têm como objetivo oferecer oficinas, feiras gastronômicas, redes de apoio e conexões locais, contribuindo para que os negócios se estruturem e cresçam. De acordo com Simone, o objetivo do Sebrae “é fazer com que essas mulheres possam encontrar um caminho para a geração de renda a partir da gastronomia, mas respeitando todo o contexto do território e dos saberes que já estão ali implementados”.
Além do apoio ao empreendedorismo, há outro caminho pelo qual o saber tradicional encontra sustentabilidade econômica: o reconhecimento formal como patrimônio imaterial. Steffane Santos, gerente de Patrimônio Cultural Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA), explica que esse registro abre acesso a editais específicos e ao ICMS Patrimônio Cultural, mecanismo pelo qual municípios recebem recursos a partir dos bens culturais localizados em seu território.
A iniciativa dialoga com os objetivos do programa AfroMineiridades, criado pelo IEPHA em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), em 2022, para identificar, valorizar e proteger os afropatrimônios mineiros. O programa surgiu a partir de um grupo de trabalho formado por representantes de instituições públicas, pesquisadores, mestres da cultura popular e integrantes da sociedade civil, com a missão de mapear manifestações culturais negras consideradas prioritárias para ações de salvaguarda. Entre elas estão os reinados e congados, os terreiros de matriz afro-religiosa e as comunidades quilombolas em contexto urbano.
De acordo com Steffane Santos, foi um incentivador para novos projetos de valorização. A iniciativa tinha como objetivo compreender e reconhecer a complexidade das contribuições dos grupos de matriz africana que formam as culturas mineiras. Para a gerente, esse reconhecimento também possui impactos concretos na vida das comunidades detentoras desses patrimônios. “Essa autonomia financeira é também um pressuposto para a continuidade geracional desses bens culturais”, afirma.
O último edital vinculado ao programa foi publicado em agosto de 2025. Além do fomento a projetos culturais, a iniciativa promoveu eventos, debates e espaços de diálogo que reuniram lideranças políticas, intelectuais negros, comunidades quilombolas, povos de terreiro e outros grupos envolvidos na preservação dos patrimônios afro-brasileiros em Minas Gerais.
Influência da religiosidade e ancestralidade
Em muitas casas do bairro Concórdia, em Belo Horizonte (território que seus moradores chamam de Pequena África), a cozinha nunca foi apenas um cômodo. É um altar. É onde se cozinha para os vivos e para os orixás, onde o tambor e a colher de pau seguem o mesmo ritmo, onde a comida é, ao mesmo tempo, alimento e oferenda.
É desse chão que Kely Portela, integrante do coletivo de mulheres negras N’zinga, fala quando explica a idealização do Minasjé, uma cozinha afro-mineira com essências ancestrais que ela criou a partir da observação de sua avó, Josefina Ramalho Portela, cozinheira do Congado e do Reinado, e de sua mãe, Lindomar de Jesus Oliveira, que também cozinhava para o Reinado e para o candomblé. Iniciada no candomblé desde o nascimento e confirmada como “mãe de orixá”, Kelly foi entendendo, ao longo da vida, que as duas cozinhas eram a mesma língua. “A culinária, tanto dentro do Reinado quanto dentro do candomblé, eram as mesmas línguas”, afirma.
Bianca Zacarias França explica que esse entrelaçamento entre comida e espiritualidade tem raízes profundas na cosmologia africana. O dendê, o quiabo, o angu, o feijão preto, ingredientes centrais da culinária mineira, são também comidas de terreiro, oferendas para os santos, formas de circulação de axé. “Toda a técnica de fritura, de feitura do alimento tem muito a ver com a questão espiritual”, diz Bianca. Não se trata de simbolismo, trata-se de um sistema em que cuidar do orixá e cuidar do outro são o mesmo gesto. Essa lógica também se expressa na alimentação. Para a antropóloga, “a culinária quilombola não se restringe à alimentação, ela é um sistema de conhecimento que envolve a terra, o cuidado coletivo, a espiritualidade e a transmissão da memória ancestral”.
Foi durante a pandemia que esse sistema se mostrou em sua força mais concreta. Kelly reuniu as mulheres da comunidade na cozinha da mãe e passou a cozinhar todos os dias para os moradores do lote, vizinhos, amigos, e necessitados. Enquanto as panelas aqueciam, alguém tocava o tambor, outro batia palma. “A cozinha do candomblé, quando estamos cozinhando, sempre tem um tocando”, explica. “Nós entendemos que essa junção nos consegue desenvolver melhor tanto algum tipo de conversa como a comida também.”
Desse período nasceu a feira Yiaminas, advinda de um movimento de mulheres negras que articulam ancestralidade, autocuidado, formação e fortalecimento comunitário. A culinária é uma das linguagens utilizadas para promover encontros, transmitir conhecimentos e reafirmar a identidade coletiva. Para Kely e para todas as mulheres que carregam esse fogo, a mensagem é clara:
Quando uma mulher negra cozinha a partir dos saberes de suas ancestrais, ela não está apenas preparando um prato. Ela está preservando uma história, movimentando uma economia, educando uma comunidade e projetando futuros.”
O acarajé é o carro-chefe: uma comida que, segundo Kelly, todos os orixás aceitam e que tanto pode ser comercializada quanto ofertada nas obrigações. “É uma comida que tem um grande valor ancestral para a gente”, diz.
O resultado foi além do esperado. Filhos de santo que não tinham recursos para abrir casas de candomblé começaram a vender acarajé nas feiras e, com essa renda, construíram suas casas religiosas e suas casas próprias. A comida sagrada virou sustento, e o sustento virou condição para que o sagrado continuasse existindo. Como observa Bianca, é a própria renda que ajuda a sustentar a cultura. “A cultura não está separada do próprio corpo do quilombola”, diz a antropóloga. “Os mestres precisam de reconhecimento não só imaterial, mas material também.”
Para Kely, levar essa cozinha para além dos portões do terreiro não é contradição, é missão. “Eu queria que a sociedade entendesse que dentro do candomblé, dentro do Reinado, nós comemos muito bem”, afirma. Quando uma pessoa prova o que foi preparado sem saber o que está comendo e fecha os olhos, ela diz, é possível sentir que algo maior está acontecendo. “Elas terem aquela curiosidade de comer e, no final, fechar até os olhos, ir lá no passado e voltar, isso é muito gratificante.”
Esta reportagem foi produzida por Alice Oliveira, Ilana Penido, Maria Eduarda Abranches e Mariele Ferreira, sob a supervisão de Verônica Soares.
