Ícone do site Colab

Michel Foucault completaria 100 anos em 2026

Reprodução

As obras de Michel Foucault ainda são estudadas e impactam diversas áreas do conhecimento como Psicologia, Comunicação, Saúde, Direito, Ciências Políticas e claro, pela sua área de origem, a Filosofia. Mesmo tendo morrido precocemente, aos 58 anos em 1984, Foucault cunhou conceitos para as ideias de verdade, poder e identidade e abriu espaço para que outros pesquisadores dessem continuidade aos seus estudos. Por essa versatilidade, mesmo que tenha como formação a Filosofia, já foi considerado historiador, psicólogo, militante e advogado. 

CONFIRA AS DICAS DE LEITURAS DE FOUCAULT INDICADAS PELOS PESQUISADORES ENTREVISTADOS

O próprio autor sabia da contribuição de suas obras. Em 1975, durante uma entrevista publicada posteriormente na coletânea de textos e entrevistas Ditos e Escritos, Foucault comparou seus estudos a uma caixa de ferramentas. A ideia é que os leitores não encarem seus livros como verdades absolutas ou áreas fixas, mas sim como aparatos adaptáveis à necessidade do estudo de quem lê.

Seus estudos impactaram diversas áreas e, para Wedencley Alves, professor e pesquisador da Faculdade de Comunicação da UFJF e Coordenador do Grupo Sensus – Comunicação e Discursos, Foucault abre portas, mas não entrega a chave.

Os estudos dele serão desdobrados por diversos autores. Foucault não precisa dar as respostas para tudo, ele abre espaço para que quem o lê dê continuidade ao pensamento e o realizem.

Wedencley Alves, professor e pesquisador da Faculdade de Comunicação da UFJF

Da Loucura à Clínica Médica

Durante a primeira fase, Foucault discutiu sobre  como os discursos e as ciências humanas determinam o que é considerado verdade ou normal em cada época. Além disso, desconstruiu a suposta neutralidade do saber médico e demonstrou como categorias como loucura ou doença mental foram construídas historicamente como formas de exclusão moral e social.

Na psicologia, por exemplo, a escavação arqueológica de História da Loucura permitiu compreender a loucura como um produto discursivo, tornando Foucault o autor mais citado na psicologia brasileira e latino-americana.

Enquanto cursava Filosofia na École Normale Supérieure, na França, havia a exigência de escolher uma segunda graduação complementar. Foucault optou pela psicologia, vindo a obter o diploma em psicopatologia pelo Institut de Psychologie da Sorbonne em 1952. Neste momento, a trajetória acadêmica de Foucault é fortemente influenciada pela sua vida pessoal. Durante a graduação, enfrentou episódios de depressão e uma tentativa de suicídio, vivenciando um sofrimento psíquico que o deixou prestes a ser internado em uma instituição psiquiátrica. A proximidade com a dor e com as instituições psiquiátricas impulsionaram Foucault a realizar um estágio prático em um hospital psiquiátrico o que subsidiou a publicação de Doença Mental e Psicologia (1954) e sua tese de doutorado, História da Loucura na Idade Clássica (1961). 

Foucault na década de 1950 (Foto: Reprodução)

A forte presença de Foucault no Brasil é traduzida em números acadêmicos. O professor João Leite, da Faculdade de Psicologia da PUC Minas, conta que coordenou um levantamento em 2014 sobre a presença da filosofia na psicologia brasileira através da base SciELO. Os resultados revelaram que o pensador francês é o filósofo mais citado na área, acumulando 89 entradas, seguido por Gilles Deleuze, com 32. Segundo João Leite, essa hegemonia ocorre porque, no Brasil, a psicologia assumiu uma identidade qualitativa. “Eu diria até bastante politizada. Especialmente o pessoal do campo da psicologia social”, explica.

Essa aproximação teórica transformou a maneira de enxergar o sujeito nas clínicas e universidades brasileiras. João Leite ressalta que, sob a lente foucaultiana, a subjetividade deve ser compreendida muito mais como um processo do que como um produto acabado. No entanto, o professor pondera que a recepção nacional do autor muitas vezes ficou presa a uma leitura restrita da fase genealógica, muito influenciada pelo livro Vigiar e Punir, que gerava a incômoda sensação de que “está tudo dominado, nós somos oprimidos por todos os lados”. Para superar esse problema, o especialista aponta para a importância da virada teórica na obra do autor a partir de 1978 (sua Fase Ética), na qual Foucault passou a focar na liberdade e a investigar as relações de poder como práticas de si e práticas de liberdade. “A dominação continua existindo, não se trata de uma visão apagar a outra. Mas se mantém as duas visões em perspectiva.”

Em vez de aceitar passivamente os rótulos e identidades impostos pelas instituições, pelo Estado ou por diagnósticos clínicos, para Foucault, o indivíduo é compreendido como um agente capaz de inventar a si mesmo. Na psicologia, utilizar esse conceito significa que o objetivo da clínica deixa de ser a adequação do paciente a um padrão rígido de normalidade. O foco passa a ser o apoio a esse processo ativo, encorajando a pessoa a forjar sua própria forma de existir e criar novos modos de vida que escapem das amarras do poder. Como conclui João Leite ao explicar o foco das investigações da área, a intenção é afastar-se das identidades rígidas para entender a subjetividade em movimento, já que nas pesquisas acadêmicas “o que elas captavam é exatamente processos e não produtos acabados”.

Wedencley Alves estuda comunicação e a saúde e destaca que, como herdeiro intelectual do filósofo Georges Canguilhem, autor da influente tese O Normal e o Patológico, Foucault demonstrou que as definições de saúde e doença não são verdades biológicas imutáveis, mas construções sociais e históricas nascidas sob determinados regimes de verdade. A Arqueologia do Olhar, proposta pelo francês, mudou a forma como a medicina e o Estado encaravam os pacientes. O olhar clínico tradicional, antes restrito ao corpo individual, se expandiu para a ideia de corpos sociais.

Essa desconstrução do saber médico e psicológico, somada às reflexões foucaultianas sobre a medicalização e a biopolítica, reverberou profundamente na saúde coletiva. Wedencley explica que essa influência funcionou como o combustível intelectual necessário para impulsionar a Reforma Sanitária brasileira, nos anos 70, servindo de base teórica essencial para a tese fundamental do sanitarista Sérgio Arouca e impactando diretamente a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Para o professor, Foucault abre portas, mas não entrega a chave, inaugurando campos de reflexão para que outros teóricos pudessem desconstruir a patologização e a exclusão histórica de corpos dissidentes na modernidade.

Hoje, essa desnaturalização dos diagnósticos proposta por Foucault funciona como uma lente crítica indispensável diante da hipermedicalização e da patologização da vida contemporânea. Wedencley exemplifica esse fenômeno com o crescimento do manual estatístico de Saúde Mental Americano (DSM), que possuía aproximadamente 70 doenças mentais na primeira edição, nos anos 1950, e hoje saltou para aproximadamente 500.

Foucault e Filosofia

A revolução promovida por Michel Foucault na filosofia moderna passa, primeiramente, por tirar a disciplina do campo das abstrações universais e trazê-la para o chão da vida real. O professor titular emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcio Tavares d’Amaral explica que Foucault seguiu a trilha deixada por Nietzsche para “puxar o tapete de toda a filosofia”, que até então operava baseada em sistemas fechados e em fundamentos fixos.

Foucault foi estudando diversos setores, principalmente a filosofia, a moral e a religião, que ele achava que eram os três grandes carrascos da cultura ocidental, e foi puxando o tapete dos fundamentos em cada um desses casos; A ideia do ser, de Deus, de pecado; E com isso, segundo o próprio Foucault, ele acabou com a filosofia e a filosofia acabou com ele.

Marcio Tavares d’Amaral, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Foto: reprodução

O grande deslocamento foucaultiano consistiu em transformar a filosofia em uma prática, que só ganha legitimidade “quando se faz um diagnóstico do nosso presente”. Ao investigar como cada época histórica produz o sujeito através de dispositivos de poder, Foucault provou que os comportamentos e os modos de viver não são obras da natureza, mas construções de uma época, segundo Marcio.

Na prática, isso significa trabalhar com o presente, que na visão de Michel Foucault, significa usar a história como uma ferramenta para diagnosticar e questionar e as regras e os poderes da sociedade estudada. Marcio pontua que, para desnaturalizar as regras sociais, Foucault adotou a “genealogia”: uma investigação que atravessa as épocas para mostrar que as instituições modernas não são o ápice do progresso, mas apenas um sistema entre muitos que determinam “o que pode e o que não pode ser dito, feito e pensado”. Esse modelo de pensamento ensina a duvidar de uma verdade absoluta e a encontrar caminhos para a resistência, pois, como defende Foucault, onde existe poder, deve existir resistência.

Se Foucault estivesse vivo em 2026, Marcio aposta que o filósofo direcionaria seu método investigativo para o grande dispositivo de poder do nosso tempo: o mercado. Segundo o pesquisador, o planeta tornou-se um vasto balcão de consumo gerido pelas big techs e pelos algoritmos, onde o mercado dita as regras e cria o sujeito consumidor. Nesse contexto, as pessoas buscam no mercado o próprio sentido de existência, comprando, inclusive, valores, ideias e identidades, sendo levadas a “se oferecerem” em vitrines como o Instagram.

Para Marcio, esse diagnóstico ajuda a explicar o fascínio contemporâneo pelas distopias. O pesquisador lança a hipótese de que o consumo em massa de filmes e romances sobre colapsos ambientais e sociedades arruinadas pode ser um sinal de que “o futuro acabou”. Preso na circularidade do neoliberalismo, que produz necessidades para, em seguida, lucrar satisfazendo-as, o sujeito de 2026 já não consegue visualizar “uma transformação do presente numa direção melhor”. 

As engrenagens do poder

Foto: reprodução

A partir da década de 1970, Foucault entra na Fase Genealógica, deslocando o foco da análise do discurso para as relações indissociáveis entre saber e poder. As ideias do autor ainda hoje são utilizadas sobretudo pelos campos da ciência política, do direito e da saúde pública. Ao invés  de entender o poder apenas como uma força estatal negativa e repressiva (“o não pode”), a genealogia revelou o poder disciplinar e o biopoder como tecnologias produtivas, que incidem diretamente sobre os corpos e geram subjetividades.

Enquanto o poder disciplinar se adestra e foca nos corpos individuais, o biopoder surge como uma forma de gestão que incide sobre a população como um todo, regulando a vida, a saúde, a natalidade e a mortalidade. Por sua vez, entender essas formas de poder como tecnologias produtivas significa compreender que o poder não atua apenas proibindo ou vetando, mas sim fabricando realidades: ele incide diretamente sobre os corpos e gera subjetividades, modos de vida, desejos e identidades.

Para o professor de filosofia da UFMG Helton Adverse, a grande inovação de Foucault nessa época foi deixar de lado o problema tradicional da soberania do Estado para focar em como o poder se espalha sobre o corpo social. O filósofo apresentou um conceito profundamente perturbador: o poder “faz fazer”. “É uma concepção não repressiva do poder. Quer dizer, é compreender o poder como aquilo que produz subjetividade, ao invés de ser aquilo que reprime ou cerceia a liberdade.”, explica o professor.

Paralelamente, na criminologia e no direito, a obra Vigiar e Punir (1975) tornou-se decisiva ao demonstrar como as instituições modernas usam a disciplina e o adestramento para normalizar e controlar as populações. Logo em seguida, Foucault aprofundou essa visão com o conceito de biopolítica. Adverse explica que, enquanto o poder do antigo soberano era baseado em “deixar viver e fazer morrer”, a biopolítica moderna inverte a lógica com o foco em promover a vida e “fazer viver”. A partir do século XVIII, o próprio corpo da população passa a ser o grande objeto de gerenciamento e investimento do poder público, marcando o surgimento da medicina social.

Avançando na compreensão de como as instituições governam, uma nuance surpreendente na obra de Foucault é sua análise do neoliberalismo, compreendido não apenas como uma diretriz econômica, mas como uma sofisticada tecnologia de poder. Conforme apontado pelo professor João Leite, o filósofo demonstrou um encantamento analítico pelo modelo americano da Escola de Chicago, em contraste com sua crítica ao modelo alemão. O pesquisador Helton Adverse detalha esse fenômeno por meio do conceito de governamentalidade: na leitura foucaultiana, o neoliberalismo atua a partir de um sistema que consiste, basicamente, em governar através da própria liberdade, e não mais pela opressão estatal.

Nessa lógica, o Estado não recua; ele passa a incitar o cidadão a agir como sua própria empresa. Sustentado pela teoria do capital humano, o modelo transforma o indivíduo em um empreendedor de si mesmo, atrelando sua autonomia e identidade ao sucesso pessoal e financeiro. Assim, como destacam os especialistas, essa concepção radical de liberdade individual acaba eclipsando a dominação. A leitura inovadora de Foucault revela como a própria liberdade foi capturada como um mecanismo de controle, criando corpos dóceis ao conectar a disciplina econômica de cada pessoa à gestão biopolítica de toda a população.

Noções de verdade e a comunicação

Entre o final dos anos 1970 e sua morte em 1984, Michel Foucault desenvolveu a Fase Ética, ou do cuidado de si. Recuando à Antiguidade greco-romana e ao cristianismo primitivo em obras como O Uso dos Prazeres, O Cuidado de Si e no curso A Coragem da Verdade, o autor investiga a constituição do indivíduo como sujeito ético e as práticas de liberdade. Essa caixa de ferramentas ética impacta profundamente a psicologia social ao compreender a subjetividade não como um rótulo patológico fixo ou um produto acabado, mas como um processo contínuo de transformação na ação. Movimentos sociais, feministas e LGBTQIA+ apropriam-se dos conceitos dessa fase para desnaturalizar identidades impostas e reivindicar a autonomia e a criação estética da própria existência.

Foto: Reprodução

Já na comunicação, as ferramentas da arqueologia, formalizadas em A Arqueologia do Saber e As Palavras e as Coisas, cunhadas na primeira fase, servem para analisar como as ciências humanas e a mídia organizam os discursos que determinam o que pode ser dito e aceito como verdade em cada período. Foucault é lido no campo comunicacional apesar de nunca ter se dedicado profundamente ao estudo dos meios de massa (TV, rádio ou imprensa). Sua contribuição reside na Teoria do Discurso, entendendo-o como uma prática material e não apenas textual. 

Como observa o professor Wedencley Alves, o jornalismo atua como um regime de verdade que vocaliza certos discursos enquanto silencia outros, definindo quem tem o “direito de dizer”. Sob a lente foucaultiana, a “pós-verdade” contemporânea, onde opiniões e crenças sobrepõem-se a fatos objetivos, representa um abismo de sentido que desafia os regimes tradicionais de veridicção. Em resposta, surge a ética da Parrhesía (a coragem da verdade): o compromisso do sujeito com a verdade que enuncia, assumindo o risco de sua própria fala. A prática crítica é explicada por Foucault como a arte de não ser governado, o que se vincula ao discurso, à subjetivação e à resistência.

Essa transição teórica para o campo prático da comunicação é vivenciada pela professora de comunicação social Isaura Mourão Generoso, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ao entrar em contato com a obra A Arqueologia do Saber, a pesquisadora percebeu que a comunicação vai muito além de um viés puramente instrumental ou mercadológico focado em ferramentas organizacionais. Para Isaura, os processos comunicativos devem ser compreendidos como relações de poder e constantes disputas por negociação de sentidos, evidenciando que entender quem fala, de onde fala e em qual contexto é fundamental para analisar o jornalismo de forma crítica.

Foucault para mim foi uma energia de vida, foi uma forma de compreender a vida. Não é você pensar que as coisas são relativas, não é você pensar que tudo é relativo. É você compreender a vida e você compreender as relações com todos os seus elementos […] para mim foi fundamental.

Isaura Mourão Generoso, professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV)

Diante da atual crise de credibilidade e da disseminação de desinformação, a professora recorre ao conceito foucaultiano de que não existe uma verdade absoluta, mas sim “efeitos de verdade”. Em vez de buscar uma imparcialidade inalcançável, já que todo olhar carrega crenças e parcialidades, o jornalismo deve mirar na objetividade. Para Isaura, ser objetivo significa chegar o mais próximo possível do fato real por meio de dados e informações contextualizadas, combatendo ativamente a onda de inverdades e as narrativas que se consolidam na sociedade apenas pela repetição contínua.

Para ilustrar como os discursos hegemônicos se formam e se estabelecem como verdade, a pesquisadora utiliza a metáfora foucaultiana da “árvore de derivação enunciativa”. Nessa analogia, as raízes profundas representam o sistema capitalista e sua lógica de produtividade, enquanto a copa da árvore exibe os frutos dessa estrutura, ou seja, os discursos que emergem e são reverberados. Hoje, essas raízes e micropoderes estão concentrados nas mãos das grandes corporações de tecnologia (big techs), organizações que modulam o comportamento, o engajamento e a forma como a sociedade se relaciona por meio da inteligência artificial e dos algoritmos.

Foto: Wikimedia Commons/Wikipedia

Foucault nas Causas Militantes

Como explicam os pesquisadores Marcio e Helton, embora a obra de Michel Foucault forneça munição teórica fundamental para movimentos sociais, e feministas, o próprio autor mantinha severas reservas teóricas quanto ao conceito rígido de identidade. Foucault desconstruiu a sexualidade como uma suposta verdade oculta da alma, abrindo espaço para a emergência de novas lutas e formas de emancipação. No entanto, o filósofo, que era abertamente gay, alertou que buscar uma “essência fixa” de identidade pode acabar se convertendo em uma nova forma de aprisionamento e dominação institucional.

A esse respeito, o professor João Leite aponta que, embora os movimentos identitários tenham se apropriado de suas ferramentas para reivindicar visibilidade, a filosofia foucaultiana subverte a busca por essências imutáveis. “Essa política de luta, de enfrentamento, ele achou que era restritivo demais para o pensamento, para entender a realidade. Concluiu que precisamos olhar para outras dimensões” Para Foucault, a resistência política mais potente reside no prazer e não estritamente no desejo. Enquanto o desejo exige uma hermenêutica da interpretação, a obrigação moral de confessar e revelar a verdade íntima de si a uma autoridade externa, o prazer é como um evento livre, autônomo e imediato, que dispensa qualquer necessidade de decifração institucional.

Foucault está a falar num megafone durante uma manifestação de protesto contra o assassinato de Pierre Overney, um jovem ativista operário e militante maoista que tinha sido morto a tiro no dia 25 de fevereiro de 1972 por um guarda de segurança da fábrica Renault. Foto: Reprodução

Foucault no Brasil

Entre os anos de 1965 e 1976, o filósofo francês esteve no país em cinco ocasiões, todas ocorridas durante a ditadura militar. Cada uma dessas estadias funcionou como um choque cultural e político tanto para a academia brasileira quanto para o próprio autor, que encontrou um laboratório para testar suas intuições teóricas sobre o poder, a resistência e o controle dos corpos.

A primeira vinda ocorreu em outubro de 1965, convidado pelo amigo, o filósofo Gérard Lebrun para lecionar na Universidade de São Paulo (USP). Foucault trouxe os rascunhos e as provas de As Palavras e as Coisas, livro que revisava nos intervalos das aulas.

O retorno ao Brasil só aconteceu anos depois, em 1973, a convite do escritor e professor Affonso Romano de Sant’Anna para ministrar o ciclo de conferências na PUC Rio que daria origem a A Verdade e as Formas Jurídicas. Nesse período, provocou reações apaixonadas e também acaloradas da intelectualidade brasileira, ao deslocar o foco analítico da superestrutura do Estado para as microfísicas do poder nas instituições de justiça e controle.

Nesta visita, Foucault convidou o pesquisador Márcio Tavares para um passeio na praia para discutir uma possível parceria para o doutorado de Márcio. Chegou primeiro e teve suas calças roubadas. “Eu deveria colocar no meu currículo, fui à praia com Foucault”. Se diverte Márcio ao lembrar do episódio.

As três visitas seguintes ocorreram de forma consecutiva em 1974, 1975 e 1976. Nessas ocasiões, Foucault já arrastava multidões por onde passava, mas recusava a pompa dos auditórios, preferindo dialogar diretamente com internos no chão de hospitais psiquiátricos. Ao mesmo tempo, suas posições teóricas geravam fortes atritos com alas da esquerda tradicional e marxista da época, que viam com desconfiança a recusa obstinada de Foucault em adotar cartilhas partidárias. Ao propor que o poder não emana apenas de um ponto central e opressor, mas se espalha por toda a sociedade através de micropoderes, instituições e saberes cotidianos, o filósofo francês foi inicialmente visto com desconfiança por setores da esquerda que o acusavam de afastar o foco da luta política estrutural. Em resumo, Foucault acreditava que as relações de poder são produtos de processos e relações discursivas e não da exploração econômica nas classes sociais. 

Nas suas últimas visitas, o filósofo passou a articular de maneira mais incisiva denúncias públicas contra a colaboração de profissionais da saúde e da medicina com os porões da tortura e a repressão política na América Latina. O filósofo passou a denunciar publicamente a cumplicidade ativa e a cooperação de setores da medicina, da psiquiatria e de profissionais da saúde com os aparatos estatais de repressão e tortura, seja atestando a falsa sanidade de presos políticos para legitimar interrogatórios brutais, seja encobrindo assassinatos sob laudos falsificados. Para Foucault, essa desmedida aliança entre o saber técnico-científico e a violência do Estado representava a perversão máxima do biopoder, transformando aqueles que deveriam preservar a vida em meros gestores da morte e do sofrimento nos porões da ditadura.

Biblioteca de Foucault

Os pesquisadores entrevistados pelo Colab indicaram livros para diversas áreas do conhecimento.

📚Saúde Mental

Doença Mental e Psicologia (1954)
Primeiro livro de Foucault, no qual analisa a relação entre as determinantes históricas e a formação das teorias da doença mental, criticando a tentativa da psicologia de imitar o modelo das ciências naturais.

História da Loucura na Idade Clássica (1961)
Mapeia como a loucura passou da integração no Renascimento ao “grande internamento” moral no século XVII e, finalmente, à hospitalização e criação do conceito de “doença mental” no século XIX.

Os Anormais (Curso de 1974-1975)
Examina a formação da perícia médico-legal e o surgimento das figuras do “monstro humano”, do “incorrigível” e do “infantil masturbador”, mostrando como a psiquiatria passou a gerenciar os desvios da norma.

📚Saúde Pública, Medicina e Biopolítica

O Nascimento da Clínica (1963)
Investiga a transição para a medicina anatomo-clínica no início do século XIX, quando a doença passa a ser mapeada diretamente no corpo do indivíduo pelo olhar médico.

Segurança, Território, População (Curso de 1977-1978)
Desenvolve os conceitos de biopolítica e biopoder, analisando como os Estados modernos passaram a gerenciar biologicamente a população por meio de vacinação, natalidade e estatísticas epidemiológicas.

📚Ciência Política

Em Defesa da Sociedade (Curso de 1975-1976)
Examina o poder a partir da guerra e do biopoder, formulando a célebre inversão de que a política é a continuação da guerra por outros meios e analisando o racismo de Estado.

Nascimento da Biopolítica (Curso de 1978-1979)
Estudo pioneiro da governamentalidade neoliberal, investigando a emergência da noção do indivíduo como capital humano.

📚Direito e criminologia

A Verdade e as Formas Jurídicas (1973/1996)
Série de conferências que analisa a história das práticas judiciárias, demonstrando como o inquérito e o exame nasceram para fabricar a verdade jurídica.

Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (1975)
Analisa o fim dos suplícios públicos e a transição para a punição disciplinar, revelando que a função oculta da prisão é a gestão da ilegalidade e o adestramento dos corpos.

📚Filosofia e discurso

As Palavras e as Coisas (1966)
Estudo das estruturas profundas do saber da Renascença à Modernidade, apontando o surgimento e a futura dissolução do homem como objeto científico.

A Arqueologia do Saber (1969)
Obra metodológica onde sistematiza as regras para a análise das formações discursivas e enunciados.

A Ordem do Discurso (1971)
Aula inaugural no Collège de France que detalha os procedimentos de interdição, exclusão e rarefação que controlam a circulação da palavra na sociedade.

📚Sexualidade, Ética e Sujeito

Version 1.0.0

História da Sexualidade I: A Vontade de Saber (1976)
Contesta a hipótese repressiva, mostrando que a modernidade criou um dispositivo que incitou a fala, a confissão e o controle sobre o sexo.

Version 1.0.0

História da Sexualidade II: O Uso dos Prazeres (1984)
Recuo à Antiguidade grega e romana para investigar a estética da existência e a dietética.

História da Sexualidade III: O Cuidado de Si (1984)
Sinopse: Continuação da investigação sobre a Antiguidade focada na prática do cuidado de si como criação de liberdade.

A Hermenêutica do Sujeito (Curso de 1981-1982)
Sinopse: Aprofunda a genealogia do sujeito ético através da análise das técnicas de si na Antiguidade grega, helenística e romana.

A Coragem da Verdade (Curso de 1983-1984)
Sinopse: Investiga a noção de parrhesía, a prática cínica e socrática de falar a verdade abertamente, assumindo riscos pessoais contra o poder.

📚Comunicação

O que é a Crítica? (1978)
Sinopse: Ensaio fundamental em que Foucault define a crítica não como a submissão a uma autoridade, mas como a arte de não ser governado de certa forma.

Ditos e Escritos, Vol. 5: Ética, Sexualidade, Política
Sinopse: Coletânea de entrevistas e artigos onde Foucault debate com militantes sobre o movimento das prisões, o feminismo e os direitos civis.

📚Para Entender Foucault: Leituras complementares

O Normal e o Patológico (1966) – Georges Canguilhem
Sinopse: Clássico da epistemologia histórica que investiga como a medicina e a biologia constroem as fronteiras normativas entre saúde e doença.

Vocabulário de Foucault – Edgardo Castro
Sinopse: Dicionário conceitual indispensável que mapeia, verbetiza e elucida os termos mais complexos da teia filosófica foucaultiana.

Michel Foucault: Além do Estruturalismo e da Hermenêutica – Hubert Dreyfus e Paul Rabinow
Sinopse: Estudo crítico que costura a passagem analítica entre a arqueologia, a genealogia e a ética na trajetória do autor.

Foucault no Brasil: A Recepção do Pensador
Sinopse: Coletâneas e estudos acadêmicos que mapeiam como o pensamento foucaultiano penetrou nas universidades brasileiras e estruturou campos como educação, psicologia, direito e saúde coletiva.

Sair da versão mobile