Confira os destaques e curiosidades sobre a noite mais fashion do ano
Desde 1948, na primeira segunda-feira de maio, as escadas do Museu Metropolitano de Arte de Nova York são preenchidas de glamour e extravagância na tradicional noite do Met Gala. O evento fundado por Eleanor Lambert, publicitária de moda americana, define tendências globais e recepciona os maiores designers e celebridades do mundo, além de arrecadar fundos para a manutenção do museu na Quinta Avenida e marcar a abertura da exposição anual de moda do Costume Institute.
‘Fashion Is Art’: Moda é Arte
Em 2026, o tema “Costume Art” (Arte em Figurino), com o dress code focado em “Fashion Is Art” (Moda é Arte), enalteceu a união entre duas das expressões mais potentes da sociedade. Maria Eduarda Queiroz, estudante de moda no Centro Universitário Senac, explica que, além de celebrar a moda e a arte como um todo, o Met destaca a criatividade, assim como é extremamente importante para promover artistas e designers ao mostrar os trabalhos e obras de arte no tapete vermelho.
Neste ano, a exibição inaugura a galeria Condé M. Nast, que recebe o nome do editor e magnata da comunicação, assim como do conglomerado que atualmente mantém posse das maiores marcas da mídia norte-americana, incluindo Vogue, The New Yorker e Vanity Fair. Introduzindo aproximadamente 400 peças do acervo histórico e vasto do The Met, a coleção “Costume Art” reúne trabalhos artísticos e peças de vestuário, que celebram a inseparabilidade da moda, do corpo e das expressões artísticas. Dividida em categorias, a mostra também aborda os diversos tipos e formatos de corpos humanos. Além da representação tradicional de estruturas nus e clássicas, apresentam modelos corporais desvalorizados e de diferentes momentos e experiências, como os corpos grávidos, envelhecidos e anatômicos.
Maria Eduarda Queiroz enfatiza a importância da instituição trazer uma pauta global e urgente para o tapete e a exposição. “Sabemos que, por muito tempo, o Met Gala e a indústria da moda impuseram um padrão de beleza e, apesar do evento estar tentando desmistificar essa ilusão de que existe um corpo perfeito, atualmente estamos vendo a volta da cultura da magreza”. Ela também menciona como o tópico é atual e pesa ainda mais para os corpos femininos. “Pessoas que tinham um corpo completamente natural passaram a ter um corpo extremamente magro, principalmente quando falamos dos corpos das mulheres, já que na maioria dos casos são elas que sofrem a maior pressão da sociedade”.
O Brasil no Met
Após duas temporadas consecutivas de visibilidade no cinema, o Brasil também é destaque no Oscar do mundo da moda. Entre as centenas de itens da coleção “Costume Art”, que abrange 5 mil anos de arte ocidental, a exibição integra as obras das estilistas brasileiras Renata Buzzo e Karoline Vitto. “Neste ano, temos grandes estilistas do nosso país, integrando a coleção Corpo e trazendo uma abordagem conceitual sobre o feminino, explorando ciclos de transformação, amadurecimento e rupturas simbólicas vividas pelas mulheres”, conta Maria Eduarda Queiroz.
Destaques da noite
Dentre as figuras que posaram no tapete verde, Beyoncé foi o nome mais comentado. Após uma década sem comparecer na cerimônia, a cantora, que foi escolhida como uma das anfitriãs da edição, posou com o marido Jay Z e a filha Blue Ivy, de 14 anos.
Outros nomes tiveram presença notória pela criatividade e excelência das produções de alta costura. Abrindo o tapete, a influenciadora e correspondente Emma Chamberlain apresentou um vestido inteiramente pintado à mão, assinado pela Mugler. O processo de pintura, que durou aproximadamente 960 horas de trabalho, foi posteriormente divulgado no Instagram da marca.
Vestindo Dior, a estrela global Sabrina Carpenter foi destaque e alinhou ao tema de forma inesperada e visual. A artista apostou em um traje de fitas de filme 35mm de Sabrina (1954), destacando a sétima arte e promovendo a estética da era atual da carreira. Dentro do baile de gala, Sabrina Carpenter também foi responsável pelo show da noite, juntamente com Stevie Nicks, dessa vez utilizando um Versace que fazia referência ao movimento Pop Art.
Em concordância com o tema e o esperado pelo público, diversos designs fizeram referências às obras de arte renomadas mundialmente. Apresentando conceitos e variedade, o “green carpet” recorreu das recriações mais delicadas (como Hunter Schafer, que reproduziu Mada Primavesi), artes originais (a pintora Amy Sherald, por exemplo, fez referência a uma obra autoral) e performances completas (como Madonna, que refez a pintura The Temptation of St. Anthony, Fragment II, Heidi Klum, que modelou a escultura Dama Velada e a modelo Anok Yai, representando a estátua da Virgem Maria negra, trajada de próteses e lágrimas 3D).
O que falam na internet?
Embora seja uma cerimônia de elite, incluindo ingressos caríssimos e restrições de convidados, imprensa, fotos e gravações na área interna, a cobertura do evento na era digital se consagra anualmente como uma das mais comentadas nas mídias sociais. Juntamente com nomes de celebridades que se destacaram, “Met Gala” ficou em primeiro lugar nos Trending Topics do X (antigo Twitter), e a transmissão do tapete chegou a ultrapassar 10 milhões de visualizações no YouTube da Vogue. “Inicialmente, era um evento da alta sociedade nova-iorquina, com ingressos a 50 dólares, sem o apelo midiático e extravagância que possui hoje. Foi só em 1995 que se tornou um dos maiores eventos da moda na mídia, unindo celebridades, estilistas e temas artísticos”, explica Maria Eduarda Queiroz.
Além de ser o assunto do momento nos aplicativos, o Met Gala é frequentemente representado no audiovisual. Em 2026, a data do baile coincidiu com o lançamento de “O Diabo Veste Prada 2”, sequência do filme de 2006. A obra, que se tornou um símbolo cultural para profissionais das áreas da moda e da comunicação, relata a trama entre a jornalista assistente Andrea Sachs e a chefe estilista Miranda Priestly, personagem inspirada em Anna Wintour, diretora editorial global da Vogue e anfitriã do Met Gala desde 1995.
Marri Mamede, fundadora do blog Volta a Moda, reflete como os filmes de comédia romântica dos anos 2000, que mostravam pessoas trabalhando no mundo da moda, é um dos grandes responsáveis por influenciar o consumo do Met e outros eventos. “No próprio O Diabo Veste Prada e em Oito Mulheres e Um Segredo, por exemplo, vemos bailes não televisionados, para uma comunidade restrita de membros da alta sociedade arrecadar fundos do departamento de moda do Met”. Ela explica que, com a coordenação de Anna Wintour, que tem a característica de trazer celebridades para dar destaque nas cerimônias, o Met Gala passa de um evento para um monumento cultural, fazendo parte da ficção cinematográfica e criando um imaginário dos bastidores. “Antes, tínhamos as mídias da escada e sabíamos que acontecia um jantar dentro do museu. Era estritamente proibido qualquer tipo de aparelho e hoje em dia, têm gravações dos shows, fotos nos banheiros, reuniões de famosos. A popularização do tema nas telas mudou a visão que as pessoas tinham e criou um maior interesse”.
Apesar da fama e adoração, a cerimônia é altamente criticada. O financiamento realizado por Jeff Bezos na edição de 2026 foi responsável pelo boicote de diversas celebridades e comentários negativos na internet. De acordo com Marri Mamede, “O público viu como irônico e hipócrita por parte da organização do evento, que um dos temas mais icônicos, de possibilidades muito ricas de trabalho, tenha sido patrocinado por um bilionário, financiador do ICE, apoiador de Inteligências Artificiais e de outras contraditoriedades com o tópico artístico”.
Após ser capa da Vogue, Lauren Sánchez, esposa de Jeff Bezos, posou no tapete verde usando um vestido exclusivo de alta-costura da marca Schiaparelli referenciando a obra Madame X, de John Singer Sargent. O retrato de 1884, representa Virginie Gautreau, uma socialite parisiense, casada com um banqueiro e envolvida em escândalos extraconjugais, o que gerou comentários nas mídias e comparações entre Lauren e Virginie.
“Em O Diabo Veste Prada 2, que estreou dias antes do Met Gala, o dinheiro de big techs e bilionários da tecnologia aparece quase como protagonista, entrando nos meios culturais. Quando o dono da Amazon, que não tem ligação com o mundo da moda e nem se posiciona a respeito, financia o Met Gala, é uma forma que os multimilionários têm usado para mostrar a influência e poder, se infiltrando nesses espaços”, finaliza Marri Mamede.
