Após três anos, o bar Us Motoca volta ao pódio do Comida di Buteco e conquista o primeiro lugar da 26ª edição do concurso. Com o tema “verduras”, o estabelecimento apostou no prato “Risoto Mineiro”: risoto de canjica com couve, bacon, linguiça e costelinha com mostarda de jabuticaba, servido com crispy de alho-poró e chips de jiló e conquistou o paladar dos jurados. Localizado no bairro Camargos, na Região Noroeste de Belo Horizonte, o bar leva os holofotes para certas partes da cidade que costumam ficar fora dos roteiros gastronômicos mais tradicionais. A conquista reforça a diversidade da tradição dos botecos da capital e mostra que sabor, criatividade e tradição podem ser encontrados muito além do eixo Centro-Sul.
O mapa do Comida di Buteco costuma ser lido de Sul a Centro – regiões com perfil socioeconômico mais elevado e com maior destaque midiático. Apesar dessas regiões não concentrarem a maior parte dos participantes, é nelas que está boa parte da visibilidade do concurso. Já os endereços que ficam localizados em regiões de menor destaque, nos bairros onde o boteco não é tendência gastronômica, está o maior número de estabelecimentos participantes do Comida Di Buteco; e a zona Norte de Belo Horizonte lidera essa lista há pelo menos sete anos consecutivos. De acordo com O Tempo, nesse ano de 2026, 39 bares da região mostram que o festival também é deles.
Chegar até o Tupi ou ao Guarani não está nos roteiros turísticos da cidade, pois são bairros que funcionam no ritmo da vizinhança. Participar do Comida di Buteco, para os estabelecimentos localizados nessas regiões, significa mais do que disputar um título. É colocar o bairro no circuito, fazer o cliente de sempre dividir mesa com um visitante de outra parte da cidade e provar que boa comida não tem CEP preferido.
A região Norte de Belo Horizonte é conhecida por sua vida de bairro pulsante, pelas festas populares e por uma gastronomia construída longe dos holofotes. Por lá, reconhecimento nunca dependeu de guia gastronômico ou chef famoso. Quando um bar desse território decide disputar espaço no principal evento gastronômico de Belo Horizonte, a disputa vai além de um troféu: é uma chance de mostrar para o restante da cidade aquilo que o bairro já conhece há muito tempo. Os sabores que, naquele pedaço da capital mineira, fazem parte da memória coletiva.
Bar Stella: a cozinha já conhecida pelo bairro
No bairro Tupi, o Bar Stella não precisa de apresentação para quem mora por ali. Mas o Comida di Buteco trouxe um desafio novo: transformar o que sempre saiu bem no fogão em um petisco que precisava ter nome, apresentação e convencer gente de fora.
O tema “verduras” foi visto como oportunidade. “Esse prato a gente vai manter. Porque ele é mais fácil de conseguir manter no dia a dia.” Helaine Domingues, proprietária do Bar Stella, aponta, logo no início, que o prato feito especificamente para o Comida Di Buteco permanecerá no cardápio. O resultado é o “Porco à Mineira”: costelinha suína ao molho agridoce de goiaba com ragu de pernil, servida sobre polenta com muçarela, crispy de acelga e torradinhas de acompanhamento. Um prato que carrega a memória da cozinha do restaurante sem abrir mão da essência de Minas Gerais.
Foto: Ester Filgueiras
Para o bar, estar no festival é também uma questão de negócio. “A minha venda de cerveja triplica. Mesmo que eu esteja tirando cinco reais do prato, esses cinco reais são multiplicados por quanto? Ele me traz muito mais fora dele”, celebra a dona e proprietária do negócio. O mês de abril, que poderia ser qualquer mês, passa a ter uma lógica diferente: mais gente na porta, mais pedidos na cozinha, mais conversa sobre o bar fora do bairro. E o preparo interno também precisa ser outro. Com mais clientes, a quantidade de serviço aumenta e a logística do bar também. “Quem monta o prato é uma pessoa separada só para isso. Não sobrecarrego as outras”, explica Elaine.
A mobilização do bairro, no entanto, é um ativo que poucos bares do Centro-Sul têm. Muitos dos clientes do Bar Stella não vão somente por indicação de aplicativo, frequentam pois conhecem, ou porque são vizinhos e o bar faz parte da sua rotina. Durante o festival, essa fidelidade vira combustível.
Chapa Mágica: petisco raiz e com propósito
A 700 metros dali, no Guarani, o Chapa Mágica tem sua própria história com o festival.
Na cozinha, por sua vez, o tema foi bem recebido, fazendo um bom proveito da verdura, que foi o alho poró, mas sem deixar de lado o que a clientela normalmente mais pede: a batata. O prato que chegou à mesa dos jurados e do público carrega tanto técnica quanto afeto — a receita conversou com as referências do bar. É algo visto como simples, mas feito com sofisticação.
Foto: Ester Filgueiras
O que o público não vê é que o processo começa muito antes. “A gente acaba aqui em maio e já tem que começar a preparar o prato do ano que vem”, conta Lamarques Pereira de Oliveira, dono do Chapa Mágica, no Guarani. Terminado o festival, a organização convoca os participantes: ingrediente escolhido, receita desenvolvida, foto e ficha técnica entregues até outubro ou novembro. Dez meses de planejamento para um mês de festival.
Tanto no tema livre quanto no definido pela organização, os participantes enfrentam desafios para inovar e construir algo que fuja do padrão e que, ao mesmo tempo, esteja dentro do custo-benefício para o restaurante.Existe uma limitação de quantos bares podem fazer bolinhos, por exemplo. “Se deixar livre, todo mundo vai fazer bolinho e não vai ter outro tipo de prato”, explica Lamarques Pereira.
Participar de um festival que nasceu no Centro-Sul e se expandiu para outros territórios da cidade é, para o bar, uma oportunidade de mostrar que merece estar na competição. Há um orgulho particular nisso, o tipo que não aparece em troféu, mas que se sente na postura de quem recebe um cliente novo e sabe que está mostrando, pela primeira vez, o que o seu bairro tem de melhor.
A cidade que ainda não chegou até eles
O empenho é muito grande, a dedicação também. Os dois bares seguem à risca a padronização de decoração do Comida di Buteco, com banners, bandeiras e cores que ajudam a compor a identidade visual do concurso. Mas, além disso, compartilham uma coisa em comum: a sensação de que parte dos clientes do festival ainda possui uma certa resistência e, mesmo após 26 anos, não olharam de verdade para o Norte. O público que atravessa a cidade para conhecer um petisco costuma ir até a Savassi, Centro, ou até o Santa Tereza. Chegar à zona Norte exige uma decisão diferente – e, muitas das vezes, o visitante ainda não tomou essa decisão.
Não é só uma questão de distância geográfica. É também uma questão de imaginário. Belo Horizonte tem uma narrativa gastronômica consolidada que passa por alguns bairros e esquece outros. Percebe-se isso em guias gastronômicos, onde se é indicado, majoritariamente, restaurantes do Centro-Sul; algo limitado aos considerados “cartões postais” da capital mineira. O Comida di Buteco, ao incluir bares de todas as regiões, tem o potencial de reescrever parte dessa narrativa — mas o potencial só vira realidade quando o público de fato se move.
“O meu bar não é um boteco pequeno; ele é um boteco que está mostrando uma outra parte que às vezes o pessoal acha que é sujo, acha que não tem qualidade. Muda a visão das pessoas, sim. Ajuda demais”, defende o proprietário do Chapa Mágica.
A questão da visibilidade dentro do próprio festival também entra nessa conta. Bares em regiões de maior fluxo turístico e gastronômico recebem naturalmente mais visitas de avaliadores informais, de influenciadores e jornalistas. De acordo com o levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Belo Horizonte possui a maior proporção de bares do país: são 178 bares para cada 100 mil habitantes. Para criadores de conteúdo e profissionais da imprensa, visitar os estabelecimentos com maior densidade turística costuma garantir mais engajamento nas redes sociais e retorno de mídia.
Apesar da capital contar com aproximadamente 12,5 botecos por quilômetro quadrado, esses estabelecimentos se concentram na Região Centro-Sul, especialmente nos grandes corredores urbanos, como a Avenida do Contorno, que possui 118 bares – ficando atrás apenas da Avenida Cristiano Machado, que lidera o ranking com 146. Nesse cenário, os bares do Norte, para chegar ao mesmo nível de exposição, precisam fazer um esforço extra, seja nas redes sociais ou no boca a boca. É necessário a construção de uma narrativa que justifique a travessia.
Ainda assim, os dois bares chegaram ao festival com prato pronto, clientela mobilizada e a convicção de que o boteco de bairro tem tanto a dizer quanto qualquer outro. O Comida di Buteco, afinal, nasceu exatamente disso: da cozinha simples, da mesa compartilhada e da comida que não precisa de endereço nobre para ser boa.
Todo ano, entre abril e maio, os botecos de Belo Horizonte viram palco. As mesas enchem cedo, os petiscos chegam caprichados e o público vira juíz. É o Comida di Buteco, um festival que começou em 2000 como três amigos numa festa de fim de ano e hoje reúne 128 bares disputando o título de melhor boteco da cidade.
Em 2026, o tema foi “verduras”, e ingredientes como couve, taioba e ora-pro-nóbis ganharam destaque em pratos que valorizam o aproveitamento da folha ou talo, encontrando sabor onde outros enxergariam sobra. Para os bares, o desafio é justamente esse: pegar um ingrediente cotidiano e transformá-lo em algo que justifique a fila do lado de fora do estabelecimento. Cada petisco custou R$40,00 e foi avaliado em quatro critérios: sabor, atendimento, temperatura da bebida e higiene. O prato valeu 70% da nota; o restante, o bar conquistou no capricho. Por trás de cada prato, há histórias de processo criativo, memória afetiva e a pergunta que todo dono de bar enfrenta: como inovar sem perder a alma do buteco?
O festival acontece espalhado pela cidade, em cada bar participante, e em cada mesa onde um cliente pede o petisco da vez e decide, com a boca cheia, se aquilo merece nota dez. Essa descentralização é o maior desafio do Comida di Buteco, porque nem todos os bares partem do mesmo ponto.
Conteúdo produzido por Bruna Ribeiro, Ester Filgueiras e Maria Eduarda Pimentel na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a orientação do professor Vinícius Borges.
