Este documento que se transforma para os teus olhos em forma de texto ou vídeo entoado era, inicialmente, um material completamente distanciado do assunto do qual lhe falarei agora. Previamente, esta crônica era uma resenha misturada com uma crítica política sobre a relação da última temporada de The Boys, série satírica americana, e o livro “Ameaça interna: psicanálise dos novos fascismo globais” do filósofo e professor na Universidade de São Paulo(USP), Vitor Safatle.
Sabe, minha querida audiência, o futebol por muito fez parte da minha vida pessoal como sonho infantil e, depois, adolescente, mas o jornalismo tomou esse espaço vazio na política que rege meu coração e não sou muito de escrever sobre os 22 homens, a bola e as suas batalhas medievais por vitórias esportivas, financeiras e descomunais. Isso dito, vamos falar da convocação controversa.
O futebol é, sim, o esporte mais popular do mundo e do Brasil. E, sim, ele foi convocado. O jogador com mais gols na história da seleção (79), centro das maiores polêmicas do esporte bretão brasileiro nos últimos anos e protagonista da pergunta fixa dos programas esportivos em pelo menos dois anos: “ele vai pra copa?”. Neymar Jr. não é um santo, disso já sabemos. Esportivamente, é claro, está em discussões e continuará lá, se ele merecia lugar nos seletos nomes que nos representarão no país do autocrata alaranjado.
Porém, mentiria (e não gosto de mentir pra mim, muito menos para os meu leitores) se dissesse que não comemorei instintivamente o nome dele quando ouvi pelos lábios do nosso querido italiano fumante, Carlo Ancelotti: “Neymar Júnior, Santos”. O craque da Vila, estrela mundial no Barcelona e rei dos compilados de YouTube no PSG não é só um adulto mimado, mas também não é um exemplo de atleta perfeito. Existem atletas perfeitos? Pois é.
Não me confundam, querida audiência, como um paspalho fã de carteirinha do nosso infiel protagonista, mas parte de alguns de nós desejava a última chance. A narrativa pede para entregar a quarta chance ao homem, cis, hétero, infiel, égolatra, trilhonário, eleitor modinha de um político modinha e também um atleta fraco em campo nesse último ciclo. Lesionado torto e à direita, com as polêmicas de sempre e com duras críticas (necessárias) à sua postura como figura pública. Claramente isso diz muito sobre nós como povo, nação e humanos. Só que o futebol, assim como a vida, não é muito justo, e ele tem mais uma chance de coroar um cara que me questiono se merecia.
O ator principal do longa da Copa do Mundo de 2026 não é Neymar Júnior. Na verdade, o ator principal desta Copa é a nossa consciência. Mais quatro anos se passaram e o país caminha para aquele lugar de sempre: “e aí… para onde a gente vai?”. Neymar vai ter a chance de responder para onde ele vai. Pode ser o herói falho subestimado pelos críticos ou o vilão dos defensores entusiasmados pelo menino que não virou rei. Receio que a vilania virá rodeada de desculpas esfarrapadas e meias-culpas, contudo, torço pelo arco heróico.
Não sou de escrever muito sobre futebol justamente porque não gasto muito do meu tempo assistindo às partidas. Não me entendam mal, para mim é um esporte mundial do qual já fui apaixonado (e talvez, hoje, mais um fruto fracassado), só que a paixão cega se perdeu pelo caminho. Tenho me ocupado mais de questões que considero superiores pelo meu ego intelectual, mas, será que são superiores? Será que política, cultura e sociedade são realmente superiores ao futebol? Difícil responder, para ser sincero, porque seria meio perigoso para a minha profissão, mas concluiria com uma visão um pouco mais fabular.
O futebol, me parece, é uma representação das batalhas que lutamos dia e noite, entretanto, também das alegrias que o nosso povo, em especial, sabe comemorar. A cerveja vai ser aberta com mais facilidade com esse debate fervoroso por aí nas ruas. Não dormiríamos tranquilos sem ter fé em um herói caído, um homem terrivelmente falho e que talvez represente todas as minhas contradições em uma coisa só. De novo, as assumo com hombridade e reconheço seus problemas, mas memórias infantis a gente não esconde, a gente ironiza e transforma em crônica.
Minha torcida não vai pra ele, vai para a seleção, pro Endrick, pro Vini, pro Cunha, pro Rayan, mas, principalmente, para nós como nação. Não só ao jogar no país egocêntrico, no Canadá ou no México, mas uma torcida efusiva para que, aqui em casa, a gente não dê a mesma chance a homens que querem destruir a seleção de regras que a democracia criou. Não se surpreenda, leitor: os influencers metidos a deputados já tentam capturar essa convocação para transformá-la em pauta política. Isso nos mostra com o que eles realmente estão preocupados.
Acima disso tudo, que a gente possa reconhecer que os ideais que nos guiam são ideais, eles não são a representação perfeita de algo que pode se tornar real. Somos falhos, somos contraditórios, somos indivíduos lotados de paradoxos que só se sustentam de pé na nossa sede por ser feliz.
Neymar pode calar a boca de uma galera, inclusive a minha. Pode fazer tudo e mais um pouco como pode fazer nada e mais nada. A gente, como povo, não tem escolha, a gente carece de imaginar novos heróis seja no ciclo da seleção, seja na reconstrução da República. Mesmo que os heróis estejam mais imaginários do que a existência da consciência dos atuais.
Precisamos imaginar novos futuros possíveis longe desse passado nostálgico, falho e angustiante que teima em nos perseguir. Agora, não existe desculpa, temos uma Copa do Mundo a vencer e um país para unir. Eu não me preocupo muito com a possibilidade de ser taxado de incoerente, porque, afinal, é nos erros que a gente aprende, só espero que as decisões que tomar até o fim da minha vida possam marcar algum gol na história de um país com tantas contradições.
Se este texto ainda tem força para se contradizer mais, faço uma aposta de que ele envelheceu mal. Pouco tempo depois das primeiras palavras serem ditas por aqui, Neymar já havia se mostrado indefensável pela quinquagésima vez seguida. Ele publicou nas suas mídias sociais, em seguida à convocação, um link da plataforma de apostas que o patrocina. Chega a ser um escárnio na cara de qualquer um que tenta, minimamente, se empolgar com o seu nome na lista de convocados. Nada de Deus, pátria, família ou foto agradecendo. Ele escolheu de novo o irracional tigrinho e nós, como vamos escolher?
Talvez o texto que era para vocês estarem lendo e ouvindo fosse mais engrandecedor para o meu super-ego que insiste em se imaginar um jornalista excêntrico e especial. Todavia, sinto que essa crônica caminhou por um lugar que me torna ainda mais feliz do que acho que seria se fosse uma crítica rebuscada sobre The Boys como representação artística da ascensão dos novos fascismo globais em uma relação com o livro de Safatle. Neymar provavelmente não trombaria com aquele texto, nem com este. O alcance dos dois provavelmente será o mesmo, mas a minha metamorfose pessoal respira aliviada. Assim como respirei quando lembrei daquele garoto ainda com intenções futebolísticas comemorando o gol de Neymar contra a Croácia, imaginando um fim melhor do que tivemos. Na copa, na República e na vida.
É isso, camaradas. Vai Brasil! Que o futebol possa nos proporcionar mais alegria do que esses sujeitos feito atletas da milícia, do cinema impopular brasileiro e da história sanguinária que este país insiste em tentar esquecer. Consciência, minha querida protagonista, jogue com responsabilidade nos estádios e nas urnas mas, essencialmente, na história do Brasil.
