Luiz Eduardo Schechtel, conhecido como Dudu Graffite, é radialista, apresentador e comunicador com forte atuação em Minas Gerais, especialmente em Belo Horizonte. Iniciou sua carreira ainda jovem no rádio e se consolidou como um dos principais nomes da comunicação mineira, sendo criador e apresentador do programa Graffite, atualmente transmitido pela Rádio 98 FM.
Formado na prática da comunicação, construiu uma trajetória marcada pelo humor, improviso e forte conexão com o público, além de passagens pela televisão em emissoras como a TV Alterosa. Também teve atuação no meio musical como vocalista da banda Easy Rider, ampliando sua presença no cenário artístico. Torcedor declarado do Clube Atlético Mineiro, é apontado como criador do termo “Galo Doido”, símbolo marcante da torcida. Casado com Tatiana Barra Schechtel, Dudu frequentemente destaca a importância da família em sua vida pessoal. Ao longo de sua carreira, consolidou-se como uma figura emblemática da cultura popular mineira, mantendo relevância por décadas e sendo reconhecido pelo estilo irreverente e autêntico.
Luiz Eduardo nunca teve uma vida fácil. Nascido em 1969, em Ponta Grossa, no Paraná, ele se mudou com seus pais para Minas Gerais aos dois anos de idade, e, após uma separação, sua mãe, sem condições financeiras, o doou para uma amiga, Dona Conceição. Viveu em Betim nos primeiros anos de terra mineira e, em 1975, se mudou para Belo Horizonte, morando no bairo Nova Gameleira. Como os tios de Dona Conceição se mudaram para Praia Grande, SP, em 1978, ela teve de se mudar, levando Dudu. Eles voltaram à capital mineira em 1981, após o falecimento de um familiar. Depois disso, Dudu nunca mais saiu de Belo Horizonte. Começava, de fato, uma relação de amor com a cidade.
O Dudu Graffite da televisão, o “Galo Doido” conhecido pela torcida, e o homem fora das câmeras convivem com poucas diferenças. Afinal, quem é Dudu Graffite quando as câmeras se desligam? “É o mesmo, apenas faço o meu papel de pai e acho que faço muito bem”, diz Dudu rindo, pois para ele, continua o mesmo, apenas com o diferencial no cuidado de sua família. Perguntado sobre ele, entramos no mundo do futebol, e quando começou a sua relação com o esporte. O começo dessa relação não veio de um momento isolado, mas de uma experiência que ele guarda com precisão.
1977
Foi quando entrou no Mineirão pela primeira vez junto de suas mães, Dudu costuma contar que teve “duas mães” Uma de sangue, Glória, e a outra, Dona Conceição, para quem Dudu havia sido doado. Foram elas que o levaram ao estádio naquele primeiro contato com o futebol. “Começou com minhas mães, sim, eu tive duas. Indo ao Mineirão pela primeira vez em 1977, e hoje meus filhos participam junto comigo, indo ao estádio ou não”. Hoje, anos depois, a relação com o futebol continua atravessando a vida familiar. Só que agora de outro jeito, os filhos participam. Acompanham. Vivem aquilo junto com ele. Com o tempo, aquilo que começou como paixão também virou lente e Dudu aprendeu que o futebol não ensina só sobre o jogo, ensina sobre a vida. Dudu Graffite: De torcedor para personagem
“O futebol e o Galo me ensinaram que a vida é uma batalha constante, com altos e baixos, e que nunca se deve abandonar aquilo em que você realmente acredita”
Dudu Graffite
O Noite de Galo não nasceu de um plano grandioso
Surge um novo programa da torcida atleticana, Noite de Galo, transmitido toda segunda-feira às 21 horas no Youtube da 7Tv, e Dudu fala desse momento com respeito claro ao mencionar os nomes de quem esteve envolvido no início do projeto. “Me senti honrado, e isso mostra que tenho o respeito tanto dos mais novos quanto da velha guarda”, brinca Dudu, citando os atuais e os mais antigos torcedores.
Frossard e Fael aparecem na fala dele como figuras importantes nesse processo. Guilherme Frossard, setorista do Atlético Mineiro, que tem seu próprio canal no youtube, somando cerca de 71,5 mil seguidores, e 107 mil no instagram. E Rafael Lima (Fael), setorista do Atlético e atual torcedor que defende a bancada democrática no Alterosa Esporte, cargo antes ocupado por Dudu. Fael tem seu canal no youtube, que conta com 150 mil seguidores, além do seu perfil no Instagram com 340 mil seguidores. Profissionais que confiaram na ideia antes mesmo de ela ganhar forma completa.
Mas, como acontece em muitos projetos ligados ao futebol, o crescimento não foi totalmente controlado, veio junto com a resposta do público. E, com ela, uma percepção que ele faz questão de relativizar quando perguntado sobre como ser o símbolo do Galo para a torcida e se isso pesa para ele. “Não sou símbolo para todos os torcedores e torcedoras, mas ao que lembram do meu empenho no Alterosa Esporte. Ninguém faz sucesso público e alcança os objetivos sozinhos. Sem a torcida do Galo não existiria o Dudu Galo Doido”. Dudu evita se colocar em um lugar absoluto dentro da torcida. Reconhece que existe identificação com parte do público — especialmente de quem acompanhava seu trabalho no Alterosa Esporte —, mas não transforma isso em unanimidade.
Ao mesmo tempo, deixa claro que nada disso existiria sem a própria torcida. “Sem o torcedor do Galo, não existiria o Dudu Galo Doido.” A construção da imagem, para ele, nunca foi individual, é coletiva. Dentro do Noite de Galo, existe uma preocupação constante em não deixar o conteúdo cair no automático, Dudu não fala em grandes estratégias ou formatos revolucionários. O caminho que ele descreve é mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de sustentar. Análise e bom humor.
Dou minha parte na análise de futebol e bom humor. O humor vai salvar o mundo que insiste em não sorrir ”
A frase carrega um pouco do tom que ele leva para o programa. Mesmo quando o momento do clube não é bom, existe a tentativa de manter leveza, porque, para ele, falar de futebol também é saber como falar.
A paixão pelo Atlético não tem origem exata
“Não existe fórmula de como essa paixão aconteceu, mas desde a primeira vez que o vi em campo e vi a Massa – apelido da torcida atleticana – sabia que era para sempre”, diz. Foi ali que algo se definiu, sem explicação detalhada, sem construção lógica. Apenas a sensação de que aquilo seria permanente. Dentro dessa relação, um episódio específico ajudou a marcar não só a trajetória dele, mas também um dos termos mais conhecidos ligados ao clube.
1987
O Atlético perdia por 2 a 0 para o Flamengo, até que conseguiu empatar no segundo tempo. E, no meio da reação, veio o grito: O Galo é muito doido! E assim repetindo “O Galo é doido demais!”
A junção das frases acabou criando algo maior: Galo Doido.
“Em um jogo em 1987 o Galo perdia por 2×0 e no segundo tempo empatou. E eu comecei a gritar O Galo é muito doido, O Galo é doido demais, Galo Doido. E é doido mesmo”, ele diz, rindo. A expressão atravessou o tempo, ganhou força e hoje faz parte da identidade do clube e da torcida. Além disso, o atual mascote do clube tem seu nome em homenagem a fala de Dudu, o “Galo Doido”. Ele ainda diz que o sorriso lateral foi para chamar a atenção das crianças.
“Inclusive, o sorriso lateral do Galo Doido é para trazer as crianças para perto dele, e por isso ele é o mascote mais amado do Brasil”, diz Dudu, sempre lembrando que o mascote foi uma doação que ele fez para o clube, e que não cobrou nada disso: “O Galo Doido foi uma doação que eu fiz para o Atlético, eu não cobrei nada, eu fiz para o Galo”. Quando questionado se ir ao estádio ainda é essencial, mesmo em um mundo sendo tomado pelo digital, Dudu disse: “Não tem como fugir do digital. Ir ao estádio é essencial sempre. Hoje o Instituto Galo está com um projeto excelente para quem não tem acesso ao digital poder ir ao campo e com ingresso bem mais barato”
Ao mesmo tempo que Dudu diz que não tem como fugir do digital, ele observa iniciativas que tentam ampliar esse acesso, como projetos voltados a quem não consegue acompanhar o futebol pelos meios digitais ou financeiros. Ao longo da carreira perto do clube ele acumulou coberturas importantes, entretanto fez uma distinção interessante. “Em jogo do Galo, eu sou torcedor.” A fala quebra, de certa forma, a ideia clássica de distanciamento jornalístico. Mostra que, no caso dele, as duas coisas coexistem. Ainda assim, entre os eventos que mais marcaram, ele destaca um fora do universo direto do clube. A Copa do Mundo de 2010, que ele cobriu para a MTV Minas. De acordo com Dudu, foi um marco profissional.
“Foi um momento muito marcante, pois eu sempre cobri jogos do Galo, meu time de coração, porém cobrir a seleção através da MTV foi um prazer. Ali eu pude também conhecer um pouco da África do Sul”. Já quando o assunto é dentro do clube, Dudu tem várias histórias marcantes.A primeira foi uma entrevista em estilo podcast, gravado dentro do Mineirão para a rádio 98, na época da pandemia em 2020. Nessa ocasião, Dudu teve a oportunidade de conversar com Ronaldinho Gaúcho e Dadá Maravilha.
“Foi inesquecível, Ronaldinho um dos maiores ídolos da história do Galo, todo humilde, conversando numa boa e dando atenção para todo mundo, e Dadá um craque dentro e fora de campo, que eu tive o prazer de substituir no Alterosa Esporte”. A segunda ocasião foi na final da copa Sul-Americana 2025, disputada entre Atlético Mineiro e Lanús, que Dudu teve o privilégio de cantar o hino do clube. “Cantar o hino do clube com a nossa torcida foi um convite que eu fiquei muito honrado e emocionado. Infelizmente perdemos aquele jogo, senão eu ia contar muito mais coisas de bastidores, mas o Galo não deixou” diz Dudu no sentido de o clube não ganhar, o que impossibilitou o pós jogo com a festa. Ele ainda disse “Quando fui apresentado junto com a banda escolhida pelo Lanús para se apresentar junto comigo eles não foram muito receptivos. Mas eu disse a eles: Dios los bendiga – traduzido Deus abençoe vocês – e aí me pediram até para tirar foto”, disse Dudu rindo da situação.
Fora dos campos, Dudu sempre relata sobre sua entrevista memorável com o grupo Mamonas Assassinas, e como eles estavam construindo uma boa amizade: “Tive a oportunidade de conversar com os Mamonas e me marcou muito, porque sempre tocava música deles no programa, e aí conseguiram organizar de eles virem ao Graffite. E eu me identifiquei muito com o Dinho – vocalista da banda – tínhamos o péssimo hábito de fumar, e em uma ocasião ficamos conversando demais, falando sobre nossa vida, falei sobre minha banda, ele falou sobre a banda deles, contando histórias um para o outro, foi um momento inesquecível e que para sempre guardarei”. Dudu chegou a relatar que eles estavam organizando uma segunda vinda do grupo para o Graffite, mas não foi possível por questões de segurança.
O futuro não aparece como um plano fechado
Dudu, quando questionado sobre o futuro, fala com naturalidade “Vivo minha profissão e sempre esperando pelos próximos desafios”. E para quem pensa em seguir o mesmo caminho, o conselho vem direto “Tenha muita certeza de que realmente é a sua profissão que você quer mesmo para sua vida! Tendo a certeza, você pode encarar todos os obstáculos e seguir feliz com a sua escolha” segundo ele, só assim dá para enfrentar o que vem pela frente.
No fim, o Dudu Graffite que muita gente vê na TV ou nas redes não é muito diferente do que existe fora das câmeras. A mesma paixão, o mesmo jeito direto e até o mesmo bom humor continuam ali. A diferença é que, longe da arquibancada e dos programas, ele só segue sendo quem sempre foi — alguém que vive o futebol de verdade, sem forçar personagem. E talvez seja justamente isso que faz com que tanta gente ainda se identifique com ele: não é só sobre o Galo, é sobre acreditar, insistir e continuar ali, independente do momento.
Este perfil foi produzido por Bernardo Salviano, Gustavo Mattar e João Murta, sob supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges na disciplina Apuração, Redação e Entrevista.
Leia mais
Guilherme Frossard: o jornalista referência quando o assunto é Galo
