Presente em diferentes gerações, o crochê atravessa o tempo sem perder espaço. O que durante décadas foi associado às avós e aos trabalhos manuais realizados dentro de casa ganhou novos significados entre os jovens das gerações Z, nascidos entre 1997 e 2012, e Alfa, formada por pessoas nascidas a partir de 2010. Mais do que um passatempo, a técnica artesanal passou a representar uma forma de expressão criativa, conexão social e oportunidade de empreendedorismo.
Feito a partir do entrelaçamento de fios com uma agulha de gancho, o crochê permite a criação de peças que vão desde roupas e acessórios até itens de decoração. A prática, que carrega uma forte herança familiar, encontrou nas redes sociais um ambiente fértil para se reinventar e alcançar novos públicos.
Quando Bárbara Neto, de 23 anos, observava a avó, Marlene, passar horas entre novelos de linha e agulhas de crochê, não imaginava que aquele hábito familiar se transformaria, alguns anos depois, em sua principal fonte de renda. Durante a pandemia, enquanto cursava o terceiro ano do ensino médio, ela decidiu aprender a técnica que acompanhava sua rotina desde a infância. Um processo marcado por erros, tentativas frustradas e muita persistência.
Eu queria aprender tudo muito rápido. Fazia, errava, desmanchava e começava de novo”.
Nos momentos em que pensava em desistir, a avó repetia uma frase que se tornou símbolo de sua trajetória: “Muita ‘carma’ nessa hora”. O que começou como passatempo acabou se transformando em profissão. Hoje, Bárbara administra um negócio digital voltado para o ensino do crochê e chega a faturar cerca de R$ 15 mil por mês com a venda de receitas e cursos online (este último, uma prática bastante difundida no universo do marketing digital por especialistas que inundam Tiktok e YouTube de videoaulas).
Uma história que não é exceção. Em diferentes regiões do país, jovens das gerações Z e Alfa vêm ressignificando uma prática historicamente associada aos avós e aos ambientes domésticos.
Uma tradição que passa gerações
Embora o crescimento recente do crochê pareça um novo fenômeno, especialistas afirmam que essa atividade nunca desapareceu. Segundo Dayhana Nicoleti, empresária e coordenadora da Feira de Malhas de Jacutinga, o crochê apenas encontrou novas formas de se conectar com o público contemporâneo.
O crochê nunca saiu de cena. Hoje, ele se reinventou”
Ela explica que a técnica chegou ao Brasil por influência europeia e, durante décadas, esteve ligada ao ambiente doméstico. Era uma atividade realizada principalmente por mulheres, muitas vezes como complemento da renda familiar. Por isso, a imagem do crochê ficou associada às avós e às gerações mais velhas. Mas isso começou a mudar. “O consumidor jovem procura consumir de forma mais consciente, sustentável e produtos que tenham história. O crochê se encaixa em tudo isso”, destaca Dayhana Nicoleti.
A valorização do artesanal também se reflete nos números. Segundo dados da Carteira Nacional do Artesão divulgados pelo Sebrae, Belo Horizonte reúne cerca de 1.850 pequenos negócios ligados ao artesanato. Em Minas Gerais, o setor movimenta a economia e gera renda para milhares de famílias.
O estado soma mais de 19 mil profissionais formalizados como microempreendedores individuais (MEI) e 11.870 Carteiras do Artesão emitidas, evidenciando o avanço da profissionalização do setor e o fortalecimento da atividade como fonte de renda e empreendedorismo.
Mídias sociais como porta de divulgação
Se antes o crochê era passado de geração em geração dentro de casa, hoje ele também circula por vídeos de poucos segundos nas redes sociais. Foi nesse ambiente que Bárbara descobriu uma nova oportunidade de negócio. Ela utilizava o TikTok para divulgar suas peças e atrair compradores, mas percebeu que a maior parte dos comentários vinha de outras crocheteiras interessadas em entender como os produtos eram feitos.
“Quando eu postava minhas peças, as pessoas perguntavam: “qual é a receita?”, “como você fez?”. E eu ficava brava porque as clientes que eu estava conseguindo eram minhas colegas de trabalho ou minhas concorrentes”, conta.
A insistência do público acabou revelando para a crocheteira um novo mercado. Ao invés de vender apenas as peças prontas, Bárbara passou a vender as ‘receitas de crochê’, um documento que ensina, passo a passo, como reproduzir uma peça. O modelo já existia em revistas especializadas, mas a internet ampliou seu alcance. Com presença nas redes sociais e em plataformas digitais, Bárbara conseguiu expandir o público e alavancar o negócio.
“Hoje você cria um canal e vende sua receita para qualquer pessoa. Sempre existiu, mas agora ficou muito mais acessível”, explica a especialista em moda.
A receita de crochê
A primeira experiência de Bárbara foi simples, ela disponibilizou cerca de 30 receitas por R$15 cada. O retorno positivo mostrou que havia espaço para algo maior, e foi a partir desse movimento que ela percebeu que o seu principal negócio não estava na produção artesanal.
Ela começou a estruturar vídeos mais completos, com explicações detalhadas sobre modelagem, medidas e construção das peças. O conteúdo evoluiu para uma plataforma própria de ensino. “Eu tinha muita dificuldade para assistir vídeos de crochê. Achava tudo cansativo e mal explicado, foi daí que surgiu a ideia de criar algo diferente”, afirma.
Hoje, cada peça funciona como um curso, um vestido, por exemplo, é dividido em módulos que explicam desde a construção da saia até os ajustes de modelagem. Em 2024, a plataforma já reunia mais de 500 alunos.
O que antes era apenas um passatempo que aprendeu com a avó foi se transformando em um negócio digital capaz de gerar faturamentos mensais entre R$18 mil e R$25 mil nos períodos mais aquecidos do ano.
Da escola para o novo modo de empreender
A trajetória da artesã Natália Carvalho também começou cedo, ainda adolescente, por volta dos 13 anos, ela produzia toucas e acessórios para vender aos colegas da escola. “Eu aparecia com uma touca que tinha feito e as pessoas gostavam. Começavam a pedir encomendas, então tudo foi acontecendo muito no boca a boca”, lembra. Apesar de vender suas criações há anos, a profissionalização veio apenas em 2024, quando decidiu criar um perfil dedicado exclusivamente ao crochê.
Se as mídias sociais ampliaram as oportunidades, elas também trouxeram um desafio para os artesãos: a valorização do trabalho manual. Natália calcula seus preços considerando materiais, horas de produção e margem de lucro. Ela utiliza até cronômetros que registram o tempo gasto em cada peça. “Muitas pessoas não sabem como precificar o próprio trabalho. Eu contabilizo o tempo investido e estabeleço um valor por hora de produção.”
O trabalho exige movimentos repetitivos, longos períodos de concentração e impactos físicos que nem sempre são percebidos pelos consumidores. Para Dayhana Nicolety, o mercado vem mudando a forma como enxerga esses produtos.
Hoje, as pessoas valorizam mais o feito à mão. Elas procuram algo personalizado, algo que tenha história e identidade.”
Reportagem de Isadora Vianna Ribeiro. Parceria entre o Colab e o portal
