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Dependência das bets pode prejudicar futuro financeiro do futebol

Anna Tolipova/freepik.com

Nos últimos cinco anos, o futebol brasileiro teve uma mudança significativa em sua estrutura de financiamento. Um dos principais motores dessa mudança é o crescimento acelerado das casas de apostas esportivas, que vêm se consolidando como protagonistas no patrocínio de clubes. 

De acordo com dados recentes publicados pela BBC, o Brasil ocupa atualmente a 5ª posição no ranking mundial de apostas esportivas, evidenciando o tamanho e o potencial desse mercado no país. Esse crescimento não se limita ao consumo, ele também se reflete diretamente na economia do esporte. 

Uma das manifestações mais visíveis dessa expansão está nas camisas dos clubes. Levantamento divulgado pelo G1 mostra a maioria das equipes da Série A do Campeonato Brasileiro sendo patrocinadas por casas de apostas, muitas delas ocupando o espaço mais valorizado, o patrocínio máster. 

Patrocínio máster é o principal patrocínio do Clube 

Segundo estudo da Jambo Sport Business, os valores envolvidos cresceram de forma exponencial. Em 2023, os patrocínios máster dos clubes brasileiros somavam cerca de R$ 496 milhões. Já em 2025, esse número é maior que R$ 1,117 bilhão, representando um aumento de aproximadamente 125% em apenas dois anos. 

O levantamento considera os clubes da Série A, com exceção de Athletico-PR e Coritiba, que disputaram a Série B em 2025, sendo substituídos por outras equipes para fins de análise. Entre os clubes, o destaque é o Flamengo, que possui o maior contrato de patrocínio máster do país. O clube carioca recebeu cerca de R$ 268 milhões em 2025 de uma única empresa de apostas, o maior valor já registrado na história do futebol brasileiro. 

Bets dominam as camisas 

Abaixo, um infográfico de 2023 a 2025 mostrando os patrocínios máster do futebol brasileiro e os cinco maiores beneficiados com valores de casas de aposta:

Flamengo é o time que mais arrecada com casas de apostas no Brasil, sendo também o time que mais arrecada no futebol, segundo levantamento de 2025 feito pela Sports Value, o rubro-negro carioca arrecadou R$5,1 bilhão.  

Apesar dos benefícios financeiros imediatos, especialistas alertam para os riscos de uma dependência excessiva desse mercado. Para o economista Fabrício Misso, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os clubes brasileiros precisam evitar que as casas de apostas se tornem a principal fonte de financiamento em suas atividades. Isso porque quando uma única atividade econômica passa a concentrar grande parte das receitas de patrocínio, aumenta a vulnerabilidade diante de mudanças regulatórias, econômicas ou até mesmo de imagem do setor. “A situação é semelhante à de economias excessivamente dependentes de uma única commodity. Enquanto os recursos entram, tudo parece funcionar bem; quando o ciclo muda, a vulnerabilidade aparece”, explica o economista. 

Nesse cenário, uma eventual regulamentação mais rígida ou uma redução dos investimentos das empresas de apostas poderia gerar impactos significativos para clubes que estruturaram seus orçamentos contando com a continuidade desse fluxo de recursos. As consequências poderiam incluir cortes em contratações, investimentos em infraestrutura e até nas categorias de base. 

Fabrício Misso destaca, porém, que o problema não está na regulamentação em si, mas na concentração das receitas. Para ele, clubes financeiramente saudáveis devem buscar diversificar suas fontes de renda, combinando patrocínios, direitos de transmissão, programas de sócio-torcedor, bilheteria, licenciamento de produtos e formação de atletas. 

Modelo de financiamento insustentável

A discussão também envolve a sustentabilidade do atual modelo de financiamento do futebol brasileiro. As casas de apostas movimentam bilhões de reais, estão presentes em praticamente todos os grandes clubes do país, mas o economista evita classificar o fenômeno como uma bolha econômica. Ainda assim, ele demonstra preocupação com o que chama de um modelo com “alto grau de financeirização e baixa materialidade”. 

Na avaliação do professor, diferentemente de setores que geram infraestrutura, inovação ou ganhos de produtividade, as apostas produzem poucos efeitos duradouros para a economia e para o próprio esporte. “O dinheiro circula, mas deixa pouco para trás”, afirma. 

Misso defende que as bets sejam vistas como uma fonte complementar de recursos, e não como o principal pilar de sustentação do futebol brasileiro. Para que o setor se consolide de forma responsável, ele considera fundamental a adoção de mecanismos de proteção social, como programas de educação financeira, combate ao jogo compulsivo e prevenção ao superendividamento. 

Enquanto os clubes comemoram receitas recordes vindas das casas de apostas, o debate sobre os impactos econômicos e sociais desse modelo segue aberto. O desafio, segundo especialistas, será encontrar um equilíbrio entre os ganhos financeiros proporcionados pelas bets e a construção de um futebol economicamente sustentável no longo prazo.

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