Política mineira permanece “cinza” diante da pseudopolariazação nacional
Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Liberal (PL) estão entre as três maiores legendas com representação na casa. O PT divide a primeira colocação com o PSD, com 14 representantes cada. E o PL aparece em terceiro, com 12 parlamentares. Esses números podem parecer condizentes com a polarização nacional, mas especialistas apontam que o cenário mineiro se mantém cinza, ou seja, numa zona mais complexa e distante da aparente polarização nacional.
Em pesquisa realizada entre os dias 12 e 15 de junho de 2026 pelo Datatempo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida eleitoral para a Presidência da República em Minas Gerais em todos os cenários do primeiro e segundo turnos testados.
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 6 de maio, Lula também sai à frente nas intenções de voto em Minas, com 33%, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com 27%, e Romeu Zema (Novo), com 11%.
Em contraponto, mesmo sendo o segundo maior colégio eleitoral do país e faltando três meses para as eleições, Minas Gerais segue sem definição de candidatos para governador. “Minas Gerais é uma incógnita. É muito estranho o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com menos de três meses para a eleição não ter candidatos de peso. O eleitor mineiro está sem um forte candidato para essas eleições”, avalia o doutor em ciência política, professor e pesquisador de comunicação política da UFJF Paulo Roberto Figueira Leal.
O atual cenário mineiro não condiz com o histórico do estado, que tradicionalmente teve o PT como cabeça de chapa e condições de disputa em cargos majoritários. Fernando Pimentel (PT) foi governador de Minas Gerais por dois mandatos seguidos. Outro exemplo da força petista no estado é a ex-prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), que acumulou ao longo da trajetória quatro mandatos à frente do município, saindo em março de 2026 para a pré-candidatura ao Senado.
Para a pesquisadora Érica Anita, doutora em ciência política, a indecisão da disputa pelo Governo de Minas não tem relação com a polarização. Vem de um pragmatismo que busca não queimar figuras importantes dos partidos. “Tem muito mais a ver com o posicionamento estratégico, de testar cenários até o momento em que for possível. Por exemplo, Marília Campos. Quando testada ao Senado, ela vai muito bem. Quando testada para o Governo do Estado, ela não vai tão bem assim. É um nome possível, mas talvez precise ser mais trabalhado. Então, acho que eles vão testar até o momento que for possível. Eu vejo isso muito mais como um pragmatismo do que algo relacionado à polarização”.
Em contraponto, nas eleições de 2022, apesar de perder a Presidência para o PT, o PL conseguiu um feito, e o deputado federal mais votado da história do Brasil passou a ser mineiro e filiado ao PL. Nikolas Ferreira desponta no cenário político nacional, sendo apoiador ferrenho de Bolsonaro. Juntamente com Bruno Engler (PL), que ficou na segunda colocação na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, é provável apoiador de uma candidatura do senador Cleitinho (Republicanos-MG), caso venha a se confirmar, ao governo estadual.
O Brasil é mesmo polarizado?
Se o Brasil é supostamente tão polarizado politicamente, por que isso acontece? No livro Brasil em Espelho, o cientista político Felipe Nunes afirma que no Brasil de hoje, os rótulos “esquerda” ou “direita” não estão presentes só na hora de votar, mas perpassam questões de convivência familiar, amizades e até relacionamentos amorosos, formando assim uma polarização calcificada. Em pesquisa feita para o livro, o autor fez um levantamento, com brasileiros sendo perguntados onde se encontram em uma escala de posicionamento ideológico, com 37% se identificando como centro, 36% como direita e os 23% restantes se posicionando como de esquerda, concluindo assim que a sociedade brasileira é menos binária e mais paradoxal do que supõem as narrativas da polarização.
Para o cientista político e professor da UFJF Paulo Roberto Figueira Leal, a expressão “polarização”, no seu sentido mais literal, dá conta de pontos que são simetricamente distantes de um terceiro ponto.
“O polo norte e o polo sul do nosso globo estão igualmente distantes, simetricamente distantes do equador. Portanto, o sentido mais literal de polarização é algo que está nos polos”, afirma.
Essa exemplificação de dois polos que são simétricos, equidistantes do centro, não é a realidade da política brasileira ao longo das últimas décadas. A polarização atual não acontece entre extrema-esquerda e extrema-direita, a polarização é entre uma centro-esquerda com a extrema-direita, o que fez com que alguns cientistas políticos a nomeassem de polarização assimétrica.
Quando se fala sobre posições políticas (como direita, esquerda, extrema-direita e extrema-esquerda), são apenas posições ideais. Na realidade, existem inúmeras posições intermediárias.
Portanto, para Paulo Roberto “a expressão que a gente usa, direita, esquerda, não é capaz de dar conta, com um grau de homogeneidade total, das muitas diferentes posições que cabem em cada uma dessas partes do espectro. E, fundamentalmente, pessoas podem ter posições à esquerda ou à direita distintas para temas distintos. Pode ser conservador nos costumes e ter uma perspectiva progressista na economia e vice-versa”.
A explicação condiz com o levantamento de Felipe Nunes de que existem conservadores com pautas progressistas, liberais que defendem a intervenção estatal e militantes de esquerda que acreditam em punições severas.
A transformação da disputa PT x PSDB para PT x PL
A grande disputa político-partidária do Brasil, antes da atual conjuntura, era formada pelo PT e pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). As jornadas de junho de 2013, os procedimentos que levaram ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT) e o escândalo de corrupção envolvendo a Petrobrás, empresas privadas e agentes políticos fez com que as forças de oposição produzissem uma percepção generalizada de um sistema político que estava condenado e que devia ser rejeitado.
Isso aumentou a possibilidade de sucesso de forças políticas que tinham narrativa disruptiva e que se apresentavam como antipolíticas. “Foi assim que surgiu o bolsonarismo. Mesmo com Bolsonaro e sua família vivendo da política há décadas, ele construiu sobre si uma narrativa antissistêmica, antipolítica, produzindo falas que nenhum político seria levado a sério, produzindo choque na opinião pública, a partir do elogio de torturadores, por exemplo. Ele sinalizou uma capacidade de vender-se como um outsider, mesmo que não fosse, que ajudou o bolsonarismo a surfar na onda da percepção da política antipolítica”, afirma o professor.
A ascensão bolsonarista se deu às custas da direita tradicional, que era quem efetivamente polarizava com o PT ao longo de 20 anos. Para Paulo Roberto, isso deixou claro que grande parte do voto do PSDB era um voto antipetista, visto que optar pelo partido era o instrumento de manifestar seu antipetismo.
O bolsonarismo recolhe essas forças, passa a ser beneficiário delas, e forja uma identidade que foi bastante inédita para o período da redemocratização brasileira, de uma extrema direita assumidamente radical. Quando Bolsonaro trocou o PSL pelo PL em 2019, após ser eleito presidente, carregou consigo o eleitorado e o movimento antipetista, fortalecendo a ideia de polarização.
No caso da ALMG, Érica Anita afirma que a disputa PT x PL interfere na forma como os deputados estaduais constroem as suas agendas. Para ela, a “polarização” impacta nas ações e nos posicionamentos, para localizar essas figuras políticas dentro dos dois grandes grupos que foram criados, que ultrapassam a ideia de PT x PL. “A gente está falando muito mais de um campo de esquerda progressista ou de centro-esquerda, e de um campo mais conservador. Então, acho que o impacto que acontece nessas agendas vem mais nesse sentido, de conseguir localizar essas figuras políticas dentro desses dois grupos mais polarizados.”
Personalização política
Paulo Roberto esclarece que a tendência de um outsider ganhar visibilidade não é exclusiva no Brasil. Desde que se instaurou a chamada personalização da política, em que a figura individual passa a ter mais peso na decisão do eleitor do que as diretrizes programáticas ou a legenda dos partidos políticos, essas figuras – como Romeu Zema, em Minas, Donald Trump, nos EUA, e o italiano Silvio Berlusconi – passam a ganhar mais espaço. Trump talvez seja o grande exemplo mundial desse fenômeno, ao cair de paraquedas na política estadunidense em 2016 e conseguir retornar à Presidência em 2024.
A dificuldade de produzir governabilidade
Essa nova forma de polarização se traduziu em maior dificuldade de produção de consensos em todas as esferas. Seja na sociedade, seja no parlamento, como defendido por Felipe Nunes em seu livro, com pesquisas que detectaram que a polarização política leva a visões distorcidas da realidade.
Pessoas podem negar um dado estatístico, um fato ou uma situação comprovável, se for desfavorável à sua crença política, contrariando valores ou sendo expostas por alguém de uma corrente política da qual ela discorda.
“É a vida em bolhas, facilitada pelas redes sociais”, afirma Felipe Nunes na obra Brasil no Espelho. O cientista político também aponta no livro que “em uma sociedade polarizada, os valores passaram a impactar não só nas urnas, mas também nas amizades, nas relações familiares e amorosas.”
A distância das posições médias entre a bancada do PL e a bancada do PT é muito maior do que a distância das posições médias entre a velha direita tradicional no Brasil e a velha esquerda tradicional no Brasil. Conforme Paulo Roberto, o fosso que separa as posições da sociedade e do parlamento aumentou, aumentando também a dificuldade de produzir consensos mínimos, a governabilidade, a virulência com que um lado olha e diz algo sobre o outro, promovendo maior dificuldade de comunicação e de repactuação mínima.
O tabuleiro político
As fórmulas e os títulos são usados para compreender a natureza e a dinâmica do jogo político no Brasil e em Minas Gerais. Não dá para falar das eleições presidenciais brasileiras, de 1989 até 2026, sem considerar a centralidade do PT, que em todas as eleições presidenciais, quando não ganhou, ficou em segundo lugar.
Com isso, este tabuleiro político se organizou em função dos afetos ou ódios em relação ao PT, com o partido sendo uma peça central, ajudando a organizar o jogo em função de quem está à direita ou à esquerda dele. As posições se tornam relacionais, e não fixas.
“Não há contradição alguma em admitir que haja algumas peças centrais que organizam o tabuleiro e perceber que, entre essas peças, à direita e à esquerda delas, há posições muito variadas que configuram um mosaico de cores. Em uma fotografia preto e branco, o que menos tem é preto e branco. Ali estão presentes infinitas tonalidades de cinza. O jogo eleitoral, o jogo político e o jogo ideológico podem ser explicados pela mesma metáfora”, conclui Paulo Roberto.
O Colab fez contato com as assessorias do PT e do PL bem como com representantes dos dois partidos em Minas, mas não teve retorno até o fechamento desta reportagem.
Conteúdo produzido por Gabriel Germano, Lucas Portugal, Mateus Alcântara, Mateus Lanna, Rafaela Zanandrez e Vinicius Passos na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão da professora e jornalista Fernanda Sanglard.
