Ícone do site Colab

Silêncio e invisibilidade: as barreiras da população surda na saúde e na educação no Brasil

Tony Alves, especialista em Libras na área da saúde e influenciador digital, utiliza as redes sociais para promover a Língua Brasileira de Sinais e conscientizar a sociedade sobre a importância da comunicação inclusiva. Foto: Gabriel Cunha – @_cunharts.

Uma falha de comunicação médica quase custou a vida do influenciador Tony Alves aos dois anos de idade. Seus pais, que são surdos, receberam orientações confusas por mímica e acabaram dando ao filho, por via oral, um remédio de uso tópico. O equívoco felizmente foi revertido a tempo, mas o episódio reflete uma realidade mais ampla e crônica no país: o descaso e as barreiras que a população surda enfrenta diante da falta de acessibilidade em setores cruciais. 

Mesmo com leis que reconhecem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e garantem o direito à comunicação acessível — como a Lei 10.436/2002 e o Decreto 5.626/2005 —, a falta de intérpretes, de profissionais capacitados e de fiscalização efetiva na administração pública transforma direitos assegurados em barreiras práticas, comprometendo o acesso à saúde, à educação e à cidadania. 

De acordo com o último Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 10 milhões de brasileiros possuem alguma dificuldade para ouvir. Pelos critérios do órgão, a deficiência auditiva severa engloba quem tem muita dificuldade ou não consegue ouvir de modo algum. No Brasil, esse grupo soma mais de 2,5 milhões de pessoas, sendo 543,8 mil totalmente surdas e pouco mais de 2 milhões com limitações graves. Outros 7,3 milhões de brasileiros declaram ter alguma dificuldade parcial para ouvir.

Concentração de pessoas com deficiência auditiva no território nacional. Destaca-se São Paulo, Minas Gerais e Pará, com mais de 3 milhões de pessoas. Fonte: IBGE – Censo 2022.

Desafios educacionais

 O isolamento educacional e social dessa comunidade ganha números ainda mais alarmantes nos registros oficiais: o Censo do IBGE revela que mais de meio milhão de brasileiros (566 mil) com deficiência auditiva são analfabetos. Esse abismo se estende quando analisado o domínio da língua de sinais. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, das mais de 10,7 milhões de pessoas com dificuldade permanente para ouvir no país, uma esmagadora maioria de 10,5 milhões não sabe usar Libras. O cenário de exclusão é severo inclusive entre aqueles que não conseguem ouvir de modo algum: das quase 198 mil pessoas nessa condição de surdez profunda, mais de 64% (126,8 mil cidadãos) não dominam a linguagem de sinais, evidenciando um histórico déficit na alfabetização e na inclusão dessa população desde o início da vida.

Das mais de 10,7 milhões de pessoas com dificuldade permanente para ouvir no Brasil, apenas 284 mil sabem usar Libras. Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional de Saúde.

A falta de preparo das escolas e o desamparo nos atendimentos públicos formam o cenário de exclusão que molda a trajetória de muitos brasileiros desde a infância. 

“A comunicação é a maior barreira (…) Parece que somos estranhos dentro do nosso próprio país”, explica Maycon Rocha Sandes, profissional surdo e digitalizador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). 

Para Sandes, as barreiras começaram cedo: ele ingressou na escola quatro meses após o início do ano letivo devido à ausência de recursos que possibilitaram sua inclusão. No ambiente escolar, a dependência constante da mediação de intérpretes limitava sua convivência. Ele destaca que a verdadeira acessibilidade não deve se restringir à presença desse profissional, mas envolver todos, desde a portaria até o atendimento especializado. 

Das 8,4 milhões de pessoas com alguma dificuldade auditiva, menos de 2% conhecem Libras. Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional de Saúde.

A ausência de um modelo bilíngue transforma as salas de aula em ambientes de isolamento. Maria Isabel Martins, intérprete e estudante de Letras Libras na Universidade de Minas Gerais (UFMG), compartilha uma faceta grave desse cenário ao relatar o caso de uma criança surda de 10 anos que, mesmo sem saber ler, continua sendo aprovada automaticamente pelas instituições. “Os alunos não acompanham, não participam, não interagem. Isso leva à evasão escolar”, alerta. 

Essa falta de acessibilidade acompanhou também a trajetória da professora de Libras e digitalizadora Natália Rodrigues Martins. Surda profunda, ela estudou inicialmente em uma sala sem nenhuma adaptação, sendo a única surda entre ouvintes. Contou com o apoio de um professor que reservava momentos pós-aula para auxiliá-la, mas a realidade mudou no quarto ano: com outro docente e sem suporte, ela precisou “se virar” sozinha. 

Natália, que só descobriu a comunidade surda e sua própria identidade aos 14 anos, enfrentou sérios problemas também no ensino superior. Durante a faculdade de Sistemas de Informação, a falta de preparo dos intérpretes fez com que ela e muitos colegas se sentissem perdidos, levando vários a cogitarem o abandono do curso. Diante das dificuldades, ela também estudou no curso de Letras Libras, onde encontrou um ambiente bilíngue adequado. 

Ao analisar o contexto nacional, os surdos reforçam que a principal dificuldade na educação sempre foi a falta de comunicação e o despreparo das instituições e dos professores. 

Mesmo entre as pessoas com surdez profunda, a maioria não domina a língua de sinais. Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional de Saúde.

Para Natália, continuar estudando também se tornou uma forma de representar e incentivar outras pessoas surdas. Ela acredita que a educação é uma ferramenta de autonomia e que sua trajetória pode mostrar que pessoas surdas são capazes de conquistar seus objetivos. “O principal motivo para eu querer continuar é dar exemplo para outros surdos. Mostrar que a gente tem capacidade, que a gente consegue ser independente”, afirma. 

Ao falar com outras pessoas surdas que desejam ingressar no ensino superior, Natália reforça a importância de persistir mesmo diante das dificuldades. Para ela, as barreiras de acessibilidade ainda existem, mas não devem impedir que a comunidade surda ocupe esses espaços. “Vocês são capazes, sim. Falta essa questão da acessibilidade, mas continuem firmes até o final, até formar”, aconselha. 

Riscos à vida e à saúde

Se na educação o prejuízo é pedagógico e social, na saúde a falta de comunicação acessível coloca vidas em risco e compromete diretamente a autonomia dos pacientes. 

Filho ouvinte de pais surdos, Tony Alves cresceu presenciando esses desafios. Hoje, como influenciador, ele usa a internet para dar visibilidade à comunidade, mas adverte que o engajamento digital contrasta com a realidade do mercado. Segundo ele, a principal queixa que recebe em suas redes é a falta de empatia por parte de ouvintes que supõem que o problema se resolve apenas chamando um intérprete, uma alternativa muitas vezes inviável financeiramente para o cidadão surdo. 

Tony Alves – Créditos Gabriel Cunha | @_cunharts 

Para Tony, a solução passa pela capacitação básica dos próprios atendentes. Na prática, porém, o processo esbarra na burocracia: ele relata que já teve projetos de capacitação descartados por hospitais devido à dificuldade de conciliar os treinamentos com as escalas e plantões dos funcionários. 

Essa lacuna nos hospitais e postos de saúde obriga os próprios membros da comunidade a criarem redes de apoio informais para garantir o básico. Natália Rodrigues Martins relata situações em que precisou atuar como ponte entre médicos e pacientes surdos. 

“As pessoas da área da saúde têm conhecimento da saúde, mas não têm adaptação para pessoas surdas. Mas fica claro que, quando uma pessoa surda é atendida, ainda existe uma barreira. Eu mesma, por exemplo, já precisei ajudar um amigo a se comunicar, a escrever em português, aí, por exemplo, ele me falava e eu, surda, tive que interpretar. Então, tipo assim, receita, remédio, eu precisava explicar como que era para usar, as sugestões do médico”, explica a professora. 

O desamparo gera um cenário crítico de exclusão nos consultórios. Relatos apontam que a falta de acessibilidade na saúde gera impactos diretos no atendimento. A digitalizadora Analup Cristina afirmou já ter cancelado ou remarcado consultas devido à falta de intérprete, enquanto a também digitalizadora Gislaine Gonçalves destacou uma situação em que precisou se retirar do próprio consultório, pois o médico se recusou a utilizar a escrita e a leitura labial não era clara o suficiente para a compreensão. 

O sentimento de exclusão nos serviços públicos de saúde e educação vai além da falta de intérpretes; passa pelo apagamento da identidade surda. O influenciador Tony Alves defende que a inclusão real só acontecerá quando houver uma mudança de mentalidade na sociedade. Segundo ele, “enquanto a Libras for tratada como um ‘acessório’ e não como uma língua oficial de um povo com sua própria cultura, ela continuará sendo apenas uma formalidade burocrática”. 

O que dizem os especialistas? 

A visão de quem atua na linha de frente do ensino confirma que o problema exige mudanças desde a base. Para Raniere Alislan Cordeiro, professor da UFMG, e membro do Núcleo de Estudos sobre Libras, Surdez e Bilinguismo (NELiS), a efetivação da educação bilíngue ainda esbarra na escassez de profissionais capacitados. Ele defende a urgência de investimentos na formação de docentes, na contratação de educadores surdos e na ampliação de materiais didáticos específicos.

Contudo, Cordeiro ressalta que a principal barreira é estrutural e cultural: “O primeiro passo seria conscientizar a sociedade de que a Libras possui estrutura gramatical própria e é uma língua completa, não uma simples tradução do português em gestos”. Ele destaca a necessidade de reconhecer o idioma como um verdadeiro patrimônio linguístico e cultural.

Essa mudança de mentalidade, segundo o educador, precisa unir as frentes da educação e da saúde logo nos primeiros dias de vida do indivíduo. Ele aponta que a medida mais transformadora para o futuro da comunidade surda é garantir o acesso precoce à Libras a partir do momento do diagnóstico clínico. “Se o profissional da saúde, ao se deparar com um recém-nascido surdo, tem o conhecimento sobre a cultura e o direito linguístico, a criança tem a oportunidade antecipada de desenvolvimento”, explica. Para o professor, essa intervenção básica e precoce é o que definirá as habilidades cognitivas, acadêmicas e a construção da identidade e autonomia do cidadão surdo ao longo de toda a sua vida.

Na perspectiva jurídica, a advogada Maria Netta aponta que a legislação brasileira avançou, mas que a percepção sobre esses direitos ainda é recente. A conscientização a respeito dos direitos das pessoas com deficiência começou a se consolidar apenas na década de 1980; o reconhecimento da Libras como língua oficial veio em 2002, e a regulamentação da profissão de intérprete, somente em 2010. “A gente vai vendo que isso tudo é uma evolução ao longo do tempo. Hoje ainda existem dificuldades porque essa consciência ainda não está internalizada nas pessoas”, afirma.

A especialista lembra que a legislação já prevê punições para práticas discriminatórias. A Lei nº 7.853/1989 tipifica como crime (com pena de dois a cinco anos de reclusão) condutas como recusar matrícula, cobrar valores adicionais ou dificultar o acesso de pessoas com deficiência a serviços de saúde e concursos públicos. “Não permitir que um estabelecimento de ensino aceite uma pessoa com deficiência, cobrar uma mensalidade mais cara ou criar dificuldades para que essa pessoa possa se inscrever são situações que podem configurar crime”, explica. Para quem tiver seus direitos negados, Netta afirma que se deve procurar imediatamente a Defensoria Pública e relatar o ocorrido, pois a partir daí serão adotadas as devidas providências.

Para Maria Netta, porém, o obstáculo maior é a conscientização da sociedade. Ela ressalta que a acessibilidade depende não apenas da criação de políticas e normas, mas também da compreensão das necessidades da comunidade surda. “Eu gosto muito de falar da consciência. É preciso saber da necessidade, ter empatia e entender a dificuldade do outro. A partir daí você consegue tomar as medidas certas”, afirma.

O que o Estado tem feito ?

Os relatos revelam um sistema que ainda falha, mas algumas iniciativas recentes mostram que a pauta tem chegado com mais força às instâncias do poder público.

Em Belo Horizonte, dois projetos aprovados pela Câmara Municipal buscam ampliar a inclusão comunicacional. Um deles garante a oferta de intérprete de Libras, presencial ou remoto, em delegacias e demais equipamentos públicos que atendem vítimas de violência. O outro cria o Programa Municipal de Educação Familiar em Libras para Famílias de Crianças Surdas, além do Selo Municipal de Inclusão Comunicacional, certificação destinada a reconhecer instituições comprometidas com a acessibilidade.

No âmbito federal, também avançam propostas voltadas à garantia de direitos. Entre elas está o Projeto de Lei nº 559/2026, que assegura às mulheres surdas recursos de acessibilidade e a presença de intérpretes durante consultas, exames e procedimentos de saúde. Já o Projeto de Lei nº 2062/2025 busca fortalecer a oferta do ensino de Libras em toda a educação básica, promovendo a educação bilíngue e a inclusão comunicacional. No campo profissional, o Projeto de Lei nº 1231/2019 estabelece medidas de acessibilidade para pessoas surdas em concursos públicos e no exercício de cargos da administração pública federal.

Além das propostas legislativas, existem políticas públicas voltadas ao atendimento da comunidade surda, como os Centros de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS), criados em 2005 para formar professores, intérpretes e demais profissionais, além de produzir materiais didáticos adaptados e apoiar a educação bilíngue em diferentes regiões do país. Em Belo Horizonte, a Central de Libras, localizada na Casa de Direitos Humanos no centro da cidade, oferece serviços de tradução e interpretação que auxiliam o acesso a áreas como saúde, justiça, educação e previdência. 

A defesa dos direitos da população surda também conta com o trabalho de entidades representativas. A Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), fundada em 1987, atua nacionalmente na promoção de políticas públicas voltadas à educação, saúde, cultura e inclusão social. Em Minas Gerais, a Associação dos Surdos de Minas Gerais (ASMG) desenvolve ações de apoio à comunidade, oferecendo serviços de acessibilidade, palestras e atividades de conscientização.

Recentemente, o tema voltou a ganhar espaço na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Em 28 de maio de 2026, uma audiência pública convocada pela deputada estadual Lohanna Franca reuniu representantes da comunidade surda e do governo para discutir as barreiras ainda presentes no acesso aos serviços públicos. A iniciativa surgiu após o caso de Clayton José Silva Neto, morador de Ibirité, que relatou ter enfrentado discriminação ao buscar atendimento em uma unidade básica de saúde.

Durante a audiência, participantes denunciaram dificuldades recorrentes na comunicação com órgãos públicos e cobraram a ampliação do número de intérpretes, a capacitação dos servidores e o cumprimento efetivo das leis já existentes. Como encaminhamentos, foram anunciadas a produção de cartilhas sobre acessibilidade, o aprofundamento do debate sobre educação bilíngue e um levantamento das unidades de saúde que oferecem atendimento em Libras.

Tony Alves – Créditos Gabriel Cunha / @_cunharts

Garantir que a Língua Brasileira de Sinais ultrapasse as páginas da lei e se consolide como uma prática viva no cotidiano das instituições não é apenas uma questão de adaptação, mas de justiça social. Como demonstram as trajetórias de Tony, Maycon e Natália, a inclusão verdadeira exige mais do que a contratação pontual de intérpretes. Ela demanda capacitação contínua dos profissionais de base, políticas públicas eficientes e, sobretudo, a compreensão coletiva de que a acessibilidade na educação e na saúde é um pilar inegociável para a construção de uma cidadania plena. Até que esse cenário mude, milhões de brasileiros continuarão sendo tratados como estrangeiros dentro de seu próprio país.

Reportagem produzida por Arthur Carvalho Lima, ⁠Felipe Olimpio Silva, Maria Eduarda Sausmikat Figueira e ⁠Yngrid Marcelly Diogo na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a supervisão do professor e jornalista Vinícius Borges Gomes.

Sair da versão mobile