“Celebrar” o Dia Internacional da Mulher leva a uma reflexão sobre o processo da origem no movimento operário, em 1908, em Nova York, aos dias atuais, nos quais ainda reverberam lutas ainda maiores e persistentes contra a violência física, mental e estrutural que aflige as mulheres. No Brasil, os direitos das mulheres são marcados por intensa desigualdade econômica, de classe, e principalmente, racial. Sabemos que as mulheres sempre foram submetidas ao patriarcado. Em contraponto, enquanto mulheres brancas, embora submissas e focadas no lar, sempre gozavam de status jurídico superior na sociedade, mulheres negras, a maioria escravizadas até 1888, eram tratadas como propriedade, sem direito algum à liberdade, família ou pertencimento ao próprio corpo, enfrentando múltiplas opressões de raça e gênero, demandando o direito primordial de existir.
A cor da pele da mulher é um fator importante quando analisamos o contexto familiar, histórico escolar e as oportunidades de trabalho. Em 2015, o CRESS-MG analisou que enquanto mulheres brancas lutavam para que seus salários (média de R$ 797,00) fossem equiparados aos salários dos homens brancos (média de R$ 1.278,00), mulheres negras recebiam ainda menos (média de R$ 436,00).
Importante ressaltar que nos casos de agressão e assassinato por parte de companheiros e ex-companheiros, mulheres negras são mais de 60% das vítimas. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) analisou que 5.729 registros oficiais de feminicídio ocorridos de 2021 a 2024, e mostrou que 62,6% das vítimas eram negras, enquanto 36,8% eram brancas. Mulheres indígenas e amarelas somam, em cada grupo, 0,3% dos registros. No ano passado, os registros oficiais apontam quatro mulheres mortas por dia no país.
“Para a mulher negra é muito mais pesado”
Mulher negra, repórter e apresentadora da TV Globo, a jornalista Fabiana Almeida, de 53 anos, relembra sua infância e reforça a importância do estudo para as mulheres. Irmã caçula de oito irmãos, a rede de apoio sempre foi a família. “ A minha mãe falou: ‘Você tem que estudar’. Porque eu sou uma mulher preta, uma família negra, então, tudo foi difícil”, relata. Depois da morte do pai, ela ingressou na faculdade de jornalismo aos 20 anos, sem o objetivo de trabalhar na televisão. Com o histórico de racismo na escola, a repórter pensava que, para ficar fora das telas, poderia atuar no rádio “Eu falava: ‘Ah, na televisão eu não vou trabalhar, mas eu posso trabalhar no rádio, as pessoas não vão me ver’. A única referência que tinha era a Glória Maria, que estava lá no Rio de Janeiro.”
Com mais de 21 anos de experiência como repórter da TV Globo, a jornalista ressalta que, atualmente, o espaço profissional é de diversidade, mas ainda existem muitos desafios pela frente. “É uma barreira, que é o racismo estrutural. Eu não sei se na minha geração eu vou conseguir [ver o racismo ser superado].”
Nós negras não podemos ser medianas, a gente tem que ser sempre muito melhor. A branca que faz o mesmo que eu, ela vai ter mais oportunidade do que eu. Eu tenho que fazer melhor”
Com a taxa de feminicídios crescendo, Fabiana Almeida destaca o 8 de março como reflexão e uma data para de fato a voz da mulher ser ouvida, “a gente tem que colocar a sociedade, e principalmente, os homens nessa conversa. É uma data para isso. É jogar e falar: “Olha, tá difícil ser mulher”.
“Os homens têm que estar de mão dada com a gente. Essa luta é de todo mundo, é de uma sociedade. As mulheres estão morrendo. Nós estamos morrendo. A gente sabe muito bem disso. Então, não é comemorar, é abrir o verbo. É não deixar de falar, é cobrar”, enfatiza Fabiana.
Forjada pela realidade
Marciele Delduque, presidente da Central Única das Favelas de Minas Gerais (CUFA) e líder social da Rede Marianas Mulheres que Inspiram, promove mulheres em situação de vulnerabilidade a alcançarem autonomia por meio do empreendedorismo. Marciele cresceu com a consciência de que ninguém entregaria espaço para ela, e sim que precisava ocupar. “Antes de qualquer cargo, eu sou mulher forjada pela realidade, pela fé e pela responsabilidade de abrir caminhos onde muitas vezes não havia portas. Essas vivências moldaram minha coragem e a convicção de que liderança é serviço, não status”, afirma.
Iniciativa de Marciele Delduque, o grupo “Marianas Mulheres Que Inspiram”, criado a partir do rompimento da barragem de minério em 5 de novembro de 2015, foi a confirmação de que quando as mulheres se unem, a transformação acontece. Até 2016, o movimento era conhecido como Mulheres Que Inspiram, e o termo “Marianas” só foi acrescentado ao nome devido a interação que havia entre as empresárias interessadas no fomento econômico dos negócios. “Eu não escolhi a área social como estratégia de carreira, ela nasceu como propósito. Ao perceber que muitas mulheres e jovens ao meu redor tinham talento, mas não acesso, decidi que minha atuação seria construir pontes”, diz a empreendedora.
Como presidente da CUFA Minas, Marciele reflete sobre as dificuldades estruturais: “ainda enfrentamos a sobrecarga invisível e a necessidade constante de provar competência. No terceiro setor, muitas vezes a mulher é vista como executora, mas não como estrategista. A maior barreira é cultural, a resistência em reconhecer autoridade feminina com firmeza e visão de longo prazo”. Além disso, ela complementa que as mulheres são o eixo de sustentação das periferias e que são elas que mantêm famílias e movimentam as economias locais.
“Lideranças femininas tendem a construir soluções coletivas e sustentáveis porque entendem a realidade a partir da base”
Marciele Delduque
Para o Dia da Mulher, a empreendedora entende que não é necessário apenas uma homenagem e, sim, agir com compromisso e abrir oportunidades reais para as mulheres. “É dia de revisar práticas institucionais, investir em formação e garantir presença feminina em mesas de decisão. Celebração sem política pública e sem investimento é apenas simbolismo”, afirma. Por fim, Marciele dedica o 8 de março para a potência da voz de todas as mulheres, “não esperem validação para começar. A voz de vocês tem potência antes mesmo de ser reconhecida. Seja protagonista, se preparem, construam rede e permaneçam. O mundo pode tentar silenciar, mas consistência e estratégia transformam resistência em respeito”.
“Eu não posso titubear”
Cecília Olliveira, mulher negra, jornalista investigativa dedicada à cobertura do tráfico de drogas e de armas e à violência, autora de ‘Como Nasce um Miliciano’, cofundadora do The Intercept Brasil, diretora fundadora do Instituto Fogo Cruzado, lembra de ouvir o programa da Glória Lopes, na Itatiaia, e achar fenomenal. “Todos os outros radialistas eram homens e, apesar de não saber dar nome aos sentimentos e percepções naquela época, eu sabia que algo era diferente”.
Com o desejo de estudar e trabalhar em uma área majoritariamente comandada por homens, Cecília foi entendendo o cenário. “Você vai crescendo e entendendo o mundo, o funcionamento das coisas, que certos cenários e decisões têm nome. Que algumas pessoas têm mais oportunidades, espaço e ganham mais que você. Isso não é uma sensação isolada, é regra para mulheres neste país. Meus colegas homens não recebem ameaça de estupro ou xingamentos relacionados à ‘beleza’ por executarem seu trabalho e irritarem alguém”, diz a escritora. No âmbito profissional, Cecília Olliveira diz que para ser levada a sério, não pode titubear. “Eu preciso dominar técnica e argumento, preciso demonstrar que eu sei o que estou fazendo e que sou boa no que faço”, complementa.
A jornalista traz o conceito de “machosfera” para explicar que são comunidades onlines influenciadas por um público masculino que vendem a ideia de que homens são vítimas de uma sociedade dominada pelo feminismo e que precisam “retomar o controle”, reforçando estereótipos, desumanização e desprezo. Ela diz, ainda, que o problema se agrava porque os algoritmos das mídias sociais impulsionam esse tipo de conteúdo de forma rápida e progressiva, criando bolhas onde a misoginia se normaliza. “Não se trata apenas de opinião na internet, mas de um processo de formação de identidade que ensina adolescentes a enxergar mulheres como ameaça, inimigas ou objetos, o que ajuda a explicar o aumento de discursos violentos e comportamentos agressivos fora das telas. Essa situação não está sendo tratada com a devida importância”, explica.
Ela ressalta que “o feminicídio no Brasil não é um ‘evento isolado’, é resultado de omissões: “É a história de uma sociedade que trata a violência de gênero como problema privado até que ela vire manchete. O Estado não protege. Medidas protetivas não alcançam as vítimas em tempo hábil; delegacias especializadas são poucas, com atendimento restrito, muitas vezes feito por homens”.
Cecília Olliveira compartilha sua indignação sobre o recente caso de estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, em Copacabana, no Rio de Janeiro. “Como um rapaz tão novo já tem ideias tão horrendas e ainda consegue quatro comparsas para cometer um crime tão desprezível? Dois deles são acusados de terem feito o mesmo com uma garota de 14 anos. Como homens tão jovens já desprezam tanto meninas e mulheres? Os meninos estão sendo expostos cada vez mais cedo a conteúdos que transformam frustração em ressentimento e insegurança em ódio direcionado às mulheres”. Os adolescentes acusados, foram presos no dia 4 de março e passaram para a condição de réus no processo criminal.
A jornalista entende que, para ser a mulher que se tornou hoje, existiu um processo, uma construção: “A Cecília de 20, 25 anos era impaciente, ingênua em alguns aspectos e durona em outros. A Cecília de 30, 35 apanhou, foi questionada, atropelada, passou muita raiva. Mas criou casca. Hoje, consigo ser mais assertiva, consigo identificar oportunidades para avançar ou recuar. Recuar não é desistir, é recalcular a rota. Façam terapia. Busquem ajuda sempre que precisarem”.
Para a escritora, o 8 de março simboliza gratidão, permanência e continuidade, e por fim, deixa uma mensagem:
Não esperem convite. Abrir portas não é cortesia, é construção. Estudem, dominem a técnica, provoquem pensamentos, busquem brechas de atuação.
Cecília Olliveira
Porque o que muitas vezes tentam tirar de vocês: voz, lugar e credibilidade. E resistir ao processo não é fácil. O caminho precisa ser construído com sabedoria
Adriana Araújo: homenagem à voz do samba de BH
A sambista Adriana Araújo morreu recentemente em Belo Horizonte, aos 49 anos. A artista estava internada no Hospital Odilon Behrens, após ser diagnosticada com aneurisma cerebral. Segundo a equipe médica, o quadro dela era considerado “gravíssimo e irreversível”.
Conhecida artisticamente como Adriana Araújo, nasceu em 1976 e deu início à trajetória no samba em 2008, após aceitar o desafio de interpretar a canção “Nasci Pra Cantar e Sonhar”, de Dona Ivone Lara. Mulher negra retinta, Adriana se deparou com infinitos obstáculos. O racismo sempre presente, a dificuldade na favela. O samba representou uma conexão profunda com suas raízes e com a ancestralidade do povo negro. Em tom de despedida, Fabiana Almeida, homenageou a amiga na entrevista para o Colab dizendo que a história de Adriana é inspiradora. “A história da Adriana é comovente, ela foi uma mulher que, da Pedreira Prado Lopes, casou com um homem, constituiu uma família, ela é uma mulher guerreira”, disse a jornalista.
Em entrevista ao podcast Arreda Pra Cá, Adriana emocionou ao contar que, quando criança, seu maior sonho era apenas “comer presunto”, porque, mais que ambições profissionais, sua preocupação naquele momento era suprir necessidades básicas. Sem grande expectativa de carreira acadêmica, Adriana encontrou na arte e na música seu espaço de expressão e superação.
“Se eu tive 500 motivos para desistir, a Adriana teve 1 milhão. Perto dela, ela teve 1 milhão, o que fizeram com ela, o racismo, ela ainda conseguiu enfrentar tudo e ela acreditou. Ela acreditou na voz dela”
Fabiana Almeida sobre Adriana Araújo.
A trajetória de Adriana carrega o simbolismo da resistência de uma mulher preta e retinta, e toda essa vivência é parte essencial do ser humano que ela se tornou.
Neste 8 de março, carregamos a força das mulheres que vieram antes de nós, que enfrentaram silêncios, violências e desigualdades para abrir caminhos que hoje ainda estão em construção.
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