{"id":6602,"date":"2026-05-08T07:30:44","date_gmt":"2026-05-08T10:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/?p=6602"},"modified":"2026-04-30T22:31:08","modified_gmt":"2026-05-01T01:31:08","slug":"em-defesa-do-narrador-gotico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/em-defesa-do-narrador-gotico\/","title":{"rendered":"Em defesa do narrador g\u00f3tico"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6603 aligncenter\" src=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Gotico.png\" alt=\"\" width=\"562\" height=\"523\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Gotico.png 562w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Gotico-300x279.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 562px) 100vw, 562px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Isabella Mazzanti<\/p>\n<p>Por Carolina Gouv\u00eaa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00f3tico \u00e9 tudo aquilo que \u00e9 sombrio, macabro ou hediondo. O exc\u00eantrico e o tabu revestidos de folcl\u00f3rico e sobrenatural. Uma silhueta em vertigem de escurid\u00e3o, ressurgindo amorfa de um cemit\u00e9rio, uma quina de corredor, um castelo, uma igreja, um sil\u00eancio. A literatura g\u00f3tica, quando surge, nutre o infanto do terror e da blasf\u00eamia que a Europa at\u00e9 ent\u00e3o repelia ao ocultismo, adornando-o do encanto da supersti\u00e7\u00e3o. De seus caprichos, entre as aberra\u00e7\u00f5es e as peculiaridades, creio que o mais encantador \u00e9 o organismo da narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama de <em>O M\u00e9dico e o Monstro<\/em>, de Robert Louis Stevenson, \u00e9 conduzida pelas investiga\u00e7\u00f5es do advogado Gabriel Utterson sobre o amigo, Dr. Henry Jekyll. Em <em>Carmilla<\/em>, de Joseph Sheridan Le Fanu, a personagem titular da hist\u00f3ria \u00e9 esbo\u00e7ada pelos relatos de Laura, uma jovem que a conhece. <em>Dr\u00e1cula<\/em>, de Bram Stoker, \u00e9 estruturado de maneira similar; o romance se passa por cartas, di\u00e1rios e artigos de jornal. A narrativa \u00e9 renunciada a um observador e a relativa dist\u00e2ncia da hist\u00f3ria que nasce dessa peculiaridade \u00e9 uma marca do g\u00eanero g\u00f3tico. Apesar de sua aparente insignific\u00e2ncia aos acontecimentos da narrativa, o narrador g\u00f3tico \u00e9 o cerne de todo seu potencial macabro. Cresce, em \u00eaxtase, t\u00e3o somente nas frestas de cada porta e janela pelas quais o narrador g\u00f3tico contempla, atordoado, o indescrit\u00edvel, uma hera de estranheza, nutrindo mist\u00e9rio que se realiza em seu \u00earmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Morro dos Ventos Uivantes<\/em>, de Emily Bronte, \u00e9 recorrentemente adaptado al\u00e9m dessa perspic\u00e1cia. O romance conta a hist\u00f3ria dos moradores de uma mans\u00e3o rural, o Morro dos Ventos Uivantes, nas charnecas da Inglaterra vitoriana. Como em outras obras do g\u00f3tico, Bronte n\u00e3o o escreve em narra\u00e7\u00e3o direta das intrigas dos personagens, mas sim em um relato decorrente das observa\u00e7\u00f5es da governanta da casa. Helena \u201cNelly\u201d Dean testemunhou por d\u00e9cadas tudo aquilo que era cotidiano aos seus moradores. Entre eles, a impetuosa Catherine Earnshaw, filha do Sr. Earnshaw, e o umbr\u00e1tico Heathcliff, \u00f3rf\u00e3o cigano adotado quando jovem pelo patr\u00e3o. A hist\u00f3ria de amor entre Cathy Earnshaw e Heathcliff \u00e9 o tecido estrutural da narrativa, mas seu deleite surge antes em seu mist\u00e9rio do que em seu reconto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe-se que a garotinha e o jovem Heathcliff passaram a inf\u00e2ncia em aventuras pelas charnecas. H\u00e1 algo quim\u00e9rico que envolve o par, mas esse \u201cqu\u00ea\u201d \u00e9 segredo, sussurro, olhar de soslaio. Ambos veem em Nelly uma confidente; penitentes, a confessam tudo aquilo que a garganta permite esbo\u00e7ar em palavra, entremeado na lacuna do sentimento. Todavia, existem, em ess\u00eancia, somente enquanto vultos espiados pela governanta, condensados \u00e0s impress\u00f5es, afei\u00e7\u00f5es e desgostos pelos quais ela os descreve. Catherine \u00e9 ego\u00edsta, maldosa e mimada. Heathcliff \u00e9 taciturno, astuto e rancoroso. Desastrosamente, se afei\u00e7oaram um ao outro. Nelly desconhece quaisquer tra\u00e7os que persistam al\u00e9m desses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro se dedica aos pormenores da vida no Morro mais do que ao casal, e grande parte da narrativa \u00e9 posterior \u00e0 sua separa\u00e7\u00e3o. Seu cargo e posi\u00e7\u00e3o a desviam do par; seu \u00e2mago a enternece, antes de Catherine, ao seu marido, o Sr. Linton, que lhe \u00e9 mais am\u00e1vel e generoso. Quando se cruza, enfim, com retalhos \u00edntimos dos esp\u00edritos de Cathy e Heathcliff, Nelly os descreve como afetados, moribundos, delirados, estranhos que s\u00e3o daquilo que Nelly presencia e compreende. \u00c9 a governanta que confere ao casal sua perversidade e seu milagre. Mesmo separados, n\u00e3o deixam de assombrar a obra, e resta ao leitor deduzir por onde corriam os dois quando se refugiavam no campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Igualmente, em <em>Frankenstein<\/em>, de Mary Shelley, a narra\u00e7\u00e3o tem papel distinto. O romance \u00e9 contado ora por um marinheiro em suas cartas \u00e0 irm\u00e3, ora pelo pr\u00f3prio Victor Frankenstein, doutor, refugiando-se, na hist\u00f3ria, do pr\u00f3prio pavor, e, enfim, pela Criatura que ele deu \u00e0 luz. <em>Frankenstein <\/em>irrompe no embate entre a figura do cientista Victor, virtuosa conquanto n\u00e3o o seja, e da Criatura, monstruosa conquanto se humaniza. O carisma do doutor \u00e9 sens\u00edvel primeiro no fasc\u00ednio que o marinheiro tem por seu aspecto asc\u00e9tico e melanc\u00f3lico; a Criatura \u00e9 repugnante e an\u00f4mala enquanto \u00e9 temida por Victor; Victor se torna monstruoso enquanto \u00e9 odiado pela Criatura. As reviravoltas da narrativa, assim como seus dilemas diversos, \u00e9ticos, morais e humanit\u00e1rios, s\u00e3o consequ\u00eancia singela do revezamento de narradores, cada qual ardente para dadivar ao leitor sua sentimentalidade e \u00f3tica \u2013 ou, ainda, sua normalidade e o consequente sacril\u00e9gio do terceiro, tal qual em um tribunal, pleiteando desesperados a pr\u00f3pria inoc\u00eancia. \u00c9 o leitor seu juiz, j\u00fari e carrasco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo ano, ambos foram adaptados para as telas de cinema. Em meio \u00e0s cr\u00edticas e aos elogios, creio que sua mais conden\u00e1vel infra\u00e7\u00e3o \u00e9 o abandono da sutileza do narrador g\u00f3tico. Ambas hist\u00f3rias s\u00e3o v\u00edtimas do fen\u00f4meno, cada uma \u00e0 sua maneira. Em <em>Morro dos Ventos Uivantes<\/em>, de Emerald Fennell, n\u00e3o h\u00e1 resqu\u00edcios do mist\u00e9rio que orbitava o casal. Pelo contr\u00e1rio, Catherine e Heathcliff s\u00e3o um produto concreto e um \u00fanico personagem composto: o casal proibido. Ao mesmo tempo que s\u00e3o transl\u00facidos em vez de entranhados, ocupam o palco somente enquanto reduzidos a produto de marketing, o casal um clich\u00ea liter\u00e1rio e o filme, em pl\u00e1stico, seu romance tr\u00e1gico. Em <em>Frankenstein<\/em>, de Guillermo del Toro, as diversidades do grotesco s\u00e3o abandonadas em prol de uma \u00fanica perspectiva amalgamada nos tr\u00eas narradores uniformes. O marinheiro, a Criatura e at\u00e9 o pr\u00f3prio Victor comunicam com deliberado didatismo a senten\u00e7a conjunta simplista \u00e0 crueldade definitiva e incompar\u00e1vel do personagem Doutor Frankenstein.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fasc\u00ednio do macabro \u00e9 sussurrar \u00e0 curiosidade m\u00f3rbida o inexplorado, o peculiar, o repulsivo. Quando, no filme <em>Frankenstein<\/em>, o irm\u00e3o de Victor diz, \u201cVoc\u00ea \u00e9 o monstro, Victor\u201d, em vez de a audi\u00eancia, em desordem, o deliberar \u2013 ou, ainda, quando, no filme <em>Morro dos Ventos Uivantes<\/em>, Catherine e Heathcliff s\u00e3o reduzidos a um ou outro compilado de cenas ora picantes, ora tr\u00e1gicas, sempre dilu\u00eddas e palat\u00e1veis \u2013, a bruma se dispersa. Sem a dist\u00e2ncia que lhes \u00e9 conferida pelo alheio, essas hist\u00f3rias assumem car\u00e1ter de banalidade e perdem tudo aquilo que as tornam mais intrinsecamente g\u00f3ticas. Aquele mesmo contorno fusco, rente aos olhos, toma forma humana; o cemit\u00e9rio, ao sol, \u00e9 cemit\u00e9rio como qualquer outro. Quem desconhece um corredor iluminado?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Isabella Mazzanti Por Carolina Gouv\u00eaa. G\u00f3tico \u00e9 tudo aquilo que \u00e9 sombrio, macabro ou hediondo. 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