{"id":5519,"date":"2023-11-23T10:00:52","date_gmt":"2023-11-23T13:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/?p=5519"},"modified":"2023-11-22T10:25:38","modified_gmt":"2023-11-22T13:25:38","slug":"vivemos-uma-primavera-literaria-negra-jeferson-tenorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/vivemos-uma-primavera-literaria-negra-jeferson-tenorio\/","title":{"rendered":"&#8216;Vivemos uma primavera liter\u00e1ria negra&#8217; &#8211; Jeferson Ten\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\" style=\"text-align: justify;\">Para o autor de O Avesso da Pele, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de resist\u00eancia contra um mundo sombrio.<\/p>\n<p>POR: Katia Marko<\/p>\n<figure>\n<div class=\"img-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/7f581981bedca0227d5e777cc5c56314.jpeg\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"318\" \/><\/div>\n<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMinha vida mudou a partir da leitura, n\u00e3o mudou a partir da escrita. Minha vida mudou porque eu me tornei leitor, e como fui professor durante muitos anos, acreditei nisso enquanto estava lecionando. Achava que conseguiria modificar a vida daqueles alunos atrav\u00e9s da leitura.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vencedor do Pr\u00eamio Jabuti em 2021, com o livro O Avesso da Pele, Jeferson Ten\u00f3rio fala de modo que parece um b\u00e1lsamo em um pa\u00eds que n\u00e3o tem na literatura um de seus principais interesses. Pouco mais da metade dos brasileiros cultiva o h\u00e1bito de ler, como nota a 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o do estudo &#8220;Retratos da Leitura no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Carioca, radicado em Porto Alegre e morando atualmente em S\u00e3o Paulo, desde 2021 se dedica quase que exclusivamente \u00e0 carreira de escritor, permeada pelas colunas no portal Uol Not\u00edcias e a tarefa de editor na Diadorim Editora.<\/p>\n<p>Em Porto Alegre, para um evento na 69\u00aa Feira do Livro de Porto Alegre, Jeferson Ten\u00f3rio conversa com o Brasil de Fato RS<b> <\/b>sobre o momento atual da literatura e da sua carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Brasil de Fato RS &#8211; Nossa \u00faltima conversa foi em outubro de 2021, tamb\u00e9m aqui na Feira do Livro em Porto Alegre. O cen\u00e1rio hoje \u00e9 completamente outro. Naquela \u00e9poca, pass\u00e1vamos por uma pandemia e um pandem\u00f4nio. E hoje? Como avalias esse cen\u00e1rio que vivemos, tanto politicamente quanto em termos liter\u00e1rios?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jeferson Ten\u00f3rio &#8211;\u00a0<\/strong>Em 2020, quando fui patrono da feira, circulei pela pra\u00e7a vazia. As atividades foram todas online. Mas tamb\u00e9m foi um momento de mudan\u00e7a da feira. Foi a primeira vez em que a gente teve mais diversidade nas atividades. Havia muito mais negros, mulheres, ind\u00edgenas naquela edi\u00e7\u00e3o de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que a presen\u00e7a desses autores foi se naturalizando. Hoje temos j\u00e1 uma diversidade de fato, n\u00e3o s\u00f3 na feira do livro, mas em outros festivais tamb\u00e9m. Houve essa mudan\u00e7a de perspectiva. Tamb\u00e9m tem a ver com as mudan\u00e7as pol\u00edticas que tivemos. Acho que veio pra ficar.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;Achava que ia me aposentar como professor em escola p\u00fablica. Veio a escrita e bagun\u00e7ou tudo.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tua carreira tamb\u00e9m mudou bastante. Ganhaste pr\u00eamios, teus livros est\u00e3o sendo traduzidos no exterior. Como est\u00e1 esse momento para ti?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 2021, eu ainda atuava em escolas aqui em Porto Alegre. Em fun\u00e7\u00e3o das viagens, dos compromissos relacionados ao livro, principalmente ao Avesso da Pele, n\u00e3o consegui mais continuar na escola. Me mudei para S\u00e3o Paulo, l\u00e1 entrei de s\u00f3cio numa editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ocupo a minha vida com a escrita e com a leitura de originais agora com a editora. Meus livros sendo traduzidos e eu sendo chamado para esses pa\u00edses onde est\u00e3o publicando. \u00c9 curioso porque, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, achava que ia me aposentar como professor em escola p\u00fablica. Era o meu ideal de trabalho ao longo do tempo. Mas a\u00ed veio a escrita e bagun\u00e7ou tudo. Melhorou.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/01154783f06c95e3e18e400dc61b8411.jpeg\" width=\"480\" height=\"320\" \/><span style=\"font-size: 13px;\">Ten\u00f3rio participou recentemente da 69\u00aa Feira do Livro de Porto Alegre, em uma conversa com a pernambucana Nathallia Protazio e o escrito Itamar Vieira J\u00fanior \/ Foto: Eduardo Fernandes\/Feira do Livro Porto Alegre<\/span><\/p>\n<p><strong>Na \u00e9poca, estavas fazendo o teu doutorado. J\u00e1 terminou?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sim, no ano passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;Porto Alegre \u00e9 uma das cidades onde se passa o (novo) romance e no ambiente acad\u00eamico&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tamb\u00e9m estavas escrevendo um novo romance. Seria sobre a universidade p\u00fablica, a quest\u00e3o do ensino. Este romance ainda est\u00e1 sendo produzido?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda. Se tudo der certo e eu conseguir ter mais tempo para escrever, deve ficar pronto no ano que vem. Acho que, no ano que vem, teremos a\u00ed um romance novo que se passa tamb\u00e9m em Porto Alegre. \u00c9 uma das cidades onde se passa o romance e o ambiente vai ser o ambiente acad\u00eamico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tratando de toda essa quest\u00e3o das cotas, da presen\u00e7a negra na universidade?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00f3. \u00c9 um dos temas que perpassam o personagem. Minha ideia \u00e9 contar a trajet\u00f3ria de tr\u00eas estudantes na universidade. As mudan\u00e7as que come\u00e7aram a acontecer em meados dos anos 2000, a entrada de pessoas negras na universidade, e todas as mudan\u00e7as epistemol\u00f3gicas, bibliogr\u00e1ficas, as discuss\u00f5es que come\u00e7aram a partir dessa entrada. \u00c9 isso que quero tentar discutir.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;N\u00e3o conseguimos ainda encher as nossas m\u00e3os para contar os autores negros que temos e s\u00e3o valorizados&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E vieste \u00e0 feira justamente para um evento junto com o Itamar Vieira Junior, que \u00e9 outro escritor dessa nova gera\u00e7\u00e3o de escritores negros, e que est\u00e3o influenciando muito a literatura brasileira&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente est\u00e1 vivendo uma esp\u00e9cie de primavera liter\u00e1ria negra. Temos a\u00ed uma constela\u00e7\u00e3o de autores que est\u00e3o sendo celebrados, lidos, premiados, e acho que isso tem que ser comemorado. Temos a Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, a Eliana Alves Cruz, a Cidinha da Silva, o Paulo Lins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma s\u00e9rie de escritores que tem feito diferen\u00e7a por trazer narrativas que, por muito tempo, n\u00e3o eram valorizadas. Por outro lado, se voc\u00ea olha para a hist\u00f3ria da literatura e para a quantidade tamb\u00e9m de autores que temos, ainda \u00e9 pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o conseguimos ainda encher as nossas m\u00e3os para contar os autores negros que temos e s\u00e3o valorizados. H\u00e1 um caminho a percorrer, mas tamb\u00e9m \u00e9 um momento de celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma entrevista falaste da literatura como um direito humano e de como a literatura pode transformar vidas&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma fala muito apoiada no texto do (soci\u00f3logo e cr\u00edtico liter\u00e1rio) Ant\u00f4nio C\u00e2ndido. Ele fala sobre isso: a literatura como um direito b\u00e1sico. Acredito nisso porque a minha vida mudou a partir da leitura. N\u00e3o mudou a partir da escrita. Minha vida mudou porque me tornei leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como fui professor durante muitos anos, acreditei nisso enquanto estava lecionando. Achava que, de fato, conseguiria modificar a vida daqueles alunos atrav\u00e9s da leitura. \u00c9 realmente um momento bastante importante quando algu\u00e9m se torna um leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa forma de mudar a vida dos alunos e entrar com a literatura mais fortemente nas comunidades, tamb\u00e9m vai gerar novos escritores. Como temos aqui o Jos\u00e9 Falero, que vem de uma comunidade carente de Porto Alegre.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vai, pelo menos, proporcionar esse acesso aos livros. N\u00e3o s\u00f3 o acesso, mas tamb\u00e9m mediar essa rela\u00e7\u00e3o com o livro. O professor \u00e9 um desses mediadores. As bibliotecas comunit\u00e1rias, as livrarias, as feiras de livro, todos esses espa\u00e7os, servem tamb\u00e9m como mediadores de leitura, aproximam o leitor do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o Leopoldo tem uma feira do livro e uma pol\u00edtica p\u00fablica interessante: d\u00e1 vouchers de R$ 60 para toda a rede escolar municipal, estudantes, professores e funcion\u00e1rios adquirirem livros na feira. E os livreiros devem dar um percentual do valor das vendas em livros para as bibliotecas escolares. Achei muito interessante essa pol\u00edtica p\u00fablica para incentivar a leitura&#8230;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devem ser pol\u00edticas p\u00fablicas que sejam pol\u00edticas de Estado e n\u00e3o de governo. Porque muda o governo e essas pol\u00edticas s\u00e3o esquecidas. S\u00e3o incentivos que devem virar lei para que as pessoas consigam acesso aos livros. E que isso seja natural e comum na vida das pessoas. O livro precisa ter essa normalidade. N\u00e3o pode ser uma exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode esperar uma feira acontecer para que isso aconte\u00e7a. Tem que ser algo que fa\u00e7a parte do cotidiano das pessoas.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea pode ter o celular e pode ter o livro. A gente j\u00e1 perdeu a briga com o celular, n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00ed, fico pensando: como fazer isso neste momento em que as crian\u00e7as j\u00e1 nascem com o celular na m\u00e3o? Em que adolescentes est\u00e3o o tempo inteiro no celular, mesmo adultos? A gente acaba lendo muito pelo celular e abandonando o livro. Ent\u00e3o, \u00e9 uma concorr\u00eancia dif\u00edcil.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejo como concorr\u00eancia, mas tamb\u00e9m vejo como uma ideia de concomit\u00e2ncia. Voc\u00ea pode ter o celular e pode ter o livro. A gente j\u00e1 perdeu a briga com o celular, n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, o que se pode tirar disso? Se est\u00e3o lendo mais pelo celular &#8211; que era o que meus alunos faziam &#8211; eu tentava inserir o celular no meu ensino de Literatura ou de L\u00edngua Portuguesa. Porque as plataformas v\u00e3o continuar vindo. Se n\u00e3o for o celular vai ser outra coisa. O livro f\u00edsico n\u00e3o vai acabar. Tem uma vida muito longa ainda pela frente. Mas \u00e9 preciso saber as dosagens e ter essa ideia de concomit\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entraste no mundo editorial onde tem esse debate sobre a dificuldade das editoras, de vender os livros. Como est\u00e1 sendo isso?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro acabei ocupando o lado de quem edita, de quem recebe o texto, de quem prop\u00f5e coisas no texto, essa parte \u00e9 muito legal, a conversa que voc\u00ea tem com o autor. Depois, com toda a feitura do livro, voc\u00ea come\u00e7a a entender os processos, quantos profissionais est\u00e3o envolvidos, at\u00e9 chegar na livraria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso faz com que eu tenha uma vis\u00e3o mais completa do que significa editar um livro at\u00e9 ele chegar na m\u00e3o do leitor, pensar na capa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que o mercado est\u00e1 muito mais aberto. Existem muitas editoras pequenas e m\u00e9dias. N\u00e3o que esteja mais f\u00e1cil, mas acho poss\u00edvel manter uma editora com textos de qualidade e fazendo uma distribui\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/a6a7d03775d0e89adf91b0f27cfea610.jpeg\" width=\"380\" height=\"379\" \/><em>&#8220;A literatura faz com que voc\u00ea tenha um outro olhar sobre a vida, um olhar talvez mais honesto&#8221; \/ Foto: Alexandre Garcia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estamos em novembro, o m\u00eas da consci\u00eancia negra. Mudou-se o governo (no pa\u00eds), mas o racismo estrutural continua. Existe uma rede de \u00f3dio muito forte. Como continuar trabalhando mais profundamente esse tema?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rede de \u00f3dio j\u00e1 foi instalada e acho muito dif\u00edcil que se consiga voltar \u00e0quele est\u00e1gio onde esse \u00f3dio estava no subterr\u00e2neo. Agora ele est\u00e1 posto. Mesmo com a mudan\u00e7a de governo continuam as a\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias. Penso que a literatura e a arte t\u00eam alguns dispositivos que nos ajudam, de certo modo. a resistir a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes esperam de autores negros uma viol\u00eancia, um grito, uma brutalidade. Quando a gente responde de outro jeito, com delicadeza, com arte, com literatura, voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 resistindo. De outro modo, mas tamb\u00e9m est\u00e1 resistindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;A rede de \u00f3dio j\u00e1 foi instalada e acho muito dif\u00edcil que se consiga voltar \u00e0quele est\u00e1gio onde esse \u00f3dio estava no subterr\u00e2neo&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o m\u00eas de novembro \u00e9 esse m\u00eas da consci\u00eancia negra que alguns dos meus pares dizem que \u00e9 o \u00b4m\u00eas da paci\u00eancia negra`, porque temos que ficar explicando o b\u00e1sico para as pessoas. Mas acho muito v\u00e1lido que tenhamos esse m\u00eas, essa data espec\u00edfica para oferecer uma reflex\u00e3o para as pessoas e que as pessoas tamb\u00e9m reflitam sobre a sua postura diante do racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pessoas que acabam sofrendo viol\u00eancia s\u00e3o trazidas para o teu trabalho. A literatura n\u00e3o denuncia como o jornalismo, mas \u00e9 capaz de causar uma reflex\u00e3o mais profunda do que a pr\u00f3pria not\u00edcia. Dizes que a literatura deve desnaturalizar o banalizado. Como \u00e9 isso?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura faz com que voc\u00ea tenha um outro olhar sobre a vida, um olhar talvez mais honesto. \u00c9 um olhar que faz com que voc\u00ea perceba aquilo que \u00e9 naturalizado tem a ver com as viol\u00eancias, tem a ver com o preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso do meu livro O Avesso da Pele, muitas pessoas brancas que l\u00eaem o livro, quando me d\u00e3o o retorno falam isso. N\u00e3o tinham ideia do grau, da sofistica\u00e7\u00e3o do racismo, at\u00e9 onde ele chega. A literatura tem esse papel tamb\u00e9m, um papel formativo. Instrui, mas n\u00e3o instrui de maneira objetiva. Instrui de maneira mais subjetiva. \u00c9 um mecanismo bastante importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro que quando li O Avesso da Pele, fiquei muito impactada. Havia momentos em que tinha que parar de ler porque n\u00e3o conseguia. Como que foi para ti, como te sentias escrevendo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geralmente as coisas que eu escrevo em termos de fic\u00e7\u00e3o, s\u00e3o temas que j\u00e1 trabalhei internamente. Jamais vou escrever algo muito pr\u00f3ximo ou situa\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas no tempo. Preciso elaborar essas quest\u00f5es para depois, talvez anos depois, conseguir escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando sento para escrever estou mais preocupado com os arranjos est\u00e9ticos e lingu\u00edsticos que preciso para fazer o livro. Por mais dura que seja uma cena ou por mais dolorosa que seja, n\u00e3o me afeta enquanto pessoa porque j\u00e1 trabalhei isso internamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando estou ali na frente escrevendo &#8211; n\u00e3o que eu seja uma pessoa fria, n\u00e3o \u00e9 isso &#8211; n\u00e3o h\u00e1 o sofrimento da escrita. H\u00e1 uma alegria da escrita. Aquilo j\u00e1 foi elaborado, ent\u00e3o eu consigo escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;As coisas que me aconteceram enquanto homem negro no Sul n\u00e3o eram por um sentimento individual. Era uma experi\u00eancia coletiva&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dizes que \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o nas coisas que tem acontecido no Brasil. Que, para contar uma boa hist\u00f3ria, \u00e9 preciso olhar ao redor, para ser universal voc\u00ea tem que falar dos que est\u00e3o perto. Isso me lembra aquela velha m\u00e1xima: \u00b4Pensar globalmente, agir na aldeia, localmente`.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 porque o escritor, o trabalho dele, \u00e9 observar, ouvir, e essa observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dos outros, mas de si mesmo. E aquilo que parece muito particular \u00e9 o que muita gente sente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso do Avesso da Pele acho que tem um pouco isso. As coisas que me aconteceram enquanto homem negro no Sul do pa\u00eds n\u00e3o era por um sentimento individual, por mais espec\u00edfico que fosse. Era uma experi\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prestar aten\u00e7\u00e3o em si e prestar aten\u00e7\u00e3o nas pessoas ao seu redor \u00e9 uma forma de voc\u00ea narrar coisas universais justamente porque o que nos une \u00e9 esse sentimento de humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro quando lia tamb\u00e9m ia me identificando com alguns lugares do livro, como Santa Catarina. Quem na adolesc\u00eancia do Sul na d\u00e9cada de 1980 n\u00e3o passou por aqueles lugares? Tamb\u00e9m nos aproxima da hist\u00f3ria.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos aproxima porque O Avesso da Pele n\u00e3o \u00e9 um livro sobre o racismo. \u00c9 um livro sobre as rela\u00e7\u00f5es pessoais, sejam as rela\u00e7\u00f5es entre pai e filho, entre professor e aluno, os relacionamentos afetivos, isso transcende as quest\u00f5es raciais, ent\u00e3o causa uma identifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como avalias a presen\u00e7a do Ailton Krenak na Academia Brasileira de Letras, o que pode impactar naquele espa\u00e7o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A elei\u00e7\u00e3o do Krenak foi important\u00edssima e quem sai ganhando \u00e9 a Academia. O Krenak tamb\u00e9m, mas acho que ele agrega um saber e uma esp\u00e9cie de volta \u00e0s origens, ao que \u00e9 o Brasil e como foi fundado. Krenak \u00e9 esse representante das nossas origens, da ancestralidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Academia j\u00e1 poderia ter feito outras escolhas nesse sentido, mas acho que \u00e9 um momento de celebra\u00e7\u00e3o, de a gente entender que \u00e9 um lugar de valida\u00e7\u00e3o de conhecimento. Voc\u00ea ter um autor ind\u00edgena, que se reconhece como ind\u00edgena, \u00e9 importante porque voc\u00ea tem ali uma institui\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria que valida aquele saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que autores est\u00e1s lendo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ten\u00f3rio &#8211;\u00a0<\/strong>Tenho lido um pouco de literatura contempor\u00e2nea, livros do Tobias Carvalho, um escritor ga\u00facho, uma escritora baiana chamada Luciane Aparecida, que escreveu um livro chamado Mata Doce. Estou tentando diversificar um pouco a minha leitura, tentando ler autores nordestinos, do Norte, do Sul, evitando um pouco esse tr\u00e2nsito Rio\/S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;Imaginar \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Imaginar \u00e9 um modo de resist\u00eancia&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Considero o Valter Hugo M\u00e3e um dos grandes escritores da contemporaneidade. Ele traz muito do Saramago tamb\u00e9m. Ele te inspira?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura portuguesa em si me inspira. Me tornei especialista em literatura portuguesa. Tanto o Valter como o (Jos\u00e9) Saramago, o (Jos\u00e9 Luis) Peixoto, Fernando Pessoa, Gil Ferreira, s\u00e3o muitos autores que me influenciaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valter se tornou um amigo tamb\u00e9m. A literatura dele \u00e9 de um tipo que funda uma l\u00edngua portuguesa. Ele oferece outra forma de escrever a l\u00edngua portuguesa, assim como o Saramago, assim como o Guimar\u00e3es Rosa, que v\u00e3o criando uma linguagem. Sorte nossa ter esses autores por perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a import\u00e2ncia da literatura para a gente imaginar outro mundo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a melhor forma de resistir diante de um mundo sombrio seja imaginar. Principalmente para as popula\u00e7\u00f5es que sofrem uma opress\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o negra, perif\u00e9rica. Conseguir vislumbrar um futuro, imaginar para al\u00e9m da semana que vem. Pegar um moleque de 12 anos e ele conseguir vislumbrar anos depois o que ele vai ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que a literatura contribui para essa imagina\u00e7\u00e3o. Imaginar \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Se voc\u00ea n\u00e3o enxerga o seu futuro a longo prazo, a impress\u00e3o que voc\u00ea tem \u00e9 que a sua vida n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para sua vida valer alguma coisa voc\u00ea precisa projetar o seu futuro e de uma maneira bastante longa. \u00c9 preciso imaginar como vou estar daqui a 10\/15\/20\/30 anos. Imaginar \u00e9 um modo de resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o utopia n\u00e3o \u00e9 uma palavra em desuso?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca foi. Querem nos fazer acreditar que \u00e9 ultrapassada, mas precisamos dela para viver, sobreviver e para dar sentido tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Link para a reportagem no Brasil de Fato: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/20\/vivemos-uma-primavera-literaria-negra-diz-escritor-jeferson-tenorio-autor-de-o-avesso-da-pele<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o autor de O Avesso da Pele, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de resist\u00eancia contra um mundo sombrio. POR: Katia Marko \u201cMinha vida mudou a partir da leitura, n\u00e3o mudou a partir da escrita. 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