{"id":436,"date":"2016-08-20T04:48:46","date_gmt":"2016-08-20T04:48:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/?p=436"},"modified":"2016-08-20T04:48:46","modified_gmt":"2016-08-20T04:48:46","slug":"a-critica-de-midia-nos-estudos-de-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/a-critica-de-midia-nos-estudos-de-comunicacao\/","title":{"rendered":"A cr\u00edtica de m\u00eddia nos estudos de comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Por Rosana Soares e Gislene da Silva.\u00a0<\/strong>O campo da cr\u00edtica de m\u00eddia ocupa lugar central nos estudos de comunica\u00e7\u00e3o. Vem sendo assim, historicamente e, nos tempos atuais, com muito mais vigor. No entanto, muitas s\u00e3o as perguntas sobre cr\u00edtica de m\u00eddia a reclamar por estudos e respostas. O que pode ser chamado de cr\u00edtica de m\u00eddia? Onde ela se encontra? Quem a realiza? Quais seus objetos espec\u00edficos? Como e por que criticar a m\u00eddia? As respostas, obviamente, n\u00e3o s\u00e3o simples. Em r\u00e1pida mirada, poder\u00edamos distinguir pelo menos tr\u00eas caminhos por onde come\u00e7ar: o da an\u00e1lise cr\u00edtica daquilo que \u00e9 difundido nas diferentes m\u00eddias, em diversos formatos e g\u00eaneros, numa abordagem de car\u00e1ter mais acad\u00eamico; o da cr\u00edtica publicada na pr\u00f3pria m\u00eddia, produzida por aqueles que s\u00e3o social e culturalmente reconhecidos como cr\u00edticos; e o da cr\u00edtica que circula de forma dispersa pela sociedade, como no caso dos receptores que se expressam em blogs e nas redes sociais sobre pr\u00e1ticas e produtos midi\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Poder\u00edamos tamb\u00e9m interpelar as m\u00eddias por outros trajetos, desde o seu interior \u2013 como nos casos em que se empreende uma metacr\u00edtica dos discursos midi\u00e1ticos \u2013 ou desafi\u00e1-las a partir de seu exterior \u2013 como nos momentos em que a media\u00e7\u00e3o entre os sujeitos \u00e9 feita por meio delas. Se compartilharmos da possibilidade de uma cr\u00edtica \u00e0s m\u00eddias inserida tanto nos meios de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos como na chamada m\u00eddia independente, uma pot\u00eancia metacr\u00edtica poderia ser encontrada n\u00e3o exclusivamente em conte\u00fados alternativos, mas nos aspectos formais das obras. Ao assumirmos que os discursos institu\u00eddos podem ser problematizados para al\u00e9m de representa\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas tradicionais, uma passagem se vislumbra, trazendo novos questionamentos, entre eles, \u201cqual a especificidade do discurso da cr\u00edtica sobre outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, que, por ser tamb\u00e9m midiatizada por sua publica\u00e7\u00e3o, poderia ser chamada de \u2018metacr\u00edtica\u2019? Como essa cr\u00edtica sugere e apoia-se na recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico nessa inst\u00e2ncia intermidi\u00e1tica? E, para al\u00e9m dos discursos orais ou textuais, como as imagens por si s\u00f3 podem propor (ou decompor) discursos cr\u00edticos?\u201d (Paganotti; Soares, 2015, p. 53).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cr\u00edtica das formas de media\u00e7\u00e3o, por sua vez, coloca-se como um ponto essencial para os estudos de comunica\u00e7\u00e3o. Temos assim, entre outras, as seguintes dimens\u00f5es: \u201c1) da autoridade, direito e liberdade para criticar. 2) dos par\u00e2metros de como se operar a valora\u00e7\u00e3o da qualidade do objeto que est\u00e1 sob aprecia\u00e7\u00e3o. 3) da finalidade \u00faltima de qualquer cr\u00edtica, que deseja, extrapolando o esfor\u00e7o de compreens\u00e3o, promover alguma a\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o do mundo ao redor\u201d (Silva; Soares, 2013, p. 821). Nesse sentido, cabe ressaltar, para al\u00e9m de correntes cr\u00edticas norte-americanas ou europeias, tamb\u00e9m aquelas desenvolvidas por pensadores latino-americanos atentos \u00e0s especificidades locais e regionais do continente, em que as fronteiras entre as chamadas cultura erudita, cultura popular e cultura midi\u00e1tica revelam seus contornos pouco r\u00edgidos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cr\u00edtica das formas de media\u00e7\u00e3o \u00e9 um ponto essencial para os estudos de comunica\u00e7\u00e3o. Entre outras dimens\u00f5es, devemos refletir sobre: 1) a autoridade, o direito e a liberdade para criticar. 2) os par\u00e2metros de qualidade que norteiam a aprecia\u00e7\u00e3o dos objetos. 3) a finalidade \u00faltima de qualquer cr\u00edtica, que deseja, para al\u00e9m da compreens\u00e3o, promover alguma a\u00e7\u00e3o transformativa no mundo ao redor.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 nesse vasto cen\u00e1rio que, desde 2013, o Grupo de Pesquisa Cr\u00edtica de M\u00eddia e Pr\u00e1ticas Culturais tem como principal motiva\u00e7\u00e3o a necessidade de fortalecer a reflex\u00e3o acad\u00eamica sobre teorias e procedimentos de cr\u00edtica de m\u00eddia no Brasil, buscando di\u00e1logo com experi\u00eancias de pesquisadores de institui\u00e7\u00f5es brasileiras e de outros pa\u00edses. Inspirado na hist\u00f3ria de como tradicionalmente se consolidaram a cr\u00edtica de cinema e a de literatura, o grupo tem como objetivo investigar, problematizar e sistematizar poss\u00edveis modos de aprecia\u00e7\u00e3o de diferentes objetos midi\u00e1ticos. O prop\u00f3sito que orienta os pesquisadores do grupo \u00e9 o de tratar a cr\u00edtica de m\u00eddia como campo particular de pesquisa e ensino, tomando como refer\u00eancia os estudos da linguagem e do discurso; as teorias da comunica\u00e7\u00e3o e do jornalismo; as pr\u00e1ticas midi\u00e1ticas; as narrativas audiovisuais, impressas e digitais; as express\u00f5es est\u00e9ticas; os imagin\u00e1rios e as representa\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De larga abrang\u00eancia emp\u00edrica, as pesquisas observam discursos televisivos (telejornalismo, teledramaturgia), discursos cinematogr\u00e1ficos (cinema ficcional, cinema document\u00e1rio), discursos verbais (revistas, jornais), discursos sincr\u00e9ticos (narrativas digitais, narrativas sonoras, narrativas visuais) e, ainda, se dedicam \u00e0 compreens\u00e3o do jornalismo como produto e produtor de cultura e da pr\u00e1tica noticiosa como experi\u00eancia cultural. De car\u00e1ter interinstitucional, a din\u00e2mica de atividades do grupo prev\u00ea a realiza\u00e7\u00e3o de encontros presenciais, participa\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o de eventos cient\u00edficos, produ\u00e7\u00e3o de livros e artigos para peri\u00f3dicos, al\u00e9m de leituras e sistematiza\u00e7\u00e3o permanente de autores e conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A fim de desenvolver suas investiga\u00e7\u00f5es, o grupo est\u00e1 organizado em duas linhas de trabalho: 1) Discursos midi\u00e1ticos e cultura audiovisual. 2) Jornalismo, cultura e cr\u00edtica. A primeira linha tem como objetivo realizar estudos relativos \u00e0 cultura audiovisual e suas manifesta\u00e7\u00f5es nas m\u00eddias contempor\u00e2neas. Com base nas teorias constituintes dos estudos de linguagem, o tema abrange as narrativas audiovisuais em suas diversas formas (televisivas, cinematogr\u00e1ficas, digitais), a fim de analisar de que modo esses discursos constroem imagin\u00e1rios culturais. As tens\u00f5es entre referencialidade e ficcionalidade s\u00e3o tomadas como eixos articuladores das an\u00e1lises, al\u00e9m dos processos de constru\u00e7\u00e3o de visibilidades e invisibilidades sociais por meio dos discursos midi\u00e1ticos. Al\u00e9m desses, os processos de converg\u00eancias das m\u00eddias e hibridismos de g\u00eaneros, tomados em seu aspecto intertextual, articulam as reflex\u00f5es propostas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A segunda linha organiza-se por um corte transversal na pesquisa do fen\u00f4meno jornal\u00edstico em suas figura\u00e7\u00f5es como experi\u00eancia cultural. Sua base epistemol\u00f3gica \u00e9 a compreens\u00e3o do jornalismo como produto e produtor de cultura. Sua perspectiva te\u00f3rico-metodol\u00f3gica se direciona para os estudos com interesse nos textos sobre os quais a pr\u00e1tica noticiosa duplamente versa: sobre si mesma e sobre o mundo vivido na contemporaneidade. Os objetos e tem\u00e1ticas de an\u00e1lise localizam-se em material noticioso submetido a leituras transdisciplinares, fundamentadas em aportes do campo da cultura e subcampos dos estudos do imagin\u00e1rio, da est\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em sentido ampliado, no que diz respeito \u00e0 cr\u00edtica de m\u00eddia, \u00e9 importante buscar alguns pressupostos no campo da arte (especialmente literatura e cinema, na conforma\u00e7\u00e3o de uma cr\u00edtica especializada) e nas transposi\u00e7\u00f5es ocorridas deste espa\u00e7o para o campo da comunica\u00e7\u00e3o (no qual leitores, ouvintes e espectadores tamb\u00e9m exercem papel ativo). Para al\u00e9m dos movimentos de julgamento e de interpreta\u00e7\u00e3o, portanto, \u201co car\u00e1ter relacional aponta para a dimens\u00e3o comunicativa da cr\u00edtica, uma esp\u00e9cie de media\u00e7\u00e3o entre obra e leitor, ponto de converg\u00eancia dos valores e repert\u00f3rios por ela acionados\u201d (Soares; Serelle, 2013, p.176). Devemos destacar que o \u201crepert\u00f3rio\u201d n\u00e3o diz respeito apenas a um conjunto previamente estabelecido, mas engloba tamb\u00e9m novos conhecimentos que, ao serem ordenados, reconfiguram o que havia sido anteriormente definido: \u201cAo ser reconhecido como dotado de valor, um objeto passaria a integrar esse invent\u00e1rio; por sua vez, os elementos constantes dessa cole\u00e7\u00e3o, ao serem rearticulados, fazem surgir outros valores\u201d (Soares; Serelle, 2013, p.176).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na conjuga\u00e7\u00e3o dessas possibilidades e demandas, percebemos que se pode estudar a cr\u00edtica de m\u00eddia em diferentes inst\u00e2ncias ou modalidades:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">1) Na percep\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros, do <em>como fazer para criticar<\/em>, observando a operacionaliza\u00e7\u00e3o do of\u00edcio do cr\u00edtico e, quando no campo do jornalismo, com aten\u00e7\u00e3o para implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e est\u00e9ticas da cobertura dos acontecimentos noticiados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2) No estudo das cr\u00edticas de m\u00eddia que circulam pela pr\u00f3pria m\u00eddia, feitas por aqueles reconhecidos como cr\u00edticos, que possuem saberes que o p\u00fablico n\u00e3o domina.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3) Na cr\u00edtica de m\u00eddia como um g\u00eanero textual, praticado pelos especialistas a partir de determinadas conven\u00e7\u00f5es reconhecidas pelo p\u00fablico, possibilitando sua circula\u00e7\u00e3o junto a ele em espa\u00e7os j\u00e1 institucionalizados, como jornais, revistas, blogs, colunas, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4) Nas experi\u00eancias metacr\u00edticas em termos de conte\u00fado e forma das inova\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e estil\u00edsticas veiculadas na pr\u00f3pria m\u00eddia, que, ao propor um novo formato ou g\u00eanero, empreendem uma cr\u00edtica \u00e0quilo estabelecido como padr\u00e3o, realizando-a n\u00e3o como uma an\u00e1lise sobre a m\u00eddia, mas no pr\u00f3prio fazer midi\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">5) Nas intera\u00e7\u00f5es sociais de cr\u00edtica, nas quais receptores criticam de maneira dispersa e informal materiais veiculados nas m\u00eddias e tamb\u00e9m revelam em suas cr\u00edticas imagens sociais que t\u00eam dos diversos meios e pr\u00e1ticas, confirmando ou questionando fundamentos da produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, como acontece, por exemplo, no caso da divulga\u00e7\u00e3o de not\u00edcias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">6) No estudo das \u201cteorias da cr\u00edtica\u201d, teorizando sobre os modos de <em>como fazer para criticar<\/em> e de <em>como criticam os que criticam<\/em>, seja com foco nas pr\u00e1ticas de cr\u00edticos na m\u00eddia, seja nas pesquisas acad\u00eamicas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">7) No que diz respeito \u00e0 especificidade do jornalismo, a cr\u00edtica de m\u00eddia noticiosa tratada como recurso did\u00e1tico-pedag\u00f3gico para o ensino e forma\u00e7\u00e3o de jornalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um duplo desafio se coloca, como vimos, para as pesquisas sobre cr\u00edtica de m\u00eddia: conceber os seus pressupostos te\u00f3ricos e, ao mesmo tempo, os procedimentos metodol\u00f3gicos pelos quais realiz\u00e1-la, trabalhando com seus variados objetos emp\u00edricos, a fim de delimitar os contornos de seu campo. Na visada mais ampla do estudo de aportes te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos para uma cr\u00edtica cultural da m\u00eddia, o esfor\u00e7o est\u00e1 em \u201cdiscutir a percep\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios e par\u00e2metros pr\u00f3prios da cr\u00edtica de m\u00eddia, a intera\u00e7\u00e3o social entre cr\u00edtico e p\u00fablicos, e as teorias da cr\u00edtica, sempre considerando na grande diversidade de objetos emp\u00edricos midi\u00e1ticos o compartilhamento menos afastado entre produtores e receptores\u201d (Soares; Silva, 2016, p.1).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cr\u00edtica televisiva, tanto quanto a cr\u00edtica de jornalismo, \u00e9 particularmente sens\u00edvel a essa proximidade maior entre produtores e receptores. No caso da primeira, vemos uma profus\u00e3o de tipos de cr\u00edtica, variando entre abordagens mais acad\u00eamicas, mais especializadas ou mais participativas. Ao indagar sobre a contribui\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica televisiva na compreens\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o televisiva, Silva apresenta quatro modos para o estabelecimento de tal colabora\u00e7\u00e3o: \u201c1) investigar a qualidade enquanto quadro valorativo flex\u00edvel. 2) compreender como altera\u00e7\u00f5es contextuais implicam nas formas de consumo e produ\u00e7\u00e3o. 3) identificar tensionamentos nas formas televisivas dominantes; 4) compreender os g\u00eaneros televisivos como categoria cultural\u201d (Silva, 2016, p. 1).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os diversos g\u00eaneros e formatos televisivos, especialmente programas de fic\u00e7\u00e3o, incluindo as novelas e s\u00e9ries e, cada vez mais, os <em>reality shows,<\/em> ocupam grande parte dos debates sobre a televis\u00e3o, que proliferam nas m\u00eddias digitais, nas redes sociais e nos blogs. Nesse contexto, consolida-se tamb\u00e9m uma maior presen\u00e7a da cr\u00edtica voltada a essas obras circulando nas pr\u00f3prias m\u00eddias (notadamente na internet), como no caso de colunas e sites regulares para publica\u00e7\u00e3o de textos anal\u00edticos. Dentre esses, destacamos <a href=\"http:\/\/mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br\/\">o trabalho do cr\u00edtico Mauricio Stycer<\/a> que, atestando a relev\u00e2ncia dessa atividade lan\u00e7ou, em 2016, um livro organizado a partir de seus textos, publicados originalmente no jornal <em>Folha de S. Paulo <\/em>e em um blog no portal de not\u00edcias UOL. Cr\u00edtico de televis\u00e3o \u2013 ou \u201ctelespectador profissional\u201d \u2013 desde 2008, Stycer parte da premissa de que, nos \u00faltimos anos, a televis\u00e3o tem passado por um intenso processo de transforma\u00e7\u00e3o. Ao faz\u00ea-lo, al\u00e9m de apresentar os crit\u00e9rios e valores que pautam seu trabalho, o autor atribui \u00e0 cr\u00edtica televisiva, para al\u00e9m das tarefas de interpretar as obras, formar o p\u00fablico e estabelecer crit\u00e9rios de julgamento, outra fun\u00e7\u00e3o: a capacidade compreensiva, tanto no sentido de abranger a variedade dos repert\u00f3rios televisivos, como no sentido de entender os processos pelos quais a televis\u00e3o tem passado, incluindo nos dois casos o \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o e o da recep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Se a cr\u00edtica n\u00e3o ocupa, na contemporaneidade, o mesmo lugar em que atuou na modernidade, principalmente devido \u00e0s especificidades dos produtos culturais existentes, a cr\u00edtica de m\u00eddia, hoje, como m\u00e9todo, pode ser pensada como um modo de olhar os discursos por uma perspectiva hist\u00f3rico-cultural.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Observando par\u00e2metros de outras produ\u00e7\u00f5es culturais \u2013 mesmo aquelas tamb\u00e9m propagadas pelas m\u00eddias \u2013, Stycer afirma que o n\u00famero de especialistas em televis\u00e3o (ou <em>cr\u00edticos<\/em>) \u00e9 proporcionalmente muito menor do que o espa\u00e7o que ela ocupa na sociedade brasileira, embora escrever sobre televis\u00e3o seja um of\u00edcio, de acordo com ele, que existe desde seu surgimento do meio. Partindo desse racioc\u00ednio, Stycer estabelece uma importante distin\u00e7\u00e3o, que gostar\u00edamos de sublinhar como um dos pilares para a realiza\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica televisiva, ou da cr\u00edtica sobre a cr\u00edtica televisiva. Considerando os preconceitos que, talvez por sua enorme popularidade, ainda cercam esse meio \u2013 visto como uma forma cultural <em>menor<\/em> \u2013, Stycer afirma: \u201cSome-se a esse preconceito a impress\u00e3o de que, para ser cr\u00edtico de televis\u00e3o, basta assistir a muita TV. De fato, a grande maioria das pessoas acumula enorme repert\u00f3rio a respeito, fruto do h\u00e1bito de ver televis\u00e3o desde crian\u00e7a\u201d (Stycer, 2016, p. 17). Para ele, entretanto, \u00e9 preciso demarcar os diferentes circuitos da cr\u00edtica: \u201cMas \u00e9 muito simpl\u00f3rio acreditar que o consumo quase compuls\u00f3rio, por si, transforma algu\u00e9m em especialista\u201d (Stycer, 2016, p. 17).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entre o p\u00fablico, os cr\u00edticos e a pr\u00f3pria m\u00eddia, a televis\u00e3o nos ajuda a pensar no campo mais abrangente da cr\u00edtica, quando esta encontra a academia, evocando seu lugar como aquela que deve <em>colocar em crise <\/em>os objetos analisados, n\u00e3o apenas versando <em>sobre <\/em>a m\u00eddia, mas tamb\u00e9m engendrando novos objetos a serem produtivamente criticados. Ao indagar o que determinada obra pode dizer e como se relaciona com quest\u00f5es prementes de nosso tempo, podemos apontar criticamente suas singularidades (rupturas ou perman\u00eancias) e estabelecer, assim, uma articula\u00e7\u00e3o din\u00e2mica entre tr\u00eas aspectos da cr\u00edtica: a produ\u00e7\u00e3o, a obra e a recep\u00e7\u00e3o. Se o lugar da cr\u00edtica na contemporaneidade n\u00e3o \u00e9 o mesmo que esta ocupara na modernidade, principalmente devido \u00e0s especificidades dos produtos culturais existentes, como m\u00e9todo a cr\u00edtica de m\u00eddia pode ser pensada como um modo de olhar os discursos por uma perspectiva hist\u00f3rico-cultural. No caso da cr\u00edtica jornal\u00edstica (aquela divulgada pela imprensa), como produzir \u201cuma cr\u00edtica do entretenimento que n\u00e3o seja marcada por um olhar sempre dispon\u00edvel \u2013 meramente descritivo, que se exime de julgar e selecionar \u2013 nem restrito ao impressionismo?\u201d (Serelle, 2012, p.50).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 nesse contraponto que podemos estabelecer um lugar para a cr\u00edtica de m\u00eddia acad\u00eamica e refletir sobre tal lugar, uma esp\u00e9cie de entrelugar que ao mesmo tempo pode realizar a cr\u00edtica de m\u00eddia ou analisar as cr\u00edticas que circulam no ambiente midi\u00e1tico. Considerando que a realiza\u00e7\u00e3o de um empreendimento cr\u00edtico depende de um repert\u00f3rio compartilhado e da refer\u00eancia a c\u00e2nones de uma determinada \u00e1rea, nosso desafio seria, ent\u00e3o, delinear em que solo podemos nos ancorar criticamente sobre as m\u00eddias em geral, tratando das rela\u00e7\u00f5es entre o trabalho dos especialistas e dos produtores autorizados a fazer a cr\u00edtica; da quest\u00e3o do p\u00fablico e da cr\u00edtica informal; da an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em si mesma e das pr\u00e1ticas sociais a ela associadas, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o de textos e exerc\u00edcios de an\u00e1lise cr\u00edtica.<\/p>\n<div id=\"attachment_441\" style=\"width: 647px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-441\" class=\"  wp-image-441 aligncenter\" src=\"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/hamilton_pic_1996547b.jpg\" alt=\"hamilton_pic_1996547b\" width=\"641\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/hamilton_pic_1996547b.jpg 620w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/hamilton_pic_1996547b-300x188.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 641px) 100vw, 641px\" \/><p id=\"caption-attachment-441\" class=\"wp-caption-text\">Just what it makes today-s homes so different, so appealing?, Richard Hamilton<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rosana de Lima Soares\u00a0<\/strong>\u00e9 professora livre-docente no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Meios e Processos Audiovisuais da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo, com p\u00f3s-doutorado no King\u2019s College London (Inglaterra). L\u00edder do Grupo de Pesquisa Cr\u00edtica de M\u00eddia e Pr\u00e1ticas Culturais e do Grupo de Estudos em Linguagem e M\u00eddias (MidiAto). Bolsista de Produtividade em Pesquisa (CNPq).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Gislene da Silva\u00a0<\/strong>\u00e9 professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, com p\u00f3s-doutorado na ECA-USP e na Universidad Complutense de Madrid (Espanha). L\u00edder do Grupo de Pesquisa Cr\u00edtica de M\u00eddia e Pr\u00e1ticas Culturais. Bolsista de Produtividade em Pesquisa (CNPq).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PAGANOTTI, I.;SOARES, R. L. <strong>Metacr\u00edtica midi\u00e1tica: reflexos e reflex\u00f5es das imagens em Black mirror<\/strong>. In: <em>Por uma cr\u00edtica do vis\u00edvel<\/em>. S\u00e3o Paulo (SP): ECA-USP, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SERELLE, M. V. <strong>A cr\u00edtica do entretenimento no jornalismo cultural.<\/strong> <em>Revista Comunica\u00e7\u00e3o Midi\u00e1tica<\/em>, v.7, n.2, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SILVA, F. M. <strong>Quando a cr\u00edtica encontra a TV:<\/strong> uma abordagem cultural para a an\u00e1lise da cr\u00edtica televisiva. <em>Revista Famecos, <\/em>v.23, n.2, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SILVA, G.; SOARES, R. L. <strong>Para pensar a cr\u00edtica de m\u00eddias<\/strong>. <em>Revista Famecos, <\/em>v.20, n.3, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SOARES, R. L.; SERELLE, M. V. A cr\u00edtica de TV no Brasil: valores e repert\u00f3rios. <em>Revista InTexto<\/em>, n.28, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SOARES, R. L.; SILVA, G.<strong> Lugares da cr\u00edtica na cultura midi\u00e1tica<\/strong> <em>Revista Comunica\u00e7\u00e3o, M\u00eddia e Consumo<\/em>, v.13, n.37, 2016<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">STYCER, M. <strong>Adeus controle remoto: uma cr\u00f4nica do fim da TV como a conhecemos<\/strong>. Porto Alegre: Arquip\u00e9lago, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rosana Soares e Gislene da Silva.\u00a0O campo da cr\u00edtica de m\u00eddia ocupa lugar central nos estudos de comunica\u00e7\u00e3o. Vem sendo assim, historicamente e, nos tempos atuais, com muito mais vigor. No entanto, muitas s\u00e3o as perguntas sobre cr\u00edtica de m\u00eddia a reclamar por estudos e respostas. 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