{"id":433,"date":"2016-08-20T04:41:42","date_gmt":"2016-08-20T04:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/?p=433"},"modified":"2016-08-20T04:41:42","modified_gmt":"2016-08-20T04:41:42","slug":"o-jornalismo-reflexivo-de-janet-malcom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/o-jornalismo-reflexivo-de-janet-malcom\/","title":{"rendered":"O jornalismo reflexivo de Janet Malcom"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Por Bruno Costa.\u00a0<\/strong>A escrita de Janet Malcolm trabalha no limite da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Criativa, original, cuidadosa com as palavras, dotada de voz marcada e marcante, a jornalista possui amplo repert\u00f3rio cultural e capacidade de engajar o leitor. \u00c9 quase surpreendente que Malcolm n\u00e3o tenha se tornado uma ficcionista. E por que ela n\u00e3o se tornou? Em um pequeno texto de <em>Quarenta e um in\u00edcios falsos<\/em> (Companhia das Letras, 2016), \u201cReflex\u00f5es sobre a autobiografia de uma autobiografia abandonada\u201d, ela responde que n\u00e3o \u00e9 imaginativa o suficiente, precisa das hist\u00f3rias que j\u00e1 pululam por a\u00ed. Tentando uma analogia, modo de express\u00e3o t\u00e3o caro a Malcolm, poder\u00edamos comparar seu trabalho de composi\u00e7\u00e3o com o de uma maquetista, algu\u00e9m cujo talento est\u00e1 em ordenar de modo preciso um ambiente de modo a fornecer uma reconstru\u00e7\u00e3o da realidade. A diferen\u00e7a \u00e9 que, ao inv\u00e9s de est\u00e1ticos, os personagens do seu mundo s\u00e3o vivamente animados. Como em uma maquete, o mundo que ela apresenta \u00e9 uma duplica\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 julgada por sua capacidade de mimetizar o mais precisamente o ambiente escolhido, e nisso tamb\u00e9m ela se sobressai. Outra de suas qualidades que a aproximam de uma demiurga \u00e9 sua capacidade de s\u00edntese, de congelar aquele instante fatal que recobre de novos sentidos o mundo que est\u00e1 sendo observado. Essa capacidade de fixa\u00e7\u00e3o, como sabem alguns dos personagens mais c\u00e9lebres que, por escolha ou n\u00e3o, habitaram seus mundos, \u00e9 poderosa e muitas vezes definitiva.<\/p>\n<blockquote><p>Malcolm \u00e9 uma artista que se apropriou de uma forma, o jornalismo, para expressar sua vis\u00e3o de mundo.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas devemos parar com a analogia por aqui, pois \u00e9 de uma escritora que estamos falando, uma escritora que realiza todos esses truques pela linguagem, instrumento que domina e sempre usa ao seu favor. E, em busca de incrementar seu arsenal, ela incorporou uma arma poderosa que se tornou sua marca registrada, a primeira pessoa. Se pud\u00e9ssemos definir uma rubrica incontest\u00e1vel de sua escrita, seria este \u201ceu\u201d que irrompe por suas longas reportagens \u2013 timidamente em seus primeiros trabalhos, depois completamente \u00e0 vontade em sua fase madura. Na manipula\u00e7\u00e3o deste elemento algo ex\u00f3tico ao jornalismo, ela modela um tipo de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o que lhe permite transcender o mundo de onde ela parte, criando uma prosa que n\u00e3o se restringe \u00e0 mera reportagem ao incorporar elementos ensa\u00edsticos marcados. Por vezes, em algumas passagens iluminadas, perdemos de vista o conte\u00fado e nos quedamos a observar sua delicada constru\u00e7\u00e3o formal, seu fraseio elegante, sua capacidade de simultaneamente entrar e sair do texto. Se h\u00e1 um aspecto do seu trabalho que est\u00e1 quase imune a cr\u00edticas \u00e9 o aspecto formal, a beleza e precis\u00e3o de sua prosa, a eleg\u00e2ncia com que ela tece a sua escrita quase faz esquecer do conte\u00fado \u00e1cido e potencialmente explosivo de seus trabalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-200 alignright\" src=\"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/80175_gg.jpg?w=263&amp;h=380\" alt=\"80175_gg\" width=\"263\" height=\"380\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quase faz esquecer, mas n\u00e3o faz, e aqui n\u00e3o h\u00e1 como evitar sua escolha pela n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o e pelo jornalismo em particular. Pois Malcolm \u00e9, antes e acima de tudo, uma rep\u00f3rter, algu\u00e9m cujo trabalho principal e cuja fonte de sustento \u00e9 um mundo que j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1 antes de voc\u00ea alcan\u00e7\u00e1-lo, embora ele n\u00e3o permane\u00e7a exatamente no mesmo lugar depois que Malcolm passe por l\u00e1. Mesmo em seus livros mais distantes do jornalismo, <em>Lendo Tchekhov <\/em>(Ediouro, 2005) e <em>Duas vidas: Gertrude e Alice <\/em>(Paz e Terra, 2008) o interesse principal dela \u00e9 pelo factual, pelos rastros da realidade que ela pode seguir, ainda que esses sejam escassos ou de segunda m\u00e3o, como no caso desses dois livros. Em outro, investigando um tema \u00e1rido e de dif\u00edcil compreens\u00e3o, como em <em>Psican\u00e1lise: a profiss\u00e3o imposs\u00edvel <\/em>(Zahar, 1983), ela conduz o leitor pelas excentricidades e idiossincrasias de um profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Do jornalismo, ela tamb\u00e9m tem uma predisposi\u00e7\u00e3o para o chocante e o imediato, nem que seja para fisgar o leitor para dentro do seu mundo. Uma vez l\u00e1, ela pode exercer sua serenidade e mediar as situa\u00e7\u00f5es inusitadas, c\u00f4micas e tr\u00e1gicas que nos vai apresentando, como, por exemplo, em <em>Nos arquivos de Freud <\/em>(Record, 1983). Ali vemos o vetusto guardi\u00e3o dos arquivos, Kurt Eissler, e o buf\u00e3o Jeffrey Masson se envolverem numa novelesca contenda enquanto Malcolm conforma para n\u00f3s um assento em posi\u00e7\u00e3o privilegiada. Como ela mesma ressalta em \u201cReflex\u00f5es sobre a autobiografia de uma autobiografia abandonada\u201d, o relacionamento do \u201ceu\u201d jornal\u00edstico com seus personagens, na maior parte das vezes, assemelha-se ao relacionamento de um juiz com seu r\u00e9u ao pronunciar uma senten\u00e7a condenat\u00f3ria. Entretanto, ela n\u00e3o disp\u00f5e e n\u00e3o se contenta em apenas julgar, pelo contr\u00e1rio, opina, comenta, escolhe lados, sem se esconder jamais no conforto da terceira pessoa. O \u201ceu\u201d est\u00e1 aqui e ali, humaniza e confere uma autenticidade pr\u00f3pria ao seu trabalho sem, na maior parte das vezes, eclipsar aqueles que s\u00e3o os grandes atores do drama em quest\u00e3o, os personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Existe um equil\u00edbrio delicado aqui, pois este \u201ceu\u201d, que invade o relato e trespassa as fronteiras mal guardadas do jornalismo tradicional, corre o risco de tomar conta da hist\u00f3ria, brilhar e ofuscar, exatamente por ocupar um lugar vedado aos atores \u2013 afinal, ele tem o privil\u00e9gio de entrar e sair da trama sem que esta sofra grandes consequ\u00eancias. Ademais, na condi\u00e7\u00e3o de mediador e narrador, o \u201ceu\u201d tem o dom\u00ednio do enredo apresentado, ainda que n\u00e3o possa interferir na hist\u00f3ria que se desenvolve para al\u00e9m do seu controle. E se existe alguma \u00e9tica profissional que Malcolm professa \u00e9 esta: n\u00e3o interferir na hist\u00f3ria, nos fatos que se desenvolvem. No mais, ela n\u00e3o tem a classe em grande conta, se os jornalistas n\u00e3o inventam \u00e9 porque s\u00e3o pouco imaginativos, n\u00e3o por um determinado compromisso \u00e9tico com a verdade; se escutam \u00e9 porque t\u00eam algum interesse; se demonstram compaix\u00e3o \u00e9 porque esperam obter algum segredo oculto. Manipular a vaidade humana parece ser, na vis\u00e3o de Malcolm, o maior poder de um entrevistador.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta reflexividade constante sobre seu trabalho \u00e9 admir\u00e1vel e transforma suas grandes reportagens em lugares privilegiados para pondera\u00e7\u00e3o sobre o fazer jornal\u00edstico, al\u00e9m de acusar uma capacidade autocr\u00edtica quase n\u00e3o vista nesse campo. Seu narrar, entremeado por paradas e reflex\u00f5es em primeira pessoa, s\u00f3 refor\u00e7a esta caracter\u00edstica decisiva. De fato, se existe um aspecto essencial em sua obra, vista como um todo, \u00e9 exatamente esse jogo de se colocar na posi\u00e7\u00e3o de julgador e julgado, de conseguir ser ao mesmo tempo uma observadora fria e sagaz, que congela o instante fatal, e uma autora parcial, que n\u00e3o consegue jamais se desvencilhar completamente de suas convic\u00e7\u00f5es e posicionamentos. Um leitor de Janet Malcolm sabe que ela \u00e9 uma mulher dentro de uma sociedade sexista. Seu \u201ceu\u201d tem uma hist\u00f3ria que \u00e9 contada aos fragmentos em seus diversos textos, especialmente quando esta hist\u00f3ria interfere em seus vatic\u00ednios sobre situa\u00e7\u00f5es e pessoas com as quais est\u00e1 envolvida. Vemos isso claramente em <em>A mulher calada <\/em>ou em <em>Duas vidas: Gertrude e Alice<\/em>. Assim, mesmo que ela n\u00e3o coloque em pauta suas quest\u00f5es identit\u00e1rias, como sua condi\u00e7\u00e3o de judia, elas permanecem ali e deixam-se ver e ouvir ao longo dos seus textos.<\/p>\n<blockquote><p>Ela n\u00e3o tem os jornalistas em grande conta: se eles n\u00e3o inventam \u00e9 porque s\u00e3o pouco imaginativos, n\u00e3o por determinado compromisso \u00e9tico com a verdade; se escutam \u00e9 porque t\u00eam algum interesse; se demonstram compaix\u00e3o \u00e9 porque esperam obter algum segredo oculto. Manipular a vaidade humana parece ser, na vis\u00e3o de Malcolm, o maior poder de um entrevistador.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta conquista s\u00f3 se realiza em sua plenitude na n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, pois sabemos que bem perto daquela narradora (ou para muitos amalgamada \u00e0quela narradora) est\u00e1 uma pessoa. Esta humaniza\u00e7\u00e3o completa do narrador \u00e9 vedada \u00e0 fic\u00e7\u00e3o, pois mesmo o mais cr\u00edvel dos narradores ainda ser\u00e1 um ente criado e sem vida fora do texto. No seu caso, esta proje\u00e7\u00e3o para fora torna Janet Malcolm, a pessoa, uma jornalista tem\u00edvel, muito certamente por sua capacidade implac\u00e1vel de registrar quaisquer indiscri\u00e7\u00f5es e apanhar o mais cauto interlocutor em contradi\u00e7\u00e3o. Por outro lado, sua capacidade \u00fanica de modelar o barro da realidade a torna potencialmente uma porta voz poderosa para alguns silenciados ou obliterados, como a advogada Sheila McGough, protagonista de um de seus \u00faltimos livros, ou a bi\u00f3grafa Anne Stevenson, escritora silenciosa e talentosa trazida para o centro de <em>A mulher calada <\/em>(Companhia das Letras, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entretanto, contrariamente a alguns jornalistas que se incubem da condi\u00e7\u00e3o de defensores de alguma causa ou de algum grupo marginalizado em espec\u00edfico, ela n\u00e3o parece ter nenhum compromisso especial com os esquecidos ou com aqueles com pouco ou nenhuma visibilidade midi\u00e1tica. Quem aparece mais constantemente em seus textos \u00e9, se n\u00e3o outra, a pr\u00f3pria Janet Malcolm. Nesse ponto, ela \u00e9 como uma grande ficcionista que atrai seu p\u00fablico mais pela assinatura e pelo estilo inconfund\u00edvel do que por um tema de especial relev\u00e2ncia social ou p\u00fablica. Nesse aspecto, talvez caibam mesmo algumas cr\u00edticas. Por vezes, Malcolm parece mesmo confinada num mundo um pouco elevado, acima dos pequenos dramas do cotidiano ou das grandes mazelas sociais. Fotografia, psican\u00e1lise ou mesmo as biografias, alguns de seus temas preferidos, dificilmente t\u00eam apelo imediato ou grande import\u00e2ncia social. Mas ser\u00e1 que devemos mesmo criticar um artista por escolher os caminhos de seus pinc\u00e9is? Porque o que Janet Malcolm faz \u00e9 arte, e nisso resta pouca d\u00favida. Nas m\u00e3os de outros escritores menos talentosos, suas reportagens provavelmente seriam consumidas pela pr\u00f3pria l\u00f3gica de obsolesc\u00eancia programada do jornalismo. Aos seus cuidados, os retratos que ela comp\u00f5e provavelmente sobreviver\u00e3o (e alguns j\u00e1 sobreviveram) pela maneira \u00fanica e singular pela qual ela apresenta seu conte\u00fado. De algum modo, ela \u00e9 uma artista que se apropriou de uma forma, o jornalismo, para expressar sua vis\u00e3o de mundo. Para aqueles que defendem um jornalismo engajado, ela ser\u00e1 vista como v\u00e3, elitista e autocentrada; para aqueles que apreciam a reflex\u00e3o, o refinamento e a autocr\u00edtica, Malcolm pode ser vista como uma artista \u00fanica que abalou as estruturas do campo. Dificilmente, no entanto, voc\u00ea deixar\u00e1 um livro dela inc\u00f3lume e sua vis\u00e3o sobre o jornalismo provavelmente nunca ser\u00e1 a mesma.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>***<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Qualquer jornalista que n\u00e3o seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que est\u00e1 acontecendo sabe que o que ele faz \u00e9 moralmente indefens\u00e1vel. Ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignor\u00e2ncia ou da solid\u00e3o das pessoas. Tal como a vi\u00fava confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indiv\u00edduo que consente em ser tema de um escrito n\u00e3o ficcional aprende \u2013 quando o artigo ou o livro aparece \u2013 a sua pr\u00f3pria dura li\u00e7\u00e3o. Os jornalistas justificam a pr\u00f3pria trai\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de express\u00e3o e do \u201cdireito do p\u00fablico a saber\u201d; os menos talentosos murmuram algo sobre ganhar a vida.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">(Abertura de <em>O jornalista e o assassino<\/em>, de Janet Malcolm. Trad. Tom\u00e1s Rosa Bueno. Companhia das Letras, 2011)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"608\" height=\"286\" class=\" size-full wp-image-199 aligncenter\" src=\"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/janet-malcom.png?w=700\" alt=\"Janet Malcom\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/janet-malcom.png 608w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/janet-malcom-300x141.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 608px) 100vw, 608px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bruno Costa <\/strong>\u00e9 p\u00f3s-doutor pela UFMS e p\u00f3s-doutor junto ao Programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da PUC Minas. Possui gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo pela PUC Minas e\u00a0mestrado em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Possui\u00a0doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (2011).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Costa.\u00a0A escrita de Janet Malcolm trabalha no limite da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Criativa, original, cuidadosa com as palavras, dotada de voz marcada e marcante, a jornalista possui amplo repert\u00f3rio cultural e capacidade de engajar o leitor. \u00c9 quase surpreendente que Malcolm n\u00e3o tenha se tornado uma ficcionista. 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