{"id":2322,"date":"2019-11-22T09:41:12","date_gmt":"2019-11-22T12:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/?p=2322"},"modified":"2023-04-04T16:31:35","modified_gmt":"2023-04-04T19:31:35","slug":"a-ambiguidade-a-inocencia-coringa-2019","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/a-ambiguidade-a-inocencia-coringa-2019\/","title":{"rendered":"A ambiguidade, a inoc\u00eancia (Coringa, de Todd Phillips)"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">O cr\u00edtico e realizador de cinema Pierre L\u00e9on em <span style=\"color: #000080;\"><span lang=\"zxx\"><u><a class=\"western\" href=\"http:\/\/revistacinetica.com.br\/nova\/renascenca-uma-conversa-com-pierre-leon\/\">entrevista a revista Cin\u00e9tica <\/a><\/u><\/span><\/span>fala da exist\u00eancia de um exoesqueleto dos filmes contempor\u00e2neos. A comercializa\u00e7\u00e3o das obras v\u00eam acompanhada de um aparato de <em>trailers<\/em>, <em>releases<\/em> e opini\u00f5es que afastam o espectador da presen\u00e7a de um filme do qual pouco se conhece. A partir desse diagn\u00f3stico, \u00e9 preciso pensar maneiras de reengajar o filme sob outro olhar menos contaminado. Esse gesto, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 imediato, e muito menos natural. \u00c9 necess\u00e1rio exercitar o olhar cr\u00edtico que o <em>press release<\/em> espera minar na sua coa\u00e7\u00e3o sob determinados pressupostos: o que s\u00e3o boas atua\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 &#8220;natural&#8221; ou realista. \u00c9 isso em parte que instaura o paladar de um p\u00fablico dilu\u00eddo nos excesso informacionais, nas fofocas de grava\u00e7\u00e3o das obras, nas pol\u00eamicas que torneiam o conte\u00fado do filme (ainda n\u00e3o visto). Al\u00e9m &#8211; muito al\u00e9m &#8211; de tudo isso, subsiste um filme.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Para o cr\u00edtico contempor\u00e2neo, que indisp\u00f5e da trajet\u00f3ria de um renomado como Leon &#8211; que j\u00e1 passou por revistas como a <em>Trafic<\/em>, de Serge Daney e Jean-Claude Biette &#8211; h\u00e1 de ser poss\u00edvel enxergar outros caminhos al\u00e9m de esperar um ou 2dois anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento de filmes para que se possa assisti-los. \u00c9 preciso ir com agilidade at\u00e9 as obras, informados daquilo que elas significam no presente. N\u00e3o h\u00e1 uma forma plena de escapar ao excesso que inunda redes sociais, comerciais televisivos e conversas cotidianas. Contudo, \u00e9 preciso construir uma aproxima\u00e7\u00e3o de forma que o desejo de sobriedade e pureza da experi\u00eancia n\u00e3o seja um monstro de sete cabe\u00e7as que inevitavelmente nos alienaria da obra enquanto um fazer do agora. \u00c9 importante tamb\u00e9m pensar sobre essas m\u00eddias enquanto extens\u00f5es virtuais do produto principal, que est\u00e3o conectadas com as pretens\u00f5es dos realizadores sem qualquer ingenuidade. N\u00e3o se assiste ao filme e pronto. \u00c9 consumada a pletora informacional da experi\u00eancia multi midi\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Coringa (2019) inevitavelmente nos convida a esse pensamento sobre seu extra filme. Por vezes, assisti-lo em uma sala de cinema foi eletrizante, mas tamb\u00e9m alarmante. Entre relatos de ova\u00e7\u00f5es e repudio a obra, algo ali colide forte com algumas sensibilidades contempor\u00e2neas, com alguns fatos. A chamada para uma mat\u00e9ria no site Gizmodo diz <span style=\"color: #000080;\"><span lang=\"zxx\"><u><a class=\"western\" href=\"https:\/\/io9.gizmodo.com\/u-s-military-issues-warning-to-troops-about-incel-viol-1838412331\">&#8220;O Servi\u00e7o Militar Americano avisa tropas sobre viol\u00eancia em exibi\u00e7\u00f5es do Coringa&#8221;<\/a><\/u><\/span><\/span>. Remete aos acontecimentos tr\u00e1gicos em Aurora, Colorado, 2012: um jovem entra na sala de cinema e executa espectadores do filme O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Fontes afirmam que o atirador dizia ser o pr\u00f3prio Coringa, vil\u00e3o do filme passado da trilogia de Christopher Nolan.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Uma figurinha das camisas de f\u00e3s de filmes adaptados de quadrinhos, o Coringa de Heath Ledger, \u00e9 emblem\u00e1tico. Why so serious &#8211; por que t\u00e3o s\u00e9rio? -, bord\u00e3o do personagem em que o poder potencialmente niilista do palha\u00e7o que dinamita as estruturas sociais de uma cidade \u00e9 transformada em ato. O Coringa do filme de Christopher Nolan come\u00e7a como um assaltante ao banco da cidade de Gotham &#8211; em pleno ano da quebra da bolsa de valores estadunidenses. Ele conduz os acontecimentos da cena como um maestro aristocrata, completamente em dom\u00ednio de si, um vil\u00e3o minucioso e misterioso, mas nunca fragilizado. Nolan nunca tensiona os limites da indaga\u00e7\u00e3o do vil\u00e3o que olha para o her\u00f3i em um momento cr\u00edtico e diz: voc\u00ea me completa, n\u00f3s somos iguais. N\u00e3o tensiona, porque no universo do diretor a sociedade de fato precisa de uma for\u00e7a maior que possa zelar por seu bem estar, mesmo que a certo pre\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">As informa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m fazem pensar na mem\u00e9tica do personagem na Internet. Memes c\u00ednicos que pregam o individualismo extremado em frases de efeito acopladas com frames n\u00e3o s\u00f3 dessa vers\u00e3o mais recente do personagem no cinema, mas de todas as outras &#8211; principalmente a interpretada por Heath Ledger. Esses memes evidenciam o desejo de encontrar uma for\u00e7a interna ir\u00f4nica e distanciada. Uma for\u00e7a desacreditada na pol\u00edtica como um meio. S\u00e3o memes que se dizem apol\u00edticos, mas sintom\u00e1ticas de uma postura diante da pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Memes que enunciam a emancipa\u00e7\u00e3o do olhar alheio, mas que existem para serem compartilhados em redes sociais, por excel\u00eancia os espa\u00e7os da hipervisibilidade.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2326\" src=\"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/6569cb72b1d7c6b01d913bad5b8a6890.jpg\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"232\" \/><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">De repente, o personagem Coringa se torna uma nova imagem de pensamento da iconografia pol\u00edtica brasileira. Uma nova for\u00e7a cujo teor \u00e9 sempre da viol\u00eancia, do radicalismo individualista. Podemos pensar a partir das declara\u00e7\u00f5es do Ex-black block Cleyton Coringa para o <span style=\"color: #000080;\"><span lang=\"zxx\"><u><a class=\"western\" href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/eleicoes\/rio-de-janeiro\/ex-black-bloc-coringa-quer-vaga-de-deputado-estadual-no-rj,a406e0bbb7098410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html\">portal Terra em 2014<\/a><\/u><\/span><\/span> quando perguntado sobre a evidente contradi\u00e7\u00e3o entre suas manifesta\u00e7\u00f5es antipartid\u00e1rias em 2013 e sua candidatura a deputado federal:<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">&#8220;Manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o, tem que ser apartid\u00e1ria. Ali todos sabiam que n\u00e3o podiam levantar bandeira. J\u00e1 elei\u00e7\u00e3o \u00e9 elei\u00e7\u00e3o. \u00c9 outra hist\u00f3ria. Eu mesmo gosto de ser apartid\u00e1rio, mesmo sendo filiado a partido. N\u00e3o vejo contradi\u00e7\u00e3o. O partido at\u00e9 me zoa porque tem l\u00e1 um ex-Black Bloc.&#8221;<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">O palha\u00e7o, por excel\u00eancia, domina o rid\u00edculo de si.\u00a0 Havia uma sabedoria em Yorick, o bobo da corte de Hamlet, que atento a <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em> da nobreza dinamarquesa sempre deu a \u00faltima risada. Ao estar ao mesmo tempo\u00a0<em>com<\/em> e c<em>ontra<\/em> o personagem, a c\u00e2mera do filme de Todd Philips anda numa corda bamba. Como um bobo que maneja a s\u00e1tira da pr\u00f3pria corte para quem trabalha, o filme joga com sua plateia, prosperando nas transgress\u00f5es que promove. Das piadas politicamente incorretas ate as inevit\u00e1veis aproxima\u00e7\u00f5es com a cultura dos homens brancos heterossexuais que possuem um vago senso de marginalidade nos pa\u00edses ocidentais, o filme engendra em si uma realidade muito diferente daquela dos estudos de personagem dos anos 70 (Taxi Driver, O Rei da Com\u00e9dia) que lhe servem de inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Coringa (2019) se passa na cidade fict\u00edcia de Gotham no come\u00e7o dos anos de 1980, que se assemelha a vers\u00f5es que Scorsese idealizou da Nova Iorque dos anos de 1970. As ruas est\u00e3o contaminadas por quantidades infecciosas de lixo n\u00e3o coletado, ratos inundam as ruas e os programas sociais do estado sofrem graves cortes de verbas. Acompanhamos a decad\u00eancia da cidade atrav\u00e9s do protagonista da obra, Arthur Fleck (Joaquim Phoenix). Seu corpo estatelado no ch\u00e3o de um beco qualquer ap\u00f3s uma surra abre o filme, e dali para baixo tamb\u00e9m veremos a sua derrocada ps\u00edquica. As gargalhadas de Arthur est\u00e3o longe daquelas dos elogios hamletianos. S\u00e3o involunt\u00e1rias, e induzidas por um transtorno mental.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">O Coringa de Phoenix \u00e9, antes de sua consagra\u00e7\u00e3o, um homem magro, pequeno e doente. Funcional a base de rem\u00e9dios, ele cuida de sua m\u00e3e debilitada com um emprego degradante. Mais do que a origem de um supervil\u00e3o da DC Comics, o que assistimos \u00e9 um <em>tour de force<\/em> da loucura e abandono que nos introduz ao p\u00e1ria da constru\u00e7\u00e3o capitalista neoliberal; o sujeito do\u00a0<em>burnout<\/em> ps\u00edquico contempor\u00e2neo.\u00a0 A depend\u00eancia dos rem\u00e9dios, o desejo por visibilidade e as frustra\u00e7\u00f5es afetivas engendram um personagem que atrav\u00e9s das for\u00e7as amb\u00edguas das sequ\u00eancias se constitui como igualmente relacion\u00e1vel e repulsivo. Ou seja, como um idiota.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de ser enquadrado em \u00e2ngulos monstruosos, ou em maquiagens desbotadas e assustadoras,\u00a0 Fleck tamb\u00e9m \u00e9 retratado afetuosamente pelo filme. A ilus\u00e3o de sua participa\u00e7\u00e3o bem sucedida no <i>talk show<\/i> de Murray Franklin (Robert DeNiro), nos insere dentro das fantasias do protagonista, como se ele pr\u00f3prio estivesse filmando. Em v\u00e1rias sequ\u00eancias nos \u00e9 revelada essa disparidade entre a sua percep\u00e7\u00e3o subjetiva e aquilo que a c\u00e2mera depois nos mostra como a realidade. Por alguns momentos o p\u00e1ssaro da imagina\u00e7\u00e3o lan\u00e7a lindo voo, somente para que se esmague em uma parede n\u00e3o muito distante &#8211; o diretor ocupa esse lugar de administrar e quebrar as ilus\u00f5es. A mudan\u00e7a abrupta de uma m\u00fasica empoderadora para uma trilha estranha de suspense na sequ\u00eancia em que o Coringa desce dan\u00e7ando uma grande escadaria, \u00e9 exemplar nesse movimento oscilat\u00f3rio das cenas. Entre o fasc\u00ednio e o medo, o filme antes de tudo se mostra absorto nas contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao pr\u00f3prio personagem.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Os momentos sublimes do filme emergem da performance de Phoenix, que corporifica as idiossincrasias do mal estar ps\u00edquico. A enfermidade resulta em novas possibilidades de corpo. Uma magreza que se faz ver atrav\u00e9s da pele fr\u00e1gil e machucada, e modula\u00e7\u00f5es vocais de risadas descontroladas. Embora nada fique isento de d\u00favidas sobre o passado de Arthur Fleck, Phoenix constr\u00f3i um corpo que j\u00e1 carrega essa hist\u00f3ria. \u00c9 como se a for\u00e7a da presen\u00e7a de Phoenix coloca-se em segundo plano todo o resto. Phillips aposta no trabalho de constru\u00e7\u00e3o do personagem, e s\u00f3 assim seu filme emerge como uma obra de for\u00e7a. Os coment\u00e1rios das implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desse corpo s\u00e3o muito inferiores.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">A medida que a mitigante sa\u00fade mental do personagem de Phoenix se esvai, o crescendo nos leva at\u00e9 a ere\u00e7\u00e3o de Arthur como s\u00edmbolo dos sofrimentos de uma popula\u00e7\u00e3o desacreditada na pol\u00edtica. A execu\u00e7\u00e3o dos executivos Wall Street no metr\u00f4 de Gotham \u00e9 o gatilho n\u00e3o s\u00f3 para uma rebeli\u00e3o de multid\u00f5es, mas tamb\u00e9m para uma mudan\u00e7a de chave no comportamento de Arthur e para sua transforma\u00e7\u00e3o no Coringa. As ruas s\u00e3o tomadas por mascarados que invocam os assassinatos do misterioso palha\u00e7o. Os del\u00edrios de Arthur se intensificam a partir do momento em que sua figura se faz vista (embora an\u00f4nima) nos espa\u00e7os de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Os grupos que constituem a multid\u00e3o rebelde de Gotham n\u00e3o est\u00e3o fazendo uma revanche s\u00f3 contra desigualdades econ\u00f4micas; trata-se de uma energia perigosa, com a qual o imagin\u00e1rio pol\u00edtico mundial tem flertado recorrentemente, e engendra nas multid\u00f5es um desejo por destrui\u00e7\u00e3o. Uma rebeli\u00e3o contra um projeto pol\u00edtico em si. Quando o Coringa \u00e9 captado por uma c\u00e2mera de metr\u00f4 baleando um corporativo rastejante, as balas insistentes revelam que h\u00e1 um devir destrutivo em a\u00e7\u00e3o. Como num lapso, Arthur encarna o emissor da viol\u00eancia e n\u00e3o mais a v\u00edtima. Se o filme reconhece que existe uma viol\u00eancia sist\u00eamica que assola o seu protagonista oprimido, ele n\u00e3o deixa de evidenciar que existe um empoderamento fascinante quando o p\u00e1ria se vinga de sua condi\u00e7\u00e3o subalterna. A crueldade vira uma nova linguagem, e \u00e9 corporificada pelo protagonista nos seus gestos mais agressivos contra si e contra outros. A viol\u00eancia se torna ferramenta de rebeli\u00e3o contra tudo aquilo que um dia o oprimiu, e n\u00e3o existe o desejo de reestrutura\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma nova ordem. A candidatura de Thomas Wayne \u00e0 prefeito de Gotham n\u00e3o \u00e9 vista com bons olhos pela popula\u00e7\u00e3o marginalizada.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Contudo, parece ser necess\u00e1rio que a metamorfose de Arthur se torne p\u00fablica. Como mais promover e afirmar uma identidade na contemporaneidade sem que ela esteja acoplada a uma m\u00e1quina de visibilidade capitalista. \u00c9 preciso dar a ver esse Coringa, esse personagem que est\u00e1 disposto a assassinar um anfitri\u00e3o de programa televisivo ao vivo. A confian\u00e7a de seus movimentos em frente a c\u00e2mera subsiste como um dos momentos mais assombrosos do filme; ele nunca havia parecido t\u00e3o pulsante quanto ao entrar no est\u00fadio de televis\u00e3o. Nessa mesma sequ\u00eancia, o Coringa nega que suas a\u00e7\u00f5es sejam pol\u00edticas. Mas, lhe escapa que o espet\u00e1culo <em>\u00e9<\/em> a pol\u00edtica, e que o desejo que tanto ele quanto as multid\u00f5es de Gotham engendram em si \u00e9, acima de tudo, o de se serem vistos. A valida\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia em uma realidade que se torna mais real na medida em que \u00e9 midiatizada.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Todd Phillips certamente produz uma reflex\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s dessas quest\u00f5es que foram colocadas. A ingenuidade de seu protagonista, contudo, pode ser depreendida da obra como um todo. A ambiguidade de Arthur Fleck em sua metamorfose ps\u00edquica \u00e9 condizente com o fasc\u00ednio que o diretor possui pelo seu personagem. Entre o glamour e o rid\u00edculo, Arthur destrambelha seu emergente protagonismo pelas ruas de Gotham, permanecendo o epicentro focal da c\u00e2mera de Phillips, mais ing\u00eanua do que cr\u00edtica quando leva as a\u00e7\u00f5es de Phoenix para a esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">A evidente dimens\u00e3o reacion\u00e1ria do filme Coringa \u00e9 aqui evocada indubitavelmente, n\u00e3o deixando de nos provocar a n\u00e3o\u00a0 fazer do Coringa um caso de an\u00e1lise da inefici\u00eancia do Estado, ou da opress\u00e3o exercida pelos mais ricos sobre os mais pobres. Isso \u00e9 fazer pouco da obra, embora de fato, exista uma carta da rea\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica &#8220;contra tudo que est\u00e1 a\u00ed&#8221; que o filme eventualmente joga na sua incerta rela\u00e7\u00e3o com os espectadores. O determinismo psicol\u00f3gico de Fleck obscurece outros poss\u00edveis objetos de interesse. A c\u00e2mera colada nos gestos e intera\u00e7\u00f5es de Phoenix borra o ambiente que o cerca; o foco das lentes \u00e9 majoritariamente superficial e determinado em explorar a mir\u00edade de \u00e2ngulos, disposi\u00e7\u00f5es corporais e express\u00f5es faciais que exteriorizam o personagem.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">O filme funciona melhor quando faz esta ades\u00e3o \u00e0 pele de Fleck, esse filho bastardo do capitalismo meritocr\u00e1tico. Sua investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o obt\u00e9m tanto sucesso ao tentar juntar as linhas dram\u00e1ticas do filme em torno da rebeli\u00e3o popular. \u00c9 como se a pr\u00f3pria multid\u00e3o estivesse vazia, isenta de singularidades como a do Coringa, e n\u00e3o acompanhasse a nuance de sua constru\u00e7\u00e3o. Vira uma multid\u00e3o como muitas outras, uma massa de manobra que elege mais uma vez uma autoridade que lhes parece legitima. \u00c9 mais como se o filme precisasse criar a massa para justificar a rela\u00e7\u00e3o do Coringa com o assassinato da fam\u00edlia Wayne do que qualquer outra coisa.\u00a0 Uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o de um efeito c\u00eanico em prol da exalta\u00e7\u00e3o de um personagem que o pr\u00f3prio filme n\u00e3o parece saber se \u00e9 um idiota ou santo. O poder visual das massas vira nada mais do que uma polui\u00e7\u00e3o argumentativa, nos lembrando das m\u00e3os manique\u00edstas que operam a dire\u00e7\u00e3o da obra.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: justify;\">Quando emergimos novamente para as m\u00eddias acess\u00f3rias que repercutem o filme, depositamos mais uma vez nosso olhar diante dos memes do Coringa. O niilismo desses peda\u00e7os de m\u00eddia seria mais assustador se n\u00e3o estivesse aberto ao rid\u00edculo da ingenuidade. Prov\u00eam, fora qualquer ironia, daquelas pessoas que levam o filme cabalmente a s\u00e9rio, vendo no seu protagonista um antiher\u00f3i fabuloso. Mas, o Coringa de Phillips, finda por ser menos um her\u00f3i e mais o s\u00edmbolo de uma resist\u00eancia ego\u00edsta e inocente \u00e0s maiores articula\u00e7\u00f5es do capitalismo neoliberal. A canoniza\u00e7\u00e3o de Fleck, afinal, se d\u00e1 atrav\u00e9s de um tradicional <i>talk show<\/i> da televis\u00e3o de Gotham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>F\u00e1bio de Carvalho<\/strong> \u00e9 monitor do Centro de Cr\u00edtica da M\u00eddia e graduando em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cr\u00edtico e realizador de cinema Pierre L\u00e9on em entrevista a revista Cin\u00e9tica fala da exist\u00eancia de um exoesqueleto dos filmes contempor\u00e2neos. 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