{"id":1742,"date":"2018-08-30T08:53:32","date_gmt":"2018-08-30T11:53:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/?p=1742"},"modified":"2018-09-03T10:35:31","modified_gmt":"2018-09-03T13:35:31","slug":"quando-a-fabrica-apita-reflexoes-sobre-arabia-com-affonso-uchoa-e-joao-dumans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/quando-a-fabrica-apita-reflexoes-sobre-arabia-com-affonso-uchoa-e-joao-dumans\/","title":{"rendered":"Quando a f\u00e1brica apita: reflex\u00f5es sobre Ar\u00e1bia com Affonso Uch\u00f4a e Jo\u00e3o Dumans"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><b>Por Juliana Gusman<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7cDtbbcrZHc\"><i>Ar\u00e1bia<\/i><\/a><i>, <\/i>filme dirigido e roteirizado pelos mineiros Affonso Uch\u00f4a e Jo\u00e3o Dumans, tudo come\u00e7a na literatura, cresce na m\u00fasica e se arremata em piada. Conhece a piada do \u00e1rabe? Aquela em que um avi\u00e3o transportando alguns pe\u00f5es de obra brasileiros, contratados por um rica\u00e7o oriental qualquer, cai no meio do deserto do Saara. Ap\u00f3s a queda, olham para um lado, olham para o outro, e exclamam a desgra\u00e7a em riso: \u201cimagina quando chegar o cimento dessa porra\u201d. O personagem Cristiano, interpretado por <a href=\"https:\/\/www.uai.com.br\/app\/noticia\/cinema\/2017\/10\/02\/noticias-cinema,214391\/conheca-aristides-de-sousa-ator-mineiro-premiado-no-festival-de-brasi.shtml\">Aristides de Sousa<\/a>, se diverte com a anedota tragic\u00f4mica que alegoriza sua vida. Meton\u00edmia do trabalhador oriundo de classes populares, o protagonista do filme vencedor do principal pr\u00eamio do Festival de Bras\u00edlia em 2017 tem sua hist\u00f3ria contada a partir dessa e de outras mem\u00f3rias, registradas em um caderno descoberto em sua casa logo depois de se estatelar nas ruas de Ouro Preto feito um pacote fl\u00e1cido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem encontra esse caderno \u00e9 Andr\u00e9 (Murilo Caliari), um adolescente que acompanhamos na primeira parte do filme. A pedido da tia, vai \u00e0 casa do desfalecido, j\u00e1 internado no hospital, buscar algumas mudas de roupa para o prolet\u00e1rio com olhos embotados de cimento e l\u00e1grima. \u00a0Para sua surpresa, encontra embaixo de pilhas de jornais p\u00e1ginas espiraladas que carregam o testemunho de uma <a href=\"http:\/\/bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br\/services\/e-books\/Joao%20Cabral%20de%20Melo%20Neto.pdf\">vida severina<\/a>, dessas que se morre de velhice antes dos trinta. Abandonamos Andr\u00e9 (ou nos tornamos ele?) e a hist\u00f3ria mambembe de Cristiano se inicia na palavra lida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa virada narrativa n\u00e3o \u00e9 mero capricho de estilo. \u201cSeria uma forma interessante de dar a ver o que para n\u00f3s era politicamente importante no filme, que era mostrar a grandeza da vida das pessoas como os Cristianos\u201d, comenta Uch\u00f4a. \u201cIa ficar mais forte de perceber essa grandeza se a gente marcasse ele, em primeiro lugar, como um an\u00f4nimo, como um qualquer, como algo marginal que n\u00e3o \u00e9 relevante o suficiente para ser protagonista de nada. Na segunda metade, o filme entra na hist\u00f3ria dele e a\u00ed inverte-se o processo: ele se torna o protagonista\u201d. Para o cineasta, se optassem por evidenciar, inicialmente, a forma displicente com a qual o mundo trata experi\u00eancias ignotas, mais potente seria nossa imers\u00e3o. \u201cMais forte a gente sentir isso trazido para o primeiro plano\u201d, afirma. N\u00e3o obstante, queriam que a trajet\u00f3ria de Cristiano pudesse ser encarada como um grande romance. Precisavam, portanto, criar condi\u00e7\u00f5es para o caderno fosse encontrado, fazendo com que aquela vida fosse percebida como mat\u00e9ria liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas por que essa preocupa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uch\u00f4a e Dumans queriam escapar daquilo que identificaram como as duas grandes tend\u00eancias do cinema brasileiro engajado em retratar a mis\u00e9ria do pa\u00eds. Por um lado, criticavam produ\u00e7\u00f5es comerciais que exploram o universo da periferia a partir de uma certa chantagem emocional do espectador. \u201c\u00c9 voc\u00ea comover atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de sensacionalismo da dureza da pr\u00f3pria realidade. Para n\u00f3s, nesse momento, isso parecia um pouco falso\u201d, explica Dumans. Por outro, n\u00e3o se contentavam com uma certa acomoda\u00e7\u00e3o da vertente mais art\u00edstica, do circuito de festivais, que costuma privilegiar a linguagem do document\u00e1rio, considerada, nessa mirada, a forma mais justa de mediar a pobreza. Apesar de reconhecerem a import\u00e2ncia desse gesto, os mineiros n\u00e3o se regozijavam com uma postura passiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram escritores como Graciliano Ramos, Oswaldo Fran\u00e7a Jr., e Jo\u00e3o Ant\u00f4nio que lhes apontaram uma alternativa mais satisfat\u00f3ria. \u201cEles se propuseram o desafio de criar uma interioridade, de criar uma subjetividade de personagens prolet\u00e1rios que seriam respons\u00e1veis por contar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias\u201d, esclarece Dumans. \u201cAqueles personagens se tornam her\u00f3is desses \u00e9picos. Existe uma invers\u00e3o que para a gente foi muito forte. Passamos a discutir literatura brasileira ao longo do processo de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentando arquitetar um \u201cfilme liter\u00e1rio\u201d, os diretores buscaram retomar a import\u00e2ncia de acontecimentos muitas vezes triviais, mas que a partir de personagens como Cristiano ganhariam outra dimens\u00e3o. \u201cA literatura brasileira, especialmente da primeira metade do s\u00e9culo XX, de certa forma enfrentou o desafio de entender que a nossa inventividade, a nossa diferen\u00e7a e a nossa originalidade em termos art\u00edsticos residiam tamb\u00e9m na coloquialidade, na informalidade da l\u00edngua brasileira. \u00c9 um gesto de invers\u00e3o mesmo, de encontrar a for\u00e7a das nossas narrativas no nosso modo de falar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estabelecida a inspira\u00e7\u00e3o ficcional, ainda era importante fazer emergir a verdade daquele relato. \u201cA gente foi trazendo a realidade de outras formas, a partir da experi\u00eancia dos atores, da realidade das loca\u00e7\u00f5es e do nosso princ\u00edpio de sempre mudar nossas ideias em fun\u00e7\u00e3o das nossas condi\u00e7\u00f5es reais. N\u00e3o \u00e9 tenta adaptar a realidade \u00e0s nossas ideias, mas a gente tamb\u00e9m n\u00e3o queria chegar l\u00e1 e registrar\u201d, pontua Uch\u00f4a. \u201cA gente n\u00e3o acredita no cinema que s\u00f3 registra, como se a linguagem tivesse que ficar discreta, como se o cinema tivesse que ser mais humilde diante do grande poder da humanidade. As duas coisas t\u00eam que andar juntas, tanto o cinema como a realidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O maior desafio para encontrar esse equil\u00edbrio foi, justamente, a constru\u00e7\u00e3o da voz de Cristiano, materializada no caderno lido por Andr\u00e9 e escutada por n\u00f3s, espectadores, no <i>off <\/i>em primeira pessoa, linha que arremata a costura do filme. \u00a0\u201cO <i>off<\/i> era oitenta por cento do roteiro\u201d, revela Dumans. \u201cO filme j\u00e1 foi escrito a partir da perspectiva desse personagem que conduzia a narrativa\u201d. Havia uma preocupa\u00e7\u00e3o, portanto, de como alcan\u00e7ar a forma de falar desse trabalhador, \u201ccomo fazer ela ser cr\u00edvel, sabendo que a gente ocupa outro lugar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entra em cena Aristides, que, inclusive, levou o pr\u00eamio de melhor ator no festival que laureou <i>Ar\u00e1bia. <\/i>\u00a0\u201cA gente descobriu que o <i>off<\/i> \u00e9 tamb\u00e9m uma atua\u00e7\u00e3o, ele depende de um trabalho de ator\u201d, diz Uch\u00f4a. Juninho, apelido do artista revelado no filme anterior dos diretores<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nptK2VkZcH8\">, <i>A vizinhan\u00e7a do tigre<\/i><\/a>, chegou a escrever um caderno com suas pr\u00f3prias experi\u00eancias e lembran\u00e7as durante o processo de elabora\u00e7\u00e3o do roteiro. \u201cEsse caderno foi muito importante para gente. E foi importante para ele, que retomou a escrita\u201d (Aristides, assim como outro not\u00e1vel trabalhador brasileiro, deixou a escola na quarta s\u00e9rie) \u201cEle ser convocado a escrever j\u00e1 \u00e9 um deslocamento que era legal de ver porque era o que a gente queria desse personagem: que algu\u00e9m que n\u00e3o escreve, escrevesse. Que um pe\u00e3o, algu\u00e9m que \u00e9 subordinado, o cara que est\u00e1 ali para obedecer, tenha autonomia de escrever sobre sua pr\u00f3pria vida usando e palavra e papel\u201d. Uch\u00f4a ressalta que, no entanto, as hist\u00f3rias de Aristides n\u00e3o foram emprestadas a Cristiano. \u201cOs fatos que ele narra n\u00e3o foram usados. O filme n\u00e3o foi baseado em fatos reais. \u00c9 uma mistura ficcional de diversas influencias, de diversas fontes. A vida real \u00e9 s\u00f3 um dos elementos. O caderno foi uma forma de entendimento de como seriam as pessoas que geram a hist\u00f3ria do nosso filme. E essa pessoa \u00e9 uma pessoa como Aristides, uma pessoa comum, um trabalhador\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas estrat\u00e9gias refor\u00e7am que <i>Ar\u00e1bia <\/i>\u00e9 um filme, sobretudo, sobre narra\u00e7\u00e3o. \u201cE toda narra\u00e7\u00e3o for\u00e7a a gente a imaginar coisas. \u00c9 sempre um processo incompleto, que precisa do expectador, de quem est\u00e1 ouvindo para se relacionar, para projetar aquilo em uma outra dimens\u00e3o\u201d, reflete Dumans. \u201cAcho que \u00e9 uma quest\u00e3o de fazer um filme que possa estimular a imagina\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 vendo de alguma maneira, de fazer com que essa pessoa participe daquela hist\u00f3ria\u201d. Os cineastas sugerem que, apesar das especificidades dos acontecimentos que interpelam Cristiano, suas afli\u00e7\u00f5es s\u00e3o, de certa maneira, universais. Relembram a cena em que o protagonista, cansado de trabalhar em f\u00e1bricas como se fosse m\u00e1quina, deseja estar em casa bebendo \u00e1gua. \u201c\u00c9 essa sensa\u00e7\u00e3o de pensar \u2018puta que pariu, o que eu estou fazendo?\u2019 \u00a0No caso do personagem o tr\u00e1gico \u00e9 que ele n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o de desist\u00eancia. Ele est\u00e1 preso ao trabalho dele pela necessidade. Ocorre essa impossibilidade de voltar para casa, vamos dizer assim, muito mais dram\u00e1tica\u201d, pondera Dumans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem s\u00f3 de asperezas, de palavra escrita e de palavra lida vive <i>Ar\u00e1bia<\/i>, que tamb\u00e9m transborda felicidade em palavra cantada. Noel Rosa e Raul Seixas, por exemplo, ajudam a narrar a vez em que Cristiano amou como se fosse a \u00faltima. Nosso <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4syrZTW2aiI\">caub\u00f3i fora da lei<\/a>, entre planta\u00e7\u00f5es de mexericas e beiras de estradas, vai parar numa f\u00e1brica de tecidos, como aquela de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0KR5Lz8LPMA\">tr\u00eas apitos<\/a>, e conhece Ana (Renata Cabral), respons\u00e1vel por lhe fazer acreditar que sua vida valia a pena ser narrada. O romance com a mo\u00e7a encarna, mais do que a necessidade de amor, a imprescindibilidade de reconhecimento. O filme, nos lembra Dumans, tamb\u00e9m \u00e9 sobre a import\u00e2ncia da conex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o apenas sobre uma conex\u00e3o entre personagens. No extradieg\u00e9tico, o filme almeja estabelecer liga\u00e7\u00f5es com um p\u00fablico que, geralmente, evita esse tipo de encontro. Ao conseguir ultrapassar a redoma dos festivais e apresentar o longa em salas de cinema, Uch\u00f4a e Dumans ofereceram um filme sobre realidades abjetas \u00e0queles que s\u00e3o inclu\u00eddos. \u201c\u00c9 bom pelo problema social e humano no Brasil hoje. Eles s\u00e3o obrigados a olhar para essas pessoas, a travar um contato visual com Aristides e Cristianos que n\u00e3o eles s\u00e3o convidados a ver. Mas a gente gostaria que tivesse o outro lado tamb\u00e9m. S\u00f3 que nosso circuito de cinema hoje n\u00e3o permite\u201d, lamenta Uch\u00f4a. \u201cA base do consumo de cultura no Brasil \u00e9 a exclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precariedade em editais de incentivo (especialmente nos \u00faltimos anos), altos custos de distribui\u00e7\u00e3o e de divulga\u00e7\u00e3o e a elitiza\u00e7\u00e3o do consumo de cinema conformam um cen\u00e1rio nada prof\u00edcuo para filmes independentes de baixo or\u00e7amento. <i>Ar\u00e1bia<\/i>, apesar do sucesso, n\u00e3o conseguiu atingir, com efic\u00e1cia, as pessoas cujas vidas guiaram o esfor\u00e7o criativo e pol\u00edtico da obra. \u00a0\u201cEnquanto n\u00e3o tiver sala de bairro, enquanto n\u00e3o tiver ingresso a pre\u00e7o popular, enquanto n\u00e3o tiver outras formas de convidar esse p\u00fablico que \u00e9 a maioria do Brasil, vai ser isso a\u00ed\u201d. Mas n\u00e3o desanimam: \u201cA gente vive num pa\u00eds de terceiro mundo, num pa\u00eds fodido, de gente fodida, de muita desigualdade e viol\u00eancia. Meio que n\u00e3o tem jeito. \u00c9 uma coisa inescap\u00e1vel n\u00e3o tentar reagir a isso de alguma maneira. Pelo menos deixamos registrada uma outra vers\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d. Ao que os Cristianos respondem: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gj3r31FgeJc\">\u201cPor me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe pague\u201d.<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1753\" src=\"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1-Gzc4mzlNZT37ZlcEhSsu3g.jpeg\" alt=\"\" width=\"1918\" height=\"1027\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1-Gzc4mzlNZT37ZlcEhSsu3g.jpeg 1918w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1-Gzc4mzlNZT37ZlcEhSsu3g-300x161.jpeg 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1-Gzc4mzlNZT37ZlcEhSsu3g-768x411.jpeg 768w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/1-Gzc4mzlNZT37ZlcEhSsu3g-1024x548.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1918px) 100vw, 1918px\" \/><\/p>\n<p><strong>Juliana Gusman\u00a0<\/strong>\u00e9 graduada no curso de jornalismo da PUC Minas. \u00c9 membro do grupo de pesquisa M\u00eddia e Narrativa e mestranda do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Gusman. 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