{"id":1354,"date":"2017-10-30T10:25:51","date_gmt":"2017-10-30T12:25:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/?p=1354"},"modified":"2018-04-17T11:14:52","modified_gmt":"2018-04-17T14:14:52","slug":"eu-nao-gosto-de-black-mirror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/eu-nao-gosto-de-black-mirror\/","title":{"rendered":"Eu n\u00e3o gosto de Black Mirror"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><strong>Por Gloria Gomide.<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 como negar que as s\u00e9ries s\u00e3o o melhor formato ficcional adaptado \u00e0 televis\u00e3o \u2012 difus\u00e3o regular e pacto com o espectador visto que sua narrativa cumpre a promessa pragm\u00e1tica de regresso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como nos antigos folhetins do s\u00e9culo XIX, v\u00ea-se, portanto que o seriado \u00e9 sempre composto de uma mesma f\u00f3rmula. Se no feuilleton original, as hist\u00f3rias ocupavam os rodap\u00e9s periodicamente, no seriado televisivo as aventuras se desenvolvem sempre no mesmo dia, mesmo hor\u00e1rio, com temas atraentes ao p\u00fablico.<\/p>\n<p align=\"justify\">O faits divers, que tem origem na oralidade, \u00e9 a p\u00e1gina que nunca envelhece, causa espanto mesmo depois de muito tempo. Entretanto, \u00e0 \u00e9poca das primeiras publica\u00e7\u00f5es, tanto este quanto o folhetim mant\u00e9m preso o leitor aos jornais. Estes dois g\u00eaneros t\u00e3o pr\u00f3ximos ofereciam \u00e0s classes populares mortes, desgra\u00e7as, cat\u00e1strofes, sofrimentos e not\u00edcias. \u201c\u00c9 chegada a hora em que melodrama, faits divers, folhetim se entrela\u00e7am numa \u2018democratiza\u00e7\u00e3o\u2019 do crime e dos criminosos\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Da\u00ed o in\u00edcio do seriado atual. Estas s\u00e9ries s\u00e3o pren\u00fancios de um tipo de programa\u00e7\u00e3o televisiva que evoluiu exponencialmente e virou v\u00edcio mundial.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ali\u00e1s, a s\u00e9rie atualmente n\u00e3o \u00e9 necessariamente di\u00e1ria, como uma novela, nem semanal como anteriormente. \u00c9 poss\u00edvel assistir a 1, 2, 7 epis\u00f3dios de uma s\u00f3 vez com a chegada de canais como a Netflix ou a Amazon, as quais disponibilizam toda a temporada de uma s\u00f3 vez. At\u00e9 um termo foi criado, binge watching, ou \u201cporre de TV\u201d.<br \/>\nE assim chegamos ao que nos interessa: Black Mirror.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu n\u00e3o gosto de Black Mirror. No entanto, como pesquisadora de s\u00e9ries, miniss\u00e9ries, seriados tive que assisti-la algumas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">A conheci no ano de seu lan\u00e7amento, em dezembro de 2011, com tr\u00eas epis\u00f3dios. Era uma antologia na qual o primeiro epis\u00f3dio trazia uma hist\u00f3ria de horror, seguida por outra e outra. S\u00f3 para constar, uma s\u00e9rie antol\u00f3gica \u00e9 aquela que apresenta enredo e personagens diferentes a cada temporada ou epis\u00f3dio, embora tenha o mesmo nome e \u00e0s vezes at\u00e9 conte com atores da temporada anterior. Vide, como exemplo True Detective \u2013 duas temporadas, duas narrativas e atores diferentes com uma tem\u00e1tica policial e de suspense. Ou Fargo, ou American Horror Story.<\/p>\n<p align=\"justify\">Criada e com alguns epis\u00f3dios dirigidos pelo showrunner Charlie Brocker, Black Mirror, s\u00e9rie brit\u00e2nica traz uma fic\u00e7\u00e3o realista \u2013 um paradoxo perfeito para um presente ou futuro poss\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">O presente\/futuro \u00e9 tratado como hist\u00f3rias de horror, fundida com o terror. O horror nos deixa uma sensa\u00e7\u00e3o de asco ou repulsa depois de experimentar uma ocorr\u00eancia desagrad\u00e1vel, amea\u00e7adora. \u00c9 um sentimento de inc\u00f4modo podendo chegar at\u00e9 ao \u00f3dio. O terror j\u00e1 \u00e9 uma mistura de ansiedade e medo, muitas vezes precedido pelo suspense. Isto \u00e9 o que assistimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O que quer dizer \u201cblack mirror\u201d? Ora, v\u00ea-se na tela outra tela negra, esta quebrada. Em um mise en abyme \u2012 narrativa que contem outras narrativas dentro de si \u2012, v\u00ea-se, portanto a tela de sua televis\u00e3o, de seu Ipad, da c\u00e2mera de vigil\u00e2ncia, do seu gps ou de seu smartphone. Na vinheta de Black Mirror esta tela se mostra trincada. A tela preta nada mais \u00e9 que uma met\u00e1fora da realidade quebrada via ou vista pela tecnologia. A maioria dos celulares que voc\u00eas carregam j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 intacta. Transpondo para a realidade \u00e9 a vis\u00e3o dist\u00f3pica representada pelo uso desses ditos aparelhos. Falar sobre o uso excessivo seria um pleonasmo, os blacks mirrors s\u00e3o extens\u00e3o da nossa comunica\u00e7\u00e3o cotidiana.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cEspelho, espelho meu, h\u00e1 na vida algu\u00e9m mais bonita do que eu?\u201d A pergunta narc\u00edsica da rainha madrasta da Branca de Neve \u00e9 uma refer\u00eancia e tanto para nosso tema. A personagem de conto de fadas se utiliza de um mero espelho, o qual n\u00e3o reflete sua imagem, mas a de algu\u00e9m que responder\u00e1 sua pergunta. Em Black Mirror, n\u00f3s os narcisos, procuramos a resposta via qualquer tipo de tela. E encontramos o que n\u00e3o queremos, tal qual a rainha M\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas vamos a Black Mirror. Na primeira temporada, produzida pelo Channel 4, tivemos tr\u00eas epis\u00f3dios, houve a seguir uma interrup\u00e7\u00e3o e apenas em 2013 a segunda temporada foi ao ar, al\u00e9m de um Especial de Natal em 2014. A terceira, com mais seis epis\u00f3dios, foi inaugurada em 2016 pela Netflix.<\/p>\n<p align=\"justify\">Irm\u00e3 de \u201cAl\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o\u201d (Twilight Zone), seriado dos anos 1950 e 1960 de Rod Serling, e com um remake de 1985, Black Mirror traz para o s\u00e9culo XXI a literatura dist\u00f3pica de 1984 (1949) de George Orwell, o Admir\u00e1vel Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley e Fahrenheit 451(1951) de Ray Badbury. Uma curiosidade sobre este \u00faltimo \u00e9 que al\u00e9m de ter sido publicado em cap\u00edtulos pela revista Playboy, o autor diz que sua obra n\u00e3o \u00e9 sobre a censura, mas sim sobre a chegada da televis\u00e3o e com isto o detrimento da leitura.<\/p>\n<p align=\"justify\">O primeiro epis\u00f3dio de Black, O Hino nacional, o piloto, dirigido por Otto Bathurst, roteiro de Charlie Brooker ficou conhecido mundialmente como o \u201cepis\u00f3dio do porco\u201d. A querida princesa brit\u00e2nica \u00e9 raptada e para sua liberta\u00e7\u00e3o o an\u00f4nimo sequestrador coloca nas redes midi\u00e1ticas que isto s\u00f3 aconteceria se o Primeiro Ministro tivesse rela\u00e7\u00f5es sexuais com um porco. Tal ato deveria ser televisionado e colocado nas redes sociais em tempo real. O pobre sujeito \u00e9 obrigado pelo seu staff e pelas redes a agir desta forma. O pa\u00eds para para assistir. Enquanto o Chanceler se submete \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica a princesa \u00e9 devolvida antecipadamente. Mas como toda a popula\u00e7\u00e3o estava na frente das telas assistindo a um porco ser violado por uma autoridade pol\u00edtica, ningu\u00e9m soube. Nem o Primeiro Ministro, que no auge do sofrimento e da humilha\u00e7\u00e3o foi usado por esc\u00e1rnio. Tudo foi feito desnecessariamente. O Hino Nacional ou The National Anthem (Temporada 1, ep. 1. Dire\u00e7\u00e3o: Otto Bathurst; roteiro: Charlie Brooker)<\/p>\n<p align=\"justify\">Em um coment\u00e1rio do blog Sala Criminal leremos: \u201cA velocidade com que as informa\u00e7\u00f5es correm pela\u00a0internet faz com que as cenas mais b\u00e1rbaras e cru\u00e9is sejam\u00a0compartilhadas com naturalidade e assistidas como se fossem\u00a0roteiros\u00a0ficcionais. A tecnologia avan\u00e7a em alta velocidade, enquanto o senso comum parece ter\u00a0estacionado\u00a0na era medieval. N\u00e3o \u00e9 mais preciso se reunir em pra\u00e7a p\u00fablica para assistir a um &#8220;enforcamento&#8221;, basta aguardar\u00a0para\u00a0receber a filmagem pelo\u00a0Whattsapp.\u00a0Neste cen\u00e1rio ca\u00f3tico, em que fic\u00e7\u00e3o e realidade se confundem,\u00a0n\u00e3o \u00e9 de se duvidar que uma cena de \u201csexo com porco\u201d poderia realmente fazer sucesso.\u201d http:\/\/www.salacriminal.com\/home\/black-mirror-o-porco-a-princesa-e-o-espetaculo-penal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim Black Mirror virou viral.<br \/>\nA seguir, a maioria dos seus epis\u00f3dios tratar\u00e1 de temas sempre voltados para o uso da tecnologia e sua perturbadora rela\u00e7\u00e3o com as redes sociais. N\u00e3o h\u00e1 necessidade tratarmos de epis\u00f3dio a epis\u00f3dio, mas o que se v\u00ea, o que se assiste, \u00e9 sempre sobre as possibilidades do mal que a tecnologia nos traz. N\u00e3o h\u00e1 reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mesmo no epis\u00f3dio mais suave, San Junipero \u2012 o qual as garotas apaixonadas preferem, h\u00e1 uma mistura de futuro e p\u00f3s-futuro em uma hist\u00f3ria de amor entre duas mulheres. Neste t\u00eam-se a possibilidade de escolher entre a morte ou a eternidade artificial. O que \u00e9 melhor? O limbo agrad\u00e1vel, cheio de sexo, drogas e rock\u2019n roll em um per\u00edodo determinado ou o Para\u00edso cheio de sexo, drogas e rock\u2019n roll sem sa\u00edda? (Temporada 3, ep. 4. Dire\u00e7\u00e3o: Owen Harris; roteiro: Charlie Brooker).<\/p>\n<p align=\"justify\">Portanto, em sua totalidade, o horror predomina. Mesmo nas rela\u00e7\u00f5es min\u00fasculas e corriqueiras, como na pontua\u00e7\u00e3o de um aplicativo, quando uma jovem precisa ter, no m\u00ednimo, 4,5 de avalia\u00e7\u00e3o para poder comprar uma casa. A partir desta premissa, tudo d\u00e1 errado, j\u00e1 que para ser bem pontuado \u2012 como um motorista de Uber \u2012 tem que se agradar ao outro, mesmo em situa\u00e7\u00f5es de mau trato. O final \u00e9 tragic\u00f4mico.\u00a0 Queda livre ou Nosedive (Temporada 3, ep. 1. Dire\u00e7\u00e3o: Joe Wright; roteiro: Charlie Brooker, Mike Schur e Rashida Jones).<\/p>\n<p align=\"justify\">Um garoto bacana, depois de uma s\u00e9rie de perip\u00e9cias aparentemente ing\u00eanua, \u00e9 acusado de pedofilia. Cala a boca e dance ou Shut Up and Dance (Temporada 3, ep. 3. Dire\u00e7\u00e3o: James Watkins; roteiro: Charlie Brooker e William Bridges)<br \/>\nUm marido morto \u00e9 replicado como seu Outro, mas sem conseguir expressar emo\u00e7\u00f5es que n\u00e3o estejam nos excertos ou resqu\u00edcios deixados pelo pr\u00f3prio na Internet. Cria, portanto uma intelig\u00eancia artificial quebrada. Volto logo ou Be Right Back (Temporada 2, ep. 1. Dire\u00e7\u00e3o: Owen Harris; roteiro: Charlie Brooker).<\/p>\n<p align=\"justify\">Chips de lembran\u00e7as podem ser inseridos e ver o passado, tanto seu, quanto de quem se quer. O \u201cGr\u00e3o\u201d \u00e9 implantado atr\u00e1s da orelha do usu\u00e1rio e passa a registrar ininterruptamente tudo o que acontece. Atrav\u00e9s de seus pr\u00f3prios olhos v\u00ea-se o que se registrou. Ou de quem se obriga a o mostrar. O que causa fantasmas de realidade e trai\u00e7\u00f5es matrimoniais. Toda a hist\u00f3ria de voc\u00ea ou The Entire History of You (Temporada 1, ep. 3. Dire\u00e7\u00e3o: Brian Welsh; roteiro: Jesse Armstrong).<\/p>\n<p align=\"justify\">Um jovem norte-americano, t\u00edpico na ingenuidade, necessitado de dinheiro entra em um programa de testes para jogos virtuais. Os experimentos se transformam em assassinatos e loucura. Teste de jogo ou Playtest (Temporada 3, ep. 2. Dire\u00e7\u00e3o: Dan Trachtenberg; Roteiro: Charlie Brooker).<\/p>\n<p align=\"justify\">Bom, e assim vai.<br \/>\nEm dezembro deste ano, 2017, chegar\u00e1 a quarta temporada com mais seis epis\u00f3dios.<br \/>\nEspero que gostem, eu odeio.<\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"irc_mi\" src=\"https:\/\/pmcvariety.files.wordpress.com\/2017\/08\/black-mirror-logo.jpg?w=700&amp;h=393&amp;crop=1\" alt=\"Imagem relacionada\" width=\"600\" height=\"337\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Gl\u00f3ria Gomide<\/strong> Doutora em Literaturas de L\u00edngua Portuguesa, publicit\u00e1ria e professora titular do curso de<br \/>\nComunica\u00e7\u00e3o Social na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (PUC Minas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gloria Gomide. 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