{"id":953,"date":"2017-03-23T23:57:52","date_gmt":"2017-03-23T23:57:52","guid":{"rendered":"http:\/\/ccmpucminas.com\/?page_id=953"},"modified":"2017-03-23T23:57:52","modified_gmt":"2017-03-23T23:57:52","slug":"diante-da-dor-dos-outros-a-cobertura-do-sofrimento-humano-em-ocorrencias-de-terremotos-no-mundo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/diante-da-dor-dos-outros-a-cobertura-do-sofrimento-humano-em-ocorrencias-de-terremotos-no-mundo\/","title":{"rendered":"Diante da dor dos outros: a cobertura do sofrimento humano em ocorr\u00eancias de terremotos no mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Por Eliziane Silva Oliveira.<\/strong> Na madrugada do dia 24 de agosto de 2016 \u2013 ainda noite do dia 23 no Brasil \u2013 um terremoto de 6.2 graus na Escala Richter atingiu a regi\u00e3o central da It\u00e1lia, deixando cerca de 300 mortos, dezenas de feridos e centenas de pessoas desabrigadas. Abalos s\u00edsmicos na It\u00e1lia s\u00e3o relativamente frequentes. Entre as explica\u00e7\u00f5es apresentadas por cientistas para a intensa atividade s\u00edsmica na regi\u00e3o est\u00e3o o grande atrito entre as placas tect\u00f4nicas da Eur\u00e1sia e da \u00c1frica e tamb\u00e9m a exist\u00eancia de um sistema de falhas ao longo de toda a extens\u00e3o da Cordilheira dos Apeninos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para al\u00e9m das respostas que justificam a ocorr\u00eancia de terremotos em diversas regi\u00f5es do mundo, o que nos interessa neste momento \u00e9 avaliar como a cobertura jornal\u00edstica contribui, em diversos aspectos, para a cria\u00e7\u00e3o e\/ou consolida\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios sobre na\u00e7\u00f5es, independentemente de sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Considerando o desenvolvimento das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o, facilidades e a velocidade que a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ganhou nos \u00faltimos anos e tamb\u00e9m o desenvolvimento da fotografia digital, temos acesso a um n\u00famero cada vez maior de imagens fotogr\u00e1ficas em intervalos de tempo cada vez menores. E esse grande n\u00famero de imagens, somado \u00e0s linhas editoriais, processos de edi\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo a quest\u00f5es ideol\u00f3gicas contribui, de certa maneira, para difundir ideias e informa\u00e7\u00f5es positivas ou negativas sobre esses pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muito embora terremotos e outros acidentes naturais preencham os requisitos e atendam aos crit\u00e9rios de noticiabilidade estabelecidos por Mauro Wolf (2005) ou ainda se enquadrem no conceito de acontecimento definido por Adriano Duarte Rodrigues (1999), as primeiras not\u00edcias sobre o terremoto na regi\u00e3o central da It\u00e1lia foram publicadas pelos jornais brasileiros somente no dia 25 de agosto. Para uma breve an\u00e1lise da cobertura fotogr\u00e1fica do terremoto na It\u00e1lia em capas de jornais brasileiros, foram selecionadas as edi\u00e7\u00f5es do dia 25 de agosto de 2016 da Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Estado de Minas, tomando como ponto de partida o conceito de objeto noticioso, delimitado por Isaac Ant\u00f4nio Camargo, que considera a import\u00e2ncia de todos os elementos gr\u00e1ficos, visuais e textuais que comp\u00f5em, nesse caso espec\u00edfico, as manchetes publicadas por cada um dos jornais em suas primeiras p\u00e1ginas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As tr\u00eas publica\u00e7\u00f5es trouxeram manchetes sobre o terremoto em suas capas, com algumas semelhan\u00e7as nas abordagens editoriais. Os tr\u00eas jornais utilizaram grandes fotos coloridas, que mostram, prioritariamente, a destrui\u00e7\u00e3o de edifica\u00e7\u00f5es \u2013 hist\u00f3ricas ou n\u00e3o, sem \u00eanfase nas pessoas. Na primeira p\u00e1gina do Estado de Minas, a manchete sobre o terremoto na It\u00e1lia foi publicada na parte inferior da p\u00e1gina, com uma grande foto colorida mostrando a destrui\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios. \u00c9 a \u00fanica foto que mostra uma pessoa, com as m\u00e3os na cabe\u00e7a \u2013 gesto caracter\u00edstico de desespero \u2013 entre os escombros. Logo abaixo da imagem, o t\u00edtulo \u201cDesespero na It\u00e1lia\u201d em mai\u00fasculas pretas. Na capa da Folha de S. Paulo, a manchete tamb\u00e9m foi publicada na metade inferior da p\u00e1gina. Uma grande foto colorida, mostrando os escombros dos pr\u00e9dios e algumas pessoas caminhando sobre as edifica\u00e7\u00f5es destru\u00eddas. O t\u00edtulo \u2013 \u201cTerremoto no centro da It\u00e1lia mata dezenas e isola cidades\u201d -, bem como o texto da chamada foram publicados \u00e0 esquerda da foto, sem destaque. J\u00e1 n\u2019O Estado de S. Paulo, o t\u00edtulo \u201cTerremoto mata 159 na It\u00e1lia\u201d, bem como a grande foto a\u00e9rea colorida e o texto da chamada foram publicados \u00e0 direita da p\u00e1gina, local de maior destaque e visibilidade para a not\u00edcia. Foi a fotografia que ocupou maior \u00e1rea na p\u00e1gina, ressaltando, assim como as outras duas publica\u00e7\u00f5es, a destrui\u00e7\u00e3o estrutural das cidades, sem apresentar destaque para o sofrimento humano, que poderia ser ou estar estampado nos rostos de pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra semelhan\u00e7a no comportamento editorial dos jornais ao publicar as primeiras not\u00edcias sobre o terremoto na It\u00e1lia foi n\u00e3o utilizar elementos gr\u00e1ficos como tarjas pretas ou vermelhas, vinhetas ou outros que, em conjunto, poderiam contribuir para a constru\u00e7\u00e3o, pelos leitores, de uma imagem de maior gravidade daquele acidente natural. Essa pode parecer apenas uma an\u00e1lise formal das manchetes publicadas em cada um dos jornais, mas a estrutura das manchetes e as escolhas de elementos gr\u00e1ficos e das fotografias nos apontam pistas de que a estrutura das not\u00edcias trazem, em si, conte\u00fados ideol\u00f3gicos percebidos no conte\u00fado de textos e imagens escolhidos no processo de edi\u00e7\u00e3o e que resultam na materializa\u00e7\u00e3o do que \u00e9 publicado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa breve an\u00e1lise nos leva de volta \u00e0s coberturas dos terremotos ocorridos no Haiti, em 2010, e no Jap\u00e3o, em 2011,\u00a0 que apontaram diferen\u00e7as significativas na abordagem e, consequentemente, na constru\u00e7\u00e3o de discursos visuais distintos sobre os dois epis\u00f3dios pelos jornais Estado de Minas, Folha de S. Paulo, Hoje em Dia, O Estado de S. Paulo, O Globo e O Tempo nos dias que se seguiram aos terremotos que atingiram os dois pa\u00edses. A principal semelhan\u00e7a encontrada est\u00e1 nas coberturas dos terremotos na It\u00e1lia e no Jap\u00e3o. Ambos s\u00e3o pa\u00edses que est\u00e3o no grupo mais hegem\u00f4nico na geopol\u00edtica mundial, com hist\u00f3rias que reverberam, ao longo dos anos, nos demais pa\u00edses do mundo: o Jap\u00e3o com sua cultura milenar, considerado um povo de paz e com grande capacidade de reconstru\u00e7\u00e3o, e a It\u00e1lia, ber\u00e7o da cultura renascentista, cujos modelos art\u00edsticos influenciaram, com o pensamento humanista, todo o mundo ocidental. Al\u00e9m dos aspectos hist\u00f3ricos, os dois pa\u00edses, por exemplo, est\u00e3o no topo das listas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), com altos \u00cdndices de Desenvolvimento Humano (IDH), que considera em sua elabora\u00e7\u00e3o, dados como expectativa de vida, tempo de escolaridade e renda. Na listagem divulgada no final de 2015, composta por 188 pa\u00edses, o Jap\u00e3o ocupou a 20\u00aa posi\u00e7\u00e3o, com IDH 0,891 e a It\u00e1lia esteve no 27\u00ba posto, com \u00edndice 0,873. J\u00e1 o Haiti, nessa mesma lista, ocupou a 163\u00aa posi\u00e7\u00e3o, com IDH 0,493. Essas posi\u00e7\u00f5es diametralmente opostas no que diz respeito a condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais das na\u00e7\u00f5es talvez apontem motivos ou justificativas para o comportamento editorial de jornais de diversos pa\u00edses, incluindo o Brasil, na cobertura diferenciada de trag\u00e9dias naturais semelhantes em na\u00e7\u00f5es com caracter\u00edsticas t\u00e3o diversas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Foram analisadas as manchetes sobre cada um dos epis\u00f3dios, bem como seus elementos, principalmente as fotografias utilizadas, para se verificar as diferen\u00e7as existentes entre os discursos fotogr\u00e1ficos elaborados a partir da publica\u00e7\u00e3o de imagens com forte apelo emocional pelos jornais em cada um dos epis\u00f3dios. Na compara\u00e7\u00e3o realizada, trataram-se da cobertura e constru\u00e7\u00e3o das not\u00edcias sobre epis\u00f3dios similares \u2013 terremotos de grande magnitude \u2013 em dois pa\u00edses com hist\u00f3rias e situa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas distintas e distantes: o Haiti \u00e9 um dos pa\u00edses mais pobres do mundo e o Jap\u00e3o est\u00e1 entre as maiores economias mundiais. Na \u00e1rea social, muito embora esteja intimamente ligada aos aspectos econ\u00f4micos, as diferen\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o grandes: de acordo com dados da ONU, o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Haiti, em 2010, era 0,45 (161\u00aa posi\u00e7\u00e3o) e o do Jap\u00e3o, no mesmo ano, era 0,90 (10\u00aa posi\u00e7\u00e3o).\u00a0 Em ambos os casos, as primeiras p\u00e1ginas abriram espa\u00e7o para o sofrimento humano e, consequentemente permitiram a constru\u00e7\u00e3o de discursos embasados no elemento visual fotografia que privilegiou a exposi\u00e7\u00e3o da dor e dos sentimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As primeiras p\u00e1ginas dos jornais foram analisadas em seus contextos e foram avaliados os aspectos como a composi\u00e7\u00e3o das p\u00e1ginas, bem como o uso de fotografia e outros indicativos gr\u00e1ficos para verificar as formas de constru\u00e7\u00e3o do discurso visual nas primeiras p\u00e1ginas em cada um dos jornais estudados. Foram avaliados ainda os di\u00e1logos estabelecidos entre as primeiras p\u00e1ginas, j\u00e1 que houve, em alguns casos, utiliza\u00e7\u00e3o de uma mesma fotografia em mais de um jornal, mas para construir discursos distintos, levando-se em considera\u00e7\u00e3o a linha editorial de cada um dos ve\u00edculos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir das an\u00e1lises, os resultados puderam ser elencados em duas categorias: quantitativa e qualitativa. Dito isso, percebeu-se que, numericamente, as manchetes e as fotografias foram utilizadas em grande volume por todos os jornais que comp\u00f5em o corpus desta pesquisa nos dois momentos. Entretanto, como em todo acontecimento jornal\u00edstico que tem longo per\u00edodo de cobertura, os assuntos perderam import\u00e2ncia com o passar dos dias e, consequentemente, ocuparam espa\u00e7os menores, bem como o uso de imagens fotogr\u00e1ficas foi diminu\u00eddo ao longo do per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas as semelhan\u00e7as na cobertura fotogr\u00e1fica dos dois epis\u00f3dios se esgotaram nos grandes espa\u00e7os destinados \u00e0s manchetes e no uso intenso de fotografias tamb\u00e9m de grandes dimens\u00f5es, em sua maioria, j\u00e1 que as diferen\u00e7as entre os tipos de fotografias publicadas foram percept\u00edveis nos dois momentos, ou seja, houve semelhan\u00e7as no aspecto quantitativo, mas diferen\u00e7as no que diz respeito ao conte\u00fado das imagens publicadas e na constru\u00e7\u00e3o das manchetes com utiliza\u00e7\u00e3o de recursos gr\u00e1ficos visuais que podem ter contribu\u00eddo para que a percep\u00e7\u00e3o do sofrimento fosse ampliada na cobertura do terremoto no Haiti e minimizada na cobertura do terremoto no Jap\u00e3o. Muito embora os dois epis\u00f3dios sejam semelhantes sob o ponto de vista t\u00e9cnico \u2013 sismos de grande magnitude \u2013; as diferen\u00e7as sociais e econ\u00f4micas existentes entre os dois pa\u00edses tamb\u00e9m podem ter contribu\u00eddo para que os discursos visuais constru\u00eddos pelos jornais nos dois momentos fossem de natureza diversa. E a consequ\u00eancia \u00e9 que tais discursos podem colaborar para a constru\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio acerca de cada um dos pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Durante a cobertura do terremoto no Haiti, foi registrado o uso de fotografias que podem ter contribu\u00eddo para aumentar a percep\u00e7\u00e3o do sofrimento provocado pela ocorr\u00eancia de um acidente natural em um pa\u00eds que j\u00e1 sofria com outros tipos de problemas como a pobreza extrema e os desmandos pol\u00edticos. Grande parte das fotografias publicadas pelos jornais ressaltou o sofrimento individual, j\u00e1 que foram utilizadas, especialmente nos primeiros dias, imagens fechadas em close no rosto das pessoas, o que ressalta a percep\u00e7\u00e3o do sofrimento. Al\u00e9m de situa\u00e7\u00f5es dessa natureza, as imagens fotogr\u00e1ficas apresentaram tamb\u00e9m o sofrimento provocado pela car\u00eancia de alimentos, que resultou em disputas violentas nas ruas e ressaltadas pelos jornais como luta agressiva pela sobreviv\u00eancia; e ainda o sofrimento coletivo proporcionado pela aus\u00eancia de infraestrutura do pa\u00eds, agravada pela ocorr\u00eancia do terremoto, como a escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel para consumo humano e \u00e1gua contaminada por esgoto, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 durante a cobertura do terremoto no Jap\u00e3o, o sofrimento foi apresentado aos leitores de uma forma menos ostensiva, j\u00e1 que, especialmente nos primeiros dias, as fotografias presentes nas manchetes raramente mostraram rostos e express\u00f5es de desespero como no caso haitiano. A grande maioria das imagens apresentou a destrui\u00e7\u00e3o da infraestrutura urbana, como o sistema vi\u00e1rio, aeroportos, edifica\u00e7\u00f5es ou meios de transporte. Na mesma linha da destrui\u00e7\u00e3o estrutural, foi apresentado o sofrimento provocado pelo desabastecimento, mas n\u00e3o porque n\u00e3o havia dinheiro para comprar alimentos, e sim porque os produtos n\u00e3o chegavam aos supermercados. O \u00faltimo tipo de sofrimento apresentado pelos jornais tamb\u00e9m \u00e9 decorrente da destrui\u00e7\u00e3o estrutural, j\u00e1 que uma usina at\u00f4mica foi destru\u00edda pela for\u00e7a do tsunami, o que representou o sofrimento pelo medo da contamina\u00e7\u00e3o radioativa, uma vez que h\u00e1, na hist\u00f3ria japonesa, outros epis\u00f3dios relacionados \u00e0 radia\u00e7\u00e3o e que provocaram danos a um grande n\u00famero de pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos dois momentos, foram constru\u00eddas narrativas cujos temas principais, de uma forma un\u00e2nime, mas resguardadas as caracter\u00edsticas de cada uma das publica\u00e7\u00f5es, foram os sofrimentos humanos. O que se pode afirmar a partir da\u00ed \u00e9 que nos casos dos terremotos no Haiti e no Jap\u00e3o, que s\u00e3o pa\u00edses que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o institucional estreita com o Brasil, qualquer brasileiro poderia ser parente ou amigo de alguma das v\u00edtimas ou de familiares de v\u00edtimas. Sendo assim, os jornais, ao publicar manchetes com muitas fotos e elementos gr\u00e1ficos que podem ampliar a sensa\u00e7\u00e3o da gravidade dos epis\u00f3dios, produziram um discurso que poderia ser capaz de atingir emocionalmente um grande n\u00famero de pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Apesar das diferen\u00e7as, pode se pensar que houve, de forma intencional ou n\u00e3o, na constru\u00e7\u00e3o das manchetes, uma padroniza\u00e7\u00e3o dos discursos criados sobre cada um dos terremotos, o que contribuiria para que circulassem, durante aqueles dias, ideias comuns sobre cada um dos pa\u00edses, seus habitantes, suas hist\u00f3rias e suas culturas. Esse comportamento, percebido nos seis jornais que s\u00e3o objetos de estudo deste trabalho, pode ter contribu\u00eddo para a constru\u00e7\u00e3o ou refor\u00e7o de um imagin\u00e1rio talvez j\u00e1 existente na mem\u00f3ria coletiva dos brasileiros sobre o Haiti e o Jap\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O resultado, se considerarmos as imagens fotogr\u00e1ficas publicadas e a constru\u00e7\u00e3o das manchetes e o uso de elementos gr\u00e1ficos, foi a percep\u00e7\u00e3o de maior gravidade e sofrimento do terremoto no Haiti e menor intensidade no terremoto no Jap\u00e3o, ainda que, tecnicamente, o sismo no pa\u00eds oriental tenha sido mais forte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">At\u00e9 aqui, h\u00e1 nada de novo no que se sabe sobre cada um dos pa\u00edses e n\u00e3o \u00e9 inten\u00e7\u00e3o desta an\u00e1lise pretender escamotear caracter\u00edsticas ou situa\u00e7\u00f5es presentes em cada um dos pa\u00edses. Se nos ativermos somente aos dados do IDH, \u00e9 poss\u00edvel, mesmo sem conhecer cada uma das na\u00e7\u00f5es, compreender que h\u00e1 diferen\u00e7as gritantes em seus aspectos sociais e econ\u00f4micos. O questionamento a ser feito \u00e9 acerca de uma diferen\u00e7a \u00e9tica nas coberturas feitas pelos jornais nos terremotos em pa\u00edses ricos ou pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao analisar separadamente as manchetes sobre cada um dos terremotos, apontamos, para al\u00e9m das diferen\u00e7as pl\u00e1sticas e ideol\u00f3gicas existentes entre os dois per\u00edodos, distin\u00e7\u00f5es na abordagem \u00e9tica de cada um dos epis\u00f3dios, ressaltando que, em cada um dos momentos, poderia haver, entre os leitores, o despertar de sentimentos distintos e at\u00e9 mesmo contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Retomamos aqui, brevemente, os conceitos de Spinoza (2013), para quem afetos s\u00e3o \u201cas afec\u00e7\u00f5es do corpo, pelas quais sua pot\u00eancia de agir \u00e9 aumentada ou diminu\u00edda, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afec\u00e7\u00f5es\u201d. De acordo com o fil\u00f3sofo, tanto a coisa em si \u2013 neste caso os terremotos que atingiram o Haiti e o Jap\u00e3o \u2013, quanto a lembran\u00e7a pr\u00e9via e as ideias sobre a coisa podem suscitar afetos semelhantes nas pessoas. Sendo assim, consideramos que as ideias divulgadas nos discursos elaborados pelas publica\u00e7\u00f5es contribu\u00edram para que, ao final, fosse percebida uma diferen\u00e7a \u00e9tica nas abordagens que poderia apontar para a observa\u00e7\u00e3o de afetos contr\u00e1rios \u2013 tristeza e alegria \u2013 que seriam condizentes com os discursos constru\u00eddos pelas publica\u00e7\u00f5es acerca de cada um dos terremotos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Haiti \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o pobre, com passado de escravid\u00e3o e um presente de corrup\u00e7\u00e3o e diferen\u00e7as sociais. Tal procedimento adotado pelos jornais refor\u00e7a o que, para Susan Sontag (2003), reside no exotismo do povo haitiano, de pele negra e costumes sociais e religiosos diferentes daqueles percebidos em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, inclusive no Brasil. Sontag (2003) afirma que h\u00e1, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, a praxe de exibir seres humanos ex\u00f3ticos \u2013 colonizados \u2013 e que esse costume \u00e9 notado ainda na contemporaneidade. O Jap\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds rico, uma das pot\u00eancias econ\u00f4micas contempor\u00e2neas, cujo povo \u00e9 considerado civilizado e organizado e que j\u00e1 passou por outros momentos hist\u00f3ricos que provocaram danos e dificuldades para os japoneses, como as explos\u00f5es das bombas at\u00f4micas em Hiroshima e Nagasaki, na d\u00e9cada de 1940. Ainda que haja o exotismo e as particularidades culturais do povo oriental, o tratamento n\u00e3o foi pejorativo como foi no caso haitiano, em que houve um realce do racismo, j\u00e1 que, muitas vezes, pessoas negras s\u00e3o associadas \u00e0 pobreza, viol\u00eancia e marginalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos casos dos terremotos no Haiti e no Jap\u00e3o, o que se percebe \u00e9 que houve uma exposi\u00e7\u00e3o do mal, do sofrimento e at\u00e9 mesmo das supersti\u00e7\u00f5es que envolvem o povo haitiano. Essa seria, de acordo com os fil\u00f3sofos, uma pr\u00e1tica que n\u00e3o levaria \u00e0 liberdade ou n\u00e3o seria uma pr\u00e1tica \u00e9tica, por n\u00e3o considerar particularidades e especificidades do povo haitiano e, sobretudo, por expor, de forma t\u00e3o ostensiva, caracter\u00edsticas consideradas como negativas. Esse comportamento editorial, que ressalta apenas o que \u00e9 considerado ruim em uma na\u00e7\u00e3o e seu povo, contribuem apenas para que esse continue a ser visto, pelo restante do mundo, como um lugar que merece, na melhor das hip\u00f3teses, apenas a compaix\u00e3o, j\u00e1 que estando distante de cada leitor, nada mais pode ser feito para que aquela situa\u00e7\u00e3o seja alterada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-951\" src=\"http:\/\/www1.fca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/conjunto-italia-primeiro-dia-1.jpg\" alt=\"conjunto italia primeiro dia\" width=\"2332\" height=\"1290\" srcset=\"https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/conjunto-italia-primeiro-dia-1.jpg 2332w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/conjunto-italia-primeiro-dia-1-300x166.jpg 300w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/conjunto-italia-primeiro-dia-1-768x425.jpg 768w, https:\/\/blogfca.pucminas.br\/ccm\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/conjunto-italia-primeiro-dia-1-1024x566.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 2332px) 100vw, 2332px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span id=\"cch_f33b90c7c128022\" class=\"_mh6 _wsc\"><span class=\"_3oh- _58nk\"><strong>Eliziane Silva Oliveira<\/strong> \u00e9 doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Centro Federal de Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica de Minas Gerais (CEFET-MG), com pesquisas na \u00e1rea de fotografia\/fotojornalsimo\u00a0 e membro do Grupo de Pesquisa M\u00eddia e Narrativa. <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">RODRIGUES, Adriano Duarte. <strong>O acontecimento<\/strong>. IN: TRAQUINA, Nelson (org). Jornalismo: quest\u00f5es, teorias e \u201cest\u00f3rias\u201d.2 ed. Lisboa: Veja, 1999. 27-33 p.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SONTAG, Susan. <strong>Diante da dor dos outros<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Rubens Figueiredo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SOUSA, Jorge Pedro. <strong>Fotojornalismo \u2013 introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e0s t\u00e9cnicas e \u00e0 linguagem da fotografia na imprensa<\/strong>. Florian\u00f3polis: Letras Contempor\u00e2neas, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SOUSA, Jorge Pedro. <strong>Uma hist\u00f3ria cr\u00edtica do fotojornalismo ocidental<\/strong>. Chapec\u00f3: Grifos; Florian\u00f3polis: Letras Contempor\u00e2neas, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SPINOZA, Benedictus. <strong>\u00c9tica\/Spinoza<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Tomaz Tadeu. 2 ed. Belo Horizonte: Editora Aut\u00eantica, 2013. 238 p.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">WOLF, Mauro. <strong>Teorias das Comunica\u00e7\u00f5es de Massa<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Karina Jannini. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005. 295 p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eliziane Silva Oliveira. Na madrugada do dia 24 de agosto de 2016 \u2013 ainda noite do dia 23 no Brasil \u2013 um terremoto de 6.2 graus na Escala Richter atingiu a regi\u00e3o central da It\u00e1lia, deixando cerca de 300 mortos, dezenas de feridos e centenas de pessoas desabrigadas. 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